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Análise: os sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro – Parte I

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À medida em que o fim do ano se aproxima, cresce a expectativa pelo desfile das escolas de samba no ano que vem. Agora que os CDs todos estão lançados e os preparativos já estão a todo vapor, venho aqui fazer minhas análises a respeito dos sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Falarei de cada obra destacando os defeitos, as virtudes, o que ficou bom, o que ficou ruim e também transformarei essa avaliação em uma nota, a exemplo do que farão os jurados na Sapucaí.

Por isso, adoto aqui os padrões adotados pela Liesa em seu Manual do Julgador: as notas vão de 9,0 a 10,0, fracionadas em décimos (9,0, 9,1, 9,2, 9,3, etc), sendo divididas em dois subquesitos: letra do samba e melodia, sendo ambos com notas de 4,5 a 5,0. Em letra do samba, avalia-se a adequação ao enredo, a riqueza poética, ou seja, a beleza e o bom gosto, e também a adaptação à melodia. Nesta, por sua vez, são levados em conta o ritmo do samba, a beleza e o bom gosto dos desenhos musicais e a capacidade de adaptação ao canto do componente.

Obviamente, não tenho a pretensão de ser jurado, nem tampouco de antecipar o julgamento oficial, uma vez que na Avenida algumas virtudes ocultas aparecem e outros defeitos que passaram batidos se tornam explícitos. Acho apenas que esse é o método mais justo de fazer uma análise já que, noves fora a relevância cultural e artística do samba-enredo, ele é feito a partir desses critérios estabelecidos pelo julgamento oficial.

Como eu acabei me alongando razoavelmente nas análises, divido-as em duas partes. Hoje, falo das escolas que desfilarão no domingo de Carnaval na ordem dos desfiles. Amanhã, das escolas que desfilarão na segunda-feira, também seguindo a ordem de entrada na Marquês de Sapucaí.

Deixo claro também que o meu parâmetro são as gravações que fazem parte do CD oficial. Aliás, abro um parêntese para um breve comentário sobre a gravação: a qualidade técnica está espetacular, a cada ano melhor. Os corais estão altos, os instrumentos bem equalizados e o andamento dos sambas também agrada. Além disso, o fato de não haver limitação de tempo nas faixas permite que os sambas sejam aproveitados por completo. Só sinto falta de mais cacos ou gritos de empolgação por parte dos intérpretes. Me parece que a produção do CD optou por faixas “limpas”, o que faz sentido para o público não tão ligado em Carnaval, mas incomoda um pouco quem já conhece as obras e espera algo diferente do CD.

Paraíso do Tuiuti: “Carnavaleidoscópio Tropifágico”.

Compositores: Carlinhos Chirrinha, Rafael Bernini, Luis Caxias, Wellington Onirê, Fernandão e Alexandre Cabeça.

Intérprete: Wantuir.

De volta ao Grupo Especial após 16 anos, o Paraíso do Tuiuti apostou em um ótimo enredo sobre a Tropicália para alcançar um grande samba na abertura dos desfiles. Sob essa perspectiva, pode-se dizer que a missão não foi bem-sucedida. Em uma disputa com várias boas obras, nenhuma mostrou credenciais para se destacar na safra do Grupo Especial. Na verdade, os sambas todos se mostraram inferiores aos dois últimos que a agremiação apresentou na Série A – o que espanta, já que o enredo é um dos melhores do ano. Isso posto, o samba vencedor tem os seus méritos e pode servir muito bem ao desfile da Azul e Amarela, mas, no entanto, deixa bastante a desejar tecnicamente.

O refrão principal é um dos pontos altos. Desfilando pela segunda vez entre as grandes, o Tuiuti “se apresenta” para o público de maneira criativa, se apropriando muito bem de obras do movimento tropicalista: “Alô, povo brasileiro… Aquele abraço” faz referência a “Aquele abraço”, de Gilberto Gil. Já o desejo de permanecer na elite também foi muito bem encaixado no verso “Caminhando deixo o sonho me levar”, que faz alusão a “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso. Além disso, a estrutura melódica é boa, bastante animada, e contagia. No trecho final da estrofe, porém, os versos “A esperança que brilha no meu olhar / É o segredo dessa vida” não possuem uma conexão das melhores (-0,1 em letra) e, no caso do último, ainda há um claro desencaixe melódico: a melodia não “fecha” (-0,1 em melodia).

A primeira estrofe tem uma sacada interessante herdada da sinopse. Nela, o Brasil é apresentado como um paraíso e os compositores aproveitaram a deixa para brincar com o nome da escola: “É Tropicália, olha aí… Meu Tuiuti / Um Paraíso, não existe nada igual”. A melodia também tem ótimos desenhos, atingindo seu clímax em “Brasil, riqueza da mãe natureza / Meu chão, morada da felicidade”. Uma pena que nesse primeiro verso haja uma rima tão pobre de “riqueza” com “natureza” (-0,1 em letra). Da letra, destaco os versos “No Pindorama todo dia é Carnaval” e “Se for pecado, tô condenado” que incorporam o espírito debochadamente ufanista do tema. A melodia volta a incomodar na transição mal resolvida de “Eu sou amante dessa liberdade” para “Daquela lei surgiu um laço de união” (-0,1 em melodia).

Por outro lado, a entrada para a estrofe central, que na versão da disputa não era um refrão, foi muito bem costurada, bem como a repetição encaixada pela escola. A melodia acelerada em “Coração balançou, muito samba no pé / Lá no morro nasceu nosso Parangolé” cria aquele que talvez seja o melhor momento da obra. A letra também é muito bem feita, uma vez que “Parangolé” é a obra do artista plástico Hélio Oticica com sambistas da Estação Primeira de Mangueira. No entanto, percebo que a repetição de palavras terminadas em “ou” (“balançou”, “brotou” e “espalhou”) faz com que a estrofe fique cansativa (-0,1 em melodia), especialmente quando o samba é ouvido várias vezes em sequência. O verso “Quem vestiu coloriu… Por aí se espalhou” também é ruim. Afinal, quem vestiu o que (-0,1 em letra)?

A terceira estrofe começa promissora, com uma transição bem encaixada para o verso “Ê, Bahia… É lindo o movimento musical”. Também gosto do desenho melódico diferente do verso “E na Terra da Garoa… Tropicalista”, mas considero que o verso anterior, “Quanta mistura… Intercâmbio cultural”, não introduz essa variação como deveria (-0,1 em melodia). É um problema semelhante ao que citei no fim da primeira estrofe e que se repete também no final desta, mais especificamente no trecho “Encarando a opressão / Mas raiou o sol” (-0,1 em melodia). Por outro lado, a mudança nos desenhos musicais de “Debochando numa boa… Salve o artista” para “Degustar e consumir foi a opção” é deliciosa de ouvir e cantar.

Outros destaques da faixa: a maravilhosa contextualização do enredo e a brilhante atuação do experiente intérprete Wantuir.

Letra: 4,7. Melodia: 4,5. Nota: 9,2.

Acadêmicos do Grande Rio: “Ivete do rio ao Rio”

Compositores: Paulo Onça, Kaká, Dinho Artigliri, Rubens Gordinho, Alan Vasconcelos e Marco Moreno

Intérprete: Emerson Dias. Participação Especial: Ivete Sangalo.

E o contestado enredo sobre Ivete Sangalo acabou gerando um dos bons sambas de 2017, quem diria. Os compositores acertaram a mão em uma melodia contagiante e construíram uma letra criativa e com trechos explosivos, fazendo assim com que a obra seja fácil e gostosa de cantar e ouvir. O refrão principal é um dos melhores do CD e cumpre muito bem o papel de apresentar o enredo. Gosto da ideia do “banho de axé”, em referência ao ritmo musical da homenageada, e sou capaz de enxergar a Sapucaí em êxtase nos versos “O tambor da Invocada promete / Levanta a poeira, Ivete”. De fato, a bateria Invocada promete arrastar o público com esse samba.

Na estrofe seguinte ao refrão citado vejo o único pecado dessa letra. Nos primeiros versos, o eu-lírico está na terceira pessoa, “convocando” Ivete para a homenagem (como se vê, por exemplo, em “Brilha, minha estrela / Alumia o meu caminhar”). No entanto, sem mais nem menos a cantora “assume” a letra, que passa a ser em primeira pessoa (-0,1 em letra). Repare como essa transição é mal feita: “Menina baiana do Juazeiro / Saudade mandou um cheiro / Velho Chico… Histórias fez lembrar / Nossa Senhora sempre a me guiar”. Fica até difícil de saber em que momento (se no segundo, no terceiro ou no quarto verso) há a transição da terceira para a primeira pessoa. Melodicamente, a passagem “Nossa Senhora sempre a me guiar / Sol inclemente” também me incomoda (-0,1 em melodia), muito embora os desenhos musicais de “Sol inclemente / Terra seca era o sertão” sejam inspiradíssimos. Também gosto muito de como essa passagem, bem mais cadenciada, leva a outra bem mais acelerada – “Forroziei, pulei fogueira, viva São João” – de maneira muito competente.

O samba atinge o melhor casamento entre letra e melodia no magnífico refrão do meio. O “E lá vou eu, pé na estrada / E lá vou eu, meu amor / Olhos de fogo da serpente encantada / Iluminavam meu destino a Salvador” é maravilhoso de ouvir e de cantar, além de descrever muito bem o início da carreira musical da homenageada. Se a entrada da primeira parte para esse refrão é excelente, o mesmo pode-se dizer da saída do refrão para a estrofe seguinte. A bateria Invocada brinca na passagem “Cantei a noite buscando o que eu queria / Alegria! Alegria! / Guitarra, frevo, tambores que têm magia / Ê, Bahia! Ê, Bahia!”. É um samba que simplesmente não cansa. Além do mais, em se tratando de figura tão conhecida, é impossível negar que o espírito de Ivete está muito bem representado nesses versos.

A última estrofe é o ponto fraco do samba. Além da letra ser apenas correta, com apenas uma bela sacada (que vou citar logo mais), a melodia incomoda em três momentos. Primeiro na péssima transição de “Mistura de emoções” para “Meu timbau… Virou sucesso internacional” (-0,1 em melodia). Depois, no próprio “Meu timbau… Virou sucesso internacional”, que se arrasta e compromete o conjunto melódico (-0,1 em melodia). Os últimos dois versos – “Comunidade, povo do gueto, eu sou / Caxias me abraçou” – poderiam fechar o samba com chave de ouro, uma vez que os compositores tiveram uma ótima ideia ao associar o sucesso “Festa” ao setor final, que traz a consagração de Ivete diante do povo de Duque de Caxias, onde está situada a Grande Rio. No entanto, como a escola cortou dois versos anteriores a esse trecho (de maneira muito inteligente, por sinal, já que eles eram bem truncados), o “comunidade” ficou arrastado (-0,1 em melodia).

Emerson Dias conduz o samba ao seu estilo e valoriza a obra com uma interpretação bastante despojada. A faixa tem uma ótima introdução chamando a bateria do mestre Thiago Diogo e a luxuosa participação de Ivete Sangalo no alusivo. No samba em si, porém, ela ficou um pouco escondida. Talvez fosse melhor restringir sua participação ao alusivo.

Letra: 4,9. Melodia: 4,6. Nota: 9,5.

Imperatriz Leopoldinense: “Xingu, o clamor que vem da floresta”

Compositores: Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna

Intérprete: Arthur Franco

Inegavelmente é preciso coragem para levar para a Sapucaí um samba longo, denso e pesado como esse. Principalmente considerando que ele entrará na passarela logo depois do furacão Ivete Sangalo. Tentando esquecer esses detalhes, é preciso dizer que a Imperatriz escolheu um samba interessante, de trechos lindos e muito inspirados, mas que peca justamente por ser muito grande e muito longo. Além de se tornar cansativo e arrastado, acaba tropeçando em alguns pontos nos quais talvez não tropeçasse se fosse um pouquinho menor.

O refrão principal apresenta o enredo com um recurso que não me agrada: jogar os versos sem conexão entre si para explorar vários pontos de uma vez só. A passagem “Salve o verde do Xingu, a esperança / A semente do amanhã, herança” ainda está no limite do aceitável, mas em “O clamor da natureza, a nossa vai ecoar… / Preservar!” já vejo uma quebra razoável de sentido (-0,1 em letra), prejudicando até mesmo o entendimento do enredo que vai exaltar os índios.

A primeira estrofe apresenta com surpreendente criatividade um tema razoavelmente batido no Carnaval. O universo indígena é contextualizado de maneira didática através de passagens como “Na aldeia com flautas e marcas / Kuarup é festa, louvor em rituais”. A melodia também é muito bem trabalhada, com variações interessantes como do trecho citado para “Na floresta, harmonia, a vida a brotar”. No entanto, a melodia, apesar dessas variações, não consegue se encaminhar para um final, de forma que ele chega de maneira abrupta e incômoda (-0,1 em melodia) em “o paraíso fez aqui o seu lugar”, que “divide” a primeira estrofe. Na sequência, há uma ótima passagem em “Jardim sagrado o caraíba descobriu / Sangra o coração do meu Brasil” e uma poesia ímpar em “Um belo monstro rouba as terras dos seus filhos / Devora as matas e seca os rios”, que apresenta de maneira muito bonita o conflito entre nativos e colonizadores. No entanto, de novo o desenho melódico não encaminha uma conclusão e a estrofe se encerra de maneira afobada em “Tanta riqueza que a cobiça destruiu” (-0,1 em melodia).

Inegavelmente, o melhor momento do samba é a estrofe central, o popular “falso refrão”. A melodia é boa, mas o que chama atenção mesmo é a letra, que realmente parece um grito de guerra indígena. “Sou o filho esquecido do mundo / Minha cor é vermelha de dor” é um “tapa na cara” de todos nós, homens brancos, que renegamos nossas origens e estereotipamos até mesmo a pele vermelha desse povo. Na sequência, vem aquele que considero um dos trechos mais bonitos de todo o CD, que fala por si só: “O meu canto é bravo e forte / Mas é hino de paz e amor”. A estrofe ainda nos brinda com uma outra sequência pra lá de inspirada: “Sou guerreiro imortal, derradeiro / Deste chão o senhor verdadeiro / Semente eu sou a primeira / Da pura alma brasileira”. São versos bonitos que reafirmam a identidade brasileira a partir da veia indígena. Muito bom.

Também gosto da saída dessa estrofe para a entrada da estrofe seguinte em “Jamais se curvar, lutar e aprender / Escuta, menino, Raoni ensinou”. Porém, na sequência, o samba volta a tropeçar em sua grandeza. O trecho que começa em “Andar onde ninguém andou” é um dos mais infelizes do ano. Primeiro porque se arrasta, não fecha, não acaba (-0,1 em melodia). Depois, porque mesmo sendo longo, atropela a letra em “Chegar aonde ninguém chegou” (-0,1 em melodia). Além disso, o uso de “onde” no primeiro verso e “aonde” no segundo ficou muito estranho (-0,1 em letra). Depois desse trecho, porém, o samba volta a entrar nos eixos. Destaco o belo verso “O sonho de integrar uma nação”. Os dois versos finais, apesar de longos, apresentam um bom desenho melódico e se justificam pela letra: “Kararaô… Kararaô… O índio luta pela sua terra / Da Imperatriz vem o seu grito de guerra”. É, de fato, um grito de guerra. E dos bons, pra fechar bem um samba de altos e baixos.

O maior destaque da faixa é, sem dúvida, o estreante Arthur Franco. De timbre clássico, ele conduz o samba com valentia e sem floreios, acrescentando muito à obra.

Letra: 4,8. Melodia: 4,6. Nota: 9,4.

Unidos de Vila Isabel: “O som da cor”

Compositores: Artur das Ferragens, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Braguinha, Rafael Zimmermann e Júlio Alves.

Intérprete: Igor Sorriso.

Devo admitir que demorei um pouco para me entregar a este samba por pura implicância. Nada pessoal, claro, mas é que a derrota do magnífico samba da parceria do André Diniz me deixou meio chateado. Coisa passageira, pura bobagem. O vencedor, embora no meu modo de ver seja inferior tecnicamente, também é uma pancada, um sambaço, um dos melhores do disco. Mesmo com um enredo que não é propriamente afro, a Vila Isabel incorpora neste hino, por conta do final e do refrão principal, a africanidade que lhe cai tão bem. É, sem dúvida, o samba mais forte que a escola leva para a Avenida desde o antológico desfile de 2012 sobre Angola.

O tal refrão principal chega “chutando a porta”. É forte, pesado, daqueles que o componente canta batendo no peito. A ideia de relembrar o histórico “Kizomba, a festa da raça” é maravilhosa e foi encaixada com coerência dentro da proposta do enredo, que no último setor fala justamente do Carnaval. Sendo “kizomba” uma festa africana, nada mais justo que começar com um “Ô, ô, Kizomba é a Vila”. A construção melódica também é muito interessante e “pega” com facilidade sem cair no oba-oba. Minha única crítica é quanto ao que poderia ser a melhor sacada de todo o CD. A ideia de relembrar não só o termo “kizomba” como também alguns dos versos do samba de 1988 é genial, mas a execução foi ruim. “Valeu, Zumbi, a lua no céu / É a mesma de Luanda e da Vila Isabel” fica um pouco confuso. Claro que o sentido está explícito (e a mensagem é linda), mas em uma letra tão bonita, tão bem construída, essa espécie de gambiarra gramatical me incomoda um pouco (-0,1 em letra). Daria para trabalhar um pouco melhor.

A primeira estrofe começa com uma melodia suave em “A minha Vila chegou / Ouça essa voz” e vai ganhando contornos mais densos à medida que a letra também ganha força. O primeiro ponto de virada é o verso seguinte, que é espetacular: “A pele arrepia ao som da batida”. O desenho melódico linear e muito correto convida para uma rima pobre e simples, mas os compositores fugiram dessa praticidade em prol de um verso gostoso de cantar e ouvir. Um dos acertos da ala musical da escola foi criar um segundo ponto de virada, agora saindo da melodia mais densa para os desenhos mais suaves. À época da disputa, me incomodava a transição do pesado “Herança que fez ressoar o rufar do tambor” para o melodioso “Pra gente dançar assim, feliz”. Afinal, o primeiro é pra cantar com força, pisando firme no chão e o segundo é para bailar na avenida, de modo que achava a quebra muito abrupta, sem a progressão gradual apresentada no início. O problema foi resolvido com o velho e agradável truque do “Ô, ô, ô…”, que permitirá ao desfilante e ao público curtir os dois estilos. Já navegando em águas mais calmas, a estrofe termina com versos bonitos: “Oh, minha flor, quero você em meus braços / Bailando no mesmo compasso / Um tango de drama e amor”.

Chamo atenção, aliás, para esse trecho, pois ele é o exemplo do mérito que os compositores tiveram na construção da letra. A sinopse, apesar de muito boa enquanto enredo, trazia um risco enorme ao elencar vários ritmos musicais dentro de um mesmo contexto. O compositor, obrigado a citar esses ritmos em poucas dezenas de versos, poderia apelar para uma letra descritiva e desconexa, que apenas reproduz o que se verá no desfile. Mas não foi o caso e esses versos citados são, talvez, o maior exemplo. Para falar do tango, o eu-lírico faz uma declaração de amor que não faz parte do enredo, mas confere sentido à letra. E como alguns versos antes vem o “Pra gente dançar assim, feliz”, tudo fica muito claro, evidente. Foi um achado.

Outro achado foi o refrão do meio, que pra mim é ainda mais forte que o refrão principal, apesar de não despertar a veia africana da agremiação. Com melodia mais suave, tem versos inspiradíssimos como “Vila / “Azul” que dá o tom à minha vida”. Não tenho certeza, mas palpito que esse “azul” vem entre aspas como uma referência ao blues, o que seria mais uma prova de criatividade na hora de apresentar os ritmos musicais descritos no enredo, o que também fica evidente pela brincadeira com a palavra “tom”, que serve tanto para cores quanto para sons. A parte religiosa do enredo também é apresentada como forma de exaltação à azul-e-branco e o trocadilho com o nome da escola mais uma vez é de ótimo gosto: “Eu faço um pedido em oração / Ouvi-la pra sempre no meu coração”.

Melodicamente, acho a saída do refrão do meio para a terceira estrofe sensacional. É mais ousada, ao feitio do que pede uma citação ao rock. Fico incomodado apenas com o verso “”Soul” a mais perfeita forma de expressar”. Acho que, diferentemente do que aconteceu nos outros casos, esse trocadilho é pobre. Nem tanto pela brincadeira de “sou” com “soul”, mas sim porque a letra não “fecha”, ou seja, não se conta o que está se expressando (-0,1 em letra). Depois, porém, o samba atinge o seu clímax a partir de uma melodia deliciosa em “Eu vou, eu vou… Onde fez raiz a tradição nagô / Eu vou, eu vou, foi… / O povo do samba quem me chamou”. Aqui, cabe citar algumas coisas. Primeiro, a repetição do “eu vou, eu vou” é muito boa. Primeiro se diz para onde, depois de quem veio o convite. Eis aqui o segundo ponto: “O povo do samba”, como é conhecida a comunidade de Vila Isabel. Reparem como a exaltação a escola está sempre presente. E, por fim, é aqui que a veia africana do samba começa a se manifestar, mais precisamente por conta do “onde fez raiz a tradição nagô”. Ou seja, é a herança africana se manifestando no Brasil.

O final do samba aposta no recurso do contracanto, embora isso fique menos evidente do que no samba de 2012, por exemplo. De início havia achado um recurso um pouco pobre e até cansativo, mas acabei me rendendo à fantástica melodia. A letra também é inspirada e novamente costura bem a apresentação dos ritmos citados: “Ginga no lundu… Morena / Negro é o rei… É o rei / Toque de ijexá… Afoxé / Pra “purificar”… Minha fé”. Ao invés de simplesmente citar os ritmos, o samba os contextualiza. O angolano lundu a partir do gingado da morena; a tradição do afoxé a partir do instrumento ijexá. No meio disso, o orgulho negro (“é o rei”) e a religiosidade através dos cantos. Para encerrar, o samba tem outra característica que me agrada: o final da letra introduz o refrão. O verso “Gira baiana, deixa a lagrima rolar” tem tudo a ver com o desfile de escola de samba e é lindo por si só, mas ganha ainda mais força acompanhado do “Quando no terreiro novamente ecoar”, já que, na sequência, entra o refrão falando de Kizomba. Ou seja: a baiana vai chorar quando um dos maiores sambas da história do Carnaval for relembrado nesse “terreiro” que é a Vila Isabel. É pra fechar com chave de ouro uma obra das mais inspiradas.

Igor Sorriso, dono da melhor voz do Carnaval atualmente, leva o samba com a maestria habitual. Só acho que o estilo da obra talvez pedisse uma interpretação mais valente.

Letra: 4,8. Melodia: 5,0. Nota: 9,8.

Acadêmicos do Salgueiro: “A Divina Comédia do Carnaval”

Compositores: Marcelo Motta, Fred Camacho, Guinga do Salgueiro, Getúlio Coelho, Ricardo Neves e Francisco Aquino.

Intérpretes: Serginho do Porto e Leonardo Bessa. Participação Especial: Xande de Pilares.

Uma grande sinopse não necessariamente gera um samba magnífico, mas dificilmente gera um samba confuso. Vejam o caso deste samba do Salgueiro: não está entre os mais brilhantes do ano, mas mesmo assim chama a atenção pela irrepreensível descrição daquele que é o melhor enredo do ano no Grupo Especial. A letra é de uma clareza formidável e tem bom casamento com a melodia, embora esta seja excessivamente linear e pouco criativa (-0,2 em melodia). Dessa forma, o samba da Academia é bastante agradável e candidato àquilo que chamamos de “acontecer na Avenida”. Ou seja, mesmo estando um pouco afastado dos holofotes pode ter um dos melhores desempenhos no desfile oficial.

Frequentemente “acusado” de tentar repetir a fórmula de “Peguei um Ita no Norte”, o Salgueiro volta a apostar em um samba que foge a esta característica. A maior prova é que nem mesmo um refrão principal há. Na verdade, a estrofe que encerra o samba é um falso refrão, que se destaca mais pela letra inspirada que pela melodia comum. Gosto muito dos versos “Gira, baiana, e faz do céu um terreiro / Tinge essa Avenida de vermelho”. O “paraíso afro”, que pra mim é a grande sacada da sinopse, é bem representado pela ideia de transformar o céu católico da Divina Comédia em um terreiro de umbanda. O “tingir essa avenida de vermelho” também é muito bonito.

É um samba que, como pede o enredo, cria cenários na mente de quem ouve. Quem ouve esse trecho sem pensar naquelas senhoras girando elegantemente e colorindo as nuvens com a cor da Academia do Samba? O verso “É nossa missão carnavalizar a vida…” também é maravilhoso. Já que a sinopse convoca todos nós a sermos os Dantes aventureiros do desfile, nada mais justo que sermos também convocados a “carnavalizar” as coisas. Não há amante de Carnaval que não se identifique com isso, estou certo. Porém, apesar de bonito, criou uma armadilha pra escola, uma vez que a melodia teimava em “não fechar”. Para resolver o problema, mudou-se o verso seguinte. Problema resolvido na melodia, novo problema criado na letra. A alteração para “Que é feita pra sambar!” quebrou o sentido original. “Vida é feita pra sambar” indicava que estamos nessa Terra pra sambar. Com a alteração, fica a impressão de que é preciso carnavalizar uma vida que foi feita especificamente pra sambar, o que vai exatamente na mão oposta ao enredo (-0,1 em letra).

A primeira estrofe introduz com muita competência o início da viagem deste Dante carnavalesco: “Vou embarcar em ilusões / À loucura me entregar…”. Durante todo o tempo, e este é um grande mérito, a ideia é descrever o enredo a partir de frases e expressões com as quais o público se identifique. Apesar de muito correta, a letra tem muitas rimas próximas (“delirante” e “amante”, “liberdade” e “felicidade”, “beijo” e “desejo” e “embriagar” e “jogar”). Em um desenho melódico linear, sem grandes surpresas, onde a estrutura dos versos é muito parecida, isso acaba travando a melodia (-0,1 em melodia). Por outro lado, é preciso destacar alguns achados. O verso “Devoto da infernal felicidade”, por exemplo, é a síntese perfeita do espírito do enredo, que contrapõe de maneira brilhante o sagrado e o profano.

O refrão do meio, apesar de também se tornar um pouco cansativo pela melodia comum, tem boa letra, com destaque para “Vou me perder pra te encontrar” e “Do jeito que o pecado gosta”. Acredito que o único momento em que a melodia apresente uma variação mais interessante é justamente na saída desse refrão do meio, que é quando Dante deixa o inferno e vai para o purgatório. Em “Sinto minh’alma se purificar” os desenhos musicais são mais suaves, melodiosos e introduzem a chegada ao paraíso. Na sequência, porém, vem aquela que talvez seja a sequência mais complicada do samba.

Primeiro pelo péssimo verso “Três “com sagrados” talentos”. Justamente na hora de homenagear os grandes nomes da escola (Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Joãosinho Trinta), a letra faz um péssimo trocadilho de “consagrados” com “sagrados”. O “com sagrados” simplesmente não faz sentido (-0,1 em letra) sob nenhum ângulo. Seria muito melhor usar o simples “consagrados”, já que não foi possível encaixar corretamente a sacralização da “santíssima trindade do samba”. Em seguida, a melodia da passagem “Vê, estão voltando as flores… / Lá, onde ressoam tambores” também se mostra complicada. O encerramento, porém, é digno de aplausos. A melodia se ajusta e a letra é inspirada: “Toca, batuqueiro, dobra o rum / Aos presentes de Orum…”. Em resumo: o batuqueiro deve tocar os atabaques com mais força (sinônimo de “dobrar o rum”) neste paraíso afro carnavalizado.

Serginho do Porto, Leonardo Bessa e Xande de Pilares, apesar do domínio musical inegável, fizeram a gravação menos inspirada desde a formação do trio, que se deu no Carnaval de 2015. Pouco entrosados, tiraram um pouco da força do samba. E força já não era exatamente a maior característica da obra.

Letra: 4,8. Melodia: 4,6. Nota: 9,4.

Beija-Flor de Nilópolis: “Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel”

Compositores: Claudemir, Maurição, Ronaldo Barcellos, Bruno Ribas, Fábio Alemão, Wilson Tatá, Alan Vinicius e Betinho Santos.

Intérprete: Neguinho da Beija-Flor.

Um espetáculo. Não é o melhor samba de todos os tempos, muito longe disso, mas é uma das obras mais ousadas que uma escola já escolheu até hoje. O samba da Beija-Flor, fruto de um enredo que cai bem à escola, contraria todas as fórmulas prontas que o gênero adquiriu nos últimos anos. Até por isso, a reação à primeira audição é mais de susto que propriamente de admiração. Só com o tempo é possível maturar e aproveitar cada verso daquele que é o melhor de todos os sambas que passarão pela Marquês de Sapucaí no Grupo Especial em 2017.

O refrão principal, por exemplo, tem impressionantes oito versos. No total, dura mais ou menos um minuto. E mesmo assim é um chiclete. É impossível ouvir sem ficar com o “Vou cantar Juremê, Juremê, Juremê” na cabeça. A melodia é cativante, criativa e tem variações muito bem costuradas. A letra também é muito boa. Começa com a jandaia, um pássaro da Amazônia, chamando por Iracema, a protagonista do livro de José de Alencar que serve de base para o enredo. Inteligentemente, o samba se apropria da descrição que o próprio livro faz da índia no verso “Lábios de mel, riso mais doce que o jati”. Além disso, gosto muito do jogo de palavras dos últimos três versos: “Vou contar, Juremá, Juremá / Uma história de amor, meu amor / É o carnaval da Beija-Flor”. Graças à melodia criativa a repetição de palavras não incomoda e o samba não se arrasta. Pelo contrário: flui com muita facilidade. Também me agrada como o enredo rebuscado é resumido como “uma história de amor”.

Resumir um dos grandes clássicos da literatura em uma música não é fácil, mas o samba faz isso com correção e muita competência. Gosto muito da melodia densa do começo (“Araquem bateu no chão / A aldeia toda estremeceu”), que reproduz muito bem o cenário indígena do livro. Além disso, é um samba didático. O encontro de Iracema e Martin, por exemplo, é apresentado através do verso “Quando a virgem de Tupã se encantou com o europeu”. A melodia volta a apresentar uma variação interessantíssima na passagem “Nessa casa de caboclo hoje é dia de ajucá”. “Ajucá”, no caso, é a Festa da Jurema, o que explica inclusive o refrão principal. A “merchandising camuflada” do estado do Ceará também é muito bem encaixada: “De um romance tão bonito começou meu Ceará”.

O refrão do meio pode até parecer trash, mas é excelente. O “Pega no amerê, areté, anama” é repetido incríveis quatro vezes e, mesmo assim, não cansa. Tem uma melodia gostosa e chega a ser divertido, embora o significado real da letra não tenha nada de especial. “Amerê” é uma espécie de cigarro indígena. “Areté” é um dia de festa. “Anama” é família. Em uma tradução tosca de quem não é propriamente fluente em tupi-guarani, tomo a liberdade de interpretar o verso de maneira rústica: pegue nessa espécie de cigarro que hoje é dia de festa entre os familiares.

Depois desse momento de leveza vem uma transição irrepreensível para um desenho melódico pesadíssimo e muito bem feito em “Bem no coração dessa nossa terra / A menina-moça e o homem de guerra”. A melodia também ganha contornos tristes no verso que marca a “felchada” em sentido figurado de Iracema no agora apaixonado Martin: “Ele sente a flecha, ela acerta o alvo / Índia na floresta, branco apaixonado”. Os compositores tiveram a sensibilidade de incorporar o vocabulário indígena sem cair no ridículo ou no estereotipado. Terminada a história de amor de Iracema e Martin, o samba parte para uma espécie de legado da história a partir do “Vem pra minha aldeia, Beija-Flor”.

A “chegada” da escola à aldeia é a deixa para um outro momento de muita leveza e que é ótimo de cantar: “Tabajara, pitiguara, bate forte o tambor / Num chamado de guerra, minha tribo chegou / Reclamando a pureza da pele vermelha”. Esse último verso exalta de maneira muito forte os índios. Destaco em seguida o trecho mais bonito do samba: “Bate o coração de Moacir / O milagre da vida me faz um mameluco na Sapucaí”. Moacir, o fruto do amor da índia com o europeu, é o ícone da miscigenação no Brasil – mameluco, bom lembrar, é o filho de um indígena com um branco.

Apesar de ser um samba espetacular, devo dizer que a gravação ficou muito abaixo do esperado. O samba, no CD, perdeu muito da força. Depois da belíssima gravação no ano passado, Neguinho da Beija-Flor não foi nada bem. A impressão que passou foi que ainda não havia dominado por completo a obra, que realmente não é das mais simples. Uma pena, mas nada que apague a qualidade do samba da Deusa da Passarela.

Letra: 5,0. Melodia: 5,0. Nota: 10,0.

11 Respostas para “Análise: os sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro – Parte I”

  1. Neilson Oliveira disse:

    Simplesmente espetacular sua análise, abs!!!

  2. Joao Loretto disse:

    Você sente falta do cacos, mas acho que ficou ótimo assim pode-se ouvir melhor a obra. Os cacos ao meu ver atrapalham, fica aquela gritaria ao fundo que me incomoda um pouco…enfim, questão de opinião pessoal.

    • Leonardo Dahi disse:

      De fato, questão de gosto. Eu acho que os cacos acrescentam e geram uns momentos divertidos ou até mesmo marcantes – Quinho está aí pra não me deixar mentir!. Entendo a opção pela gravação “limpa”, mas não me agrada muito.

  3. Leonardo disse:

    Beija-Flor sem dúvidas um dos melhores sambas dos últimos tempos. Letra e melodia lindas. Levada de samba, sem pirotecnia da bateria, que enche o saco nos outros sambas o tempo todo.

  4. José Lucas Brito do Nascimento disse:

    Belíssima analise Léo. Acredito que a Beija-flor sairá com anota máxima em samba-enredo, um samba simplesmente espetacular e original. O segundo melhor da noite é da vila, vai emocionar muita gente. Quem diria q um samba sobre Ivete Sangalo iria dar tão certo. É a cara da Grande Rio, da homenageada, do carnaval, enfim… Vai levantar geral! Imperatriz um samba longo demais, cansativo, mas com passagens de rara inspiração. Confio na força da escola.Salgueiro, desta vez não tem um bom samba, salvo apenas os refrãos. E Tuiuti peca pela letra, mas é um samba alegre condizente com o enredo sobre a Tropicália. Acho q o Léo pegou pesado na avaliação deste samba

  5. Renato Junior disse:

    E, como que referendando sua análise, o samba dá Beija flor “aconteceu” na Sapucaí!

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  1. […] Ontem comecei aqui a analisar os sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro para o Carnaval d…. Falei sobre as seis obras que passarão pela Sapucaí no desfile de domingo, de modo que hoje falarei sobre os sambas do desfile de segunda-feira. Lembro mais uma vez que o meu padrão é a gravação do CD oficial. […]

  2. […] por décimo – aliás, o Leonardo Dahi fez uma análise bem mais aprofundada – veja aqui o primeiro post e aqui o […]

  3. […] final do ano passado, escrevi aqui e aqui sobre os sambas-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro para o Carnaval de 2017. Agora, […]

  4. […] de samba do Rio de Janeiro, para o Carnaval de 2017 – no final do ano passado, escrevi aqui e aqui sobre os sambas-enredo do Grupo Especial. Depois de analisadas as sete obras que passarão […]


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