Quem é leitor do Ouro de Tolo e tem o mínimo interesse pelo Carnaval, bem deve se lembrar do extraordinário trabalho do jornalista Fred Sabino no desenvolvimento da série Sambódromo em Trinta Atos. Comemorando os 30 anos da Marquês de Sapucaí, Fred, com o auxílio do editor-chefe Pedro Migão, escreveu 31 capítulos passeando, ano a ano, pelos desfiles que fizeram a história do palco maior do nosso samba. A repercussão da série foi ótima, do nível do excelente trabalho feito.

Pois quando a série já estava chegando em seu fim, surgiu a ideia de trazer a Sambódromo em Trinta Atos para São Paulo. A Passarela do Samba do Pólo Cultural Grande Otelo viverá em 2015 o seu 25º desfile e, portanto, coube a mim desenvolver a série “Bodas de Prata”, que também contará, ano a ano, a história de cada desfile do Carnaval paulistano desde 1991. A Bodas de Prata começa para valer só na segunda-feira que vem (e será publicada em todas as segundas), mas, hoje, o leitor deste blog já começa a entrar no ritmo da série com um texto sobre o que veio antes, sobre os muitos anos de folia na Praça Tiradentes e até os Carnavais anteriores em outros pontos da cidade.

O samba nasceu em São Paulo com uma característica diferente do Rio de Janeiro, que Plínio Marcos chamava de “samba de trabalho, durão, puxado para o batuque”, com um andamento mais acelerado que, anos depois, faria alguns sambistas cariocas dizerem que o que se fazia aqui na Terra da Garoa não era exatamente samba. Para os padrões atuais, seria um andamento até bem lento, mas, à época, era de fato mais veloz.

Tal como na Cidade Maravilhosa, os sambistas paulistanos não só sofreram preconceito, como também foram perseguidos pela Polícia e marginalizados pela sociedade. Apenas em 1885 a Prefeitura organizou o primeiro desfile de cordões carnavalescos e, aos poucos, os grupos foram aumentando. Em 1914, nasceu na Barra Funda o Grupo Carnavalesco Barra Funda. De camisas verdes e calças brancas, eles desfilaram pelas ruas do bairro até a década de 1930, quando foram oprimidos por serem confundidos com membros da Ação Integralista Brasileira. O grupo se tornaria futuramente o Cordão e, posteriormente, a escola de samba Camisa Verde e Branco.

Em 1933, pela primeira vez houve uma competição de fato no Carnaval paulistano. A Taça Arthur Friedenreich foi disputada por dois cordões – da Barra Funda e Bahianas – e dois blocos – o do Boi e o da Mocidade. Não há dados sobre o vencedor. Em 1934, o Cordão Vae-Vae, atual escola de samba Vai-Vai, faturou seu primeiro título. Em 1935, as apresentações ganharam outra dimensão, com um grande desfile na Avenida Libero Badaró, que envolveu 35 agremiações entre grupos, blocos, cordões e ranchos.

lavapesEm 1937, a festa foi transferida para a Avenida São João, onde pela primeira vez houve um desfile de escolas de samba, que concorreram ao lado de blocos e cordões. Na década de 40, os desfiles do Rio de Janeiro começaram a ganhar certa fama, o que atraiu atenção da população paulistana para a folia local, promovendo o crescimento dos blocos, escolas e cordões. Em 1941, foi organizado um desfile pré-Carnaval no Largo do Arouche, com a participação, entre outros, do Cordão Camisa Verde e Branco e de três escolas de samba: União Filme do Brasil, Primeira de São Paulo e Lavapés (foto).

No mesmo pré-Carnaval, aliás, as campeãs vigentes em São Paulo e no Rio – União Filme do Brasil e Portela – disputaram em 1940 um “Rio-São Paulo” de escolas de samba. Nomes famosos da Águia de Madureira, como Paulo da Portela, vieram a São Paulo e, na apuração, a escola carioca não superou a paulista, sendo que as duas somaram 117 pontos. Nos desfiles oficiais, o Bloco do Clube Ruggerone, formado em sua maioria por italianos da Lapa, se sagrou campeão.

Com o tempo, as escolas de samba foram crescendo, crescendo e gerando uma rivalidade forte com as de Santos. Quem tinha o melhor carnaval do estado? Em 1954, a Brasil de Santos veio desfilar na Capital e, em 1955, terminou empatada em primeiro lugar com a Garotos do Itaim Paulista. Em 1956, surgiu a Unidos do Peruche, sete anos mais tarde que outra das mais tradicionais escolas da cidade, a Nenê de Vila Matilde.

nenecampea

Na década de 60, novas escolas vão surgindo, como o Morro da Casa Verde e a Unidos de Vila Maria. A festa foi crescendo de tal maneira que o Prefeito Faria Lima, carioca de Vila Isabel, oficializou os desfiles da Avenida São João em 1968. Deste ano até 1970, domínio da tricampeã Nenê de Vila Matilde. Logo no início da década de 70, a Mocidade Alegre surge de um Bloco de Sujos liderado por Juarez da Cruz e se torna rapidamente uma grande potência do Carnaval paulistano.

Em 1972, os cordões param de receber financiamento da Prefeitura e são chamados para competir com as escolas. Vai-Vai e Camisa Verde e Branco chegaram com tudo, tendo o Trevo da Barra Funda vencido um tetracampeonato de 1974 a 1977, esse o primeiro desfile realizado na Avenida Tiradentes com o inesquecível samba-enredo do próprio Camisa, “Narainã, a Alvorada dos Pássaros”. Em 1978, é a vez da escola do Bixiga levantar a taça como escola pela primeira vez.

Camisa Verde e Branco-1977
https://www.youtube.com/watch?v=l55-X6DYNEQ

vaivaiA chegada da Avenida Tiradentes e sua passarela de mais de 700m provocou uma mudança na evolução das escolas que, por não conseguirem preencher todos os espaços da Avenida, “ziguezagueavam” pela Passarela. Em 1979, o Trevo da Barra Funda fez mais uma apresentação memorável e se sagrou campeão com o enredo “Almôndegas de Ouro”. Durante a década, novas potências foram surgindo, como a Rosas de Ouro e, em 1979, a Pérola Negra, que terminou em um impressionante quinto lugar no ano de seu debute.

Em 1980, o Carnaval de São Paulo viveu um momento histórico no desfile da escola de samba Príncipe Negro. Aos 19 anos, uma mulher, Eliana de Lima, puxava a escola na Avenida Tiradentes. Nos anos seguintes, ela seria uma das melhores intérpretes da cidade. A história porém se deu mais pelo grande desempenho da cantora, visto que três anos antes Ivonete havia puxado a Acadêmicos do Tatuapé. O desempenho de Eliana, no entanto, quase apagou Ivonete da memória dos sambistas paulistanos.

Falando em intérprete, a Cabeções de Vila Prudente surpreendeu ao contratar o grande Dom Marcos para o Carnaval de 1981. O que ninguém esperava, no entanto, era o samba da Verde e Rosa. Em minha modesta opinião, “Do Iorubá ao Reino de Oyó”, composto pelo próprio Dom Marcos, é o melhor samba da história do Carnaval Paulistano e até hoje é muito cantado, mesmo com a escola estando inativa. Nesse ano de 2014, por exemplo, a Unidos de Padre Miguel esquentou com esse samba na Sapucaí antes de seu desfile pela Série A. A apresentações dos Cabeções, no entanto, decepcionou e a agremiação foi rebaixada.

Cabeções de Vila Prudente-1981
https://www.youtube.com/watch?v=QIsmYeyOl7k

Tanto em 1981, quanto em 1982, a Vai-Vai bateu a Nenê de Vila Matilde que, no entanto, trouxe dois sambas memoráveis: “Axé, sonho de Candeia” e “Palmares, raiz da Liberdade”. A safra de 1983 foi ainda melhor. A Flor da Vila Dalila e a Nenê de Vila Matilde apresentaram outras obras inesquecíveis, mas não conseguiram tirar o título da Rosas de Ouro, que cantou a São Paulo antiga com o enredo “Nostalgia”. Com a vitória, o presidente Eduardo Basílio decidiu abandonar os enredos afro para trazer temas tipicamente paulistanos.

No ano seguinte, a Roseira levou o seu segundo título homenageando a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em um ano muito disputado, no qual Vai-Vai, Nenê e Mocidade Alegre fizeram apresentações de altíssimo nível, a União Independente da Vila Prudente levantou a Passarela com sua homenagem à Elis Regina. A Águia de Ouro também fez uma excelente estreia na primeira apresentação “solo” de Royce do Cavaco, mas acabou rebaixada.

Uma novidade a poucos meses do Carnaval de 1985 colocou todas as escolas de cabeça para baixo: a campeã daquele ano desfilaria na Marquês de Sapucaí no Desfile das Campeãs. Preocupadas em representar bem o samba paulistano, as escolas apresentaram um Carnaval luxuoso, vencido pela Nenê de Vila Matilde, que não levantava a taça havia 15 anos. A Barroca Zona Sul poderia ter levantado a taça, mas perdeu seis preciosos pontos por estourar o tempo máximo de desfile.

Ainda em 1985, um “racha” na UESP provoca uma briga entre grandes nomes do samba paulistano como Eduardo Basílio, Thobias da Vai-Vai e Seu Nenê. Daí, surgiu a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, que passou a organizar os desfiles dos dois primeiros grupos – o primeiro passando a se chamar Grupo Especial – já em 1986. Aos poucos, as escolas paulistanas foram deixando de desfilar em “zige-zague” e foram promovendo um intercâmbio com o Rio de Janeiro. Intérpretes e Carnavalescos começaram a chegar na Terra da Garoa para abrilhantarem a festa local. Nos microfones, Carlinhos de Pilares e Armando da Mangueira foram alguns dos primeiros.

Depois de alguns anos sem sambas memoráveis, 1988 traz “Catopés do milho verde – de escravo a Rei da Festa”, da Colorado do Brás, que, sem alegorias, acaba rebaixada. O título ficou com o memorável desfile da Rosas de Ouro chamado “Boa noite São Paulo – um convite para amar”, que foi brilhantemente interpretado por Royce do Cavaco. No ano seguinte, foi a Unidos do Peruche quem impressionou com um desfile luxuosíssimo pensado pelo genial Joãosinho Trinta que, ao lado de Laíla, desenvolveu o enredo “Os sete tronos dos orixás”, que foi cantado por Jamelão.

A Filial do Samba, no entanto, perdeu um polêmico título para o Camisa Verde e Branco conquistado, entre outras coisas, pela “ajuda” de Dona Zica, torcedora declarada da escola e que só deu nota 10 para o Trevo da Barra Funda. Em 89, o destaque fica por conta da estreante Leandro de Itaquera com o único samba que talvez possa superar o de 1981 do Cabeções de Vila Prudente. Cantado por Eliana de Lima e acompanhado pela sempre firme bateria de Mestre Lagrilla, a Leandro surpreendeu com o tema “Babalotim, a história dos afoxés”.

Em 1990, algumas polêmicas. A primeira foi a chegada da primeira escola de samba ligada a uma Torcida Organizada de um time de futebol ao primeiro grupo. Muito superior às concorrentes, a Gaviões da Fiel foi quase que intimada a deixar o concurso de blocos e virou escola de samba sendo, digamos, alçada direto ao Grupo de Acesso em 1989. Vice-campeã, chegou ao Especial. A Nenê de Vila Matilde viveu um dos piores momentos de sua história. Semanas antes do desfile, o Carnavalesco Antônio Carlos teve sérios desentendimentos com integrantes da escola e, no dia da retirada das alegorias do barracão para a Avenida, duas carretas impediam a passagem das alegorias pela sede da escola. A Nenê foi a oitava colocada, salvando-se por pouco do rebaixamento. Pela primeira vez em muitos anos, o título foi dividido entre duas agremiações: o Camisa e a Rosas de Ouro.

A história do Carnaval Paulistano encerrava mais um capítulo naquele Carnaval de 1990. Para 1991, era hora de fixar morada em uma “casa própria”, escrever o mais longo capítulo de sua existência. E, parte dele, a gente pelo menos tenta contar a partir da próxima semana.

11 Replies to “Bodas de Prata: “O Carnaval de São Paulo antes do Anhembi””

  1. Muito legal o texto!

    Porém, permitam-me fazer 3 correções em uma mesma citação:

    “Depois de alguns anos sem sambas memoráveis, 1988 traz “Catopés do milho verde – de escravo a Rei da Festa”, da Colorado do Brás, que, sem alegorias, acaba rebaixada. O título ficou com o memorável desfile da Rosas de Ouro chamado “Boa noite São Paulo – um convite para amar”, que foi brilhantemente interpretado por Royce do Cavaco.”

    Vamos as correções:

    1 – Quem venceu o carnaval de 1988 foi o Vai-Vai;
    2 – O enredo da Rosas era “Carvalho – Madeira de Lei” e a escola ficou em sexto lugar;
    3 – O enredo “Boa Noite São Paulo” é do Camisa Verde.

    Abraços,

    1. Este enredo do Camisa “Um convite para amar” foi citado no samba de 2004, que homenageava o bairro da Funda nos 450 de São Paulo.

  2. Muito legal esse início, relembrar os grandes desfiles da Tiradentes foi uma grande sacada, puxando um pouco a sardinha pra minha escola, o desfile de 1980 da Mocidade foi um marco na época, e a Leandro em 89 com Babalotim foi um espetáculo, o samba era irresistível, muito bom ver a história do samba paulistano no Anhembi contada ano a ano a partir da semana que vem, serei um leitor assíduo da coluna. Só me resta dar os Parabéns merecidos ao Leonardo Dahi e ao Pedro Migão, obrigado por aceitarem a sugestão desse mero leitor, Obrigado.

  3. Olá. Excelente post.
    Como o Rodrigo pontuou acima, foi a Vai-Vai a campeã de 1988 e com um samba que eu considero sensacional:
    http://www.vaivai.com.br/exibesamba.asp?id=17
    http://www.vaivai.com.br/sambasenredo.asp
    A Peruche esteve inesquecível com seu samba afro cantado por Eliana de Lima, fato que se repetiria em 1989 com o Mestre Jamelão e enredo desenvolvido por Joãosinho Trinta.
    O triênio 1987/1988/1989 foram alguns dos melhores em termos de samba-enredo em minha opinião.
    E em 1990 tivemos novamente Joãosinho Trinta … Que o Leonardo nos mostrará no próximo post …

  4. Josué,a série vai começar em 1991,ele encerra o texto citando o Carnaval de 1990. ”A história do Carnaval Paulistano encerrava mais um capítulo naquele Carnaval de 1990. Para 1991, era hora de fixar morada em uma “casa própria”, escrever o mais longo capítulo de sua existência. E, parte dele, a gente pelo menos tenta contar a partir da próxima semana.”

  5. Que bom que começaremos 25 (Ou 26?) atos de samba paulistano. Justo e digno!
    Minha única ressalva é o período em que a série está se desenvolvendo. Gostaria que ela “segurasse” um pouco (Pelo menos mais 1 mês) para poder contemplar o carnaval 2015 em seu acontecimento…

    Um pedido: referências bibliográficas, por favor! Qualquer link com as informações ricamente depositadas neste texto são bem-vindas. Muitas delas eram de total novidade para mim!

    Mais uma vez, obrigado por nos contemplar com esta série!
    Serei um assíduo leitor, como fui dos 30 atos.

    1. Fellipe, a série se encerra imediatamente após o carnaval, porque irá parar durante Natal e Ano Novo. Abraços

Comments are closed.