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O ano é 2009. Catorze escolas de samba disputavam uma vaga no então Acesso A (que virariam duas, mas esta é outra história). Quatro carros alegóricos, 53 minutos de tempo. Terça feira Gorda, Marquês de Sapucaí.

Duas escolas endinheiradas dividindo o favoritismo. O restante se virando com os parcos recursos oficiais e muita criatividade. Muita reciclagem de esculturas e fantasias de grupos maiores. Barracões improvisados – quando há.

O ano é 2019. Treze escolas de samba disputam uma vaga no Grupo Especial. Quatro carros alegóricos, 55 minutos de tempo. Sexta e sábado, Marquês de Sapucaí.

Duas escolas endinheiradas (as mesmas) dividindo o favoritismo. O restante se virando com os parcos recursos oficiais, um ou outro patrocínio e muita criatividade. Muita reciclagem de esculturas e fantasias do grupo maior. Transmissão pela televisão. Barracões (ainda mais) improvisados – quando há.

Percebam as semelhanças. A Série A hoje não passa de um Acesso B dez anos atrás com transmissão televisiva e um pouco mais de dinheiro. E menos estrutura.

Voltando um pouco no tempo, em 2012, a hoje Série A (então chamada preliminarmente de Série Ouro) foi criada visando aproximar as escolas do então Acesso B do Acesso A, entre outros objetivos mais prementes. Entretanto, o que observamos hoje é algo um pouco diferente: o grupo virou um Acesso B com um pouquinho mais de dinheiro – mas não muito.

Em 2009, uma escola do então Acesso B tinha R$ 150 mil de subvenção oficial – o que, corrigido pelo IPCA, significa R$ 263 mil em valores atualizados. Mais algum valor de venda de ingressos (unicamente frisas, arquibancadas eram gratuitas), apoios esporádicos e se chegava a, em valores atuais, algo em torno de R$ 350 mil para cada agremiação.

Para 2019, a Série A terá R$ 250 mil de subvenção, que ainda não foram pagos a menos de dez dias do desfile – e este valor só pode ser utilizado em materiais. Além disso, até hoje o contrato das escolas da Lierj com a Prefeitura ainda não foi assinado.

Notem os leitores que, em termos reais, a subvenção da Série A em 2019 é menor cerca de 5% que o Acesso B dez anos atrás.

A diferença é que entre verba de TV e venda de ingressos, a Série A tem algo entre 300 a 400 mil para cada escola (os valores divergem). Por outro lado, hoje estas agremiações tem menos alas comerciais e, com isso, uma despesa maior líquida em confecção de fantasias – porque no antigo Acesso B as alas comerciais, em sua maioria, eram da própria escola e havia alguma receita de venda.

Vale lembrar que o dólar também teve uma expressiva alta de lá para cá, de 62% – e a maior parte dos materiais é cotada nesta moeda.

Isso, para preparar quatro carros alegóricos, vestir entre 1.500 e 2.000 componentes e todas as demais despesas pertinentes à preparação do desfile. Com raras exceções, são agremiações que têm disputas de samba e ensaios deficitários, ou seja: as possibilidades de receita sob este prisma são limitadas.

Além disso, em 2009 as escolas, embora ocupassem espaços precários, tinham barracões disponíveis o ano inteiro. Eu me lembro que em 2009 era Diretor de Planejamento do Boi da Ilha (que pertencia a este grupo) e o nosso barracão era num galpão semiabandonado na Avenida Brasil, no Caju – que dividíamos com o Império da Tijuca.

Para este ano, escolas como a Santa Cruz e a Alegria da Zona Sul somente em meados de janeiro puderam começar a preparar o carnaval, e ainda assim (inacreditavelmente) em espaços ainda mais precários e sem estrutura em relação ao que ocupávamos ou ao tristemente famoso “Carandiru”.

Especificamente a Santa Cruz até o meio de janeiro estava com seus carros de 2018 intactos em seu antigo barracão, lacrado por determinação judicial. Somente por volta do dia 15 a escola conseguiu permissão para retirar seus carros e ocupar um espaço mínimo adjacente à Inocentes de Belford Roxo.

Junte-se a falta de dinheiro, condições precárias ou quase inexistentes de barracões e repasses tardios de valores – especialmente a subvenção – e temos um festival de esculturas e fantasias recicladas.

No antigo Acesso B as fantasias eram, na medida do possível, inéditas. Mesmo as reaproveitadas de outros desfiles eram mexidas e adaptadas de forma a se encaixarem no enredo. Na atual Série A, sabe-se de casos de alas inteiras do Especial compradas e que irão para a avenida exatamente iguais ao original, ainda que em enredos diferentes.

A reciclagem de esculturas é algo que já se tornou algo tradicional nestes grupos. Um bom exemplo é a águia de 2008 da Portela, que perdeu o neon original e foi repintada para desfilar pela Lins Imperial naquela oportunidade (abaixo).

Entretanto, de anos para cá em alguns casos sequer o trabalho de adaptação de esculturas é feito. Falta dinheiro, falta material humano, falta estrutura. Em alguns casos, falta gestão também – mas isso é assunto para o pós-carnaval.

Até mesmo as duas endinheiradas são as mesmas. Se em 2009 Unidos de Padre Miguel e Acadêmicos do Cubango pareciam um outro grupo, dada a diferença financeira delas para as outras, para 2019 as duas escolas novamente encabeçam as bolsas de apostas por estarem demonstrando maior poder financeiro. Acessoriamente, o fato de dividirem os seus barracões em terrenos contíguos e regularizados também ajuda – há vantagem também em termos de estrutura.

Aqui temos uma pequena diferença: se em 2009 escolas como Boi da Ilha, União do Parque Curicica, Arranco e Alegria da Zona Sul tentavam compensar a diferença financeira com criatividade, para 2019 agremiações como Estácio de Sá, Porto da Pedra e Império da Tijuca estão menos distantes das duas favoritas citadas anteriormente. Até pela possibilidade de patrocínios trazida pela transmissão televisiva, casos de Estácio e Império da Tijuca.

Mas uma diferença é certa: ao contrário do, digamos, intrigante empate de 2009, desta vez teremos apenas uma campeã – e, consequentemente, apenas uma escola promovida ao Especial. O “Acesso B” de 2019 não será igual sob este aspecto.

Concluindo, pode-se dizer que o efeito da fusão ocorrida em 2012 acabou sendo o oposto do imaginado: a Série A se transformou em algo muito próximo ao antigo Acesso B, só reforçando o dilema que este grupo vive e que abordei anteriormente.

P.S. – As imagens deste post misturam o Acesso B de 2009 com a Série A do ano passado. Percebam os leitores que a diferença maior é na qualidade das imagens…

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo

21 Replies to “A Série A virou Acesso B”

  1. Pedro, por mais que a queda progressiva dos desfiles do Acesso A nos últimos anos, em paralelo com uma estrutura cada vez mais precária, seja originada por vários fatores, como você citou no texto, acho que a situação piorou uns 500% após a eleição de um certo bispo… O próximo Carnaval também será de muita dificuldade, e se após 2020 o cidadão continuar, ou alguém do mesmo “estilo” assumir, temo pela situação das escolas que não estejam no Grupo Especial…

    1. Minha leitura sobre este tema é um pouco diferente: acho que o despejo generalizado destas escolas de seus barracões, ocorrido nos últimos 18 meses, exerceu um efeito maior sobre o desfile da Série A que a diminuição e atraso no repasse da subvenção – que também é importante

  2. Mas, a Série A no período entre 2014 e 2016, quando estava mais enxuta e com escolas mais fortes como Império e Tuiuti, ficou num nível quase idêntico ao do Especial, bem superior ao Grupo A da LESGA e ASCERJ. Outro fator foi o esvaziamento do grupo pelas viradas de mesa da LIESA, que deixou só UPM, Cubango, Estácio, agora com PP e Inocentes, que passaram serem de vacas de presépio pra ser umas das postulantes ao titulo.

    1. Concordo que 2014/15 foram os melhores anos, mas ainda longe do Especial. E sim, o grupo foi esvaziado, como abordei em outro artigo.

      1. Prova disso é acesso de sampa, que tem 3 escolas gigantes e campeãs (Nene, Camisa e Peruche), 3 escolas tradicionais e com grandes apresentações no especial (Leandro, Barroca e Perola) e duas aspirantes que chamam bastante atençao (MUM e independente), atraindo uma atenção que não se tinha antes.

  3. Lamentável essa situação. Mas penso que isso é um reflexo do próprio carnaval carioca. A verdade é que desde 2016 todos os grupos diminuíram. No GE mesmo, até pouco tempo atrás, as escolas desfilavam com 3500/4000 componentes, 08 alegorias, 35/40 alas. E se a elite sofreu essa diminuição drástica, imagine os outros grupos? Triste…

    1. Mas, por exemplo, entre 1980/83 o limite máximo eram três alegorias. E é considerado um período áureo dos desfiles.

  4. Série A devia voltar a ser apenas 10 escolas. Talvez até 08, por aí. Com subida de 2 ao a especial e caída de 2 ao acesso, e caindo e subindo apenas 1 da / para Série B.

    Assim teríamos uma Série A de escolas realmente fortes e e capazes de chegar ao especial, além, claro de ter escola maior do Especial figurando entre o acesso vez ou outra.
    Assim a Série A teria mais visibilidade com bandeiras famosas desfilando por lá, maior profissionalização das escolas do grupo, ficando as que possuem condições de se virar num Especial aproximando-as mais do nível do grupo principal.
    A maior rotatividade de escolas dos 2 primeiros grupos misturados traria uma graça maior a disputa, digamos, e salva escolas grandes que ficam no acesso definhando disputando por uma única vaga e que nunca têm chance por levam o vice-campeonato no máximo.
    Já tivemos Império da Tijuca arrebentando no especial, uma Tuiuti e São Clemente que ficaram, uma Viradouro que voltou, além de Unidos da Tijuca e Grande Rio, que caso não fosse as viradas da mesa, poderia contribuir para uma atenção maior à Série A com escolas de peso, porque a impressão que dá, é que com a subida da Viradouro, acabou a Série A. Acabou o interesse, a cobertura, a repercussão, já que ela e a Padre Miguel elevaram a disputa a outro patamar e, que agora é como se estivesse sozinha no grupo.
    Com 8/10 escolas teríamos as melhores, uma disputa mais igual e acirrada com uma Padre Miguel da vida e com agremiações que realmente possam chegar ao especial e quem sabe até permanecer um tempo.
    Já para a Série B, voltaria a ter um grupo mais inferior ao A, fato, mas é exatamente por isso que só subiriam e cairiam 1, para não haver outra mistura e empobrecimento da Série A, mas já colocando na cabeça das agremiações do B que tornarem a subir que para chegar lá em cima e ficar, é preciso subir com outra cabeça, outra gestão, e permanecer e não ser como hoje, em que temos 3/4 disputado, 2/3 apenas existindo aqui e ali, e todo o restante ou lutando para não cair ou como a maioria: escolas zumbis, não disputam, também não caem, ficam ali eternamente fazendo volume no meio da tabela.

    1. Pelo menos nos próximos dois anos o desfile será em dois dias, devido ao contrato da televisão – que hoje é fundamental para este grupo poder respirar.

      E a principal medida que precisaria ser feita hoje seria resolver a questão dos barracões.

        1. Foi renovado este ano, segundo consta por três anos. Com números de audiência e patrocínios bastante satisfatórios para a emissora.

  5. E a mesma coisa vale no sentido inverso. Você comparar o Acesso B de hoje em dia com o de 10 anos atrás é algo surreal. A escola que hoje desfila pelo B na Intendente se compara, no máximo, com o que eram as escolas do C no fim da década passada.

    Mas, como já disseram acima, a Série A teve muito a ganhar com esse processo de estruturação e a entrada da Globo, e teve anos muito bons. Mas a falta de dinheiro e, este ano, também de estrutura mínima, destruiu esse progresso, ao menos a curto prazo. A distância que existe entre o Especial e o A (e também entre o A e o B) já virou um abismo e vai dar muito trabalho pra consertar. E, verdade seja dita, não me parece que seja estrategicamente um interesse da LIESA, que contribuiu diretamente pra criar esse abismo ao acabar com a oxigenação, reduzindo o tamanho do grupo e o rebaixamento/promoção.

    Agora vai levar um tempo pra tentar erguer o Acesso de novo, é um processo que terá quase que recomeçar do zero.

    1. Na verdade o atual Acesso B, com 1 carro e 2 tripés, não pode ser comparado sequer com o Acesso C daqueles tempos, onde eram três alegorias. A comparação, na prática, é com o antigo Acesso E.

      Mas concordo que a diferença do atual B pra Série A é maior que desta pro Especial. Escrevi artigo explicando isso em 2017.

    2. Por isso que rola as viradas de mesa. Bem capaz que vão deixar uma escola ”grande” cair para ficar nessas condições no acesso

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