Alô amigos do Ouro de Tolo!

Vou compartilhar com vocês alguns destaques e interpretações de referências dos desfiles da noite de ontem. Ficarei restrito a alguns detalhes plásticos que me chamaram a atenção, ou por conta do apuro estético, ou pelo uso de material, ou por leitura/interpretação artística pessoal. Como acompanhei da arquibancada, fiquei restrito apenas ao roteirinho de desfiles que é distribuído na Avenida. Se isso bater com o que consta no livro Abre-Alas “terá sido por mera coincidência”. Saliento também, que a observação e os comentários partem de um olhar partindo da plateia, já que eu estava no alto da Arquibancada do Setor 4, e isso dificulta a observação, identificação e detalhamento de alguns materiais.

ESTÁCIO: Belo retorno da Professora Rosa ao São Carlos! Gostei muito do elemento cenográfico da Comissão de Frente e do registro da viagem do homem à Lua. A indumentária de Alcione também me chamou a atenção devido aos faisões, elemento que retornou em 2019 ao traje da PB depois de belas fantasias em plumas. Quanto às alegorias, destaco o Abre Alas e o carro da Serra Pelada (Carro 5). A professora abusou do – bom – uso do acetato, o que conferiu um visual exuberante especialmente às alas que representavam metais preciosos. Quanto às alas, o destaque ficou por conta da Ala das Baianas, muito requintada. E gostei, também, do fato de Rosa não ter caído na “armadilha” de num enredo sobre pedras, vestir de ouro a bateria “Medalha de Ouro”. Isso prova o quanto Rosa foge do lugar-comum.

Abaixo, o belo Leão símbolo estaciano. Muito bonito também, e numa posição semelhante a do de 2019. Gosto dessa disposição do felino, sem ficar refém das representações apenas de cabeça.

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VIRADOURO: Um Abre-Alas opulentíssimo trouxe o povo do Barreto para a Sapucaí. Tratava-se dum desfile pelo qual tinha muita ansiedade em ver para saber qual estilo prevaleceria: Se o de Marcus ou o de Tarcísio. Mas eles funcionaram bem no conjunto. Em alguns setores lia-se claramente o toque de um ou de outro. Além do AA, destaco o carro 4 “Ciranda de Roda à Beira do Mar” e o belo uso dos acrílicos vermelhos que, iluminados, deram um lindo efeito”. Além de remeteram a uma estética de carnaval antigo, algo como aquelas antigas decorações de carnaval.

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Aliás, falando em iluminação, é pena o 6º carro não haver acendido fixamente. Ele acendeu próximo ao setor onde estava e depois “morreu”. Aliás, o led alternou entre funcionar e parar, pixelou, mas não apagou a beleza do carro (Que, tal como o Carro 2, talvez nem precisasse desse recurso)
Destaco, também, um setor quase todo em vermelho e suas variações – que me parecia uma proposta de Ferreira – contrastando com o setor seguinte todo colorido, o que me pareceu ser mais zanoniano. Muito boa a estreia do casal! (NOTA: O figurino da Rainha de Bateria, que jurava ser de faisões reais quando vistos à distância, soube que, na verdade, eram faisões fake em tecido e overlocados.). Viradouro tem grandes chances!

MANGUEIRA: O Abre Alas de Mangueira me remeteu ao barroco mineiro. Belo e pleno em elementos como reza a característica deste estilo. Lindo o efeito da ala 5 “O joio e o Trigo”, em que palha e acetato faziam um bonito efeito quando em movimento. Ainda nas alas, destaque para a da bateria “A Brutalidade Romana”, para as variações cromáticas escolhidas por Leandro e para o chocante carro 4 “Calvário” e o último carro, em pastel, bem ao estilo de Vieira. Destaco também a escolha das variações em tons de roxo escolhidas por Leandro, devido ao fato de o roxo ser uma cor sacra. Muito inteligente a variação cromática que variou desde o magenta claro e lavanda até o roxo propriamente dito.

(Abaixo, o Carro 4 da Mangueira, “Calvário”)

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TUIUTI: Que se destaque o talento do meu xará de nome e sobrenome na Tuiuti! O Abre Alas me chamou muita atenção assim como o Pede-Passagem e o Carro 2 “O encantamento de dom Sebastião na batalha de Alcácer Quibir”. A iluminação no Carro 3 também foi um grande destaque. Quanto às alas, que se destaque aquela em tons de lavanda logo em seguida do Carro 2 (Ala 9), além das alas 25 e 26. João foi muito feliz em dedicar com as cores da escola o primeiro setor.

(Abaixo, o Abre Alas da Tuiuti)

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GRANDE RIO: Belíssimo Abre Alas, para mim um dos melhores do dia. Uma composição bem vária com outros elementos que remetiam a fitas coloridas (certamente eram tecidos cortados para esse fim), além das fitas, o carro era ornado com redes, ráfia e belas geledés. Uma das mais criativas instalações alegóricas do ano até agora. Totalmente fora do “estabelecido”. Um dos carros, o 2, tinha uma bela jangada e temas baianos muito delicados, além de o xirê de orixás me haver remetido ao quadro “Cerimônia de Oxalá”, de Carybé. Além deste elemento alegórico, algumas alas também me remeteram ao artista argentino. Belíssimo o Carro 3, sobre os caboclos, uma das coisas mais bonitas da escola, e, de se destacar, também, que logo na sequência, a dupla Bora/Haddad optou por trazer uma ala em hortelã, conferindo um belo recurso de variação cromática. Destaca-se, também, o Carro que fez referência ao Pamplona – Carro 4, e as referências à Djanira no tripé 3. Como um todo, as fantasias criativas e os carros muito bem concebidos e realizados plasticamente, colocam a Grande Rio num dos melhores conjuntos plásticos do ano. Se os quesitos de pista não forem tão definitivos, Grande Rio briga forte.

(Abaixo, o carro que me remeteu à pintura de Carybé)

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ILHA: A escola da Cacuia foi muito corajosa em colocar o Mestre-Sala com um traje “normal”, um terno tradicional e nem um pouco carnavalizado. Gosto da ideia do terno, mas o fato de ele não ter vindo traduzido plasticamente no que é praticado enquanto fantasia de carnaval, talvez custe alguns pontos à simpática agremiação insulana. Gosto, também, dos guardiães do casal e a escolha por serem protegidos por malandros – Embora eles também tenham vindo com figurinos e não com fantasias. Essa escolha, aliás, do uso de figurinos em vez de fantasias, talvez possa enviesar a interpretação dessa vestimenta enquanto código. Achei bonito o realismo carnavalizado no Abre Alas, que inclusive lançou mão da luz em âmbar utilizada nos centros urbanos e da presença de meninos soltando pipa na alegoria.  Gostei das fantasias do 5º setor e de seu encerramento com o 6º Carro. Gostei, também, do conceito da fantasia do 2º Casal e do elemento Cenográfico que trouxe o Brasão da Escola (Lembro de tê-lo visto desfilar poucas vezes). Gostei muito da ala das Baianas e da ala das Crianças.

(Abaixo, o Abre Alas realista da Ilha)

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PORTELA: Bela passagem da agremiação da Rua Clara Nunes. Os caranavalescos conseguiram trazer uma novidade à águia, elemento sagrado do povo de Madureira. O movimento das asas do pássaro, foi uma novidade interessante. Que se destaque que num dos meus primeiros textos para cá para o ODT destaquei que acreditava que o casal Lage iria apostar no azul e nas suas variações. E realmente foi o que aconteceu. O verde cítrico fez uma bonita composição com o azul royal e suas variações na cabeça da escola.
(NOTA: O uso desse verde cítrico me parece uma tendência, já o havia notado ano passado e ele esteve em diversas formas neste ano tanto no Acesso – no Carro 2 da Sossego, por exemplo – assim como no Especial.). Achei ótimo o cuidado com as cores por parte do Casal Lage, o preciosismo foi tamanho que o flutuante do Abre Alas tinha exatamente o mesmo tom do carro, o que conferiu a ele maior profundidade. No segundo carro, um efeito de iluminação, que jurei ser uma iluminação sob uma peça de acrílico, era, na verdade, iluminada por led, que aqui foi muito bem aproveitado. Gostei também de um recurso que os carnavalescos lançaram mão, nas alas, onde brincaram com a cor. Uma ala era predominantemente azul e laranja, e a outra, laranja e azul. Portela tem grandes chances de brigar.

(Abaixo, a Altaneira, modernizada. Notem o verde-cítrico em equilíbrio com o azul.)

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Sabemos que toda experiência artística é pessoal, ainda mais quando trata-se de escolas de samba, onde a paixão costuma falar alto. Mas as escolas fizeram um grande papel! Aliás, esse espaço aqui é livre para a discussão. Divirta-se aqui nos comentários enquanto os desfiles de Segunda não começam.

Até a próxima!

(Vítor Antunes)

Imagens: Ouro de Tolo

5 Replies to “Impressões plásticas sobre a primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Rio”

  1. Sinceramente pra mim a campeã não passou ainda. Gostei dos desfiles de ontem. Achei o desfile da Viradouro muito animado o samba bem cantado. A Mangueira veio linda plasticamente o capricho de Leandro com fantasias e alegorias ficaram evidentes. O samba não rendeu tanto. O que me preocupa é a Ilha, desfile que a harmonia foi pro beleleu e corre risco sim de rebaixamento infelizmente. Adoro a Ilha e torço para estar enganada. Mas o desfile foi muito sombrio e desanimado o que não combina com a Ilha. Com todo respeito mas Cahe como carnavalesco ja deu o que tinha que dar. E Laila tem qur parar com esse tom dramático nos desfiles. Pode custar caro a Ilha.
    Minha expectativa para hoje é de um grande desfile do Salgueiro que esse ano tem uma posiçao boa de desfile e tem tudo para conquistat o campeonato.

    1. Acho que todos os sambistas têm um carinho pela Ilha. Realmente, a possibilidade de rebaixamento da agremiação insulana é bem grande. E isso é muito triste. Assim como a do rebaixamento do Império, no Acesso.

        1. Ano que vem nem vou precisar assistir aos desfiles…ficarei só e bem “alimentado” com as impressões plásticas de Mr. Vitor 👏👏👏

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