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Imperatriz, a escola que todos adoram amar, novamente – Parte I

“Reluzente como a luz do dia, bela e formosa como as ondas do mar, encantadora e feliz, chega a Imperatriz, fazendo o povo vibrar”.

Foi cantando assim que a Imperatriz Leopoldinense deu boas vindas à década de 80, e, talvez não soubesse ainda, mas começava a escrever uma história cheia de glórias e reviravoltas, despertando amores, paixões e ódios tão intensos como a própria alegria do carnaval.

Para entender melhor essa história, vamos voltar um pouco no tempo. A escola, fundada em 1959, começou tímida, oscilando entre os grupos menores do carnaval. Logo em seu segundo desfile oficial, em 1963, consegue a 3ª colocação no Grupo 2, a divisão de acesso da época, marcando seu primeiro grande samba, “As três Capitais”.

Amaury Jório, seu fundador, também foi responsável pelo enredo, que fez com o mundo do samba lançasse seus primeiros olhares para a caçula. A posição naquele ano não permitiria ainda a audácia da chegada ao grupo principal, mas serviu como um cartão de visitas. O povo de Ramos e adjacências, mostrava-se, mais uma vez, talentoso na arte do samba.

Imperatriz+79Um ano mais tarde, o primeiro triunfo. Com o segundo lugar obtido, a escola, com apenas 5 anos de existência, chega ao Grupo 1, o Especial da época. Em 1965, lá está ela, a Imperatriz, ainda um patinho feio no ninho, olhando com admiração as quatro grandes do samba (Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro). O enredo em homenagem aos 400 anos do Rio não foi suficiente. Ainda havia um longo caminho e a escola amarga o último lugar e a queda, a volta ao Grupo 2.

Nos três anos seguintes, subiu, caiu, voltou a subir. Com uma teimosia e uma valentia Quixotesca, Ramos chega em 1969 novamente no grupo maior das escolas. Mas ainda sem o sabor de um título. Fez seus três primeiros carnavais, nesta nova fase, obtendo posições intermediárias, ainda, porém, sem chamar a atenção do grande público.

O que começa a acontecer somente em 1972. A escola leva pra avenida “Martim Cererê”, enredo que exaltava o País e seu povo, ainda sob a repressão forte da ditadura. De quebra, ganha ‘papel’ na televisão. A escola serve de cena para a novela Bandeira 2, da rede Globo e, assim, começa a despertar o interesse e o carinho das pessoas. O bom 4º lugar neste ano apenas ratifica o crescimento da escola e a projeta para uma nova condição. Agora sim a Imperatriz começa a incomodar as grandes e se firmar no carnaval.

A década de 70 estava sendo, de fato, um grande divisor de águas. Nunca a escola havia ficado mais de um ano entre as grandes e conseguiu manter-se lá por 9 carnavais seguidos, até que, em 1977, o penúltimo lugar faz a escola, mais uma vez, voltar ao grupo de Acesso.

Mas dessa vez a história foi diferente, não era mais a escola principiante, pequena, tímida, a Imperatriz que cai desta vez, é aquela de Martim Cererê, aquela que incomodava as grandes, uma escola de grupo principal. Basta apenas um ano, 1978, e ela está de volta à elite. Os anos 70 vão embora deixando Ramos entre as grandes e agora sim, retomamos nossa história parada lá no segundo parágrafo.

Muitos de nossa geração dizem que os anos 80 foram a grande década do século XX. Talvez um exagero, mas para o Carnaval carioca e a Imperatriz, isso, sem dúvida, resume esse período. A escola estava no grupo principal, já atraía olhares e comentários admirados. O que faltava então?

Um nome, alguém com experiência suficiente e talento incontestável, para dar o primeiro título à escola e com isso, pôr a nação Leopoldinense de vez na história. Esse nome respondia por Arlindo Rodrigues, o maior carnavalesco em atividade à época. A tacada foi mais que certeira.

003carnavalLogo que a Imperatriz entra na avenida, logo nota-se algo diferente no ar. O belíssimo samba ecoa na avenida e consagra a mais nova campeã da passarela. Ao lado das gigantes Portela e Beija-Flor, a escola levanta seu primeiro título e, de quebra, conquista finalmente aquilo que faltava, o respeito e a admiração de todos. A partir daí, o que se vê é uma nova história. Todos aguardam a Imperatriz na avenida, seu samba, todos querem ver, saber. Ninguém, deste ano em diante, poderia dizer-se campeão antes de Ramos passar. O bicampeonato da escola, em 1981, desta vez sozinha na conquista, ratifica a vitória anterior e impõe, é da Imperatriz a coroa do samba.

A primeira passagem de Arindo pela escola é fenomenal. O artista revoluciona o modo de fazer carnaval da Imperatriz. A beleza do verde e branco, de cada detalhe das fantasias, alegorias. A mídia, os apaixonados pelo carnaval, até os curiosos apenas, encantam-se com a beleza e apaixonam-se pela escola. Sim, nesse início de década ela torna-se a grande vedete. A escola que todos adoram amar, sendo ou não torcedores. Como foi com a Portela, da década de 40, com o Império Serrano, de 50, o Salgueiro de 60 e a Beija-Flor, de 70.

Em 1982, o tricampeonato fugiu por entre os dedos. Campeã, considerando-se apenas as notas dadas, a escola perde o título nas obrigatoriedades. A Imperatriz tem que contentar com o 3º lugar, apesar de “ganhar” o carnaval durante seu desfile. A frieza das regras, que obviamente são para serem cumpridas, não tiram o brilho daquele ano. O enredo “Onde canta o sabiá” é lembrado, até hoje, como um dos maiores da história da escola e do carnaval. No ano seguinte, Arlindo despede-se da escola com um 4º lugar, encerrando sua primeira e mais brilhante passagem pela agremiação. Chegou na escola que ainda era dúvida e a deixou como a mais bela certeza daqueles anos.

De 1984 a 1986, a escola faz bons desfiles, alçando posições intermediárias. Até que em 87, Arlindo volta. Volta não para ser campeão desta vez, mas despede-se com Estrela Dalva. O 6º lugar, lembrado até hoje, como injusto, marca um dos melhores desfiles de um ano que teve entre outros, Tupinicópolis, Raízes e Drummond.

Sem Arlindo, a escola resolve mudar, fazer um carnaval brincalhão, irreverente, fugindo das características e raízes da escola e o resultado não foi bom. 1988 é um ano para esquecer. O último lugar machuca o coração dos Leopoldinenses e deixa uma verdade no ar. A escola e seu componente gostam de desfilar com pompa, luxo e requinte. O componente da Imperatriz acostumou-se ‘mal’ aos anos de Arlindo e, agora, não se vê mais de outra forma.

Não houve rebaixamento naquele ano e como acontece em determinados momentos, a escola teve uma segunda chance, uma oportunidade de se redimir. Voltar às origens, a ser a mesma do início da década. E assim se fez. 1989 é lembrado por grandes desfiles, belos sambas, o Cristo mendigo da Beija-Flor, mas um samba é ecoado até hoje, “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”. Parecia que, além de celebrar os 100 anos de República, a Imperatriz celebrava a sua própria história, a sua volta aos grandes carnavais e, por consequência, sua volta aos títulos.

O terceiro campeonato é um resgate, uma celebração. E logo mais à frente veremos que ele, de certa forma, começou a mudar um pouco, a forma com que aqueles que não eram torcedores da escola, passaram a vê-la.

Amanhã, neste mesmo espaço. Abaixo, todos os sambas de 1969 a 1989, à exceção de 1983, para audição.

 

3 Respostas para “Imperatriz, a escola que todos adoram amar, novamente – Parte I”

  1. Fabrício Augusto Souza Gomes disse:

    Excelente texto. Disse tudo sobre a Imperatriz. Não sabia que em 1982 tínhamos perdido o título nas obrigatoriedades. Parabéns pelo texto.

    • Pedro Migão disse:

      Imperatriz e Beija Flor foram punidas por terem trazido pessoas vivas em cima dos carros, o que o regulamento proibia aquele ano devido à morte de um destaque no ano anterior – ao cair de um carro

  2. A Imperatriz perdeu três pontos em 1982. Não fosse isso, teria ganho. Mas o título do Império foi e é justíssimo.

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