Categorizado | Pedro Migão

Os Sambas Enredo de 2019

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Final de novembro, início de dezembro e todos os CDs das escolas de samba cariocas estão disponíveis de forma oficial em plataformas digitais (Especial e Série A) ou disponíveis de maneira não oficial no YouTube (Séries B, C e D).

Parêntese: não encontrei informações sobre a venda oficial do CD das escolas da Intendente Magalhães. A visibilidade já não é das maiores e quando há oportunidade, a divulgação é quase inexistente.

A ideia neste texto é escrever impressões gerais sobre os sambas que ouvi na data em que escrevo (até a Série C), bem como observações sobre algumas escolas, não todas. Deixarei os comentários mais técnicos aos especialistas.

De uma forma geral, tanto Especial quanto Série A (especialmente esta) tiveram suas safras prejudicadas por erros de avaliação em suas disputas por parte de algumas escolas, não levando os melhores para a avenida.

Especialmente Beija Flor na primeira e Porto da Pedra na segunda tinham opções muito melhores que as escolhidas – o samba derrotado na escola de São Gonçalo seria o melhor entre todos os grupos. Mas não foram as únicas.

Ressalva feita, minha opinião é de que temos safras de medianas para boas em três dos quatro grupos. A Série C é que destoa um pouco em uma primeira avaliação.

O Especial tem como destaques Mangueira, Portela, Tuiuti e a reedição da São Clemente. Na Série A Rocinha, Renascer e a reedição da Unidos da Ponte. Na Série B temos bons sambas como a Lins Imperial, a Tradição, o Arame de Ricardo e Curicica. A Unidos do Jacarezinho sobra na Série C, em uma primeira avaliação.

No Especial, mesmo sambas não citados acima como Mocidade e Salgueiro também tem boa qualidade. A agremiação da Tijuca tem um samba tecnicamente bem feito, letra e melodia corretas, mas a meu juízo a composição peca pela frieza – e neste enredo a emoção era fundamental.

A Mocidade transita entre um samba de enredo e um samba exaltação, que deve ser adequado para a motivação da própria escola. Perde um pouco em comparação ao Império Serrano 1995, com enredo semelhante, mas está na parte de cima da safra.

O trio Mangueira, Tuiuti e Portela se destaca, a meu ver, por terem encaixado bem seus sambas às suas propostas de desfile. Letras contundentes nos dois primeiros casos, uma melodia absolutamente emocionante na Águia – cuja aposta é na comoção.

Por outro lado, Beija Flor e Imperatriz destoam. A primeira eliminou na semifinal aquele que era disparado o melhor samba da disputa, e acabou optando por uma junção (uma semana depois da final ter apontado um vencedor) que gerou uma colcha de retalhos. Já a Imperatriz talvez tenha se ressentido do enredo fora das características da agremiação, porque a safra não foi nada inspirada.

A gravação oficial melhorou a adaptação musical feita pelo Império Serrano, que na primeira versão divulgada estava em um andamento que faria o carro de som pedir balão de oxigênio com 15 minutos de desfile. Continuo achando desnecessária a atitude tomada pela agremiação, mas a música deu uma boa assentada em sua versão definitiva.

Quanto à Série A, confesso que vivo um caso de amor com o samba da Rocinha desde a primeira audição, ainda nas eliminatórias. Já nasce como o segundo melhor da história da escola. Renascer manteve o alto nível habitual e a reedição da Unidos da Ponte achou um andamento bem interessante 35 anos depois.

Santa Cruz estaria neste grupo, mas chama a atenção a semelhança entre a melodia do refrão final e Império Serrano 1994. Não penso ter sido algo proposital, mas são praticamente idênticas. Ainda assim, é belo samba.

Cubango sofreu com as mudanças na melodia da segunda parte após a disputa, que tiraram muito do brilho. E eu tenho uma diferença filosófica com o samba da Alegria da Zona Sul: samba afro com melodia animadinha e “pra cima” não me desce. É o mesmo caso do Império da Tijuca em 2018.

Destoa e muito o samba da Acadêmicos do Sossego. Como escreveu uma seguidora no Twitter, “a cultura do lacre chegou ao carnaval”. A parceria para a qual o samba foi encomendado tentou algo “revolucionário” (um samba sem verbos) e claramente errou a mão. Sem contar o infeliz verso “eis aí o livre arbítrio”…

As Séries B e C, juntas, não tem nenhum samba que nos faça voltar e ouvir de novo. Na Série B, além dos citados no alto deste texto, chama a atenção o interessante enredo/samba sobre Nelson Gonçalves da União de Maricá.

A Série B tem uma safra bastante homogênea e correta. Já a Série C tem um desnível maior, com bons sambas como Jacarezinho (especialmente), Passa Régua, Villa Rica e União do Parque Acari e outros confusos como Vila Kennedy e Sereno. Coloco aqui os dois vídeos com estes grupos, para apreciação dos leitores.

Finalizando, as safras para 2019 mantém a tendência de retomada do gênero samba enredo que vem se notando desde especialmente 2012. Em que pese não haver um “super samba” (o que havia perdeu na final da Porto da Pedra), o nível como um todo é bastante satisfatório.

Imagem: Ouro de Tolo

4 Respostas para “Os Sambas Enredo de 2019”

  1. Rafael disse:

    INCRÍVEL como em na maioria dos artigos ele quase não fala muito do nosso Salgueiro, sempre cita pra “nao deixar de fora”, mas nunca aprofunda muito. AFFFF

  2. Leonardo Leite disse:

    Faltou falar sobre o samba da Tijuca, apontado por muitos como um dos favoritos ao estandarte de ouro.

    • Pedro Migão disse:

      Leonardo, para mim a Tijuca errou em sua escolha ao preterir o sambaço assinado pelo Dudu Nobre. Acho o escolhido ok e só. Mas obrigado pela lembrança.

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