Fechando os quesitos “de pista” é hora de passarmos por bateria e sua profusão de notas 10 e 9.9, altas até para os padrões LIESA de julgamento.

A ponto de duas escolas que perderam dois décimos no julgamento (três se formos contar os descartes) serem as segundas piores baterias segundo o julgamento, só a frente da bateria do Império.

Módulo 1/2

Julgador: Phillipe Galdino

  • Império – 9.9
  • Viradouro – 9.9
  • Grande Rio – 10
  • Salgueiro – 9.9
  • Beija-Flor – 10
  • Imperatriz – 10
  • da Tijuca – 10
  • São Clemente – 10
  • Vila Isabel – 9.9
  • Portela – 10
  • Ilha – 10
  • Tuiuti – 10
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 9.9

Poucos décimos descontados e justificativas rápidas e diretas. Interessante notar que ele retirou pontos da Viradouro (caixas e surdos de 3ª) e Salgueiro (caixas e taróis) por causa de andamento acelerado, algo que ele voltará a reclamar nas considerações finais.

Também pode-se reclamar talvez de uma falta de precisão na justificativa da Mocidade quando ele justifica “defasagem rítmica e falta de coesão no naipe de chocalhos”. Quando? O tempo inteiro? Em apenas uma parte do samba? Durante uma bossa? Não ficou claro.

Uma dica aparece na frase seguinte quando ele diz “não tenho nada contra coreografias, desde que não atrapalhe o ritmo.” Parece então que foi durante uma coreografia, mas um pouquinho mais de clareza não faria mal.

Porém as justificativas de Império e Vila Isabel é que me chamaram mais a atenção pois flertaram perto demais do famoso “achismo”.

No Império “a sonoridade dos repiques poderia estar mais presente, variedade timbrística e equilíbrio sonoro prejudicados.”, na Vila “Pelo número de surdos de 3ª a sonoridade deles poderia estar mais presente.” Os surdos de 3ª estavam audíveis? A bateria foi atrapalhada por falta da batida de 3ª? Simplesmente um achismo sobre o número de surdos de 3ª é o suficiente para tirar um décimo? Como sempre digo, os quesitos devem ser julgados pelo que foi apresentado, não pelo o que o julgador acha que faria se estivesse no lugar do responsável pelo quesito.

Em suas longas considerações finais, ele reclamou que as baterias entraram na avenida bem mais aceleradas que o de costume e pediu para que os mestres continuem o trabalho de resgate de um andamento mais cadenciado. Também notou uma diminuição progressiva do número de repiques e pede aos mestres de bateria que não permitam o desaparecimento dos mesmos “pois é muito importante não só para o ritmo, mas também para a palheta de timbres de uma bateria. Por fim, deu um parabéns especial ao mestre Wesley, da Mangueira, “pela utilização muito apropriada e com muita musicalidade dos pratos.”

Por fim percebam como este julgador foi crítico das baterias aceleradas, mas a nota dele para a Portela foi o único 10 da mesma no quesito. Voltarei a essa questão no último julgador.

Módulo 3

Julgador: Sergio Naidin

  • Império – 9.9
  • Viradouro – 10
  • Grande Rio – 10
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 10
  • Imperatriz – 10
  • da Tijuca – 10
  • São Clemente – 9.9
  • Vila Isabel – 10
  • Portela – 9.9
  • Ilha – 10
  • Tuiuti – 10
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 10

Naidim descontou apenas três décimos em todo seu julgamento e deu nada menos que onze notas 10 em catorze possíveis. Isso o fez ser o julgador que descontou o menor número de décimos no ano e deu o maior número de notas máximas.

Um fato muito positivo do julgador, e que eu defendo que todos os julgadores em todos os quesitos o façam, é que nas considerações finais ele escreveu o que o surpreendeu em cada uma das baterias com nota 10 para arrancar dele a nota máxima.

Nas suas 3 parcas justificativas, textos bem curtos, porém com identificação precisa dos problemas. Apenas quero trazer a justificativa da Portela justamente para demonstrar como a fronteira entre quesitos as vezes é uma questão muito mais tortuosa que o imaginado no papel. O julgador escreveu que sentiu uma leve “diferença (desencontro)” entre a voz e o repique na chamada após a bossa.

O primeiro ponto que levanto é: até que ponto isso não pode ser um problema do sistema de som do sambódromo que adora atrasar em alguns momentos?

Mas meu interesse maior nessa justificativa nem é isso; mas sim a discussão da fronteira entre os quesitos bateria e harmonia. Aqui o problema foi um desencontro entre a voz (creio que do carro de som) e o repique. Mas se o repique estava correto dentro da bateria e ela em si não cometeu erros, então poderia levar um dez? Se o problema foi com a voz não deveria ser descontado em harmonia?

Aqui, para mim, não há nenhuma dúvida e o julgador está corretíssimo. O Manual é claro que em bateria deve-se julgar “a manutenção regular e a sustentação da cadência da bateria em consonância com o samba-enredo.”, enquanto harmonia cuida apenas da igualdade do canto da escola com o puxador e o próprio canto da escola (em tempo, até hoje o manual nada fala sobre avaliação de carro de som em Harmonia, apesar disso ser altamente costumeiro como vimos semana passada).  

Porém recebi algumas perguntas sobre isso na semana de divulgação das justificativas e isso mostra como seria importante a LIESA usar os próprios exemplos interessantes de cada ano para alimentar o manual do julgador e dirimir essas dúvidas.

Lembro que o Manual não serve de guia apenas para o julgador, mas todos que se envolvem na festa acabam o usando como referência para tentar entender (e ter base para reclamar) as justificativas publicadas.

Módulo 4

Julgador: Claudio Luiz Matheus

  • Império – 9.8
  • Viradouro – 10
  • Grande Rio – 10
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 10
  • Imperatriz – 9.8
  • da Tijuca – 10
  • São Clemente – 9.9
  • Vila Isabel – 10
  • Portela – 9.9
  • Ilha – 10
  • Tuiuti – 9.8
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 10

Vamos a mais um momento “ctrl+c, ctrl+v”. Minha grande reclamação com Claudio Luiz Matheus é a mesma há anos e não mudou esse ano. Então vamos retomar o escrito na coluna de 2016: “Minhas reclamações com Claudio Luiz Matheus continuam as mesmas de vários anos… as justificativas são muito curtas e, normalmente, não explicam exatamente o que ocorreu.”

Nada muito diferente deste ano, como vocês verão abaixo.

Império: “Convenção complicada após a pausa em ‘batida de um coração’, que  levou a imprecisões na retomada da cadência. Apresentou pouca criatividade.”

Quais imprecisões? De que naipes? Na “cozinha” (surdos e caixas)? Ou foi na frente da bateria? Todo ano é o mesmo comentário… E mais uma vez lança mão do complicado “faltou criatividade” sem continuar a dar nenhum referencial para o que seja tal, ou o que as outras baterias nota 10 fizeram para cumprir a criatividade.

Imperatriz: “O excesso de convenções deixa o samba sem acompanhamento por muito tempo e sem cadência.” Até que essa dá para entender, mas ainda sim é “jogada”; com o histórico complicado do julgador para alguém reclamar não custa, ainda mais para um 9.8.

São Clemente: “A convenção no refrão ‘é fantástico’ termina com um desenho rítmico muito complicado que leva a uma retomada insegura e pouco precisa.” Vamos a mais um “ctrl+c, ctrl+v”, dessa vez de 2017: ““entrada irregular e vacilante” de novo? Além de altamente vago, o que se define por entrada imprecisa? Quais naipes entraram errado (afinal, houve uma ‘entrada imprecisa e vacilante’). Qual efeito isso causou? Nada sobre.”

Portela: “No final da última estrofe, uma convenção com muitas pausas, em que todos os instrumentos tocam juntos, leva a imprecisões (flam).” É claro que tinha que ter um flam, senão não seria um caderno de Cláudio, provavelmente o julgador que mais usa tal efeito nas justificativas.

Pelo que aprendi com os entendidos, normalmente os flans em bateria são de tamborins, mas podem ocorrer em outros instrumentos. Como aqui o julgador diz que o flam é gerado quando todos os instrumentos tocam juntos, seria importante ele especificar de onde vem o flam mais uma vez. O próprio Mestre Casagrande já reclamou deste mesmo julgador essa falta de precisão na determinação do flam em 2016.

Mais um ano e os mesmos problemas no caderno do Claudio Luis Matheus. Até quando?

Módulo 5/6

Julgador: Jorge Gomes

  • Império – 9,8
  • Viradouro – 10
  • Grande Rio – 10
  • Salgueiro – 10
  • Beija-Flor – 10
  • Imperatriz – 10
  • da Tijuca – 9,8
  • São Clemente – 9,9
  • Vila Isabel – 9,9
  • Portela – 9,9
  • Ilha – 10
  • Tuiuti – 10
  • Mangueira – 10
  • Mocidade – 10

As justificativas mais longas e claras de todos os quatro do quesito, porem tem muita justificativa complicadíssima para a Portela, talvez a mais polêmica no ano em um ano de bem poucas discussões sobre justificativas específicas. Mas comentarei a Portela mais para frente.

Inicialmente quero ressaltar o 9,8 da Unidos da Tijuca. A bateria do Mestre Casagrande é há alguns anos tida como a melhor, mais definida e balanceada bateria do Especial. Esse ano não foi diferente com três notas 10 nos módulos anteriores e descartando este 9.8. Porém quero ressaltar a 1ª justificativa dele para tirar décimo da escola: “A afinação dos surdos de 1ª e 3ª estavam tão próximas e abaixo da afinação normal, que deixava o surdo de 2ª com muito destaque sonoro a ponto de quase não se ouvir o surdo de 1ª”

Quando a Tijuca entrou na avenida, já no amanhecer de segunda-feira, a chuva não dava as caras na Sapucaí desde o desfile do Império Serrano e todos sabemos que o maior vilão para uma desafinação dos surdos durante o desfile é a chuva. Logo, ela não foi fator aqui. O apontado pelo julgador é algo razoavelmente grave e que se ocorreu realmente deve ser descontado. Mas só ele percebeu essa desafinação (afinal todas as outras notas foram 10).

A outra justificativa foi um desencontro nos refrões do samba de caixas e repiniques oriundos do andamento rápido da escola, segundo o julgador. Segundo o mesmo, os problemas de São Clemente (chocalhos) e Vila Isabel (chocalho, caixas e tamborins) também foram ocasionados por andamento acelerado das baterias.

Agora vamos esquadrinhar a justificativa da Portela, começando pela transcrição da mesma.

” – Começou o desfile com o andamento em 156bpm, foi caindo até chegar na saída do 2º recuo com 148bpm, ‘onde já está dentro do meu raio de visão e audição. (o julgador não fechou as aspas aqui.).

– Passou no módulo 5 já com 138bpm

– Faltou sincronismo entre as caixas e faltou firmeza e exatidão entre os chocalhos

– No aspecto comparativo a outras escolas, a Portela ‘não foi bem’”

O primeiro ponto altamente polêmico aqui é que ele usou na justificativa inicialmente o bpm da bateria da Portela no início do desfile. Estando no último módulo de julgamento, é óbvio que ele usou para tal uma medição feita pelo alto-falante, o que a LIESA pede para não se fazer justamente para evitar que um problema nas caixas de som (recorrente até hoje nos desfiles) acabe penalizando uma escola.

Para isso, o julgador deve se ater apenas ao que pode ver e ouvir ao seu campo de visão, isso é o que sempre foi passado pela LIESA em reuniões e entrevistas (tanto é que o próprio julgador faz questão de escrever onde a bateria já estava em seu raio de visão e audição) para todos os quesitos. Porém onde isso está escrito no Manual? Em lugar algum! Mais uma vez é algo consuetudinário, tal qual a avaliação do carro de som no quesito harmonia. Só aqui já temos mais um exemplo de como a LIESA precisa urgentemente refazer o manual.

Voltando à justificativa, segundo o julgador a Portela variou do início para o fim do desfile nada menos que absurdos DEZOITO bpms. Sendo que que dez deles no exíguo espaço entre a saída do 2º recuo e o módulo dele. Dificilmente se passou mais do que 3 passadas do samba-enredo entre os dois momentos, já que os dois lugares são bem próximos.

Uma mera queda de uns 4bpms já causa uma diferença notável até para os leigos (aliás tal queda é até natural durante o desfile dada a “acomodação” do samba e o cansaço dos ritmistas durante o desfile), imagina 10bpms em menos de 5min. Isso seria motivo de debates acalorados ainda durante o próprio desfile. Eu duvido que isso tenha acontecido e ninguém que estava por volta do 4º módulo relatou nada próximo.

Mesmo considerando a redução de dezoito bpms a longo de todo o desfile “indicada” pelo julgador, para o nível que as baterias do Especial atingiram é ainda uma redução muito drástica, que também seria perceptível até na (difícil nesse ponto) transmissão da TV ou melhor ainda em rádios, o que também não ocorreu.

Esse tipo de queda só acontecia antigamente em baterias notoriamente problemáticas. Que isso tenha ocorrido na Portela, que sempre se notabilizou pela manutenção de ritmo, acho muito difícil.

Ao final a redução simplória do efeito comparativo dizendo que “não foi bem” sem apontar os motivos que o levaram a essa avaliação também é complicado. Ela só não foi bem pelo já exposto acima? Então já está justificado, não precisa escrever mais nada.

Por fim, o julgador escreve isso tudo e só tira um mero décimo da Portela? O que precisa para ele tascar um 9.8 ou 9.7, que metade da bateria toque o Hino da Independência no meio do samba? Considerando que tudo o que o julgador justificou realmente ocorreu, houve um erro crasso em dosimetria aqui. Especialmente o Império teve problemas menores e levou um 9.8 do julgador.

A própria Unidos da Tijuca não ficou muito longe da Portela levando apenas a justificativa em conta. Estamos falando de uma queda brusca de 10bpms em menos de 5min, isso é algo gravíssimo. É coisa para 9.7 ou até um 9.6. É especialmente injusto com as outras escolas que tiraram 9.9, pois cometeram erros bem menores que esse.

Por fim, isso tudo acaba colocando até em suspeita também a justificativa do Império Serrano no qual ele indica que a bateria variou entre 140 e 144bpms. Aqui alias se cria até outra dúvida após a justificativa da Portela. Essa variação foi durante todo o desfile, fazendo a medição pela caixa de som ou foi apenas no setor dele? Isso não ficou claro na justificativa. Se foi o primeiro, o desconto é absurdo. Como relatei acima, essa acomodação de 2 ou 4 bpms é comum em todas as escolas. Se foi o segundo a justificativa é válida.

Ao final o julgador escreveu que “é preciso que se cuide melhor das baterias, até o último homem. Muitos pontos são perdidos porque após passarem pelo módulo dos julgadores, vocês (mestres de bateria) se esquecem que até o último homem a passar, ainda é a bateria.”

Enfim, após essa justificativa complicadíssima, fecho o quesito Bateria como um todo com uma frase do Carlos Fonseca, apresentador do Carnaval Show, “Vai chegar o dia que vão dar 10 para todas as baterias”. A profusão de notas 10 aqui continua absurda. 38 notas 10 em 56 possíveis, ou 67,85%. Foram apenas 5 notas abaixo de 9.9, todas 9.8 concentradas em apenas 2 julgadores.

Justamente os dois sobre os quais mais se discutiu sobre as justificativas aqui…

Imagens: Ouro de Tolo

One Reply to “Justificando a Injustificável 2019 – Bateria”

  1. Possivelmente, o julgador está incomodado com o Nilo Sérgio, desde 2006 na bateria da Portela.
    Convenhamos: canetaram a bateria da Portela, com justificativas que beiram o absurdo, ou melhor, sem justificar.

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