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A segunda coluna da série “Sambódromo em 30 Atos”, do jornalista esportivo Fred Sabino, relembra o Carnaval de 1985, marcado por inúmeras polêmicas nos bastidores, pela criação da Liesa, e pela magnífica conquista da Mocidade Independente de Padre Miguel de Fernando Pinto.

“1985: Polêmicas universais e uma Mocidade de outro planeta”

Depois do sucesso do primeiro desfile das escolas de samba na passarela definitiva, a segunda apresentação também foi recheada de grandes momentos. Mas se em 1984 as polêmicas se restringiram às vésperas do Carnaval, em 1985 houve confusão e disse-me-disse antes, durante e depois dos desfiles.

Ainda em 1984, as agremiações do primeiro grupo fundaram a Liga Independente das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro, que ficou conhecida como Liesa. Sob o comando de Castor de Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, a Liesa era uma ruptura em relação à Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro (AESCRJ) e tinha como objetivo gerenciar os desfiles e repartir os lucros entre as agremiações. Ao longo dos anos, ficou como praxe as escolas ascendentes à elite se integrarem à Liesa enquanto as rebaixadas voltavam a ser filiadas à AESCRJ.

Com o passar do tempo, a Liesa aumentou a receita das agremiações em função das negociações de direitos de televisão e vendas dos discos (depois CDs), mas em algumas ocasiões viu-se envolvida em discussões acaloradas dos sambistas em relação ao acesso e descenso de escolas.

No ano de inauguração do sambódromo, a expectativa era pelas Diretas Já. Só que em 1985 o horizonte desejado era o do sucesso da Nova República. Vivia-se a expectativa da posse de Tancredo Neves, primeiro presidente civil desde 1964, mas, como todo mundo sabe, este morreu e nem chegou a assumir, com José Sarney herdando o cargo…

A tão esperada volta da democracia se refletiu nas escolhas dos enredos e dos sambas. Escolas emergentes como a Caprichosos de Pilares, a Unidos do Cabuçu e a São Clemente apostaram as fichas na crítica social e escrachada, em uma receita que seria seguida em anos posteriores até por agremiações tradicionais.

Antes dos desfiles, havia uma grande expectativa em relação à Estação Primeira de Mangueira. A supercampeã de 1984 apostava em outro enredo de fácil leitura, sobre Chiquinha Gonzaga, e o samba, embora não tão bom como o de 1984, era dos mais executados na fase pré-carnavalesca.

Também vencedora em 1984, a Portela tentaria mais um caneco com o enredo “Recordar é viver”, sobre a noite carioca de outrora. Mas a maior campeã do Carnaval sofria com a dissidência de inúmeros integrantes, que, insatisfeitos com os rumos da escola, fundaram uma nova agremiação chamada Tradição.

Havia também boas projeções para o desfile da Mocidade. Afinal, o gênio Fernando Pinto apostaria numa temática bem diferente da que vinha adotando nos desfiles da Verde e Branco: os aspectos tropicalistas e nacionalistas deram lugar às espaçonaves e planetas em “Ziriguidum 2001”.

Outras escolas também prometiam, como a Beija-Flor e um enredo bem diferente proposto por Joãozinho Trinta – vamos abordá-lo mais adiante -, a Caprichosos, com um samba-enredo que caiu no gosto popular antes mesmo do desfile – embora seu estilo, digamos, coloquial tenha feito Fernando Pamplona chamá-lo de marchinha -, sem contar agremiações de peso como Salgueiro, Império Serrano e Vila Isabel.

OS DESFILES

O desfile de domingo começaria já com atraso, aliás um fato que seria muito desagradável em 1985. De volta ao primeiro grupo, a Em Cima da Hora levou à avenida a situação dos nordestinos que deixavam a região em busca de uma vida melhor no Rio de Janeiro.

Uma comissão formada pelos carnavalescos Edson Mendes, Cid Camilo, Sérgio Garcia e Amarildo Costa dividiu o enredo em três partes: a chegada ao Rio, as dificuldades no novo lar, e o divertimento dos retirantes, como a feira de São Cristóvão e o Maracanã.

No entanto, a falta de recursos era patente nas pequenas alegorias e havia apenas 1.500 componentes. Apesar do bom samba e da cadência da bateria, dificilmente a escola ficaria na elite, até porque houve atraso na armação e o regulamento previa punição.

A segunda escola a desfilar foi a Unidos do Cabuçu, que contou de forma bem-humorada a história política do Brasil e sonhava com um futuro melhor para o povo. O enredo falava da opressão sofrida pelos índios e depois pelos escravos, além de questionar a independência.

A Cabuçu também não tinha como investir em alegorias e fantasias luxuosas, e por isso mesmo segurou-se na garra dos componentes e no agradável samba, que dizia: “Os índios antes livres foram massacrados / Trocaram sua tanga pela calça Lee.” Mas a bateria, também bastante cadenciada e com bons desenhos de tamborins, foi o ponto alto do desfile.

Outra escola que vinha com bom samba era o Império da Tijuca, que homenagearia o pianista e ator Custódio Mesquita. O conjunto visual respeitava o verde e branco da escola e tentou retratar o Rio de Janeiro dos anos 1910 a 1940.

Mas as quebras de três alegorias acabaram atrapalhando a divisão do enredo, que ficou um tanto confuso. Mesmo assim, nos quesitos de pista, a escola tijucana foi superior às que a antecederam e havia chances de permanência no grupo.

Das escolas chamadas grandes, o Salgueiro foi o primeiro a pisar na pista da Sapucaí, homenageando Getúlio Vargas. Os especialistas se dividiram: houve os que aprovaram a forma como os carnavalescos Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo dividiram o enredo, e outros acharam que houve uma ode exagerada ao presidente.

E foi justamente o salgueirense Fernando Pamplona o maior crítico: “Pra mim pessoalmente não vejo diferença em um terço de ditadura, meia ditadura ou ditadura inteira. Estou triste com o meu Salgueiro querido, porque depois de tantos anos cantando a liberdade, absolutamente a liberdade, homenageia um ditador fascista. E mais triste ainda porque isso me cheira a puxação de saco, coisa que o Salgueiro nunca fez”, disparou o antigo carnavalesco da escola, lembrando da fase do Estado Novo e acusando a diretoria de tentar a simpatia do então governador Leonel Brizola, grande entusiasta de Getúlio.

Com Haroldo Costa na comissão de frente, o Salgueiro começou o desfile com um busto de Getúlio no abre-alas, numa mostra do bom conjunto visual que viria a seguir – destaque para o carro do Palácio das Águias, como também era conhecido o Palácio do Catete, antiga sede da Presidência.

O desfile mostrou ainda as tradições do Rio Grande do Sul, estado natal de Getúlio, relembrou a trajetória política do estadista e retratou os dias finais que culminaram no suicídio de Vargas, em 1954. Apesar de não empolgar, o samba era correto, e a escola teve bom canto.

Mas o destaque absoluto do desfile foi a bateria de Mestre Louro, com excelente andamento e até coreografias como a que os ritmistas se abaixavam e subiam nos primeiros versos do samba. O Salgueiro fez um desfile melhor do que nos anos anteriores, mas título era outro papo.

Já a União da Ilha foi uma grande decepção. Mesmo com a excelente bateria e um samba ótimo tecnicamente (diga-se de passagem com a primeira atuação de Quinho como primeiro cantor da escola), o tema que falava sobre a Revolta da Chibata, convenhamos, não tinha nada a ver com que a Tricolor sempre fez de melhor, ou seja, apresentar enredos leves e de boa comunicação com o público.

Os problemas começaram já na concentração com a quebra do abre-alas, que teve de ser puxado para a pista por um guincho. Com o grande atraso para o começo do desfile, havia a expectativa de uma punição na apuração.

Além disso, apesar de a Ilha ter tido muitos recursos para a confecção de bonitas alegorias e fantasias, o enredo não foi transmitido de forma cristalina, tudo pesado demais para o perfil da escola. Destaque para a homenagem a Elis Regina pela canção “Mestre-Sala dos Mares”, que homenageava João Cândido, o líder da revolta contra os castigos na Marinha brasileira. Um desfile arrastado, em resumo.

vila1985Se a Ilha decepcionou, a Vila Isabel fez excelente apresentação. Com o enredo “Parece até que foi ontem”, o carnavalesco Max Lopes, que havia concebido o enredo supercampeão da Mangueira de 1984, promoveu um mágico passeio pelo imaginário infantil e homenageou personagens genuinamente brasileiros de autores como Maria Clara Machado, Monteiro Lobato e Maurício de Souza.

Não faltaram os personagens do Sítio do Picapau Amarelo e da Turma da Mônica, representados por componentes em ótimas fantasias. Já as alegorias, além de bonitas esculturas, mostravam a natureza usada nos cenários desses personagens.

Chamou a atenção o fato de as alas distribuírem guloseimas durante o desfile, que teve um dos momentos de maior participação do público na entrada de Jairzinho e Simony, que viviam o auge da fama na Turma do Balão Mágico.

Falando em balão, o samba do grande David Corrêa (que venceu uma polêmica eliminatória e foi criticado por ser um “forasteiro” na Vila) funcionou muito, principalmente no famoso refrão que falava dos balões. Diga-se de passagem, havia um grande balão posicionado na Praça da Apoteose.

A escola teve falhas de evolução, mas ainda assim foi a melhor apresentação até aquele momento, e o fato de a escola ter desfilado no amanhecer deu ainda mais magia ao momento.

mangueira85Em seguida, viria a Mangueira, cercada por muita ansiedade. Com o sambódromo lotado, a escola realizou um dos seus desfiles mais erráticos. A começar pelo próprio desenvolvimento do enredo – o Migão fez um post sobre esse desfile.

Depois da saída de Max Lopes, a direção da escola optou por modernizar a concepção do desfile e mandou os carnavalescos Edinha Diniz, Bia Dumont e Elói Machado a Hollywood para um estágio nos estúdios de George Lucas, que vivia o auge da fama pela saga “Guerra nas Estrelas”.

O que se viu na pista foi um conjunto visual bem acabado, mas alegorias e fantasias sem criatividade. Para que se tenha ideia, até mais da metade do desfile, entraram alas vestidas apenas com fantasias claras, rosas ou até roxas. Enfim, um estilo fora do que o mangueirense estava acostumado. Destaque apenas para a comissão de frente, que tinha Leci Brandão representando Chiquinha. No mais, críticas:

“O carnavalesco Elói Machado não precisava viajar aos Estados Unidos…para lançar na Mangueira chafariz com mulatas em cima e carros envoltos em fumaça colorida”, apontou com razão o jornalista Luiz Eduardo Rezende em texto publicado no Jornal do Brasil.

Para piorar, pela primeira vez desde 1949 Jamelão não cantou o samba na Sapucaí porque tinha shows marcados em Nova York no fim de semana anterior ao desfile e seu voo atrasou. Com o grande compositor Jurandir tendo uma correta apresentação ao lado do veterano Dirceu da Mangueira, o samba explodiu no começo do desfile mas foi murchando, murchando…

E, por fim, o grande erro. A escola entrou na pista inchada como nunca, com mais de 5 mil componentes, muitos descompromissados com a então escola da moda no Rio. Evidentemente houve graves problemas de harmonia e evolução. O grande casal de mestre-sala e porta-bandeira Lilico e Mocinha, por exemplo, teve de se apresentar muito rapidamente nos módulos de julgamento e a bateria passou direto pelo box. Houve até uma ala que se dividiu em duas antes de entrar na pista e desfilou em momentos distintos.

Mesmo ocupando bem a Apoteose e recuperando o fôlego do começo do desfile, a Mangueira desperdiçou uma ótima possibilidade de brigar por uma boa colocação com tantos grandes equívocos.

Mas se o público se decepcionou com a Mangueira, depois percebeu que valeu muito a pena ficar na arquibancada sob sol forte.

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Isso porque a Mocidade realizou uma apresentação histórica para encerrar o primeiro dia de desfiles “projetando” como seriam os personagens do nosso folclore e o próprio Carnaval no século XXI no espaço.

Embalado por um grande samba-enredo da parceria formada por Tiãozinho da Mocidade, Gibi e Arsênio, pela voz do intérprete Ney Vianna e pela Bateria Nota Dez, os componentes não ligaram para o calor fortíssimo e desfilaram com uma garra impressionante – houve até alguns desmaios durante a passagem da escola.

mocidade85bO espetáculo começou com uma criativa comissão de frente, com 14 crianças vestidas de astronautas, e carregando bandeirinhas do Brasil – entre os componentes, o futuro cantor e compositor Dudu Nobre. Após a comissão, um pede-passagem com os dizeres “Um Corso na Lua”.

A concepção de desfile do genial Fernando Pinto encantou do começo ao fim. No imaginário do carnavalesco, desfilaram os pierrôs e colombinas siderais, o bumba-meu-boi com três cabeças e os caboclinhos marcianos. Já as baianas e a bateria desfilaram com figurinos que tinham capacetes e asas. E, claro, a exuberância da madrinha de bateria Monique Evans no auge da beleza também ajudou a proporcionar um espetáculo memorável.mocidade85c

mocidade85bMas o grande momento foi desfile foi a entrada da tão aguardada alegoria da nave-mãe, que levava em discos voadores os componentes de uma escola de samba (no caso, da própria Mocidade), como mestres-sala e porta-bandeiras, baianas e bateria, rumo ao espaço.

Apesar de problemas que impediram a entrada da alegoria de um dragão que cuspia fogo, o brilho dos carros acabou sendo fantástico com a luz do sol. Um momento monumental dos desfiles de escolas de samba.

Mesmo com oito escolas ainda a desfilar na segunda-feira, entre elas Beija-Flor, Império Serrano e Portela, a Mocidade deixava a Praça da Apoteose já como favorita ao título, aclamada pelo público e pelos críticos carnavalescos.

O desfile de segunda-feira acabaria até rendendo boas apresentações, mas nenhuma no nível da Mocidade. Pior: foi o dia mais caótico da história do sambódromo. Dificilmente tantas confusões e atrasos se repetirão algum dia.

Os trabalhos começaram com uma valente exibição da São Clemente na defesa do enredo “Quem casa, quer casa”, sobre o direito à moradia do povo brasileiro. A escola estreou na elite do Carnaval mostrando a crítica contundente que a marcaria no fim dos anos 80.

A comissão de frente estava supercriativa, com diversos pares de recém-casados à procura de um lar. Havia alas de homens com barrigas de pano e trouxas na cabeça, além de noivas grávidas, presidiários e ciganos. Até a “moradia” após a morte, ou seja, no cemitério, foi lembrada.

Mas a São Clemente era outra agremiação sem o poderio econômico das grandes, e as alegorias infelizmente eram uma lástima. Os destaques foram a garra dos desfilantes e o samba-enredo escrito e cantado por Izaías de Paula que não tinha meias-palavras. Mas ficar na elite era difícil com tantos percalços.

Houve uma gigantesca demora na entrada da segunda escola a desfilar, a Acadêmicos de Santa Cruz. Também estreante no primeiro grupo, a escola da Zona Oeste já era cercada por ceticismo devido ao enredo sobre o colunista social Ibrahim Sued.

Para piorar, houve o choque de uma das alegorias com um carro da Beija-Flor, causando um enorme transtorno. Chegou-se a cogitar uma inversão de desfile com a Estácio de Sá, mas, depois de mais de duas horas, finalmente a Santa Cruz desfilou. Mal como se imaginava…

Houve até uma boa injeção de recursos no barracão, com o auxílio do próprio homenageado e de amigos. Mas, se havia até luxo nos figurinos, faltava organização. Houve dificuldades para levar à Sapucaí a própria alegoria em que desfilaria Ibrahim, uma representação de um carro Cadillac.

O fraco samba-enredo foi defendido pelo grande Aroldo Melodia e a bateria esteve cadenciada. Mas o desfile da escola foi sempre marcado por vaias dos setores populares e aplausos dos camarotes. Surgia, então, mais uma candidata forte ao descenso.

Já a Estácio de Sá se exibiu com um maravilhoso samba sobre o choro (ganhou o Estandarte de Ouro na categoria) e fez uma apresentação que certamente a deixaria longe de qualquer risco, apesar de o conjunto visual não ter sido dos mais impactantes.

Foram utilizados diversos corações em fantasias e alegorias, a mais interessante a que homenageou Pixinguinha e o choro “Carinhoso”. Houve ainda elementos que lembraram de outras canções como “Tico-Tico no Fubá”, “Urubu Malandro” e “Brasileirinho”.

Dominguinhos esteve impecável na condução do samba. Os componentes evoluíram bem e o público cantou com a escola, que claramente só não ficaria mais acima na tabela por não ter mais recursos.

Depois do desfile da Estácio, mais atraso: o carro abre-alas da Imperatriz Leopoldinense quebrou na armação e não havia quem conseguisse retirá-lo para a passagem das demais alegorias. O Império Serrano, que estava pronto, aceitou inverter a ordem do desfile e passou bem.

Mesmo com críticas dos imperianos mais tradicionais, os carnavalescos Renato Lage e Lílian Rabello desenvolveram com correção o enredo “Samba, suor e cerveja, o combustível da ilusão”, contando desde o surgimento da bebida no Egito até o grande consumo contemporâneo.

As alegorias aliavam criatividade, bom acabamento e o uso de modernos materiais como neón, exemplificado no elemento que transformava uma lata de cerveja em nave espacial. Havia tripés simbolizando a cevada e o lúpulo, além de uma divisão cromática que não ficava presa ao verde e branco da escola.

Cantado por Quinzinho, que voltava à escola depois de um ano na Ilha, o samba-enredo do imortal Beto Sem Braço funcionou, e a bateria deu o recado com competência. O Império saiu da pista credenciado a brigar por uma boa posição.

Mesmo com mais tempo para resolver seus problemas, a Imperatriz não conseguiu consertar o abre-alas, e o carro acabou abrindo o desfile rebocado por um guincho. E até que a agremiação de Ramos, que chamara o grande Arlindo Rodrigues às pressas para terminar a concepção do enredo “Adolã, a cidade mistério”, desfilou com dignidade, apesar de não ter os recursos financeiros do começo da década.

Com pouco tempo de trabalho, o carnavalesco conseguiu fazer milagre e utilizou muitos materiais espelhados para contar o difícil enredo sobre uma fictícia cidade na Ilha de Marajó que havia sido visitada por extra-terrestres e tinha habitantes com poderes incríveis como telepatia e vida longa.

O jovem Preto Jóia estreava no microfone principal da escola e contava com o auxílio de luxo de Sobrinho, que havia saído da Vila Isabel após a gravação do samba. A bateria esteve num grande dia, com o naipe de tamborins, como de costume na Gresil, “falando” bem alto. E foi só.

beijaflor1985Quem foi prejudicada pelo enorme atraso de seis horas na programação foi a Beija-Flor, que havia se preparado para desfilar à noite. Já com sol forte, a agremiação nilopolitana entrou com o criativo enredo “A Lapa de Adão e Eva”.

Joãozinho Trinta soube que o Pão de Açúcar era uma das formações rochosas mais antigas do planeta, então ele resolveu provocar e inventar: Adão era o primeiro malandro da Lapa e Eva na verdade era a primeira Garota de Ipanema. Daí ambos eram expulsos do paraíso da Lapa e perambulavam em Sodoma e Gomorra, no caso, a Praça Tiradentes. E, vejam só, os Tenentes do Diabo lutavam contra assírios e babilônios.

O delírio de João 30 foi retratado em alegorias e alas criativas e escrachadas – a bateria, por exemplo, tinha um figurino que era metade anjo, metade malandro carioca. Diz o samba-exaltação da escola que a Beija-Flor é “um festival de prata em plena pista”, mas pelo menos em 1985 o que se viu foi uma divisão cromática bem variada, o que deu ótimo efeito dada a proposta do enredo.

Com boas convenções, a bateria de Mestre Pelé sustentou bem o samba defendido por Neguinho, que ganharia o Estandarte de Ouro de melhor puxador. O samba-enredo, aliás, aproveitava o tom escrachado do tema e atacava aqueles que estavam preterindo o samba por outras tendências musicais: “o crioulo só quer ‘Michael Jekiar'”.

Depois do frio desfile de 1984, a Beija-Flor e João 30 reagiram muito bem e fizeram a melhor apresentação da segunda-feira no conjunto.

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Por volta das dez da manhã, entrou em cena a Caprichosos de Pilares. Depois do bom desfile sobre Chico Anysio em 1984, a Azul e Branca apostou no enredo “E por falar em Saudade”, do carnavalesco Luiz Fernando Reis. Ele dividiu a escola em três quadros: Saudade dos Costumes, Saudade dos Tempos Menos Piores e Saudade dos Antigos Carnavais.

Ou relembrar, como dizia o samba, “o que sumiu do dia a dia”, como “o leite sem água”, a “gasolina barata”, “o bonde”, “o amolador de facas”. Outra cobrança, como no desfile da escola em 1984, era a eleição direta para presidente e havia o lamento pelo roubo e derretimento da Taça Jules Rimet, conquistada em definitivo em 1970 após a Copa do México.

O samba era popular até a raiz dos cabelos, com o perdão da expressão. O refrão principal “Tem bumbum de fora pra chuchu/Qualquer dia é todo mundo nu” era divertidíssimo e a interpretação irreverente de Carlinhos de Pilares contagiou o público, que cantou com a escola do começo ao fim.

A escola não tinha os mesmos recursos das grandes, mas usou e abusou da criatividade, como uma alegoria em que o Palácio do Planalto era iluminado por um sol como uma esperança para a Nova República, e outra ironizando o jejum de títulos do Botafogo (desde 1968) com um bolo de aniversário.

Satirizando personagens polêmicos como Paulo Maluf e Delfim Netto, e criticando o sistema político nacional, a Caprichosos desfilou colorida sem ser pesada, conquistou a crítica e o público, e ganhou o Estandarte de Ouro de melhor escola.

É claro que plasticamente a Azul e Branco de Pilares devia em grandiosidade a outras escolas, e Mocidade e Beija-Flor fizeram melhores desfiles. Mas a agremiação de Pilares ficou orgulhosa de uma apresentação que seria a mais lembrada de sua história.

portela1985Já passava das 12h30 de terça-feira quando a Portela finalmente iniciou seu desfile. Depois de um lindo esquenta com Silvinho do Pandeiro (veja aqui), a Majestade do Samba fez uma exibição muito agradável, passando pelos antigos bailes, os cassinos e os teatros de revista, além dos próprios desfiles anteriores da Portela.

Dentre as alegorias mais interessantes apresentadas pelo carnavalesco Alexandre Louzada estava a do circo, com uma enorme lona azul e branca. Aliás, foram incondicionalmente respeitadas as cores da maior campeã do Carnaval.

Com a inesquecível bateria de Mestre Marçal e o belo samba de Noca da Portela, a escola passou bem mas não tão vibrante quanto poderia, principalmente por causa do horário desumano. Já eram 14h de terça-feira quando os últimos integrantes chegaram extenuados à Praça da Apoteose.

Mesmo assim, sem problemas de evolução, a Portela estava em condições de terminar nas primeiras colocações.

REPERCUSSÃO E APURAÇÃO

Terminado o desfile, a Mocidade Independente de Padre Miguel era a grande favorita ao título, com a Beija-Flor como única que poderia ameaçá-la, embora não se esperasse isso efetivamente.

Mas a apuração, apesar de ter confirmado a vitória da Verde e Branco, foi tumultuada. Duas escolas começaram perdendo dez pontos em Concentração: Em Cima da Hora e União da Ilha. Já Caprichosos e Portela perderam dez pontos em cronometragem, assim como a própria Ilha, que entrou na apuração com 20 pontos a menos. Mas as escolas recorreram e depois receberam todos os pontos de volta.

Isso mudou as colocações na parte de cima da tabela e a Portela ascendeu ao quarto lugar, à frente de Caprichosos, Salgueiro e Império Serrano, que terminaram num tríplice empate, Imperatriz e a decepcionante Mangueira. E a Ilha, que com as punições havia terminado em 15º e saído da apuração rebaixada, escapou…

Outra polêmica é que o regulamento previa a queda das últimas quatro colocadas, mas, de forma muito esquisita, a Unidos do Cabuçu conseguiu na Justiça o direito de permanecer no primeiro grupo por se sentir prejudicada com a anulação das punições por Cronometragem, leia-se da punição à Ilha. Unidos da Ponte e Unidos da Tijuca subiram do segundo grupo ao primeiro para o Carnaval de 1986, que teve um número ímpar de escolas: 15.

Lá em cima, a incontestável vitória da Mocidade não foi ameaçada, enquanto a Beija-Flor ficou com o vice-campeonato e a Vila Isabel conseguiu um comemorado terceiro lugar, seu melhor resultado isolado até então na história dos desfiles – em 1980, a Vila ficou em segundo, atrás das três campeãs, Portela, Imperatriz e Beija-Flor. Já a Mangueira amargou seu pior resultado até então.

RESULTADO OFICIAL

POS. ESCOLA PONTOS
Mocidade Independente de Padre Miguel 228
Beija-Flor de Nilópolis 222
Unidos de Vila Isabel 217
Portela 216
Caprichosos de Pilares 214
Acadêmicos do Salgueiro 214
Império Serrano 214
Imperatriz Leopoldinense 210
Estação Primeira de Mangueira 207
10º Estácio de Sá 200
11º Império da Tijuca 200
12º União da Ilha do Governador 186
13º Unidos do Cabuçu 182
14º Acadêmicos de Santa Cruz 180 (rebaixada)
15º São Clemente 179 (rebaixada)
16º Em Cima da Hora 160 (rebaixada)

CURIOSIDADES

– Depois da exclusividade da Manchete em 1984, Globo e Bandeirantes também transmitiram os desfiles. Galvão Bueno e Reginaldo Leme, vejam só, participaram da transmissão da Globo, assim como Fernando Vannucci. Na Manchete, um dos repórteres era o jovem e futuramente brilhante Marcos Uchôa e o slogan da emissora era “Rede Manchete pede passagem”.

– No Desfile das Campeãs, a Beija-Flor conseguiu se apresentar à noite e, enfim, mostrou os efeitos especiais que estavam programados para o desfile oficial. Já a Mocidade pôde apresentar um dragão que cuspia fogo. Também esteve presente a campeã paulistana Nenê de Vila Matilde, convidada pela Riotur.

– Durante o desfile da Portela, um extenuado Joãozinho Trinta foi flagrado pela transmissão da Manchete morgado num camarote ao lado da então primeira-dama Dulce Figueiredo.

– Dezesseis escolas desfilaram no primeiro grupo do Carnaval de 1985. Era um recorde na época e viria a ser quebrado em 1989, 1995 e 1996, quando dezoito agremiações se apresentaram.

– O responsável pela concepção do Carnaval da União da Ilha foi o jornalista Luiz Orlando, aquele mesmo que ficou conhecido na década de 80 por apresentar o programa “Camisa 9” na TV Corcovado, depois CNT.

– Foi o segundo e último ano em que as escolas foram obrigadas a evoluir na Praça da Apoteose. Em 1986, o espaço foi afunilado com cadeiras de pista e as agremiações passaram a dispersar de forma mais organizada. Crítico ferrenho da concepção da Apoteose, pela forma como componentes e alegorias ficavam amontoados, Fernando Pamplona chegou a chamar a praça de “maldita” durante o confuso desfile da Mangueira.

CANTINHO DO EDITOR (por Pedro Migão)

O carnaval de 1985 marcou também a estreia, pela Portela, do carnavalesco Alexandre Louzada – que, em 2014, volta à sua escola de coração e por onde começou.

1985 marca também o início de uma era no carnaval carioca. A dos enredos patrocinados. O desfile do Império Serrano sobre a cerveja foi patrocinado pela então Cia. Cervejaria Brahma.

Segundo matéria recentemente publicada pelo jornal “O Globo”, 1985 também marca uma “troca de guarda” na direção da Vila Isabel: a saída de Miro Garcia (que passaria ao Salgueiro) e a chegada de Ailton Guimarães Jorge (o “Capitão Guimarães”). A escola iniciaria uma escalada que a levaria ao título de 1988, curiosamente em um raro hiato da presença de Guimarães na escola.

Quando Jamelão chegou ao Setor 1 da Sapucaí, a Mangueira já estava na dispersão.

Vídeos

A histórica apresentação da Mocidade em 1985

Trechos da Mocidade no Desfile das Campeãs, à noite

O belo desfile da Beija-Flor

A irreverente e inesquecível passagem da Caprichosos

Fotos: Extra, O Globo, Portelaweb e reprodução de TV

10 Replies to “Sambódromo em 30 Atos – “1985: Polêmicas universais e uma Mocidade de outro planeta””

  1. Grande carnaval da Mocidade. E a marchinha da Caprichosos foi o samba mais tocado de 1985. O desfile foi sensacional. Na época, os bombeiros ainda molhavam o público por causa do calor com jatos d’água em mangueiras pressurizadas e o pessoal encharcado fazia coreografias nas arquibancadas já esvaziadas. Momento épico do desfile.

    1. A Portela encerrando o desfile às 14h é algo inacreditável e desumano! Imagina o que passaram os componentes.

          1. Mesmo com esse horário esticado o Sambódromo continuava cheio… hoje em dia é uma vergonha… dá meia-noite e já tem lugares vazios nas arquibancadas…

  2. Pedro o enredo da Portela nao era sobre sobre a noite carioca de outrora que eu saiba era sobre seus carnavais antigos não?O circo, Cassino da URCA etc

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