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Sambódromo em 30 Atos – “1986: Tamborim e samba no pé sacudindo essa galera”

A terceira coluna da série “Sambódromo em 30 Atos”, do jornalista esportivo Fred Sabino, nos leva ao marcante desfile de 1986, que teve um histórico embate entre a contagiante Mangueira, que levantou o público e acabou com o título, e a heróica Beija-Flor, que não deixou por menos e fez épica apresentação debaixo de um temporal poucas vezes visto na história dos desfiles.

1986: Tamborim e samba no pé sacudindo essa galera

Já com o sambódromo solidificado como casa definitiva dos desfiles de escola de samba do Rio de Janeiro, as escolas se prepararam para o primeiro Carnaval depois do fim da ditadura militar. Isso se refletiu na concepção dos enredos e sambas, ainda mais críticos do que os do ano anterior.

Das 15 escolas do primeiro grupo, Império Serrano, Caprichosos de Pilares, Portela, Imperatriz Leopoldinense, Unidos do Cabuçu, União da Ilha e Mocidade Independente de Padre Miguel fizeram enredos críticos politicamente ou ao menos resvalaram na satirização ou citação de aspectos da sociedade brasileira. Numa ruptura com a temática vista desde muito tempo, havia ansiedade por esses desfiles.

Ainda havia a expectativa para o desempenho da campeoníssima Mocidade Independente de Padre Miguel, que, desfalcada do gênio Fernando Pinto (brigado com o patrono Castor de Andrade), tentaria o bi com o enredo “Bruxarias e Histórias do Arco da Velha”. Outro problema prometia ser a posição de desfile (terceira no domingo), com o sambódromo ainda sem estar totalmente no clima.

Depois do caótico desfile de 1985, a Mangueira tentaria se reencontrar com um enredo sobre Dorival Caymmi e um samba que prometia. Outra com enredo de fácil leitura e com samba popular era a Beija-Flor de Joãozinho Trinta, que falaria sobre o futebol às vésperas da Copa do Mundo do México.

O Salgueiro, por sua vez, tentaria voltar às origens para reconquistar um título que não vinha desde 1975: o homenageado seria o brilhante Fernando Pamplona e os enredos concebidos por ele (Quilombo dos Palmares, Chica da Silva, Chico-Rei, entre outros) seriam revisitados. E a Vila Isabel, em alta após o desfile de 1985, também prometia com um tema sobre os países citados em marchinhas brasileiras.

OS DESFILES

O primeiro desfile de 1986 foi da Unidos da Ponte. De volta ao primeiro grupo, a simpática escola de São João de Meriti homenageou o cantor Herivelto Martins com um samba bastante agradável e uma bateria bem cadenciada – diga-se de passagem, a Ponte ainda desfilava com surdos que usavam couro natural e não sintético; estes ficavam só como reservas, em caso de chuva.

A agremiação tinha apenas os recursos da subvenção governamental e isso ficou patente no conjunto estético. Exceção feita ao carro do Theatro Municipal, as demais alegorias não tinham impacto ou um visual agradável. As fantasias, superiores, eram na maioria em branco ou prata.

O homenageado desfilou sozinho num pequeno queijo sobre o abre-alas, que era um grande violão prateado, e o público que ainda não lotava a Sapucaí aplaudiu. Ademais, o destaque da Ponte foi a lindíssima ala das baianas, toda em branco.

Também homenageando um artista, a Estácio de Sá pagou belo tributo a Grande Otelo. O enredo tinha o sugestivo título “Prata da Noite” e o samba-enredo escrito por Dominguinhos (que também era o cantor principal) e Darcy era muito gostoso.

A comissão de frente era formada por vários “Grandes Otelos” e mais homenagens foram vistas na ótima bateria, cujos componentes desfilaram com os rostos pintados de preto. Destacavam-se no desfile os muitos passistas, numa antítese da tendência que vinha permeando o Carnaval já naqueles tempos.

Em termos de alegorias, o destaque foi o elemento que simbolizava Macunaíma, um dos personagens mais marcantes de Grande Otelo, com muito verde e mulatas tomando banho de cachoeira. O verde, aliás, foi visto em diversas alas, assim como o dourado, com o vermelho e branco da escola sendo utilizados apenas pontualmente.

O artista passou na última alegoria ao lado de dezenas de mulatas e esbanjou a simpatia que lhe era peculiar. Foi o fecho de uma agradável apresentação, a melhor da Estácio na Era Sambódromo até então.

Os temores em relação ao desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel seriam confirmados na prática. A campeã de 1985 entrou bastante inchada na passarela, com quase 5 mil componentes, para defender o enredo sobre mandingas, bruxarias e afins, bolado pelos carnavalescos Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo (ex-Portela).

Além do amontoado de desfilantes e de falhas de evolução, o samba, embora bem escrito e muito bem cantado pelo Ney Vianna, não era explosivo como o de 1985, mesmo com um bonito trecho sutilmente exaltando a Nova República “Um novo tempo despontou/E vem trazendo amor/Ave sonhada, cristalizada/Raça dourada numa era de esplendor”.

O visual proposto era sem dúvida pertinente e alegorias e fantasias estavam bem acabados, mas os tons bastante escuros pesaram a escola a despeito de serem adequados ao enredo. Mas a Mocidade nos anos anteriores estava acostumada com o algo a mais que Fernando Pinto proporcionava. Nisso não houve o que fazer, e a Mocidade foi um tanto fria.

“O enredo falava de monstros, assombrações e despachos. Foi vodu demais e não houve descarrego de perfume de jasmim borrifado por toda a avenida que desse jeito”, carregou nas tintas o Jornal do Brasil.

imperioserrano86Se a Mocidade decepcionou, o Império Serrano passou com um de seus melhores desfiles na década de 80. Afinal de contas, o enredo “Eu quero” transmitia a todos o sentimento de aprisionamento vivido pelo povo brasileiro nos 20 anos da ditadura militar e as agruras vividas no dia a dia da época – muita coisa continuou valendo e ainda vale até hoje…

O samba, composto pelo grande Aluísio Machado e seus parceiros, foi exaustivamente executado no pré-Carnaval pelas rádios, estava à altura do enredo e ganhou com justiça o Estandarte de Ouro. O povo cantou principalmente o refrão central, que no fundo era um grande desabafo: “Me dá, me dá / Me dá o que é meu / Foram vinte anos / Que alguém comeu”.

Para completar, os carnavalescos Renato Lage e Lilian Rabello conciliaram leveza e bom-humor nas fantasias e alegorias, e respeitaram o verde e branco da escola. Enquanto um carro ironizava o crime do colarinho branco, outro tinha uma pistola que disparava flores pedindo paz e mais um levava cisnes e corações. Enfim, um grande desfile.

Mesmo no terceiro ano de sambódromo, o sistema de som voltou a falhar, e a harmonia do Império teve problemas. Também houve descompassos de evolução, que foi apressada para dar vazão aos quase 4 mil componentes – a bateria, que passou logo na cabeça da escola, não parou no box, o que aumentou a dificuldade com a harmonia. Mas o Império certamente alcançaria as primeiras posições.

Em seguida, a Vila Isabel passou bonita e luxuosa graças a mais um grande trabalho de Max Lopes, mas o desfile foi cheio de problemas. O enredo ”De Alegria Cantei, de Alegria Pulei, de Três em Três Pelo Mundo Rodei” era interessante e lembrava os países homenageados em nossas marchinhas de Carnaval.

Falando em marchinha, ou melhor, em samba, a obra do grande compositor David Corrêa em 1986 não foi das mais felizes de sua gloriosa contribuição ao Carnaval. A letra sugeria um trocadilho com palavrão num verso e trazia a palavra “sacanear” em outro. O trecho “Deixe isso pra lá / E vá na pura do barril”, claro, era cantado pelo público como “Deixe isso pra lá / E vá pra p… que p…”

Mas o grande problema foi a quebra do carro que homenageava a França, ainda na concentração. Isso gerou uma cratera na evolução por uma falha de comunicação – os diretores de harmonia eram os experientes Laíla e Waldir 59. As alas que estavam à frente continuaram evoluindo e integrantes da Riotur, sem perceberem que ainda havia escola para passar após a alegoria quebrada, fecharam o portão na entrada da pista.

Quem vinha atrás era justamente a ala das baianas e, tão logo o portão foi reaberto, as senhoras correram desesperadas para alcançar as alas que já estavam no meio da pista (veja aqui). É claro que a Vila se perdeu completamente.

Já a Caprichosos de Pilares fez uma feroz crítica à americanização do Brasil, mas, como o enredo era mais ácido do que o de 1985, não passou com a mesma alegria. Para que se tenha uma ideia, a sinopse do carnavalesco Luiz Fernando Reis criticava os “heróis consumistas e maléficos que divulgam um comportamento diferente da nossa maneira simples e tropical de se viver.”

No desfile, o nosso país era representado pelo herói Canariquito Brasilino da Silva, que lutava contra o Tio Sam e a águia dos Estados Unidos, que no fim do desfile aparecia depenada numa alegoria. Ao longo das alas mais críticas, havia faixas com dizeres como “Yankees go home” e “Brasil há quem te ama/há quem te U$A”.

Em outro setor do desfile, havia os personagens brasileiros de Maurício de Souza expulsando os personagens da Disney, e um time do Flamengo vestido como uma equipe de futebol americano.

Se antes do desfile, a Caprichosos foi criticada por representantes americanos no Brasil, Fernando Pamplona saiu em defesa da escola no debate do Estandarte de Ouro, de “O Globo”, que deu à Azul e Branco o título de melhor enredo: “Confesso que a escola apresentou um enredo que eu gostaria de ter assinado. Talvez tenha sido a maior tese que já vi em defesa de nossa cultura popular.”

portela86A Portela foi a escola que encerrou o primeiro dia de desfiles, com um criativo enredo sobre os sonhos teoricamente “impossíveis” de serem concretizados no Brasil, e também os pesadelos… Em um primeiro momento, o enredo realmente poderia não parecer ter a cara da Majestade do Samba, mas fato é que foi muito bem desenvolvido e a apresentação, das melhores.

O samba-enredo de Ary do Cavaco tinha trechos coloquiais como “pagar geral pro meu patrão (que é vacilão)” e foi muito bem cantado no desfile. E se o desejo da escola era o de um Brasil perfeito, “livre do FMI e da poluição”, a bateria do inesquecível Mestre Marçal esteve impecável, tanto que levou o Estandarte de Ouro daquele ano – na apuração, nem todos pensaram assim, mas isso é papo pra depois.

O conjunto visual proposto pelo carnavalesco Alexandre Louzada era bonito, com fantasias muito luxuosas e o uso de esplendores. As alegorias eram bem-humoradas, mostrando uma águia sentada numa praia com “sombra e água fresca” e outra representava o sonho de mais uma Copa do Mundo, afinal o México receberia a competição meses depois – um refrão do samba dizia “Vai meu time, arrebenta! / Até parece o escrete de 70”.

Como não houve os atrasos vistos em 1985, o bonito desfile da Portela acabou com o dia amanhecendo e o povão desceu da arquibancada para seguir a escola até a Apoteose – uma pena que essa imagem não seja mais vista…

A segunda-feira começou com um desfile bastante criticado da Unidos da Tijuca, que tinha um enredo, digamos, sugestivo e samba sarcástico, para não dizer trash, numa releitura bem peculiar dos pecados capitais. Desde antes mesmo do Carnaval, a escola foi tachada de vulgar e a proposta do carnavalesco Wany Araújo, de obscena.

Afinal, o que dizer de versos do samba como “Uma só mulher é pouco / Deixa o homem no sufoco / Com tantas que andam por aí”, “O arroz com feijão lá de casa é bom / Mas o cozido da vizinha é melhor”, “Lá vai o trouxa crente que está numa boa / Mas não sabe que a patroa está com o Ricardão / E sua filha tem fama de sapatão” ou “Tem piranha no almoço, tem virado no jantar / Pra quem tem fome qualquer prato é caviar”? O Migão já escreveu aqui sobre este desfile.

Fato é que a escola do Borel passou mal e ainda teve a quebra de um seus carros, o Motel dos Prazeres. O Jornal do Brasil pegou muito pesado: “No último carro viria a atriz Adele Fátima, fazendo em ritmo de samba o que se faz nos motéis ao ritmo de Roberto Carlos. Com tantas críticas, um conjunto visual fraco e componentes desanimados, a Tijuca era candidatíssima ao descenso.

joaosinho-1986-beija-flor2O problema na alegoria da Tijuca atrasou a entrada da Beija-Flor de Nilópolis. Entrada que, diga-se de passagem, já foi extraordinária, pois bandeiras dos clubes cariocas foram distribuídas no setor 1 e um foguetório digno de Maracanã nos bons tempos recebeu a escola.

O popular samba cantado por Neguinho caiu no gosto do público com o contagiante refrão central “Tudo em cima novamente / Sobrevoando a passarela/ Que beleza a Beija-Flor / Sacudindo esta galera”, mas tudo poderia ter ido literalmente por água abaixo. Uma chuvinha miúda que caía na concentração se transformou num temporal de proporções bíblicas. Mas, como em um estádio de futebol, a chuva em vez de esfriar, esquentou de vez a todos que estavam na Sapucaí.

Joãozinho Trinta esteve muito inspirado ao conceber o enredo “O mundo é uma bola”. Além de passear pelos ancestrais do futebol, segundo as pesquisas, na China, Japão e Afeganistão, o carnavalesco homenageou os grandes clubes do Rio, além de ídolos como Garrincha, falecido três anos antes. Ele ainda foi capaz de fazer um enorme “merchan” à bola Azteca da Adidas (que seria usada no Mundial daquele ano) sem ser criticado, pois a alegoria era muito bonita.

Havia também elementos que homenageavam os clubes do Rio de Janeiro e campeões do mundo como Jairzinho e Carlos Alberto Torres participaram do desfile. A famosa frase de João Saldanha de que “se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminaria empatado” foi sintetizada numa alegoria que abordava o misticismo no futebol.

Mesmo com um João 30 entorpecido no meio do temporal, a chuva acabaria atrapalhando a evolução da escola, já que, a partir dos 30 minutos, a pista do sambódromo ficou alagada, com a água nas canelas dos componentes. E os instrumentos da bateria também tiveram a afinação prejudicada.

De qualquer forma, foi uma apresentação extraordinária, que credenciava a Beija-Flor ao título a ponto de Fernando Pamplona dizer na transmissão da Manchete o seguinte: “Comparando com todas as escolas de ontem, por enquanto nenhuma chegou aos pés da Beija-Flor em termos de apresentação, de garra e de beleza. Uma exuberância excepcional, em forma de cor, de invenção dos carros. Houve um buxixo antes do Carnaval dizendo que estava tudo armado para a Beija-Flor. Recuso veementemente, é uma arma suja e descarada dizer que as coisas já estão armadas para determinada escola. Se a Beija-Flor ganhar, não acreditem em armação. Ela está mostrando ao Rio, ao Brasil e a todos vocês que ela veio para isto. E só vai perder se alguém vier melhor do que ela”.

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Depois da sensacional exibição nilopolitana, entrou em cena a União da Ilha. Mesmo concentrando debaixo do temporal, a escola conseguiu entrar na pista sem maiores problemas com alegorias e fantasias.

O brilhante carnavalesco Arlindo Rodrigues desenvolveu o enredo “Assombrações”, que, como o nome diz, contava medos como os dos índios quando viram as caravelas portuguesas na chegada ao Brasil, como o FMI ou o Imposto de Renda, este representada por um leão numa bela alegoria. Outro elemento belíssimo era o da assombração de Nhá Jança e sua carruagem no Maranhão.

O samba defendido pelo inesquecível Aroldo Melodia veio sustentado pela bateria do Mestre Paulão, para mim, a de cadência mais agradável daquele desfile. Se não foi tão impactante como a Beija-Flor, a Ilha se credenciava a brigar pelas primeiras posições.

Com um belíssimo samba-enredo, o simpático Império da Tijuca exaltou o bairro de origem, lembrando Estácio de Sá e a chegada dos jesuítas ao lugar, e o plantio do café, além da Floresta da Tijuca e seus pontos turísticos como a Vista Chinesa.

O Imperinho não tinha os recursos das grandes escolas, mas o carnavalesco José Félix, que depois faria bons trabalhos na Portela, respeitou o verde e branco da agremiação e concebeu alegorias e fantasias muito claras, que traduziam corretamente o enredo.

As escolas do bairro foram homenageadas e o refrão central do samba era perfeito “Desce o Morro da Formiga, do Borel e do Salgueiro / As escolas que incrementam nosso samba o ano inteiro”. Um agradável desfile, de muito samba no pé, que provavelmente manteria a escola no grupo.

Quinta a desfilar, a Estação Primeira de Mangueira entrou com tudo na passarela e apagou a má impressão do ano anterior com um de seus melhores desfiles. A escola resolveu resgatar suas tradições e convocou o carnavalesco Júlio Matos, artesão com formação popular, para desenvolver o enredo “Caymmi, Mostra ao Mundo o que a Bahia e a Mangueira Têm”.

Sem os patronos Zinho e Manola em 1986, a Mangueira estava em dificuldades financeiras, e Júlio Matos não ganhou nenhum centavo pelo trabalho. Pediu apenas que a escola doasse a ele os materiais que sobrassem, para reaproveitamento em sua oficina cenográfica. A primeira medida de Julinho na concepção do desfile foi resgatar o verde e o rosa mais fortes nas fantasias e alegorias, depois das críticas à divisão cromática da escola em 1985, na qual quase não houve verde.mangueira86b

Além de homenagear o grande cantor e compositor baiano, a Verde e Rosa fez um belo passeio pelos costumes, culinária, religiosidade e tradições baianas tão lembradas nas canções de Caymmi. A comissão de frente já agradou, com baianas típicas simbolizando a lavagem das escadarias do Bonfim e abrindo os caminhos para a Mangueira passar.

As alegorias, embora não tão grandes e luxuosas como as de outras escolas, contavam muito bem o enredo. Destacava-se um carro com esculturas de Netuno e Iemanjá para representar o mar tão cantado pelo artista. Outro elemento trazia uma enorme escultura de Carmen Miranda (foto) e depois passou a alegoria com o homenageado, que desobedeceu recomendações médicas e da família para estar na Sapucaí, abrindo um sorriso de orelha a orelha. Por fim, claro, um belo carro representando os orixás. Já as fantasias, bastante leves, permitiam ao componente evoluir com boa fluidez.

mangueira861O samba, que já prenunciava um grande impacto no desfile, comprovou isso com um rendimento impressionante. Depois da ausência forçada em 1985, Jamelão mostrou todo seu brilhantismo na condução do hino mangueirense de 1986.

A obra composta por Lula, Paulinho e Ivo Meirelles (que, diga-se de passagem, auxiliou bem Jamelão) está na boca dos mangueirenses até hoje. O refrão “Tem xinxim e acarajé / Tamborim e samba no pé”, além de outros versos como “Bahia terra sagrada / Iemanjá, Iansã / Mangueira supercampeã”, foram entoados do começo ao fim do desfile por público, componentes e até o governador Leonel Brizola, que dançava na beira da pista de forma um tanto desengonçada, mas alegre.

A bateria também esteve impecável e sustentou o samba com bastante firmeza ante à vibrante evolução dos componentes até a Apoteose. Sem dúvida a Mangueira estava na briga pelo campeonato com a Beija-Flor, com a vantagem de um melhor samba e de ter enfrentado menos percalços.

Após da vibrante apresentação da Mangueira, o Salgueiro prestou justa e bela homenagem a um de seus maiores nomes: Fernando Pamplona. A comissão de frente era formada por amigos do carnavalesco, como Albino Pinheiro, Arlindo Rodrigues e Maria Augusta.

A escola abriu o desfile com uma alegoria em formato de uma enorme cartola simbolizando a famosa frase do homenageado: “Tem de se tirar da cabeça aquilo que não se tem no bolso”. A cantora Joanna era o destaque do elemento.

Com bonitas fantasias e alegorias que Ney Ayan concebeu para remeter aos 12 carnavais assinados por Pamplona, o Salgueiro fez um desfile agradável, com um samba bem escrito e a sempre ótima bateria de Mestre Louro. Outro destaque foi a excelente apresentação do casal de porta-bandeira e mestre-sala Rita e Amauri – ambos ganhariam o Estandarte de Ouro de “O Globo”.

Pena que problemas num carro alegórico atrapalharam a evolução da escola, que com isso perderia pontos preciosos. Mas sem dúvida foi o melhor desfile do Salgueiro nos anos 80 até então.

Penúltima escola a desfilar, a Unidos do Cabuçu apresentou um enredo bem-humorado sobre a “História do Brasil” num sonho ao estilo do autor Stanislaw Ponte Preta, ou melhor, Sérgio Porto. A ideia, portanto, era levar à avenida algo delirante e escrachado. Mas o desenvolvimento deixou a desejar.

O que se viu na verdade foi um “Samba do crioulo doido” – não à toa, título da famosa canção escrita pelo jornalista. No enredo, Pedro Álvares Cabral chegava ao Brasil num avião de pano e via uma missa rezada por feiticeiros. Ou mesmo a Lei Áurea era assinada pela nega Clementina em cima de um fogão e Chica da Silva era uma moça “pura e sossegada”.

A escola não tinha grandes recursos e desfilou com apenas 1.500 componentes. Nem mesmo o samba era essa maravilha toda. Ao menos, a bateria se salvou e a escola não teve grandes percalços, o que poderia mantê-la no grupo, já que apenas uma escola cairia e a Unidos da Tijuca foi um desastre.

Quem também atravessava uma crise financeira era a Imperatriz Leopoldinense, que, no entanto, fez um alegre desfile falando sobre a esperança da Nova República, segundo a sinopse, “pela simbologia das bandeiras e suas correspondentes influências no comportamento do brasileiro”. Mas o conjunto alegórico realmente não era dos melhores.

A comissão de frente agradou, com integrantes do Cacique de Ramos e em seguida, como o enredo prometia, muitas bandeiras, dos estados da nação, de clubes de futebol e escolas de samba. As fantasias estavam melhores, mas havia um desnível entre os carros, com destaque apenas para o abre-alas que tinha amazonas cavalgando.

Outro elemento tinha a reprodução de um CIEP e imagens de Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer, simbolizando a esperança de uma nova juventude e, claro, isso não deixava de ser um agrado ao vice-governador e responsável também pela criação do sambódromo com o grande arquiteto.

O samba-enredo do grande compositor Tuninho Professor (que também foi o intérprete oficial) era animado e a bateria teve uma grande atuação, com agradáveis desenhos de tamborins. Mas nem a garra dos componentes levaria a Imperatriz às primeiras posições devido à falta de recursos patente no desfile.

REPERCUSSÃO E APURAÇÃO

Terminados os desfiles, a Beija-Flor (que ganhou o Estandarte de Ouro de Melhor Escola) e a Mangueira despontavam como favoritas, mas Portela e Império Serrano, com suas ótimas exibições de domingo, também apareciam com chances.

Na apuração, as expectativas se confirmaram e Mangueira e Beija-Flor ficaram sempre à frente, mas uma nota causa revolta dos portelenses até hoje: convidado para julgar o quesito Bateria, o jogador de futebol Sócrates, então no Flamengo, aplicou 10 para oito escolas, mas nota 9 para a Portela, considerada uma das melhores daquele desfile. Mesmo com o Salgueiro tendo recebido 10, o patrono da escola, Miro Garcia, pediu a anulação das notas, alegando que Sócrates estava bêbado na cabine de jurados…

De qualquer forma, mesmo que tivesse levado 10 do Doutor, a Portela não estava na briga pelo campeonato e os que estavam na apuração garantem que a torcida da Águia começou a apoiar a Mangueira contra a Beija-Flor no fim da apuração.

De fato, no fim das contas a Verde e Rosa conquistou o título, com três pontos de vantagem sobre a Beija-Flor (214 a 211), com o Império em terceiro e a Portela em quarto, seguida por União da Ilha e Salgueiro. Caiu para o segundo grupo a Unidos da Tijuca, última colocada, e subiram São Clemente e Unidos do Jacarezinho, o que elevaria a 16 o número de escolas na elite em 1987.

RESULTADO OFICIAL

POS. ESCOLA PONTOS
Estação Primeira de Mangueira 214
Beija-Flor de Nilópolis 211
Império Serrano 209
Portela 209
União da Ilha do Governador 207
Acadêmicos do Salgueiro 205
Mocidade Independente de Padre Miguel 201
Imperatriz Leopoldinense 197
Caprichosos de Pilares 192
10º Estácio de Sá 187
11º Unidos de Vila Isabel 186
12º Império da Tijuca 176
13º Unidos do Cabuçu 172
14º Unidos da Ponte 170
15º Unidos da Tijuca 169 (rebaixada)

CURIOSIDADES

– Jamelão cita o samba de 1986 como um dos três que mais o emocionaram ao cantar num desfile, ao lado de “O mundo encantado de Monteiro Lobato” (1967) e “No reino da Mãe do Ouro” (1976). Curiosamente, ele não mencionou o antológico samba de 1988 “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?” por achar que faltava algo mais.

– Outra curiosidade envolvendo Jamelão é que pela primeira vez a voz do intérprete foi ouvida num disco oficial de samba-enredo. Sempre se convencionou dizer que o fato ocorreu porque a Liesa rompeu com a gravadora Top Tape e escolheu a BMG/RCA para registrar e comercializar os bolachões, e Jamelão até o ano anterior não gravava devido a um conflito de empresas. Mas ao Ouro de Tolo, o cantor e compositor Ivo Meirelles, um dos autores do sambaço mangueirense, revelou outra versão: segundo ele, os compositores eram quem definiam quem cantaria o samba no disco e, para 1986, ele, como um dos autores, convidou Jamelão.

– Manchete e Globo voltaram a transmitir em pool os desfiles. Na Globo, o veterano Hilton Gomes voltava às transmissões, sempre nas concentrações, passando o comando em seguida para Eliakim Araújo e o comentarista Sérgio Cabral. Na Manchete, Paulo Stein continuava ancorando.

– Reginaldo Leme voltou a participar das reportagens no Carnaval de 1986. Certa vez, num papo informal comigo, ele contou que a chuva durante o desfile da Beija-Flor provocou uma enorme correria dos que não estavam desfilando em busca de um abrigo e que poucas vezes pegou tanta água na cabeça.

– Fernando Pamplona era frontalmente contra a homenagem do Salgueiro para ele. Mas durante o desfile, ele ficou emocionadíssimo quando a comissão de frente formada pelos amigos parou diante da cabine da Manchete. Pamplona achou graça quando viu o velho companheiro Arlindo Rodrigues desfilando na comissão de frente e disse que jamais pensou em ver tal cena um dia.

– A bola concebida por Joãozinho Trinta para uma das alegorias da Beija-Flor fez tanto sucesso que a organização da Copa do Mundo do México pediu que a escola cedesse o elemento para ser utilizado na abertura da competição, no fim de maio.

– O lendário Silvinho do Pandeiro fez seu último desfile como intérprete da Portela – em 1989, ele faria breve retorno à Sapucaí pelo Império Serrano. Quem estreava como cantor principal, na Unidos da Tijuca, era Nêgo, irmão de Neguinho da Beija-Flor.

– Pela primeira vez houve um tempo mínimo para a exibição das escolas: 75 minutos. O máximo era de 90. Não houve nenhuma punição tanto em concentração, como em cronometragem.

CANTINHO DO EDITOR (por Pedro Migão)

Aqueles eram tempos em que o povo, não sem uma dose de sarcasmo, dizia que era “Brizola na cabeça e Mangueira campeã”. O carnaval de 1987 corroboraria esta tese…

Candeia, grande ícone portelense, foi o enredo da Unidos de Jacarezinho naquele ano. Ao contrário do que muita gente pensa, este samba não é de autoria de Monarco, que assinou alguns sambas vencedores na agremiação de Vieira Fazenda.

O rebaixamento da Unidos da Tijuca já era meio que anunciado, dada a pressão que o enredo e o samba sofreram antes do Carnaval daquele ano por setores mais conservadores da sociedade. Aliás, taí um samba que gostaria que fosse reeditado pelas mãos de Paulo Barros…

Links

Desfile campeão da Mangueira em 1986

A garra na apresentação da Beija-Flor sob temporal

A bela exibição do Império Serrano, terceiro colocado

O compacto dos desfiles produzido pela TV Globo

8 Respostas para “Sambódromo em 30 Atos – “1986: Tamborim e samba no pé sacudindo essa galera””

  1. Jamelão era contratado da Tapecar ou da Copacabana, não estou certo a respeito. A gravadora em questão não o liberava para gravar os sambas da Mangueira nos discos do carnaval e até o Sobrinho chegou a dar conta do recado, brilhantemente, aliás, em “Memórias Poéticas de Jorge de Lima”, no ano de 1975.

  2. Fred Sabino disse:

    Sobrinho é um dos grandes intérpretes do Carnaval Carioca em todos os tempos. Pena que tenha passado por tantas dificuldades e problemas de saúde nos últimos anos…

  3. Titulo merecidíssimo para a Mangueira e vice incontestável para a Beija-Flor.

    Aliás, sobre a queda da Tijuca, o próprio Nego ficou furioso com todas as criticas que a escola sofreu. Engraçado como que hoje ninguém ousa mais falar mal da escola…

  4. Ivo Meirelles disse:

    Apenas pra CORRIGIR.
    JAMELÃO não gravava os sambas da Mangueira por conflitos de gravadoras e sim porque, Na Mangueira, os compositores eram quem definia o interpretes de suas obras, no vinil. Fui EU quem tomei a DECISÃO de convidar o JAMELÃO A GRAVAR O SAMBA QUE ERA DE MINHA AUTORIA.
    gRANDE ABRAÇO,

    Ivo Meirelles

  5. Fábio Freitas disse:

    A Mangueira não desfilou no Domingo?

    E, uma vez, uma rádio, pediu para Jamelão cantar o samba que ele mais gostava da Mangueira. Ele interpretou o de 84.

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