O enredo da Portela para 2019 era um desejo antigo dos portelenses, chegando a ganhar o epíteto de “lenda urbana” porque era sempre pedido e nunca feito. Entretanto, Clara Nunes já foi enredo em outros desfiles de escolas de samba, inclusive em São Paulo.

Neste artigo, iremos relembrar enredos e desfiles que tiveram Clara Nunes como tema ou então fio condutor para outro enredo. Não farei aqui um apanhado de sambas enredo onde ela tenha sido citada, porque aí seria uma pesquisa quase inesgotável – especialmente em concorrentes da Portela, ano após ano.

1983 – O Último Desfile

Iniciamos com o último desfile de Clara Nunes pela Portela. 1983, “Reisado, Reino, Reinado”, como ficou conhecido o enredo que tinha como nome oficial “A Ressurreição das Coroas”.

Clara Nunes desfilou no chão, junto à escola, mas cantou “Portela na Avenida” no esquenta. A Portela foi a vice campeã, em um resultado onde pairam fortes suspeitas de irregularidades – o famoso “Caso Messias Neiva”.

Clara faleceria em 2 de abril daquele ano.

1984 – Lá Vem Trovoada!

No ano seguinte a Portela homenageou Paulo da Portela, Natal e Clara Nunes através de uma fábula onde, respectivamente, os três ícones da história portelense eram associados a Oranian, Oxóssi e Iansã.

Sexta escola no desfile de domingo, a Portela passou gigante, em enredo que passava pela Bahia e que trazia duas Águias: no abre alas, apenas a cabeça emergindo do mar. Ao final, a tradicional, imponente, asas abertas. No supercampeonato do Sábado das Campeãs, a ordem foi invertida: a águia de asas abertas veio abrindo o desfile e a outra, fechando.

No único ano onde cada dia de desfile teve sua campeã, a Portela conquistou o título de domingo, sendo segunda colocada no Supercampeonato. 

No evento do MAR, que contei semana passada, o biógrafo de Clara Nunes Vágner Fernandes disse que o fato de Clara Nunes ter sido escolhida ao lado de Natal e Paulo da Portela como enredo dá a mostra da força que o símbolo dela representa à Portela.

Em 2004 a Tradição reeditaria esse samba, com direito à Alcione cantando o samba no CD como homenagem à Clara. Na avenida, o samba foi puxado pelo compositor Lourenço e pelo intérprete Wander Timbalada. A Tradição foi 12a colocada.

A expressão “lá vem trovoada”, que vem sendo utilizada tanto pelo puxador Gilsinho em seu grito de guerra quanto pelo próprio marketing da Portela, é um verso deste samba de 1984.

2005 – São Paulo em busca do Bicampeonato

Em 2005, a Mocidade Alegre, que havia no ano anterior quebrado um jejum de 24 anos sem ser campeã do carnaval de São Paulo, veio com enredo homenageando Clara Nunes.

O carnavalesco Zilkson Reis optou por uma abordagem onde a obra de Clara Nunes serviu como pano de fundo para uma grande viagem pelo Brasil. A ponto da bateria durante o desfile formar a bandeira nacional antes de entrar no recuo.

Com alegorias e fantasias apenas medianas e um enredo que ignorava a relação de Clara com a Portela (que se limitou a uma ala), a agremiação ficou na terceira colocação.

2012 – De São Cristóvão a Madureira

Em 2012 o Paraíso do Tuiuti também homenageou Clara Nunes em seu enredo, retornando ao então Acesso A após vencer o Acesso B no ano anterior. O enredo manteve um meio termo entre abordar a obra da cantora e mostrar um pouco de sua biografia. 

É uma abordagem semelhante à que fará a Portela este 2019, conforme explicado em artigo anterior. Notem os leitores que nenhum dos enredos que homenagearam Clara Nunes se limitaram à hagiografia estrita da vida da cantora.

O Tuiuti trouxe em seu penúltimo carro uma águia (alto do post), no carro dedicado à Portela. Em uma apuração muito tumultuada, onde a Inocentes de Belford Roxo acabou 1.3 ponto à frente da segunda colocada, o Tuiuti acabou na última colocação, mas não seria rebaixado.

2012 – Clara leva a Portela à Bahia

Em 2012, a Portela, após muito tergiversar e vindo do pior momento de sua história, resolveu levar à avenida enredo sobre as festas da Bahia. Clara Nunes levava a Portela à Bahia e conduzia a Águia em um passeio por todas as festividades baianas.

Este ano marca o início do processo de renascimento que a Portela viveria, especialmente a partir de 2014. O movimento realizado para pegar no colo o antológico samba e levá-lo à vitória (pois ele não venceria se dependesse do então presidente) seria o embrião do que ocorreria dois anos e meio depois, nas eleições.

O último carro, sobre as festas portelenses, trazia a cantora Vanessa da Mata representando Clara Nunes. Bem como uma réplica da Águia trazida no abre alas de 1984.

A Portela obteve a sexta colocação, voltando ao Desfile das Campeãs pela primeira vez desde 2009.

2017 – Cai, cai no samba cai

O enredo da Acadêmicos do Cubango que homenageava o grande João Nogueira trazia Clara Nunes em dois momentos: o primeiro no esquenta da escola, que foi com o samba “Mineira”, homenagem de João Nogueira (1975) à cantora.

A segunda foi na ala das Baianas, que vinha representando Clara Nunes e, novamente, o samba “Mineira”. Em um ano de dificuldades financeiras (a escola havia perdido o patrono), a Cubango obteve o oitavo lugar.

2019 – Corri pra ver, pra ver quem era…

Neste ano de 2019, além do enredo da Portela, a Nenê de Vila Matilde (minha escola em São Paulo, a propósito) virá com enredo homenageando a Portela. E, como não poderia deixar de ser, Clara Nunes é parte tanto do enredo como do samba.

Finalizando, Clara Nunes é parte indissociável do universo das escolas de samba. Sua partida prematura tornou-a um mito, especialmente a nós portelenses.

Eu costumo dizer que este enredo da Portela para 2019 significa o reencontro de um filho com sua mãe, mãe esta que partiu muito cedo. Por uma (ou, se Deus quiser, duas) noites, o filho irá reencontrar sua mãe.

Extra: após a publicação deste texto, fui alertado que a escola gaúcha Bambas da Orgia, uma das mais tradicionais do carnaval de Porto Alegre, homenageou Clara Nunes em 2009. Com problemas de evolução e Harmonia, a escola obteve o quinto lugar. O vídeo está abaixo.

Imagem: Arquivo Ouro de Tolo

4 Replies to “Clara em Desfile”

  1. ” a Nenê de Vila Matilde (minha escola em São Paulo, a propósito)”, não consigo nem motivo imaginar o motivo…kkk
    Quanto a Mocidade Alegre, ainda acho o samba ele melhor que o da Portela, mas vi no ensaio que escola berra o samba, e isso que importa

    1. Hahahahaha, fato. Pior é que até um discípulo de Nilo Figueiredo a escola tem hoje… (risos)

      Eu acho esse samba da Mocidade Alegre bem, digamos, chato

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