Após passarmos por todos os nove quesitos, é hora de tirarmos nossas conclusões.

A primeira delas, até um tanto óbvia, é que esse foi o melhor julgamento desde que a Justificando começou em 2015. Tivemos poucos descontos fora do quesito analisado, poucas justificativas sem pé nem cabeça e, de forma geral, dosimetrias bem ponderadas. Foi um ano de poucas reclamações e no qual a quantidade de bons cadernos não foi pequena.

Não acredito que a sensação geral de justiça do resultado após a quarta-feira de cinzas, algo bem incomum quando o assunto é apuração de escola de samba, tenha sido mera coincidência. Para mim, foi um reflexo direto da boa qualidade do julgamento visto nessas últimas semanas em que as colunas da série foram publicadas.

O elogio acima também não quer dizer que não tivemos problemas. Tivemos alguns cadernos problemáticos, com justificativas de difícil aceitação. Mas até esses cadernos, em sua maioria, deram notas aceitáveis para o que se viu na avenida, mesmo que a justificativa escrita não tenha sido satisfatória. Ainda assim fica o alerta que normalmente são sempre os mesmos e eles continuam no corpo de julgadores.

Por fim, farei aqui um apanhado de sugestões que, acredito, possam melhorar estruturalmente o julgamento nos próximos anos.

A maior parte delas já foram escritas de forma espalhada nas nove colunas abordando os quesitos, mas a intenção aqui é condensar todas elas aqui para facilitar a abordagem. Elas também não serão expostas na ordem apresentada na coluna, mas pela facilidade de implementação e, em uma avaliação bastante subjetiva minha, pelo menor nível de polêmica embutida na sugestão.

Dessa forma, as primeiras da lista serão mudanças simples e pouco polêmicas, em sua maior parte, apenas sugestões de aprimoramento do manual do julgador. Já as últimas demandariam uma mudança estrutural da forma como o julgamento hoje é feito e deve sofrer algum tipo de oposição.

  1. Clarificar no Manual do Julgador a separação entre os quesitos evolução e harmonia, evitando as confusões que ocorrem todo o ano
  2. Clarificar no Manual do Julgador a situação do julgamento do carro de som e bateria antes dele passar na faixa de início do desfile. Especialmente no 1º setor, o julgador tem o som do carro desde o início do desfile, sendo que o mesmo só ultrapassa a faixa de início após 20 ou 30min. Esse ano inclusive a São Clemente foi descontada por um problema ocorrido ainda no recuo inicial.
  3. Reforçar no Manual do Julgador, especialmente em harmonia, que pequenas oscilações dos volumes dos microfones do carro de som decorrentes do sistema de som não devem ser despontuados.
  4. Clarificar no Manual do Julgador em harmonia se os buracos devem ou não ser despontuados neste quesito.
  5. Deixar expresso em algum lugar do Manual do Julgador que o julgador deve se ater somente ao seu campo visual/sonoro para fazer sua avaliação e justificativa. Apesar de ser algo costumeiro, não está expresso.
  6. Verificar a utilidade de se incluir nas primeiras cabines de julgamento algum sinal que indique que a escola está parada fazendo a apresentação de Comissão de Frente e MS & PB para as cabines seguintes.
  7. Verificar a dificuldade de visualização da pista relatada no 1º módulo relatado em um dos cadernos de Comissão de Frente.
  8. Clarificar no Manual do Julgador dos quesitos Fantasias, Alegorias e Adereços e Enredo se deve se descontar uma escola por “falta de tempo necessário para avaliar” a ala/alegoria em virtude uma evolução acelerada da escola.
  9. Clarificar no Manual do Julgador do quesito Enredo que a falta de ordem cronológica só deverá ser penalizada quando dificultar o entendimento ou ferir a argumentação ou estruturação do enredo.
  10. Melhorar a divulgação pública de alterações nos critérios de julgamento. Houve uma alteração importante em Alegorias e Adereços, conforme explicado na introdução da coluna referente ao quesito, que passou totalmente batida até o momento.
  11. Clarificar no Manual do Julgador que a utilização do excesso de cores da própria escola não deve ser despontuada.
  12. Criar um calendário com reuniões posteriores com os julgadores para fornecer um feedback do trabalho por eles realizado e receber o mesmo feedback dos julgadores sobre as dificuldades que eles tiveram para realizar seu trabalho.
  13. Considerar a possibilidade do retorno do quesito Conjunto, mas com um foco totalmente diferente do quesito extinto há alguns anos. Seria um quesito meramente plástico, para verificar a plástica (e apenas a plástica) da escola como um conjunto. Hoje se houver uma total desconexão entre alegorias e fantasias não há um quesito para julgar tal desconexão.
  14. Considerar a possibilidade de se convidar para o juri pessoas ligadas ao carnaval, com conhecimento notório do quesito, mesmo que já tenham tido laços anteriores com alguma escola.

É isso. Fim.

Imagens: Ouro de Tolo

6 Replies to “Justificando o Injustificável 2019 – Encerramento e Sugestões”

  1. Ótimo trabalho na Justificando Rafael, mais uma vez. Espero que a coluna agora volte para ficar, e que as boas sugestões sejam ao menos objeto de análise por parte da Liesa.

    Finalizando, uma dúvida: Acha que, mantendo-se esse viés de melhora no julgamento, a Liesa poderia novamente acabar com o descarte e, talvez, tentar novamente a inclusão do décimo extra?

    1. Luis Fernando,

      Particularmente acho o descarte um mal necessário para proteger o resultado de eventuais maluquices. O corpo de julgadores é algo dinâmico que sempre muda alguns de seus mais de 30 componentes todo o ano. Sempre haverá a possibilidade de haver um julgador novato que saia completamente da trilha e, sem o descarte, acabe matando o resultado final. Por isso, sou a favor do descarte, mesmo que bons julgamentos se tornem algo normal e corriqueiro.

      Quanto ao décimo extra, ainda sou cético. A experiência anterior não foi auspiciosa e ela dependerá de um enorme comprometimento do julgador com o resultado do seu trabalho. Além disso haverá alguns quesitos nos quais a distribuição desse décimo extra é muito complicada e inclusive facilitará uma possível tentativa de manipulação dos resultados. Por exemplo: como destacar uma escola para receber o décimo extra em harmonia ou evolução? Bastante difícil. Aliás, também antevejo enormes polêmicas em possíveis décimos extra em bateria.

      Então, pelos motivos explicitados acima, sou contra o fim do descarte ou a inclusão do décimo extra, não importa a qualidade do julgamentos daqui por diante.

      1. Obrigado Rafael e Pedro. Imagino a dificuldade que seria mesmo. Melhor concentrar em um julgamento cada vez mais justo e transparente. Depois, quem sabe, discutir possíveis inovações, num amplo debate, porque acho que o mais importante é isso, ouvir o povo do samba, e não impor as coisas sem planejamento e coerência…

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