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A quarta-feira que não foi de cinzas

incêndio renascer

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2017, 10 horas da manhã. A quarta-feira não era de cinzas, mas era decisiva como uma apuração para os dirigentes das 13 escolas de samba do Grupo Especial e consequentemente para a Liesa.

Depois de sucessivos adiamentos, enfim o prefeito Marcelo Crivella recebeu as maiores forças de poder do Carnaval carioca para discutir o anunciado corte de 1 dos 2 milhões de reais destinados às agremiações que promovem o auto-proclamado “maior show da Terra” na Sapucaí.

A reunião durou pouco menos de duas horas e pouco mais do que os 75 minutos dos quais as escolas dispõem para cruzar seus carros alegóricos e alas pela pista do Sambódromo, no desfile que elas mesmas ameaçaram suspender em caso de corte nas verbas. O tempo foi suficiente para que saísse a maioria bastante calma e contente da prefeitura, contrastando assim com a fúria demonstrada nos dias anteriores.

A Mangueira, cujo presidente Chiquinho foi um dos maiores entusiastas da eleição de Crivella no ano passado, usou as redes sociais para bater sem dó nem piedade no alcaide da cidade – e rebateu as recordações do apoio de Chiquinho alegando não ter apoiado institucionalmente nenhum candidato. A Mocidade usou também as suas redes sociais para convocar sambistas à luta pelo Carnaval.

O presidente Renatinho, da São Clemente, que após a vitória de Crivella debochou tristemente dos apoiadores do derrotado Marcelo Freixo no Facebook, pediu desculpas pelo apoio ao então candidato do PRB e se justificou dizendo que aprendeu a confiar sempre na palavra de um homem – ainda que estejamos falando de um produto da cultura afro-brasileira e o tal homem seja um notório perseguidor desse tipo de manifestação ao longo da vida, a ponto de gravar vídeos exorcizando africanos no continente deles.

Nada disso, no entanto, parecia importar após o fim da tal reunião. O presidente da Liesa, Jorge Castanheira, havia pregado uma agenda de conciliação desde o início da confusão e parece ter tido sucesso em mais um episódio que mostra a sua inegável capacidade de articulação e de saber “domar as feras” em prol das boas relações. Saiu do encontro com a aparência tranquila de sempre para trazer a boa nova aos microfones da imprensa: vai ter Carnaval em 2018 e as negociações para que haja um corte de apenas 25% (500 mil reais) estão encaminhadas.

Eureka.

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2017, três horas da tarde. A quarta-feira não era de cinzas, mas foram as cinzas o que sobrou do barracão da Renascer de Jacarepaguá, na zona portuária da cidade. Depois de uma ascensão meteórica, a escola do bairro do Tanque chegou ao Grupo Especial em 2012. Caiu com sobras e voltou para a Série A sem nem de longe mostrar a força de outros tempos. Ano a ano as dificuldades financeiras da escola ficam evidentes na avenida. Desfiles dignos graças ao reaproveitamento de materiais, aos sambas fantásticos e ao talento de alguns profissionais são como um troféu e garantem ao menos a permanência da escola na Sapucaí.

O barracão da Renascer, dizem os relatos inclusive do Editor Chefe que passou por lá no início da noite, está destruído. Situação delicada para qualquer uma, mas especialmente delicada para quem tem um orçamento apertado como o da vermelho-e-branco. As estruturas dos carros alegóricos foram consumidas pelo fogo que atingiu ainda o barracão vizinho, do Império Serrano, que felizmente já havia retirado boa parte de suas coisas dali, já que na condição de escola do Grupo Especial – e com sua presidente no convescote matutino com o Bispo – o Reizinho de Madureira ocupará um dos barracões da Cidade do Samba.

As imagens de um carnaval carbonizado são especialmente tristes para quem ama a festa. Duas das lembranças mais doloridas que o Carnaval me trouxe, abrindo um parêntese, remetem a isso: a Cidade do Samba atingida pelo incêndio de 2011 e o Sambódromo paulistano em chamas após as confusões na apuração de 2012. Mas, ao contrário do que aconteceu nessas duas situações e já fechando o parêntese, nesse caso da Renascer a tristeza não vem acompanhada da surpresa.

Incêndio em barracão da Série A infelizmente virou rotina.

Qualquer pesquisa meia-boca no Google mostra várias ocorrências nos últimos anos. Carnavalescos e dirigentes relataram também muitas vezes as condições insalubres nas quais precisam trabalhar para botar um desfile na rua. As escolas usam terrenos sem qualquer segurança porque simplesmente não possuem outro lugar para a montagem dos carros. E então, após um incêndio, o Corpo de Bombeiros vaticina: o barracão não tinha autorização para funcionar. Eureka.

Os dois eventos da quarta-feira que não era de cinzas estão intimamente interligados, nem que seja apenas pelo simbolismo. Enquanto as escolas de samba do Grupo Especial se acertam com o prefeito para diminuir o prejuízo causado por um corte de 50% na subvenção, a Série A só recebe a atenção do poder público quando algum dirigente disca o 193 para chamar o Corpo de Bombeiros. As manifestações de repúdio ao prefeito devem dar ou já estão dando lugar a mensagens de apoio, imagino eu que sinceras de fato, à Renascer. Mas eu duvido muito que algum dos presidentes tenha sequer mencionado a situação precária dos barracões das coirmãs do segundo grupo durante a tal reunião.

Embora também tenha em grande parte apoiado a eleição de Marcelo Crivella no segundo turno e muito provavelmente também seja afetada por um eventual corte na subvenção (que representa um percentual ainda maior no orçamento do que em algumas escolas do Especial), a Lierj, entidade que controla os desfiles da Série A, não foi chamada para a tal reunião. Se fosse, é bem provável que o pedido fosse o mesmo de sempre: uma Cidade do Samba 2. O projeto foi bandeira de campanha do ex-prefeito Eduardo Paes nas duas eleições e nunca saiu do papel, apesar do apoio ainda maior das agremiações ao peemedebista e da inegável simpatia do político pela folia.

O que estamos discutindo aqui é muito sério porque não é apenas Carnaval. É claro que um barracão espaçoso e confortável é importante para que a Série A tenha um nível plástico mais interessante – e a própria Cidade do Samba, inaugurada em 2006, mostra isso no Grupo Especial -, mas a verdadeira demanda é por algo muito maior: segurança. Por enquanto, ninguém morreu nesses frequentes incêndios, mas o que se tem nessas condições é uma tragédia esperando para acontecer.

Pessoas dormem naqueles barracões nos meses que antecedem os desfiles e um incêndio mais grave pode causar a morte de muita gente. Não se pode voltar a apertar as mãos de um prefeito em troca de 500 mil reais enquanto esse tipo de coisa não for solucionada, assim como não se deveria falar em “saudades do Eduardo Paes” – e se falou muito. Sambista, carioca da gema, Paes sambou com a Portela, reformou quadras, fez o próprio grupo de acesso avançar após o fim da nada saudosa Lesga… e deixou a prefeitura sem tirar do papel o projeto assumido duas vezes de construir a Cidade do Samba 2.

Aumentar a subvenção municipal de 1 para 2 milhões foi o bastante para que ele deixasse saudades e elegesse Pedro Paulo, o seu poste agressor de mulheres, como o candidato do Carnaval. Ninguém se importou em coloca-lo na parede para resolver as questões das escolas da Série A. Se o caixa da prefeitura não possui hoje os muitos milhões necessários para uma obra como essa, que se arranje outra solução temporária em galpões seguros ou, no mínimo, se reforme imediatamente os hoje existentes para dar segurança e tranquilidade a quem ganha a vida ali. O que não se pode é discutir a manutenção da megalomania insana dos desfiles do Grupo Especial, onde escolas chegam a gastar 11 milhões de reais em um desfile, enquanto pessoas correm risco de perder a vida na Série A.

Por mais que as escolas do segundo grupo sejam mais benevolentes do que deveriam com a prefeitura e isso complique ainda mais a situação, a força de poder do Carnaval carioca é a Liesa. Ela não representa apenas ela mesma, mas sim todo o desfile das escolas de samba. Foi ela quem monetizou o espetáculo, exigiu uma participação no lucro da prefeitura com ingressos, pressionou até alcançar a construção da sua Cidade do Samba e ajudou na própria formação da nova Série A, fornecendo jurados e a estrutura de desfiles.

A relação entre a Liesa e a prefeitura envolve historicamente uma troca: a Liesa garante votos; a prefeitura garante recursos. Sem capacidade política de garantir votos – ainda que algumas de suas agremiações tenham comunidades enormes – e sem voz para reclamar recursos, os grupos de acesso apenas assistem a valsa dos dirigentes com o prefeito-bispo da cidade. Como, então, admitir essa “conciliação” com o prefeito em troca de 500 mil reais? Por que não levantar a bandeira das coirmãs menores? O que pode justificar a “conciliação” com um prefeito que se pudesse acabaria com as religiões que estão ligadas ao surgimento do samba?

O simbolismo da quarta-feira que não foi de cinzas também não é inédito e nem surpreendente. Quando o locutor da quadra do Salgueiro pediu votos para Marcelo Crivella durante a final de samba-enredo da escola para o desfile de 2017, a quadra irrompeu em vaias e gritou o nome de Marcelo Freixo. Poucas imagens seriam mais emblemáticas para mostrar que as escolas de samba institucionalmente e os seus componentes não falam a mesma língua. Resgato o que disse em meu Facebook no dia da vitória de Crivella: “O apoio institucional de uma escola de samba a um candidato significa (ou pelo menos deveria significar) o apoio àquele que melhor cuidará do bem-estar de sua comunidade”.

Pergunto, então: quando é que as escolas de samba vão explicar por que entenderam o neopetencostal Marcelo Crivella como o melhor candidato para o dia-a-dia das suas comunidades? Por que acharam que ele era o nome ideal para administrar uma cidade onde traficantes queimam terreiros de umbanda nas favelas? Quando é que vão se reunir com ele ou usar as redes sociais para reclamar dos cortes no orçamento da saúde ou da falta de infraestrutura que faz suas baianas e passistas ficarem submersos em pleno mês de junho?

Se não pretendem fazer tudo isso por vontade própria, que façam por uma questão de sobrevivência. O carnaval é uma manifestação popular que precisa representar o povo para sobreviver. Se não representa o povo e decide apoios e revoltas apenas de acordo com o percentual do corte na subvenção, não vai representar ninguém e vai, cada vez mais, se tornar um produto de nicho para meia dúzia de aficionados.

Ao convocar os sambistas para as ruas, as escolas de samba não estavam convergindo com o discurso do povo para resistir à agenda neopentecostal que ameaça, muito mais do que as escolas de samba, grupos de religiões afro-brasileiras que têm tudo a ver com a festa. Essa foi uma ilusão tão curta e tão bonita quanto é um Carnaval. Mas todo Carnaval tem seu fim e essa ilusão carnavalesca fora de época ironicamente também terminou na quarta-feira.

A estratégia, e isso está muito claro agora, foi se apropriar da revolta de quem de fato pretende combater essa agenda para pressionar o prefeito e derrubar o ajuste na subvenção. A partir do momento em que o dinheiro volta a pingar na conta, as poderosas agremiações do Grupo Especial criam uma cortina de fumaça que abafa o grito do sambista e consequentemente sufoca as demandas das agremiações de menor porte.

É bom que ficar claro que não existe nenhuma falha moral nesse comportamento. Não chega a ser uma obrigação da Liesa agir de maneira diferente. Como entidade privada, ela tem o direito de pensar só nela. Não faz filantropia, precisa de dinheiro e precisa gerar recursos – e só a prefeitura pode gerar recursos para cobrir a incompetência das escolas em fazer isso por conta própria através de suas marcas, mas isso é assunto para outro texto. O cerne da questão é que fazendo isso a Liesa não só afronta a história do desfile das escolas de samba como ameaça a sua própria existência em um longo prazo.

Hoje, a Marquês de Sapucaí abriga apenas 26 escolas. Quem vai para a Intendente Magalhães muitas vezes passa a respirar por aparelhos até cair para o último grupo e posteriormente enrolar a bandeira. Escolas que, fora da Sapucaí, só sobrevivem se tiverem condições de estabelecer um papel importante dentro das comunidades ao longo do ano.

Em um triste “enigma de Tostines”, as escolas enrolam a bandeira e perdem a sua representatividade. O número de escolas de samba diminui e as comunidades perdem aquela “escola do bairro” que muitas vezes é a porta de entrada não só para um público consumidor, como também para a mão de obra que vai desde o carnavalesco que se tornará multicampeão na Sapucaí até o “faz-tudo” do barracão. Lutar pela Série A e resgatar o perfil da escola de samba como centro de resistência cultural e política diminui o abismo entre o “maior show da Terra” e as divisões inferiores e fortalece os pavilhões menos famosos para que eles ao menos sobrevivam.

E ainda que a Liesa não se importe em caminhar para o dia em que vai existir apenas o Grupo Especial e para o dia em que as escolas de samba se tornarão apenas máquinas de produzir um espetáculo anual, é preciso rever esse comportamento. No fim do ano passado a São Clemente perdeu a sua quadra. A grande imprensa não deu atenção ao caso porque realmente não é lá uma notícia que chame atenção, ao contrário do corte na subvenção. As escolas se uniram e Eduardo Paes voltou atrás. E o Crivella? Vai voltar? Vai se preocupar com a quadra da São Clemente? Se com toda essa pressão da imprensa ele resiste o quanto pode a reaver o corte, o que fará em prol da quadra de uma escola que nem tem tanto voto assim para lhe tirar?

Quando vi a movimentação dos sambistas em frente à prefeitura, fiquei de certa forma feliz pela capacidade de articulação. Mas não posso dizer que estou do lado das escolas de samba contra a prefeitura porque, como a reunião da quarta-feira de manhã mostrou, as escolas de samba e a prefeitura estão de um lado só. As consequências para o lado de cá quem mostrou foi o incêndio da quarta-feira a tarde.

E já que me apeguei a simbolismos, me agarro no nome da escola de samba afetada para acreditar que o carnaval, apesar de todos os incontáveis pesares, vai sempre Renascer. E sempre vai haver alguém para bater nosso tambor contra a perseguição religiosa, a agenda conservadora e em prol da identidade cultural da cidade e do país.  Ainda dá tempo de rever o que estamos fazendo com o “maior show da Terra”. Ainda…

[N.do.E.: eu escrevi duas vezes, pelo menos, sobre o tema. Em 2011 (!!!) e em 2015, nesta ocasião tendo o barracão da própria Renascer como tema. São estas coisas que se repetem que matam a nossa paixão pelo carnaval. PM]

Imagens: O Globo (capa), G1 e Arquivo Ouro de Tolo

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