Mais um ano, mais um carnaval que para o povo do samba começa ainda quando ninguém fala nos desfiles do ano seguinte, eis que chegamos a uma fase bastante tradicional do processo que desemboca nos desfiles: as disputas de samba.

Disputas que vem sofrendo modificações nos últimos anos, inclusive abordadas outras vezes neste blog, desde (ao menos) 2011. Modificações que vem sendo aceleradas pela redução das verbas oficiais às escolas de samba, ocorridas especialmente nos últimos dois anos.

Explico.

Hoje, especialmente na Série A as disputas vem sendo deficitárias tanto para quem concorre como para quem promove o concurso. Em um grupo onde o valor dos direitos autorais gira na casa de R$10 mil brutos, uma composição vencedora gasta algo em torno de R$40 mil para lograr chegar a uma final e, se for o caso, vencer.

Por outro lado, as eliminatórias nestas escolas não cobrem na maioria dos casos os gastos com abertura da quadra, pagamentos diversos de estrutura e segmentos necessários a uma noite de apresentações. Muitas vezes estas escolas competem com as agremiações de Grupo Especial e isso diminui ainda mais a frequência e a receita.

Vale lembrar que até no grupo principal há agremiações cujas disputas, ao fim e ao cabo, são deficitárias. A questão é generalizada – a grande diferença é a magnitude de valores envolvidos.

Às vezes, nem na grande final há uma arrecadação que compense os prejuízos anteriores e gere lucro ao final. Em um grupo onde as fontes de receitas não cobrem os gastos necessários, é uma perda de receita e fluxo de caixa que faz bastante falta na elaboração do desfile.

Some-se a isso a questão dos barracões, crítica neste grupo e que abordei recentemente, e temos mais um motivo para que despesas não essenciais sejam evitadas. O quadro chega ao ponto do presidente da Acadêmicos de Santa Cruz dizer recentemente em entrevista que, se não arrumar um barracão, não irá desfilar. Lembro que a escola sequer tem enredo e carnavalesco definidos oficialmente a esta altura do ano.

Como resposta a este quadro (que também ocorre no Grupo Especial, embora em menor grau), temos duas respostas.

A primeira é a instituição de disputas mais curtas, algo que vem ocorrendo tanto no Especial como na Série A. Diversas agremiações fazendo concursos com três ou quatro eliminatórias somente na Série A e seis ou sete no Especial.

Neste último as grandes exceções são a Mocidade Independente, a Imperatriz e o Salgueiro com disputas mais longas como no formato tradicional, mas na vermelha e branca o corte de sambas está sendo realizado juntamente ao ensaio show, com outras escolas convidadas a participar. A Mocidade reativou sua quadra anterior, menor e mais perto de sua comunidade, para os primeiros cortes.

No caso da Série A, colabora também para as disputas mais curtas o reduzido número de sambas inscritos nas escolas que ainda fazem este tipo de escolha. A única a chegar a 10 inscritos foi a Unidos de Bangu. Cubango e Rocinha (sendo que esta fará parte via análise do CD) tiveram oito, Império da Tijuca cinco, Porto da Pedra quatro, Alegria da Zona Sul e Unidos de Padre Miguel três. A Estácio de Sá receberá hoje, 16 de agosto, os seus concorrentes.

Notem que temos oito escolas fazendo disputa em um grupo de treze. Há o caso da Unidos da Ponte, que optou pela reedição de “Oferendas” – de 1984 – e três encomendas de samba: Acadêmicos do Sossego, Renascer de Jacarepaguá e Inocentes de Belford Roxo.

Além da Santa Cruz citada anteriormente, que não acredito que haja disputa dado o tempo limite para a confecção do CD oficial. Ou seja, tendem a ser quatro.

E a encomenda é a segunda resposta a este quadro de disputas deficitárias pelo lado das escolas e inflacionadas pelo lado dos concorrentes. Com uma série de vantagens: não há prejuízo financeiro, os compositores escolhidos tem mais tempo para elaborar e alterar o samba, e ao mesmo tempo, sem a pressão de uma disputa, podem partir para soluções mais ousadas.

Óbvio que há um efeito colateral importante aí, que é o de diminuir a renovação não somente das alas de compositores como ainda dos que regularmente participam. Contudo há de se notar que a própria exigência financeira dos concursos para escola das composições oficiais foi, paulatinamente, afastando muitos compositores dos concursos. Se faz necessária atenção a este fenômeno, especialmente se pensando a médio e longo prazos.

Outro efeito é ver diversos compositores assinando sambas em mais de uma escola, especialmente na Série A. No Grupo Especial, embora não seja proibido pelo regulamento dos desfiles, ainda não se vê muito isso por normas internas das próprias agremiações.

O que, a meu ver, é uma certa hipocrisia: sabemos que a maioria, se não todos, dos grandes compositores da atualidade pode assinar apenas em uma agremiação, mas também está concorrendo em diversas outras. O que se chama no meio de “pombo”.

Alguns com “camisa do time original” e tudo…

O fenômeno das encomendas também começa a se estender ao Grupo Especial, especialmente após o sucesso do samba do Tuiuti ano passado. Este ano, além da própria Tuiuti, a Grande Rio fará uso deste recurso e ainda haverá a reedição da São Clemente e a “adaptação” que será realizada pelo Império Serrano.

Além disso, tirando as três agremiações citadas anteriormente, todas as disputas restantes terão, no máximo, cerca de 45 dias entre a primeira eliminatória e a final. O que diminui os gastos aos compositores e às escolas – menos eliminatórias, menos despesas de um lado e de outro.

Com este quadro apresentado acima, fica a grande interrogação: qual será o futuro das disputas de samba?

Irá acabar, substituído pelas encomendas pura e simplesmente? Adotará um modelo híbrido, parte via CD e parte na quadra? Se tornarão mais curtas como vem ocorrendo?

Não sei a resposta. Mas parece evidente que há um processo transformador em processo, movido por uma série de fatores – não somente os elencados neste artigo como outros abordados anteriormente.

Uma coisa parece certa: o modelo clássico com o qual nos acostumamos parece fadado à extinção. E uma outra pergunta se impõe: qual será o futuro das Alas de Compositores?

Isso é tema para outro artigo.

P.S. – Dentro deste quadro, a promessa é de uma ótima safra de sambas na Série A. Pelo menos quatro ou cinco (dependendo das finais a serem realizadas, mas há três que nem se quiserem farão bobagem em suas escolhas) ótimos sambas, que nada ficam a dever aos de antigamente. Viva o renascimento do samba de enredo.

P.S.2 – Qual a necessidade de “teaser” de vídeo para sambas concorrentes? Taí um exemplo de custo a meu ver desnecessário neste processo.

Imagem: Arquivo Ouro de Tolo

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6 Replies to “O futuro das disputas de samba”

  1. Seu comentário sobre a dificuldade de definir uma fórmula ideal nas disputas hoje em dia é bem pertinente Pedro, pois não dá pra, hoje, alguém afirmar que há uma solução definitiva para isso, toda fórmula utilizada tem seus prós e contras. É tipo cobrir um santo para descobrir outro. Só acho que escolher o melhor samba, sem excesso de politicagem ou se deixar influenciar por torcida comprada e papagaiadas, já ajuda.

    Esses teasers inúteis são exemplos bem claros de papagaiadas. Qual será o próximo passo? Erros de gravação? Diretor da Globo? Atores famosos? Pôster?

    1. Vale lembrar – e irei abordar isso em um segundo artigo – que a maioria das escolas já proibiu exageros que havia em apresentações anos atrás e isso deu uma segurada nos gastos das parcerias.

      Eu penso que não haverá um modelo único que atenda a todas as escolas. Até porque as dinâmicas dos dois grupos da Sapucaí são bastante diferentes.

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