Nesta segunda feira, temos excepcionalmente mais uma edição da coluna “Bissexta”, do colunista Walter Monteiro. No texto de hoje tenta se fazer uma análise da ausência da torcida rubro negra nos estádios e da intolerância demonstrada por esta nos espaços virtuais.

Tal como o articulista, eu peguei as duas “eras”, pois completarei 37 anos no próximo dia 04. Minha impressão é de que o título de 2009 tornou mais exigentes os torcedores mais novos, que não viram Zico jogar e que passaram por um período considerável de “vacas magras”.

Por outro lado, especificamente este ano existe a impressão geral de que o time vem rendendo bem abaixo do que poderia, ao contrário de 2007 e 2009 onde sempre estávamos “no limite”. Confesso que a falta de comprometimento de alguns jogadores este ano tem me irritado bastante – mas este é um assunto para outro post.

Curiosamente, neste Brasileirão já fui mais vezes ver o Flamengo jogar que pelo menos os últimos quatro campeonatos: quatro partidas – incluindo as citadas partidas contra o Atlético de Goiás (acima, em foto de minha autoria) e o América Mineiro, onde se precisava de estádio cheio e ninguém foi.

Quando Era Bom Ser Flamengo

É certo que existiu um Flamengo antes do Zico, mas eu só conheço de ouvir falar. Eu e o Galinho estreamos juntos em 1972, ele no gramado, eu na arquibancada [N.do.E.: na verdade o colunista se refere à presença constante de Zico no time profissional, pois ele estreou em um Flamengo 2 x 1 Vasco em 1971]. Logo, o Mengão para mim tem duas eras: a Era de Ouro, que simbolicamente se encerra no título de 1992 com a aposentadoria do Maestro Junior, e a que vem depois.

A primeira, todos sabem, profícua em títulos e alegrias indescritíveis. A segunda, nem tanto.

Ainda assim, havia uma conexão profunda entre ambas: a inabalável força que vinha da Nação. O Flamengo é o Flamengo não por conta dos que estavam em campo, mas justamente pelos que estavam de fora. Flamenguista que se preza sempre foi marrento, amplificando às alturas qualquer magro êxito. A força do Flamengo, principalmente nos maus momentos, sempre esteve no magnetismo da galera.

Esteve, não está mais. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas hoje em dia dá desgosto ser Flamengo. Ninguém acredita mais no time. Ninguém torce mais. Ninguém empresta seu apoio nas horas mais duras. Aquilo que era lindo de ver, a torcida pegando um time medíocre no colo e o fazendo vencer contra todos os prognósticos virou apenas uma imagem no videoteipe.

Para começo de conversa, a torcida evaporou. Há quem diga que é porque NOSSO estádio, o Maracanã, está fechado.  Não creio…. afinal, não é a primeira vez que isso acontece. Eu me lembro de ir ao minúsculo estádio da Portuguesa na Ilha do Governador e encontrar filas de rubro-negros enlouquecidos para exaltar El Tigre Ramirez e ajudar o time a escapar do rebaixamento [N.do.E.: eu era um destes. Reconheço o fato de que o estádio ser do lado da minha casa facilitou um bocado naquela tenebrosa temporada].

Difícil entender a razão, mas os rubro-negros simplesmente perderam a vontade de ir ao jogo.

A torcida, infelizmente, se modificou. Antigamente tinha uma espécie que arquibaldos de carteirinha abominávamos, o chamado “torcedor de radinho”: que nunca ia aos jogos, mas achava que entendia de tudo e vivia reclamando da vida.

Que saudades do radinho….porque hoje aquele chato de galocha se transformou em um monstro muito mais assustador, o “chato do teclado”. É impressionante a quantidade de gente que assiste o jogo comentando em tempo real as vicissitudes da partida. Em uma curiosa inversão de papéis, é no Twitter e no Facebook que ecoam as vaias atuais da torcida. Uma vaia uníssona, longa, raivosa, infinita…

E a impaciência? Ah, a impaciência…o mínimo erro é intolerável.  Ganhar não é nada mais do que a obrigação, perder ou mesmo empatar é ultrajante.

Como disse antes, até para coroas como eu só existem dois Flamengos, o da Era Zico/Junior e o que veio depois. Me dei ao trabalho de pesquisar o desempenho deste último em campeonatos brasileiros. Observem:

1993 – 8º
1994 – 14º
1995 – 21º
1996 – 13º
1997 – 5º
1998 – 11º
1999 – 12º
2000 – 15º
2001 – 24º
2002 – 18º
2003 – 8º
2004 – 17º
2005 – 15º
2006 – 11º
2007 – 3º
2008 – 5º
2009 – Campeão
2010 – 14º

A série histórica é longa o suficiente para revelar tendências. Para começo de conversa, em dezoito campeonatos o Flamengo só chegou entre os cinco primeiros em quatro deles. E do ano 2000 em diante, olhou muito mais para o fundo do poço do que para a ponta da tabela – em onze campeonatos, correu sério risco de rebaixamento em seis – inclusive em 2007, de impressionante arrancada.

Apesar disso, meus irmãos rubro-negros estão todos, cegos e surdos, embora não estejam mudos – muito pelo contrário. Mesmo encarando uma campanha para lá de razoável, do meu lado só encontro gente amargurada, revoltada e azeda. Quando eu lembro que nessa época em 2009 o time estava apenas em sexto lugar, com um ponto a menos do que agora, ninguém não quer nem saber.

Antigamente era ótimo ser Flamengo e conviver no meio rubro-negro. A gente esbanjava confiança, a gente chorava de emoção, a gente acreditava até o último minuto.  Os melhores momentos da minha vida eu passei ali, à esquerda das cabines de rádio do Maraca. Dane-se se o time ganhava ou perdia. Eu me realizava só por ser Flamengo.

Tenho pena dos rubro-negros da Jihad dos teclados nervosos. 

Talvez eles nunca descubram como era bom ser Flamengo.

7 Replies to “Bissexta – Quando Era Bom Ser Flamengo”

  1. Amigo Walter, entendo o seu ponto de vista, mas eu continuo amando ser Flamengo. Eu reclamo tanto quanto o próximo, MAS o ato de ser Flamengo é uma dádiva que eu compartilho agora com meu filho. Ensino a ele como é ser Rubro-Negro, e assim como o fiz ontem, ele vai ir aos estádio PRA TORCER sempre. Daqui duas semanas eu e ele estaremos lá mais uma vez! abs! Snoopy!

  2. Ontem mesmo postei no twitter que se a torcida do Flamengo fosse sempre como é hoje, metade das charges do Henfil não teriam saído…
    Sim. Ser Flamengo ainda é uma dádiva, mas há que se lamentar a gradativa perda de um de seus principais componentes :-/

  3. Perfeito, Walter, perfeito! Estou cansado de gente que sequer sabe o que é futebol, que nunca deu um nada pelo clube, nem um grito de apoio, e fica teclando igual a um debilóide, das profundezas de seu sofá, criticando tudo e todos, pensando que faz diferença alguma a sua opiniãozinha medíocre,tentando fazer política (no pior dos sentidos) através da internet. Cansei. Permaneço Flamengo no fundo da alma, mas cansei de futebol, de gente chata, de pobreza de espírito. Obrigado por representar tão bem, em seu texto elegante, este sentimento tão presente em antigos torcedores.

  4. Concordo que tem uma grande parcela da torcida que só sabe criticar diretamente do sofá mas não acredito que o problema seja só esse.
    Discordo quando fala que o fator Maracanã não tem influência no público de nossos jogos.
    Acredito que o problema passa pela também administração omissa da senhora PA, fazendo o interesse nos jogos cair quando sabemos que seremos sistematicamente prejudicados.
    Não moro no Rio mas sempre que posso (raramente) vou aos jogos do Fla e não me considero um corneteiro de sofá.
    Meu sentimento continuará inalterado e nunca vou deixar de acreditar no time, inclusive na próxima quarta, quando jogaremos no Chile.

  5. Nossa! Eu simplesmente me emocionei com esse post, muito bem indicado por meu amigo @Jeffarah !
    Há 2 semanas escrevi um post com esse mesmo sentimento e fui chamada de tola com todas as letras!
    Parabens, Walter Monteiro! Pelo texto muito bem escrito, cheio de argumentos, cheio de amor ao nosso Flamengo e completamente cheio de realidade!
    SRN!

  6. Os “torcedores de internet” (twitter, facebook, etc.) não são o problema, estejam eles fazendo críticas ou tirando onda com os outros. Eles, por sinal, são só uma extensão da torcida como um todo. Se está tudo indo bem, é só alegria, se não está indo bem, resta as críticas. Não é a internet ou a TV que tem afastado a torcida do FLAMENGO do estádio. Não é só o engenhão que afasta o torcedor (lembram da despedida do Pet?). Falta algo que empolgue a torcida! Falta reação pra quebrar o comodismo. Agora uma coisa tenho como certa: mais de 80% da torcida do FLAMENGO reside fora do estado do RJ. Se o problema é falta de estádio e público, porque não experimentam mandar jogos em outros estados, com larga divulgação e eventos de pré-jogo? SRN

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