Passei o carnaval em Teresópolis e todas as noites ia para uma praça onde bandas tocavam. Não importava a banda existia uma certeza, quando começasse a parte de sambas de enredo começaria por sambas da União da Ilha.

A Ilha é a dona dos sambas mais populares da história do carnaval, mas há alguns anos seus sambas são criticados e sempre na época do carnaval chegam para falar comigo sobre esse tema. É um tema espinhoso, complicado para mim que fui criado nessa ala, mas ao mesmo tempo não tem mistério sobre o que ocorre.

Alguns problemas fazem que a maior hitmaker de nosso carnaval passe por um período difícil em suas composições. Podemos começar com um fato que nenhuma escola passou. Imagine seu time tendo ao mesmo tempo Pelé, Garrincha, Maradona e Messi? Seria uma coisa mágica, né? A Ilha passou por isso, ela teve ao mesmo tempo Didi, Franco e Aurinho da Ilha compondo e Aroldo Melodia cantando. Alguns dos maiores nomes da história do carnaval ao mesmo tempo escreviam e cantavam na União da Ilha.

Esse fato fez a grande história insulana. Ninguém entre 1977 e 1991 teve os sambas que a agremiação teve, a maioria responsável por esses artistas. Os quatro morreram e é praticamente impossível substituir a altura artistas desse quilate, qualquer escola de samba sofreria com isso e com a União da Ilha não foi diferente.

E olha que a escola teve excelentes “coadjuvantes” para esses quatro. No mesmo período compositores do nível de Robertinho Devagar, também já falecido, Mais novos surgiram brilhando na segunda metade dos anos 80 e por todos os anos 90 Bujão, J.Brito, Carlinhos Fuzil, Mauricio 100, Marquinhus do Banjo, Djalma Falcão, Marcio André. Esses sete junto com Franco assinaram todos os sambas da agremiação entre 1986 e 2003 excetuando 1996. Em todos pelo menos um deles assinava o samba. Mauricio foi para a igreja, Marcio André e Djalma se tornaram dirigentes, J.Brito morreu, Bujão se tornou compositor esporádico. Desses na ativa continuam apenas Carlinhos Fuzil e Marquinhus do Banjo,

Surgiram compositores muito bons como Gugu das Candongas, para mim o sucessor de Franco, Lobo Jr, Junior Nova Geração, André de Souza, John Bahiense, Wagner do Cavaco, Roger Linhares, Mingau, Cadinho da Ilha..Mas é complicado demais comparar com os citados anteriormente. É complicado e injusto com esses novos.

Além disso tudo a disputa de samba na União da Ilha é cara demais, exige gastos demais e as parcerias com dois e três compositores agora tem oito fora os que não assinam. Pior que isso, por ser tão cara muitas pessoas que não escrevem acabam ‘virando” compositores. Tivermos caso de parceria forte na Ilha com oito compositores assinando e nenhum deles escrevia.

O compositor gasta demais e acaba com isso tendo medo de perder. Prefere ser mais comedido, mais tradicional na feitura dos sambas e assim garantir a vitória na disputa mesmo que acabe indo com um samba burocrático para a avenida. O excesso de compositores assinando na agremiação que não escrevem e os poucos compositores que realmente escrevem hoje na Ilha, a escola não deve ter doze compositores que realmente escrevam, acaba fazendo com que compositores consagrados de outras agremiações façam sambas para a União sem assinar.

Mas esses compositores em vez de fazer os sambas com a qualidade que fazem em suas agremiações tentam repetir uma fórmula na Ilha que dizem ser do estilo da agremiação, mas não é verdade. O estilo que dizem que era da Ilha era de Franco e morreu com ele e sua genialidade. A Ilha tem sambas poéticos, melódicos, bonitos consagrados assim como os irreverentes.

Por fim falta uma identidade em enredo na União da Ilha, Nos últimos anos a escola falou duas vezes em Olimpíadas, uma de um grande artista da MPB, falou de crianças, vaidade, veio africana, falando de comida e voltou a falar de artistas tendo um estado como pano de fundo.

Enredos completamente diferentes um do outro não deixando criar uma identidade como é visível hoje em dia em escolas como Mangueira, Tuiuti, Portela, Salgueiro, Mocidade, Beija-Flor..escolas que tem uma linha de enredos o que facilita o trabalho dos compositores. Um ano o compositor da Ilha tem que ser afro, em outro irreverente, outro melódico. Falta uma cara.

Como torcedor da Ilha queria ver uma cara e também mais ousadia em seus enredos como no ano que falou das crianças e foi afro. A Ilha tem que chamar atenção no pré carnaval. Tem que chamar atenção em enredo, samba, na escola como um todo. Voltar a ser Ilha. Sempre serei mais minha Ilha.

Mas ela tem que acreditar nisso também.

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4 Replies to “A cara da Ilha”

  1. Tenho a mesma sensação da Rosas de Ouro nessa última decada, a maioria dos sambas são completamente esquecíveis, só o de 2017 entrou na lista dos melhores do seu ano, e o do Cacau só é lembrado pq foi campeão.

    1. Olha em partes eu concordo com o texto. Mas não acho os sambas dos últimos anos da Ilha tão ruins assim. O de 2017 para mim é um dos melhores da história da Ilha. Seria desfile para voltar nas campeãs. A ilha é muito canetada. E intérprete a Ilha tem o melhor. Ito é o melhor da sua geração. O melhor do grupo especial atualmente.

        1. Obrigada pela resposta Pedro. Como so vejo os desfiles pela tv e escuto pelo radio fica bem complicado avaliar certos quesitos. Mas o samba foi canetado tambem o que achei bem injusto

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