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O post da terça feira retrasada sobre o documentário na Cracolândia rendeu um e-mail de leitor (que a pedido não identifico) me chamando a atenção para um problema que eu não tinha conhecimento, pesquisei sobre e que é ainda mais sério: os “crackcanavieiros”.
Resumindo a história: trata-se do consumo alarmante de crack pelos cortadores de cana, em especial em São Paulo, com o objetivo de aumentar a produtividade e, em um primeiro momento, tornar menos extenuante o trabalho de corte. Pior: muitas vezes o vício em crack é estimulado pelos próprios donos de usina.
A atividade de corte de cana é uma das mais extenuantes possíveis: 12 horas seguidas em pé com um facão, sob forte calor e com roupas que cobrem todo o corpo a fim de proteger dos golpes e da fuligem da queima do canavial – o que gera uma intensa perda de líquido e, muitas vezes, desidratação.
Ou seja, é uma atividade extremamente desgastante, exercida em São Paulo em sua maioria por migrantes nordestinos. Além disso, há uma produtividade mínima para que o pagamento possa ser efetuado aos cortadores, que pelas pesquisas que fiz é de 12 toneladas/dia de cana – e ainda com medições imprecisas: há estimativas que indicam que o corte real chega ao dobro disso para chegar a esta quantidade contabilizada ‘oficialmente’.
Complementando o quadro, o corte manual da cana será inviabilizado a partir de 2014. Uma lei estadual paulista determina que não poderá haver mais queimadas, o que deixa a planta verde muito “dura” e difícil de ser cortada pelo facão – além da existência de animais peçonhentos que podem até matar os trabalhadores. Com isso a mecanização total será inevitável, o que irá gerar desemprego em massa.
Enquanto este momento não chega, os usineiros tratam de extrair o máximo que podem da capacidade laborativa dos bóias frias. Para isso estão incentivando o consumo da droga, que em um primeiro momento aumenta a produtividade – o cortador chega a trabalhar até 16 horas por dia.
Nas palavras do relato que recebi: “O crack é financiado pelo próprio usineiro. Isso existe mesmo. É interesse dele que o cara se acabe de trabalhar e fumar crack. O usineiro que não ajuda o cara a conseguir, faz vista grossa para a presença da droga dentre os seus cortadores. A pinga atrapalha o raciocínio, deixa o caboclo mole e indisposto até no dia seguinte. O crack faz o cidadão virar escravo muito mais rápido. Trabalha não pelo dinheiro para comprar comida e pinga, ou mandar para a família. Trabalha pela próxima pedra”
O leitor sabe que o crack causa dependência de forma fulminante, até tirar toda a dignidade da pessoa. Nos canaviais paulistas o trabalhador acaba sendo dispensado quando a dependência química inviabiliza seu trabalho. Muitas vezes neste momento ele tem dívidas com o usineiro e com o traficante de droga.
Isso gera uma outra questão. Os trabalhadores do corte da cana, como escrevi acima, são migrantes nordestinos, temporários. Chegam a representar 25% da população de pequenos municípios, utilizando os serviços públicos (especialmente saúde) mas não contabilizado na hora dos repasses estaduais e federais por não serem moradores fixos. Por outro lado, são uma fonte importante de dinamização do comércio local – que tende a ser afetado com o fim do corte manual, gerando desemprego.
Quando o corte mecanizado for implantado definitivamente tenderá a criar um problema sério para a economia dos municípios, que perderão o comércio gerado por estes migrantes. Por outro lado, a disposição dos usineiros é utilizar “até o bagaço” a capacidade destes cortadores, ainda que ao custo social de gerar uma legião de dependentes.
Note-se que normalmente o cortador de cana é uma pessoa de pouca instrução formal e que está sozinho em uma região onde não tem muitas vezes o apoio da família. Sugestionado com o conceito de que “quem fuma crack consegue trabalhar mais” acaba se utilizando da pedra sem ter muita ideia das consequências futuras.
Onde eu quero chegar? Que o consumo de crack, incentivado pela busca do lucro por parte dos usineiros, está gerando uma questão social e de saúde pública delicada: ou os dependentes procuram tratamento nas próprias cidades onde trabalham, sobrecarregando os serviços de saúde municipais sem estrutura para tal, ou são simplesmente mandados de volta como gado para suas cidades de origem – o Nordeste que cuide dos dependentes criados pelos usineiros paulistas.
Outro fator de impacto social é que os trabalhadores afetados pelo crack diminuem – quando não cessam – as remessas financeiras para suas famílias, o que gera impacto econômico em regiões distantes das enfocadas neste post.
Ou seja: ou os dependentes ficarão nas cidades paulistas, sem emprego e muitas vezes sem tratamento adequado, ou criarão uma pressão social sobre suas cidades de origem – para usar uma expressão forte, é uma “exportação da doença”.
Além disso, o controle das relações trabalhistas nos canaviais, embora tenha melhorado devido à ação do Ministério do Trabalho, ainda é bastante tênue. Toda sorte de violações é cometida, em uma ocupação com condições bastante precárias e que, como exposto acima, tende a favorecer aqueles que detém o poder seja político, seja financeiro.
Outrossim, é importante também prever e estabelecer algum tipo de política a fim de mitigar os impactos econômicos e sociais do desemprego, não somente para as cidades de São Paulo e do Nordeste envolvidas como especialmente para estes trabalhadores.
Estou longe de esgotar o tema aqui, mas queria chamar a atenção dos leitores para um problema que já ocorre e que tende a gerar consequências absolutamente imprevisíveis do ponto de vista social no momento em que a colheita estiver mecanizada. Faz-se necessário algum tipo de política a fim de combater o consumo do crack nos canaviais e, depois, tratar dos já dependentes.

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