Chegamos na vez de Evolução. Um quesito que, como vimos na coluna passada, sofre de um problema crônico de confusão com Harmonia. Quem leu especialmente a Justificando 2017 de evolução sabe exatamente do que estou falando.

Sendo assim, antes de começar, é bom ressaltar mais uma vez que a evolução cuida apenas da dança dos componentes, a compactação do desfile da escola e a manutenção da fluidez do mesmo.

Aliás, nesse quesito tivemos uma das maiores polêmicas da apuração neste ano: o 40 em evolução para a Vila “Usain Bolt” Isabel, única escola a estourar o relógio esse ano.

Módulo 1/2

Julgador: Paola Novaes

  • Império – 9,8
  • Viradouro – 10 
  • Grande Rio – 10 
  • Salgueiro – 9,9
  • Beija-Flor – 9,8
  • Imperatriz – 9,7 
  • da Tijuca – 9,9 
  • São Clemente – 9,9
  • Vila Isabel – 10
  • Portela – 9,9
  • Ilha – 9,9
  • Tuiuti – 9,8
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 9,9

Paola é uma julgadora com anos de experiência e bom histórico. Esse ano não foi diferente, com notas que refletiram a percepção geral em seu módulo, boas justificativas e critérios claros.

Porém fiquei um pouco intrigado com a sua justificativa para a Beija-Flor. Ela justificou faltas de ritmo de desfile longas em dois pontos devidamente localizados e ela mesmo escreveu que tal parada provavelmente ocorreu por causa da apresentação de Comissão e MS & PB – que ocorriam em módulos mais à frente.

Normalmente não se desconta tal pausa porque ela faz parte do necessário para o correto desenvolvimento técnico do desfile, o que quando ocorre não deve ser despontuado. A própria julgadora sabe disso, dá para se deduzir de cadernos anteriores dela e não obstante ela despontuou. Aliás, a Beija-Flor foi a única escola despontuada por ela por esse motivo.

Houve alguma mudança de diretriz da LIESA para despontuar paradas excessivas mesmo para apresentação de Comissão e MS & PB? Porque paradas bem longas semelhantes já ocorreram em anos anteriores e não foram despontuadas.

Talvez seja também uma ideia da LIESA tentar um jeito de avisar aos julgadores que a escola naquele momento está parada se apresentando (uma luz acesa na cabine, por exemplo) se a ideia é realmente não despontuar tal parada.

Também é interessante notar que o décimo da Unidos da Tijuca ficou na pista por conta de claros deixados entre os atos e os carros a frente deles. Vocês verão que o outro décimo deixado pela Tijuca, na prática, foi pelo mesmo motivo.

Dos quatro julgadores, o dez dela para a Vila é o menos condenável, já que talvez a correria pode não ter sido sentida ainda no primeiro módulo (como esse ano vi de casa, é impossível emitir opinião sobre o primeiro módulo e as fontes que ouvi para a coluna divergiram sobre o ponto). Ao mesmo tempo, apesar do bom histórico ela também já “passou por cima” da correria da Beija-Flor em 2015.

Módulo 3

Julgador: Frederico Reder

  • Império – 9.9
  • Viradouro – 10
  • Grande Rio – 10
  • Salgueiro – 9.8
  • Beija-Flor – 9.8
  • Imperatriz – 9.9
  • da Tijuca – 9.9
  • São Clemente – 9.9 
  • Vila Isabel – 10 
  • Portela – 9.9
  • Ilha – 9.8 
  • Tuiuti – 10
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 10

Não dá para dizer que o julgador aloprou: as justificativas de forma geral fazem algum sentido e dá para entender cada desconto aplicado ao ler as justificativas. Mas há também alguns problemas sérios de falta de coerência nesse caderno.

Começo com a Portela. O julgador relatou dois problemas: o primeiro foi um buraco entre a ala 19 e a bateria. Até aqui, tudo bem: é um erro comum a bateria ficar se apresentando para o julgador e a escola andar, abrindo um buraco.

A situação começa a se complicar no segundo problema: segundo o julgador a escola começou a “correr muito”. Aqui voltamos a um velho problema de física: se a escola começou a correr no módulo 2 aos 50 minutos, essa corrida teria que ser sentida de forma dramática nos módulos 3 e 4, senão o fim da escola correndo atropelaria o meio da escola em velocidade normal nesses módulos a frente.

Sabemos não houve qualquer atropelamento e a Portela tirou dois 10 nos módulos seguintes. Ou o julgador inventou uma corrida inexistente, ou os julgadores dos dois módulos a frente “dormiram no ponto”.

Quem acompanhou o desfile próximo desse módulo não apontou nenhuma correria. Pelo contrário, segundo uma dessas pessoas o abre-alas é que teria aberto um pequeno buraco também em frente a esse módulo e tal problema é solenemente ignorado pelo julgador na justificativa.

E aí eu pergunto, se a Portela perdeu décimo por uma “pequena correria”, como a Vila tirou 10? Aqui estamos de novo batendo na tecla do “dois pesos e duas medidas”. Vale ressaltar que ele também tirou décimo por motivo semelhante da Ilha e Imperatriz.

Há alguns problemas de especificação de problemas também. Por exemplo, na São Clemente ele justificou “efeito sanfona em várias alas”. Isso provavelmente ocorreu mesmo, pois vocês perceberão que foi algo recorrente nas justificativas. Mas em que alas ele percebeu isso? Não escreveu.

Ainda na preto e amarelo ele escreveu que “em alguns momentos algumas áreas bem apertadas atrapalhando a evolução de destaques e componentes”. Mais uma vez, em que alas ou em que momentos? Faltou especificar.

No Império, a mesma coisa. “Faltou coesão e fluência além da falta de espaço em alguns momentos”. Em que momentos? Em que alas? Mais no início, mais no final da escola? Impossível alguém tentar acertar os problemas no futuro sem essa informação.

Aliás, o fim dessa justificativas me soou totalmente desnecessária. Segue o trecho reproduzido: “A rainha de bateria também foi prejudicada em alguns momentos. A rainha de bateria quando tem espaço faz uma bela evolução.”

Interessante notar que ele também despontuou a mesma longa parada da Beija-Flor aos 27 minutos, relatada pela Paola Novaes.

Por fim, ressalte-se que o décimo da Tijuca voou por um buraco entre o ato e a alegoria 5, além de um buraco na frente do abre-alas.

Módulo 4

Julgador: Lucila de Beaurepaire

  • Império – 9,7
  • Viradouro – 10 
  • Grande Rio – 9,9 
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 9,8
  • Imperatriz – 9,8 
  • da Tijuca – 10 
  • São Clemente – 9,8 
  • Vila Isabel – 10 
  • Portela – 10
  • Ilha – 9,9 
  • Tuiuti – 9,9
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 10

Lucila, que foi por anos jornalista de economia do jornal O Globo, pegou o famoso “foguete”. Julgadora estreante, foi chamada já no meio de fevereiro para substituir a julgadora Fabiana Sobral, que, segundo a LIESA, solicitou dispensa por motivos pessoais. Considerando essas condições desfavoráveis, o resultado foi OK, mas também percebi alguns problemas.

O primeiro é que a julgadora se fixou demais apenas no “excesso de compactação” das escolas. Das 7 escolas descontadas pela julgadora, nada menos do que 5 foram por essa justificativa.

Sinceramente eu acho difícil tantas escolas errarem nesse sentido já no terço final de desfile (por experiência própria digo que a tendência é começar preso e ir se soltando aos poucos), e aí acaba passando a impressão daquela “caça qualquer” de motivo só para tirar ponto da escola. Ao mesmo tempo fiquei impressionado que, pelas justificativas, quase não houve abertura de buracos nesse módulo. É um módulo já próximo do fim da pista, quase em frente ao recuo de bateria, é comum ocorrerem erros.

Porém a julgadora só mencionou buracos na São Clemente. Outro ponto a se discutir é que ela indicou que o 2º casal de MS & PB de São Clemente e Beija-Flor não teria se apresentado à cabine, mas isso não deveria ser descontado da escola – pois não é obrigatório.

As duas únicas escolas despontuadas pela julgadora que não foram por “excesso de compactação” foram São Clemente e Beija-Flor, que segundo a mesmo correram demasiadamente mais ou menos no terço final do desfile. Até aqui, tudo certo. A Beija-Flor claramente apertou o passo, era visível pela TV e a São Clemente deve mesmo ter corrido pois, como se verá a frente, a próxima julgadora também justificou isso.

Porém… e a Vila?

O aperto no passo foi visível até da TV (e o ponto de referência dela é quase em cima desse módulo), aliás, pela rádio deu até para sentir que a bateria acelerou até o andamento lá pelos 50 e alguns minutos, para ajudar a escola. Não obstante, veio mais uma nota 10 para a Vila. Fica complicado tentar defender.

Por fim, fica uma crítica à justificativa do Império Serrano. O que foi relatado na justificativa é muito pouco para se tirar 3 décimos de uma vez só. Ou faltou escrever justificativa ou a julgadora cometeu um erro de dosimetria com a Serrinha, especialmente se comparados aos 9.8 de São Clemente e Beija-Flor.

Por todo o contexto envolvido na entrada dessa julgadora no desfile desse ano, apesar dos problemas, pode-se se dar um voto de confiança para os próximos anos, pois fez um trabalho razoável e se ateve ao quesito, o que a história mostra que é um pouco difícil para os julgadores novos de evolução. Mas ainda tem muita coisa a melhorar para os próximos anos.

Módulo 5/6

Julgador: Verônica Torres

  • Império – 9,8
  • Viradouro – 10 
  • Grande Rio – 9,9 
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 9,9
  • Imperatriz – 9,9 
  • da Tijuca – 10 
  • São Clemente – 9,8 
  • Vila Isabel – 10
  • Portela – 10
  • Ilha – 9,9
  • Tuiuti – 9,9
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 10

Assim como Luciola, Verônica praticamente só descontou embolação de alas. A única diferença é que Luciola escreveu em quase todas que o excesso de compactação não permitiu a dança, enquanto Verônica descontou penetrações diversas de uma ala em outra. Todas devidamente especificadas, tanto em relação as alas como o tempo de desfile em que isso ocorreu.

Porém tradicionalmente o módulo 4 é o mais problemático em relação a correria de escolas tentando não estourar o tempo que, além de comprometer a fluidez, ocasiona buracos. Por isso achei curioso a julgadora não verificar a formação de absolutamente nenhum buraco em nenhuma escola. As duas únicas escolas que perderam décimo por motivo que não a tal epidemia de embolação foram São Clemente e Beija-flor por causa de aceleração do passo da metade para o final. E aí mais uma vez volta a pergunta recorrente da coluna de hoje…

E a Vila?

Finalizando o quesito evolução, faço um questionamento. O quesito evolução talvez seja o único quesito que não é necessário ter nenhum conhecimento técnico além da própria experiência do carnaval para julgar: qualquer amante do carnaval que acompanha essa festa com lupa deve ser capaz de julgar esse quesito.

Não obstante, verificando todas as quatro séries Justificando, sempre é um dos quesitos mais complicados, onde há diferença de pesos no julgamentos das mesmas escolas, correrias não despontuadas, e até justificativas plásticas nesse quesito em anos anteriores.

Sendo assim, eu fico me perguntando se não seria melhor todos nós nos despirmos de preconceitos e confiarmos na lisura e no amor à festa de pessoas altamente experientes no carnaval para julgar esse conceito, mesmo que elas tenham ou já tenham tido relacionamento com algumas escolas do Grupo Especial.

Até que ponto não seria melhor convocar um Leonardo Bruno, um Luis Antônio Simas ou um Felipe Ferreira para julgar evolução? Concordam comigo que as chances de sair um bom julgamento dessas pessoas é maior do que qualquer uma que já foi chamada para esse quesito nos últimos muitos anos? 

Então termino essa coluna lançando esse triplo desafio: primeiro aos próprios sambistas que precisarão se despir de preconceitos para aceitar a nomeação de um julgador com essa biografia, depois à LIESA para ter coragem e convidar esses “intelectuais” do carnaval para compor o corpo de julgadores (falo de evolução, mas um Simas ou um Alberto Mussa poderiam perfeitamente serem chamados para samba-enredo também, por exemplo) e por fim aos próprios “intelectuais” para abraçarem o desafio e aceitarem o convite caso ele venha.

Imagens: Ouro de Tolo

6 Replies to “Justificando o Injustificável 2019 – Evolução”

  1. As quatro notas 10 para a Vila são um absurdo. Por esse motivo que considero fundamental a obrigação do jurado em justificar a nota 10. Adoraria saber o que escreveriam.

  2. Estava no setor 11 ,e o que vi ,foram vários problemas em evolução,a vila não só correu ,como seus componentes praticamente andavam na avenida,pelo peso absurdo das fantasias,S.Clemente bem embolada mesmo.Portela com problemas no seu abre alas.Tuiuti uma baita correria também,e a Mocidade ficou muito tempo parada pois teve um problema na composição do abre-alas,logo após a apresentação da penultima cabine.Ilha bem desanimada mesmo,no setor 11 ,nota 10 em evolução só para Mangueira mesmo.

  3. O dia que as escolas se preocuparem em filmar todo o seu desfile e comparar com as notas dadas não teremos mais este quadro. Sabemos que muitos pontos tirados são apenas justificados por obrigação e mais nada. São pontos que faz uma escola entrar no G6 ou não ser rebaixada…

    1. Antigamente as escolas recebiam um vídeo com o desfile feito do alto da torre. Vou até perguntar pro pessoal da Portela se essa prática continua.

  4. Olha complicadíssimo a Vila não ter perdido um décimo sequer nesse quesito. Foi visível a correria no final do desfile pela tv. O desfile no geral foi muito bonito e por isso creio que não julgaram o desfile da Vila como deveriam

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