Categorizado | Pedro Migão

Os Esquentas do Carnaval 2017

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Há dois anos escrevi sobre os esquentas das escolas de samba e o que eles representavam nos respectivos desfiles. Muitas vezes, naqueles minutos ocorridos entre a bateria acessar o Setor 1 da Sapucaí e a primeira passada do samba oficial, já se tem ideia do destino selado daquela agremiação para o carnaval em voga.

Assim como em 2015, me utilizo das gravações do perfil do YouTube “Samba Paixão”, que desta vez estão ainda mais completas e divididas em duas: uma com os esquentas mais as arrancadas propriamente ditas, outra com as baterias aquecendo antes do desfile.

Entretanto, no momento em que escrevo tal perfil ainda não disponibilizou os registros das escolas do Acesso que desfilaram na sexta feira, embora ainda o vá fazer – consultei os responsáveis na semana passada. Contudo, o perfil de YouTube chamado “Olho Vivo” também registrou, embora menos completos, e é estes que me refiro neste texto para as escolas de sexta.

Fazendo um parêntese, para quem gosta de bateria, o perfil “Apoteose.com” também fez ótimos registros das largadas nos desfiles deste ano.

Não irei retomar as questões do texto escrito há dois anos atrás. Nem falar sobre os sambas de esquenta mais famosos de cada escola – o colunista Rafael Rafic escreveu série de três textos antes deste carnaval que merecem leitura. 

A ideia deste artigo é fazer um ranking pessoal dos esquentas mais bonitos e marcantes deste carnaval 2017. Teve muita coisa boa e alguns momentos marcantes, que divido aqui com os leitores. Como foram 26 desfiles e nem todas as escolas esquentaram, coloco aqui, em ordem de preferência, oito agremiações – aproximadamente 30% do total.

Antes disso, chamo a atenção para alguns momentos interessantes. Como um dos diretores de bateria da Renascer pedindo para os ritmistas “tocarem como uma vovó”, ou seja, para não acelerarem demais (vejam os primeiros 30 segundos do vídeo acima). Ou Igor Sorriso, intérprete da Vila Isabel, pedindo para os componentes cantarem e se superarem – já sabendo dos problemas plásticos que a escola tinha.

Aliás, nos áudios especificamente de bateria, vazam alguns palavrões. Não considero aqui esquentas e arrancadas do Desfile das Campeãs – o que deixa de fora Paulinho da Viola na Portela e o insólito aquecimento do Salgueiro com um samba derrotado na disputa.

Lamento aqui nem Império Serrano nem Unidos de Padre Miguel terem esquentado, ainda mais se o Império repetisse o ensaio técnico e pedisse democracia no Brasil com o samba de 1996. Os dois estariam na lista caso tivessem feito.

Vamos lá, fazendo menções honrosas a Imperatriz, Vila Isabel, Salgueiro e Mangueira:

Oitavo Lugar – Inocentes de Belford Roxo

A agremiação esquentou com seu samba-exaltação e com dois sambas antigos: o de 2010 – que em seu refrão tem uma melodia idêntica ao “Rap do Silva” – e, o motivo dele estar aqui, aquele que considero o melhor apresentado pela escola na Sapucaí: 2008.

Esta composição tem como tema Ossain, o Orixá das folhas que curam – curiosamente o enredo da Unidos de Padre Miguel em 2017. A meu juízo, é o melhor samba de enredo da história da escola – embora, convenhamos, não seja exatamente uma competição muito árdua…

Sétimo Lugar – União da Ilha

Um clássico. “É Hoje” é sempre um clássico. Junto com “Aquarela Brasileira” e “Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de Uma Noite”, talvez seja o samba enredo mais conhecido “off carnaval”.

Também é bonita a exaltação ao “Senhor do Tempo”, enredo da escola, no grito de guerra. Pena que a Direção de Harmonia da escola, ao que parece, não pediu a proteção necessária…

Sexto Lugar – Paraíso do Tuiuti

Este está aqui por razões sentimentais. “Um Mouro no Quilombo”, samba com a qual a escola esquentou e que tinha sido o enredo na passagem anterior da agremiação pelo Grupo Especial (2001), foi a primeira vez que eu desfilei. Já contei esta história aqui em outras oportunidades.

Razões sentimentais à parte, o samba é muito bom. Talvez, ao lado de “Vamos Falar de Amor” (1983), o melhor da história do Tuiuti.

Quinto Lugar – Mocidade Independente

O vídeo, além de registrar o frisson do Setor 1 com o “Aladim voador” da comissão de frente, vale por trazer de novo “Ziriguidum 2001”, samba campeão de 1985, à Sapucaí. Sempre é bom ouvir esta composição.

Outro ponto que chama a atenção é a reverência da diretoria da escola ao intérprete Wander Pires – que, uma vez mais, estava rouco, mas sabe como poucos agitar o público.

Quarto Lugar – Acadêmicos da Rocinha

Colocar a Rocinha nesta posição tem um pouco de “pedido de socorro” de minha parte: leitores, conheçam o samba de 1992!

“Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, estreia da Rocinha na hoje Série A, é um samba lindo e que quase ninguém conhece. Onde eu estava, no Setor 3, somente eu e o colunista deste Ouro de Tolo Rafael Rafic sabíamos o samba. Depois vi muito “conhecedor” perguntando em redes sociais que composição era essa.

Está certo que reedições andam meio fora de moda, mas está aí um samba que deveria ser reeditado. Chama a atenção, também, o presidente frisando que “na Rocinha tem samba também”.

Terceiro Lugar – Portela

“Migão, você está maluco? Tua escola quebra um jejum de 33 anos e fica apenas em terceiro?” Sim, e o leitor vai entender.

O esquenta foi com o clássico “Portela na Avenida”, mas também chama a atenção a bateria esquentando (o vídeo está mais acima) com “É D´Oxum”, pedindo proteção ao Orixá que cuida dos rios. A arrancada da escola e a “cabeça” também pediam proteção, e deu tudo certo. “Yo no creo en brujas, pero las hay, las hay” – já diz o ditado.

Também é notável a serenidade do presidente Luiz Carlos Magalhães tanto em todo o processo até a arrancada como em seu discurso. E aproveito para agradecer em público à primeira dama Cínthia Pitz (que está de vestido azul no vídeo), que soube comprar o nosso sonho e ter um papel importante nisso tudo.

Gilsinho, com a categoria habitual, leva a arrancada.

Segundo Lugar – Acadêmicos do Cubango

“Mineira”, composição de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, homenageando Clara Nunes. Para um portelense, é certeza de alta emoção – e me esforcei para não chorar nas frisas do Setor 3.

Aliás, é a primeira vez em anos onde a Cubango não esquenta com seu belo samba-exaltação.

Primeiro Lugar – Alegria da Zona Sul

Um problema com a entrada do abre alas permitiu ao intérprete Igor Vianna, em sua melhor atuação na carreira, incendiar a Sapucaí com três sambas de esquenta: um ponto de Umbanda dedicado a Ogum, o samba exaltação da escola e “Vou Festejar”, um dos maiores sucessos da homenageada no enredo Beth Carvalho – com a própria dividindo o microfone com o intérprete.

Foi tão bom que amigo deste Editor Chefe, que se diz ateu, cantava o ponto de Umbanda a plenos pulmões na frisa. Sabia a letra inteira…

Aliás, conversando posteriormente com o intérprete, a ideia é que este ponto seja incorporado como esquenta da escola. Ainda mais se for realmente à frente a ideia de um enredo afro para 2018, como divulgado na imprensa especializada.

Bom, a área de comentários está aberta para os leitores discordarem à vontade.

Imagem: Ouro de Tolo

14 Respostas para “Os Esquentas do Carnaval 2017”

  1. Luis Fernando disse:

    Achei o da Tuiuti fantástico também por motivos pessoais, pois adoro esse samba e nunca pensei em cantá-lo no Sambódromo ao vivo…

    O da Mocidade também arrepiou, os próprios torcedores da escola ficaram surpresos e emocionados, acho que se a ideia era motivar torcida e componentes, fizeram certinho…

    Sempre incluirei a Imperatriz entre os melhores enquanto ela aquecer com Liberdade, Liberdade. Maravilhoso.

    Sempre gosto do esquenta da Beija-Flor com o lindo “Deusa da Passarela”, que esse ano ainda inovou e emendaram logo com o samba desse ano, assim como no ensaio técnico. Gostei.

    O esquenta da Mangueira com “Exaltação à Mangueira” já faz parte do Carnaval e sempre me emociona, mas adoro quando também cantam “Sempre Mangueira”.

    • Pedro Migão disse:

      O Tuiuti tinha cantado este samba algumas vezes em seus desfiles no Acesso. E este ano as escolas tiveram mais tempo para fazer seus esquentas, bom realçar.

  2. Quando a Mocidade não esquenta com “Lá vem a bateria da Mocidade Independente…”, a sensação é de que faltou algo.

    Ah! E o samba do amor do Tuiuti foi em 1983, não??

    No mais, bela lista!! Realmente, a arrancada da Alegria foi de arrepiar os pelinhos do nariz! Hahahahahahahaha…

  3. Josué disse:

    Caro Pedro e demais amigos,
    Pena que a Globo monopolista não mostrou os esquentas. Com a desculpa esfarrapada que os desfiles são demorados, ela passou a transmitir para valer só a partir do meio da avenida. No caso da Mocidade, quem fica vendo TV a partir das 02 horas da madrugada é quem realmente quer ver a escola toda passar (na Portela foi por volta das 04h, né?)…
    Os tagarelas da Globo tiveram que calar no momento em que a comissão de frente da Mocidade passou, por alguns instantes deu para ouvir a reação do público.
    Ainda bem que no Desfiles das Campeãs, a TV Brasil mostrou para o público o que a Globo omitiu. Que falta faz uma real concorrência na transmissão!

    • Pedro Migão disse:

      Eu até agora só vi as transmissões completas de Portela e Império Serrano, e realmente a arrancada das escolas não foi mostrada. Pena.

      • Luis Fernando disse:

        Não sei em relação as do Especial, mas vi o Acesso pela tv, e alguns esquentas e gritos de guerra até foram mostrados, infelizmente de forma bem rápida entre uma entrevista e outra, uma pena… Porém, o atraso citado pelo Pedro fez com que todo o emocionante esquenta da Alegria da Zona Sul fosse transmitido, com direito a uma passada quase inteira do samba desse ano.

  4. Raphael disse:

    Esquenta da Tuiuti foi um sacode no setor 10, e ali já mostrava o quanto o carro de som da escola iria passar bem. Foi o melhor desempenho do Wantuir em muitos anos.
    E quanto a relação da diretoria com o Wander, acho que eles fazem o correto. Quando se contrata um cara assim, é o pacote completo, tem que jogar o jogo.

    • Pedro Migão disse:

      Você tem razão quanto ao Wantuir, apoiado por um carro de som com nomes do naipe de Diego Nicolau e o Igor Vianna. E pensar que a escola o trocou pelo limitadíssimo Nino do Milênio…

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  1. […] Após abordar os esquentas de 2017, volto ao tema da estrutura para as escolas desfilarem. O recente artigo do convidado Fellipe Barroso sobre o desfile da Série B suscitou uma série de questões sobre as diferenças de estrutura destas escolas para as que desfilam na Sapucaí, bem como caminhos para diminuir esta diferença. […]


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