Sem firulas, vamos à continuação da coluna de ontem, agora com as escolas que desfilam na segunda-feira.

São Clemente

Enredo: “A incrível história do homem que só tinha medo da Matita Pereira, da Tocandira e da Onça Pé de Boi”

Carnavalesca: Rosa Magalhães

Autora da sinopse: Rosa Magalhães

Simplesmente uma aula de sinopse. Quem melhor para fazer um enredo em homenagem ao carnavalesco Fernando Pamplona, um dos maiores revolucionários do carnaval, do que sua fiel aluna Rosa Magalhães.

A sinopse esbanja bom gosto, palavras muito bem colocadas e uma argumentação impecável. Rosa soube dosar muito bem o pessoal, o profissional e o revolucionário do carnaval salgueirense e carioca. Com o bom gosto de Rosa e a emoção de sua morte recente, é bem possível que tenhamos um belo e emocionante desfile. Assim, a São Clemente mantém as esperanças de se salvar da degola, que parece iminente, por mais um ano.

Nota: dez, dez, nota DEZ!

Pitaco da safra: muitos sambas inscritos, o que mostra o acerto da fórmula de audições fechadas, porém nada de grande qualidade. Nenhum samba me chamou a atenção e a São Clemente deverá ser mais uma escola de enredão e samba capenga.

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Enredo: “ImagináRIO, 450 anos de uma cidade surreal”

Carnavalesco: Alexandre Louzada

Autor da Sinopse: Alexandre Louzada

No fim, após muitas matérias, discussões e afins, a única escola que tratará dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, a serem completados apenas duas semanas após o Carnaval, será a Portela. Não poderia ser diferente: de todas as escolas do Rio, nenhuma delas tem tanta identificação e tanto gosto em retratar a nossa cidade quanto a Majestade do Samba. Já foram mais de 20 enredos no qual a cidade apareceu com destaque, sendo que, em pelo menos oito deles, a cidade ou algum de seus pontos era o tema principal.

Para o desfile de 2015, a Portela foi a primeira a divulgar o seu tema, ainda em janeiro e a divulgar sua sinopse, logo após a Semana Santa. Apesar de o Rio ser um tema recorrente tanto dos desfiles como da escola, Louzada também conseguiu realizar um enfoque diferente. Como prometido, ele trouxe muitos toques surrealistas para a sinopse e juntou coisas que, à primeira vista, são “injuntáveis”. Porém, talvez tenha exagerado no linguajar poético.

Quando li a sinopse em sua apresentação na quadra, não entendi nem 40% dela. A ideia do enredo só ficou clara após um texto explicativo, mais didático e bem menos poético, lido logo após pelo diretor de carnaval Luis Carlos Bruno. Só após esse segundo texto é que entendi alguns toques de genialidade da sinopse. São detalhes da cidade que só quem a conhece bem entenderá as sutilezas do texto.

Não é uma sinopse tão boa quanto as últimas duas da nossa Águia, tendo alguns pontos em que, apesar da tentativa diferente, ela cai no lugar comum, por isso não receberá meu dez. Também me pareceu uma sinopse um pouco mais puxada para o estilo que dá mais ênfase ao visual do que ao musical, um caminho que pode ser traiçoeiro.

Porém, a Portela tem tradição em não engessar muito seus compositores e algumas saídas foram muito bem compostas.

Como escreveu o colega colunista Leonardo Dahi no Twitter: “É sinopse de campeã”. Porém, inegável portelense com muito orgulho, sou suspeitíssimo para comentar.

Nota: 9

Pitaco da safra: mais uma vez, apesar dos 33 sambas na única ala de compositores ainda fechada do Rio, a safra como um todo é fraca. Mas a Portela tem três ou quatro sambas bons e isso basta. Por questões profissionais, não pude comparecer à primeira rodada de apresentações, mas o único samba que na minha opinião se encaixa como uma luva no surrealismo do enredo é do LC Máximo e do Toninho e seria minha escolha inicial. Caso a escola queira algo mais leve para ser a segunda escola do dia, o samba do Edson Batista é a pedida. Ainda tem o samba do Noca da Portela e Celso Lopes que finalmente saiu do molde 10-4-10-4, mas a meu ver tem problemas de letra (clichês demais) que perigam bastante deixar alguns décimos na avenida caso seja o escolhido. Como quarta opção, ainda aparece o samba da Eliane Faria, mesmo com uma gravação malfeita. Sobre a Portela aprofundarei meus pensamentos em post exclusivo no futuro, após ouvir todos os sambas na quadra.

beijaflorcomissaoBeija-Flor

Enredo: “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade”

Carnavalescos: Comissão de Carnaval composta por Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo

Autores da Sinopse: Laíla, Fran Sérgio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo

A Beija-Flor, após o polêmico enredo sobre Boni e sua pior colocação em vinte anos, sétimo lugar, parece não ter aprendido a lição e aparece com um enredo ainda mais polêmico do que o anterior sobre o país africano Guiné Equatorial.

A polêmica vem basicamente pelo enfoque do enredo altamente positivo sobre o país (convenhamos que não se poderia esperar algo diferente após o polpudíssimo patrocínio prometido) contrastado com a realidade totalmente negativa do país. Não irei adentrar em polêmicas políticas (para quem quiser aqui está o link da Wikipedia) e me limitarei a analisar aquilo que será oficialmente julgado, a sinopse em si.

Estamos diante de um belo CEP batidão, daqueles que você pode colocar qualquer país no lugar da Guiné Equatorial e continuará a mesma coisa. A única diferença é que dessa vez precisa ser um local petrolífero africano. Ou seja: se fôssemos abordar Angola não mudaria muita coisa.

Para quem reclama que a Portela só fala do Rio, a Beija-Flor só fala da Casa de Guiné e, claro, ela não poderia faltar nesta sinopse. Alias, a separação entre introdução, sinopse  e justificativa não é muito clara. Especialmente as duas últimas partes poderiam se fundir, já que uma parece ser continuação da outra. Ao menos essa é uma sinopse muito melhor estruturada do que as últimas da escola e a linha argumentativa, apesar de altamente polêmica, é clara. Acredito que isso seja fruto do reforço do compositor e historiador Cláudio Russo na equipe autora da sinopse.

Para terminar uma frase final da sinopse me deixou de cabelo em pé “…descoberta do “ouro negro”, com o conseguinte fomento do petróleo, ocorrem com demonstrações de respeito ao meio ambiente”. O editor, que trabalha na área, pode falar melhor que eu, mas dizer que a extração de petróleo nesse país respeita o meio ambiente é extremamente complicado, para se dizer o menos.

Nota: 7,5

Pitaco da safra: situação parecida com a da Portela. Safra ruim, mas com três sambas bons e isso é o suficiente. Na minha opinião, Serginho Aguiar foi bastante feliz e tem o samba que mais me agradou. O bom samba do Samir Trindade deverá ser seu grande concorrente. Em terceiro, já correndo por fora na minha opinião, aparece o samba do Serginho Sumaré. Se nem Portela nem Beija-Flor errarem feio suas escolhas, deverão brigar palmo a palmo pelos prêmios de melhor samba-enredo, talvez tendo a Viradouro como 3ª força.

ilha-15União da Ilha do Governador

Enredo: Beleza Pura?

Carnavalesco: Alex de Souza

Autor da Sinopse: Alex de Souza

Outra sinopse estonteante. Pela terceira vez consecutiva Alex de Souza acerta em cheio na confecção da sinopse e o mais interessante é que cada ano, mais o enredo e seu desenvolvimento ficam com a cara da Ilha.

Nela, Alex literalmente brinca com as várias acepções da palavra beleza, seja em seu sentido conotativo ou denotativo. E então passamos pela “beleza das artes”, “a beleza dos contos de fada” (essa com direito a uma citação ao samba É Hoje, da própria escola em 1982), “ditadura da beleza”, “beleza que é riqueza”, a “beleza da eterna juventude”, a “beleza da felicidade” e a “beleza da eternidade”.

Um enredo leve, divertido e lúdico, com a cara da escola. Se a escola aprender que desfile que não é brincadeira, a Ilha tem tudo para alçar altíssimos voos em 2015.

Nota: dez, dez, nota DEZ!

Pitaco da safra: esperava mais da safra insulana. Não tem um samba que se destaque e o nível geral não está muito alto. Djalma Falcão errou feio a mão e, em uma disputa normal, deveria dar adeus cedo à competição. Carlinhos Fuzileiro (ou Fuzil) também não foi tão feliz quanto ano passado e deu à sinopse curta, uma letra longa. Ainda há o samba do Cadinho, que tem ótima letra, mas peca na melodia. Será uma disputa interessante.

imperatriz-2015Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Axé Nkenda – Um ritual de liberdade – E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz

Carnavalesco: Cahê Rodrigues

Autores da Sinopse: Marta Queiroz e Cláudio Vieira

A Imperatriz continua surpreendendo. Depois da escola, nunca popular, adotar um tema totalmente fora de suas características homenageando Zico, para 2015 Cahê surpreendeu ainda mais: trará um enredo afro. Em 20 anos de carnaval, nunca vi a Imperatriz vir com tema afro. Com o auxílio dos livros de história só consigo me lembrar de 1979, outros tempos.

A sinopse trata de liberdade e da luta do negro contra a escravidão no Brasil, só que para isso passa por todos os lugares comuns que possamos imaginar. Começa na África selvagem ancestral com savanas e baobás. Depois vem o invasor europeu, os transforma em escravos, sofrem no navio negreiro, chegam ao Brasil. Aí lutam por liberdade, alteram bastante a nossa cultura, trazem palavras novas e criam o samba e o rap.

Ao fim, traz mais uma vez uma mensagem de liberdade, amor e paz para que nada disso se repita. Nada que já não tenhamos visto umas 20 vezes na avenida, exatamente com essa mesma visão.

Agora, o mais estranho e que até agora não achei explicação que fizesse sentido é que a carta-sinopse foi feita como se fosse assinada por Nelson Mandela. Porém ele nada tem a ver com o descrito por todo enredo, que trata muito mais de Brasil do que África do Sul. Alias, provavelmente Mandela não soubesse da metade do que se fala em toda a sinopse.

O que me anima é que, como diz o colunista Aloisio Villar, não tem como sair samba ruim de enredo Afro.

Nota: 6

Pitaco da safra: Inacreditavelmente a ótima ala da Imperatriz não conseguiu dar a um enredo afro um sambão. Talvez pela confusão da sinopse acima descrita, talvez pelo fato de que enredos afro não são mesmo a alma da Rainha de Ramos, talvez porque ninguém pensou fora da caixa, uma necessidade nesta sinopse para não fazer um samba cheio de “lugares-comuns”. Temos uns quatro ou cinco sambas razoáveis, que não farão feio nem brilharão na avenida. Entre esses, a diferença é mínima. Se a escola quisesse sortear ao invés de escolher daria no mesmo.

utijuca2014Unidos da Tijuca

Enredo: Um conto marcado no tempo – O olhar suíço de Clovis Bornay

Carnavalescos: Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim, Carlos Carvalho e Marcos Paulo

Autores da Sinopse: Mauro Quintaes, Annik Salmon, Hélcio Paim, Carlos Carvalho e Marcos Paulo

A campeã do carnaval volta a abordar um país, dessa vez a Suíça. Dessa vez é uma sinopse bem “estilão CEP”, só que sem aquele toque diferente de Paulo Barros.

Particularmente, mesmo após a explicação da escola, ainda não entendi muito bem o que faz Clóvis Bornay no meio do enredo sobre a Suíça. Interessante notar que depois de tudo que o presidente Horta falou em “on” e “off” sobre a Portela, é bastante peculiar que a escola se utilize de um portelense histórico para ser guia de um enredo do Pavão. Pior ainda, forçam ainda como se Bornay tivesse um laço com a Unidos da Tijuca, o que seria impensável. Bornay não escreveria laços “Suíça-Tijuca-Brasil” como está na sinopse.

Em tempo: essa expressão final ficou bem parecida com o fim do hino do Vasco, clube do qual Horta é sócio e provável componente de chapa na próxima eleição.

Quanto a sinopse em si, vai passando, com certa licença poética sobre tudo que já se conhece da Suiça. Começa rapidamente com as lendas alpinas (só para dizer que pincelaram alguma história da Suíça) e depois começa a abordar o que interessa, ou seja, os produtos de qualidade que a Suiça produz e exporta: caixinhas de música, leite, queijos e chocolates, tudo entremeado por muitos, mas muitos relógios (dizem que é desse ramo que virá o patrocínio).

No meio do caminho ainda acham um espaço para tratar da Guarda Suíça (afinal, poucas coisas são mais carnavalescas do que ela) e de ciência. Mais uma vez, a exceção da Guarda Suíça e a breve passagem sobre os Alpes, se troca na sinopse Suíça por Bélgica (neste caso, incluindo a cerveja) ninguém desconfiaria.

Posso estar enganado, mas acho que a Tijuca voltará a ser comum sem Paulo Barros, ao menos é o que a sinopse já me demonstra. Pelo menos, também não há quebras de argumento em todo o enredo e, salvo Clóvis Bornay, ele faz bastante sentido.

Nota: 7

Pitaco da Safra: Paulo Barros se foi, mas deixou marcas no exaurimento dessa ala de compositores. Outra que deu PT (e, repito, não é o partido). Acho que só Morais Moreira define a safra da Unidos da Tijuca deste ano.

4 Replies to “Enredos e Suas Sinopses: Segunda-feira”

  1. Sobre o enredo da Imperatriz, parece que Mandela foi jogado nesse “caldeirão” a esmo para justificar uma forma de homenagear a figura do Tata Madiba, que se foi ano passado. Para mim, é por aí.

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