Após longo intervalo, retomo uma das colunas originais do Ouro de Tolo contando a história de um divertido desfile – e, ao mesmo tempo, polêmico.

A chamada “Robauto” era uma feira que existia no bairro de Acari, no subúrbio do Rio de Janeiro. Pesquisa em reportagens do jornal “O Globo” da época dão conta que desde 1986, pelo menos, a feira existia e era alvo de corriqueiras operações policiais.

Ainda hoje a feira, após uns anos inativa, existe na Avenida Pastor Martin Luther King, como matéria do final de 2017 mostra. O termo “Robauto” vem da procedência, digamos, duvidosa de diversos produtos colocados à venda.

Nos dias de hoje, com a abertura comercial, quase não se encontram produtos com origem em contrabando, mas à época da história que iremos contar essa era outra fonte de produtos vendidos na feira.

O leitor mais jovem pode achar estranho com a variedade de produtos importados que temos hoje à disposição, mas até 1990 inúmeros produtos tinham sua importação proibida – daí o contrabando.

Justamente em 1990, a Unidos da Ponte, de São João de Meriti (mas cuja quadra fica na Pavuna, bairro limítrofe do Rio de Janeiro) resolveu contar esta história na Marquês de Sapucaí.

“Robauto… uma Ova” era o título do enredo da escola, que já anunciava nele que a feira não vendia produtos oriundos de receptação de roubo. A Ponte havia sido rebaixada do Grupo Especial em 1989, com um enredo sobre a preservação da natureza, estando em 1990 no então “Grupo 1” da hoje extinta Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Este grupo tinha como novidades, além das quatro escolas rebaixadas do Especial ano anterior, as duas promovidas do então Grupo 3 (que viraria Grupo 2 no ano seguinte), que estavam subindo feito foguetes dos grupos de baixo – turbinadas pela grana de seus patronos: Unidos do Viradouro e Acadêmicos do Grande Rio.

Além disso, com o rebatismo do grupo principal como “Grupo Especial” em 1990 (que se mantém até hoje), todos os grupos da então Aescrj “subiram um grau” na numeração: o então Grupo 2 passou a ser Grupo 1, e assim sucessivamente.

A Unidos da Ponte teria Antônio Carlos como executor do enredo, sendo supervisionado pelo carnavalesco Alexandre Louzada, então na Caprichosos de Pilares – escola com a qual a Ponte tinha uma espécie de “parceria” naquela ocasião.

A transmissão também creditava a Toninho Leal o posto de carnavalesco, mas, segundo a própria descrição feita pelo comentarista, a função dele era muito mais a de “Diretor de Carnaval” – função que, com este nome, não existia oficialmente ainda.

Não há sinopse disponível, mas o desenvolvimento mostrado na avenida alargava o objetivo do enredo: além da famosa “Robauto”, outras feiras do subúrbio em geral também eram enfocadas no desfile.

Também se dividindo com a Caprichosos de Pilares, Aroldo Melodia era o intérprete da Unidos da Ponte para aquele 1990.

Não há maiores detalhes sobre a preparação da escola no pré-carnaval daquele ano. Nos dois principais jornais cariocas que mantém seus acervos disponíveis para consulta, “O Globo” e “Jornal do Brasil”, há apenas uma nota no primeiro, em janeiro, dizendo tão somente o tema do enredo e mais nada.

Contudo, matérias sobre a Robauto em si não faltavam, especialmente cobrindo operações policiais na feira, que era aos domingos – e terminava sempre com um pagode no final da tarde. Em nenhuma das reportagens, entretanto, havia menção ao enredo da agremiação.

A Unidos da Ponte foi a quarta escola a desfilar (entre dez agremiações) na noite de sábado, 24 de fevereiro de 1990, noite de bom público, muitos camarotes abertos e uma chuva fina permeando as apresentações. Eram 2,5 mil componentes e seis carros alegóricos – tamanho pouca coisa menor que um desfile do Especial de hoje.

Na concentração, cerveja gelada em isopores e “churrasquinho de gato” distribuídos pela direção da escola já davam o tom do que seria o desfile.

A comissão de frente, integrada esteticamente ao abre alas, trazia gatos com o número 55 no peito – em referência ao jogo do bicho – e sacos de dinheiro nas mãos. O abre alas trazia o nome da escola em azul e um imenso gato preto, com colares e balangandãs, contemplando a passarela.

Era um abre-alas irônico (acima, em reprodução do jornal “O Globo”). No subúrbio do Rio de Janeiro, “gato” é uma gíria antiga para roubo ou ladrão. Paulo Cavalcanti era o principal destaque e composições vestidas de gatas completavam o carro.

No primeiro setor havia alas com motivos como os relógios vendidos na feira, entre outros. A bateria, vestida de batalhão de choque da Polícia Militar – o que, segundo o jornal “O Globo” do dia seguinte, fez os policiais de verdade “levarem um susto” – veio no primeiro setor até o recuo, embora sua indumentária fizesse parte do último.

A rainha da bateria era Cássia Costa, da própria comunidade da Unidos da Ponte. A bateria veio com muitas convenções e sua ala de tamborins fez coreografias durante o desfile. O comentarista Adelzon Alves fala durante a transmissão que os ritmistas expressaram desconforto com o fato de desfilarem representando policiais militares.

O segundo carro, que trazia uma estrutura giratória, misturava esculturas de equipamentos eletrônicos e ferramentas, aludindo a produtos vendidos na feira. O tema continuava no terceiro setor, cujo carro alegórico, com diversos “caixotes”, enfocava os aparelhos eletrodomésticos. As alegorias, como um todo, eram baixas e compridas.

Entremeando os carros, alas como a do churrasquinho de gato, pneus, discos, panelas, aparelhos de rádio e televisão, gaiolas, alicates, peixeiros, nordestinos, bebidas importadas e armas. A abordagem do enredo foi na linha da galhofa, entremeada às tradições suburbanas do Rio de Janeiro.

A quarta alegoria trazia o pagode que encerrava a feira, no final da tarde. Este carro trazia o ator global Antônio Grassi e sua mulher, Lilibeth Monteiro de Carvalho – ex-mulher do então presidente eleito Fernando Collor de Mello. Grassi, aliás, deu uma entrevista à Rede Globo no início do desfile visivelmente “alegre”, se é que o leitor entende… Esse carro trazia uma imensa escultura de uma vaca em sua parte frontal.

O quinto setor falava das feiras em geral e trazia na alegoria verduras e legumes, reverenciando a tradição popular das feiras livres cariocas.  A ala das baianas veio à frente deste carro, assim como uma curiosa ala de “cartelas de ovo” – e olha que não havia a promoção de “60 por 15 reais”…

Fechando o desfile, o último setor e carro abordava a questão policial, com esculturas de armas e sirenes no carro, bem como destaques e composições representando artigos do Código Penal. A atriz Miriam Pérsia veio como um dos destaques nesta última alegoria da escola.

O samba, de Jorge Bem (homônimo do cantor), Charles 99 e Coral, foi cantado com competência por Aroldo Melodia. Tinha uma linha mais galhofeira, dentro do espírito do enredo, negando em seu refrão que a feira tivesse receptação de produtos roubados. Sustentou bem o desfile, apoiado pela firme bateria. A evolução da Ponte foi de forma bem mais solta em relação ao que nos acostumamos nos últimos anos, sem aquele “linha e coluna” que muitas escolas adotaram.

A escola saiu com expectativa de alcançar uma das duas primeiras colocações, que a dariam o direito de retornar ao Grupo Especial. A equipe da Rede Globo chega a elogiar a escola, comparando-a aos desfiles de Unidos do Viradouro e Tradição, que a haviam antecedido.

Contudo, a Unidos da Ponte ficou apenas no terceiro lugar na apuração, que foi prestigiada pelo Capitão Guimarães e por Anísio Abraão David, então bastante representativos na Liesa. Ainda que respectivamente com a porta bandeira caindo em frente ao jurado e ao atravessamento da bateria, Unidos do Viradouro e Acadêmicos do Grande Rio alcançaram o acesso ao Grupo Especial, com uma diferença significativa de pontos em relação à Ponte.

Fica o registro de um desfile divertido e com um enredo que, nos dias de hoje, seria algo absolutamente impensável – ainda que sob um viés crítico. A verdade é que o carnaval, hoje, é mais “careta” e conservador.

Abaixo, a letra do samba:

“Ao som da lira o poeta se inspira

Para apresentar…

Em forma de poesia

A feira popular

Quem vai querer…

Quem vai querer

Pode chegar… Pode chegar

Você aqui vai encontrar…

Tudo que imaginar

Rádio que não funciona…

Geladeira que não gela

Gravadores que não gravam

Frigideiras e panelas

Tudo isso e muito mais…

Na barraca do Thomaz

Tem gato na tuba..

Não deixa o gato fugir

Hoje é dia de folia na Sapucaí

Verduras e legumes a granel

Você pode comprar

Na barraca do seu Manel… Do seu Manel

Chicória, couve-flor e alface

Tomate e pimentão

Abaixo da inflação

E caminhando um pouco mais

Você também vai encontrar… Encontrar

Nas barracas muambas e muambeiros

Com bagulhos a negociar

Pode checar… Que é legal

Robauto… É uma ova

Este é o tema principal

E a Ponte traz a feira

Para este carnaval”

Imagens: Reprodução

2 Replies to “Samba de Terça: “Robauto… Uma Ova””

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