Categorizado | Pedro Migão

O Dilema da Série A

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Na noite de ontem, a Série A, que contará com 13 escolas após o não rebaixamento da Acadêmicos do Sossego, realizou o sorteio de sua ordem de desfile para o carnaval de 2019.

E este grupo atravessa um momento, a meu ver, de profunda crise de identidade. Crise esta agravada pelas seguidas viradas de mesa no Grupo Especial, que acabaram tirando, por consequência, muito da competitividade deste grupo.

Para 2019, a não ser que haja um imprevisto grande nos dias de desfile ou uma surpresa totalmente inesperada, pode-se dizer que a Unidos de Padre Miguel desponta como favorita absoluta a, finalmente e com bons anos de atraso, voltar ao Grupo Especial – onde não desfila desde 1972.

Por outro lado, temos um grupo com Acadêmicos do Sossego, Unidos de Bangu, Unidos da Ponte (três escolas comandadas por grupos afins, a propósito) e talvez a Acadêmicos de Santa Cruz (que sequer tem carnavalesco no momento em que escrevo) que devem disputar o direito de permanecer na Série A para 2020.

Ou seja: salvo, ressalvando uma vez mais, um acidente na pista ou um desfile acima do padrão anterior, temos oito escolas que, a princípio, desfilarão apenas para cumprir tabela. Porto da Pedra e Estácio (aquela mais que essa) um pouco mais acima, Império da Tijuca, Renascer, Alegria da Zona Sul, Inocentes de Belford Roxo. Acadêmicos da Rocinha e Acadêmicos do Cubango não devem ter fôlego para buscar o acesso, nem se preocupar com um eventual rebaixamento.

E por que este fenômeno ocorre? Devido a uma série de motivos.O primeiro é a disparidade econômica e de estrutura. A Unidos de Padre Miguel, ainda mais após os últimos acessos sem descenso para o Especial, sobra em termos de estrutura e poderio financeiro, além de possuir uma comunidade bastante coesa.

Para 2019, essa diferença se torna ainda maior, devido a dois fatores: à redução das verbas oficiais prevista (subvenção), e a um sério problema que vem de anos e que se agravou nas últimas semanas, que é a situação dos barracões deste grupo.

Alegria da Zona Sul, Rocinha, Santa Cruz e Inocentes já perderam ou estão em vias de perder seu espaço. A Sossego também foi desalojada e está em um espaço menor, Ponte e Bangu também estão com problemas em seus barracões. Somente Unidos de Padre Miguel e Acadêmicos do Cubango possuem situações jurídicas estáveis para seus espaços, segundo a matéria de O Globo linkada acima.

A Acadêmicos de Santa Cruz divulgou nota ontem em seu perfil do Facebook fazendo um apelo às autoridades para que resolva esta questão de seu barracão.

A falta de dinheiro e a precariedade de barracão já limitam bastante as possibilidades de se fazer um grande desfile.

Segundo, as sucessivas viradas de mesa no Especial. Imaginem um desfile de 2019 com Tijuca (ou Tuiuti, ou Viradouro, ou Grande Rio), Império Serrano e Unidos de Padre Miguel? A competitividade seria outra, bem como o apelo – o que ajuda a encontrar patrocinadores.

Além de diminuir a competitividade, as sucessivas viradas de mesa no grupo principal acabam trazendo um efeito redutor da credibilidade do carnaval como um todo, o que também afeta este grupo. São menos empresas investindo, menos pessoas consumindo, menos imprensa cobrindo.

Terceiro, a falta de grandes objetivos. Ao contrário do Grupo Especial, que ainda tem o prêmio do Desfile das Campeãs até a sexta colocada, a Série A não tem qualquer estímulo às escolas que não seja a vaga no Grupo Especial – uma, somente.

Acrescentando-se, a diferença acima de estrutura e dinheiro citada estratifica as escolas e mesmo uma surpresa como a Cubango em 2018 acaba esbarrando nestas limitações em termos de resultado.

Caindo uma também (para 2019, talvez sejam duas), a disputa para se manter na Marquês de Sapucaí para o ano seguinte acaba se limitando à escola que vem da Série B e, no máximo, mais uma ou duas agremiações.

E existem soluções para este quadro? Em minha avaliação sim, mas não vejo nenhuma das propostas que elencarei abaixo plausíveis de serem implantadas efetivamente a curto e médio prazo. Mas vamos lá:

Dinheiro para as agremiações. Ao invés de reduzir como nos dois últimos anos, aumentar as fontes de subvenção, especialmente as oficiais. A renovação do contrato com a Rede Globo, apesar das informações conflitantes que obtive sobre a magnitude dos valores, minora um pouco o prejuízo para o ano que vem; mas as fontes oficiais cobrem, sendo otimista, 40% do necessário a um desfile competitivo.

Estrutura de barracão definitiva. Essa seria a mais urgente, mas apesar do discurso da Riotur, não vejo a menor possibilidade de uma solução definitiva nem a médio prazo. Em 2011 (!) escrevi artigo sobre os problemas de estrutura das escolas deste grupo, depois em 2015 voltei a abordar o assunto – e não havia mudado rigorosamente nada. Só acredito vendo – em nome de Jesus.

Desfile das Campeãs. Essa eu não acredito que seja implementada nem a longo prazo, mas um desfile das Campeãs na sexta feira pós carnaval poderia incentivar as agremiações tal qual no Grupo Especial. Cinco escolas, começando às 23h30, terminando 5h30.

Rotação “2+2”. Em minha avaliação, a julgar pelas declarações que ouvi por ocasião da última virada de mesa, é que teria mais chance de ser adotada a curto/médio prazos. Sobem duas ao Especial, descem duas para a Série B, vem duas de uma e de outra. Isso daria uma rotação de 30% aproximadamente ao grupo, o que diminuiria consideravelmente a “Turma da Marola”.O único efeito bom deste fenômeno é que as escolas estão optando por enredos culturais e não reclames mal disfarçados como enredos para 2019. Das escolas que divulgaram até agora seus enredos (faltam Renascer, Estácio de Sá, Império da Tijuca e Santa Cruz), nenhuma apelou para enredo patrocinado de forma ostensiva.

Sobre as faltantes, Renascer está acertando os últimos detalhes para realizar o anúncio, a Estácio estaria tendo problemas com a liberação da família para homenagear Luiz Melodia, o Império da Tijuca anunciaria em abril e desistiu e a Santa Cruz nem carnavalesco tem ainda.

Finalizando, a Série A precisa resolver este dilema em que está inserida: o desfile precisa ficar mais atrativo às próprias escolas e, consequentemente, o público. Abaixo, a ordem de desfile sorteada ontem:

Sexta-feira, 01 de março

  1. Unidos da Ponte
  2. Alegria da Zona Sul
  3. Acadêmicos da Rocinha
  4. Acadêmicos de Santa Cruz
  5. Unidos de Padre Miguel
  6. Inocentes de Belford Roxo
  7. Acadêmicos do Sossego

Sábado, 02 de março

  1. Unidos de Bangu
  2. Renascer de Jacarepaguá
  3. Estácio de Sá
  4. Unidos do Porto da Pedra
  5. Império da Tijuca
  6. Acadêmicos do Cubango

P.S. – Uma nota sobre o Grupo Especial. Não me lembro de um ano onde, em 6 de junho, metade das escolas deste grupo não tenha divulgado ainda seus enredos – domingo a São Clemente irá divulgar o seu, uma reedição segundo se comenta extraoficialmente.

Óbvio que o carnaval em março permite mais tempo de preparação, mas me parece ser uma tentativa de retardar ao máximo o anúncio buscando algo patrocinado.

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo

12 Respostas para “O Dilema da Série A”

  1. Deixa ver Migão a reedição não seria ‘E O SAMBA SAMBOU DE 1990”.

  2. ANDRE LUIS FERREIRA MOTA disse:

    desfile das campeãs do acesso tirando campeã que motivação outras terias. eu acho também que a serie b devia voltar, para sapucai cairia duas do a para b subiria duas do b para A acabaria com turma da marola , para terminar porque nao poe desfile 60 minutos sexta começando 23:00 sabado 22:30 ?

    • Pedro Migão disse:

      Escrevi ano passado que a Série B deveria imperativamente voltar à Sapucaí (nem que fosse até o Setor 11), mas diria que no arranjo atual de poderes constituídos a chance a curto/médio prazos disso ocorrer é abaixo de zero.

  3. Luis Fernando disse:

    Concordo que, na pista, a Unidos de Padre Miguel é muito favorita. Porém, não podemos esquecer dos famosos julgamentos do Grupo de Acesso, onde muitas vezes os resultados são completamente diferentes do que se vê nos desfiles, sem contar uma certa má vontade do júri com a Unidos…

    Na disputa, a Porto da Pedra, apesar da boa posição de desfile, dessa vez não conta com o fator surpresa do ano passado, teria de se superar e fazer seu melhor desfile na história. Estácio, se for de Luiz Melodia, pode equilibrar as coisas na base da emoção. E apesar dos problemas financeiros, não descarto a Cubango e sua promissora dupla de carnavalescos.

    Quanto as sugestões, concordo com todas, mas também acho que não serão postas em prática tão cedo, se é que um dia serão. E sim, perderam a chance de fazer um Grupo de Acesso histórico com Grande Rio e Império Serrano. Imagina a visibilidade que a escola de Caxias daria aos desfiles? Isso beneficiaria todos, sem dúvida.

    • Pedro Migão disse:

      Depois da publicação deste texto me chegou a info que a Cubango teria acertado com um investidor para este carnaval. Mas a situação financeira da escola, ainda assim, ao que consta não é das melhores.

      Sobre os julgamentos, prefiro não comentar.

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  1. […] Quando escrevi o meu último artigo neste blog, há quase dois meses, havia prometido analisar os enredos do Grupo Especial para 2019. Certa demora de algumas agremiações, afazeres meus me deixando sem tempo, acabaram atrasando este artigo. […]

  2. […] a isso a questão dos barracões, crítica neste grupo e que abordei recentemente, e temos mais um motivo para que despesas não essenciais sejam evitadas. O quadro chega ao ponto […]


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