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Um pouco sobre bullying

Bullyingot

Semana passada ocorreu uma tragédia em uma escola em Goiânia. Um menino de 14 anos saiu atirando em seus colegas e pelas últimas informações que recebi dois meninos morreram e uma menina ficou paraplégica. Conheço a prima de um dos meninos que morreram e a família está devastada, Uma grande tragédia.

Pelos relatos o menino que atirou sofria bullying na escola devido a seu mau odor e até desodorante levaram ao colégio no intuito de sacaneá-lo. Antes de mais nada quero deixar bem claro que nada justifica sua atitude. Ele matou, cometeu assassinato e não há crime maior do que ele cometeu, muito maior que bullying,por exemplo.

Ele deve pagar pelo que fez e dentro do que a lei permite. Sou contra redução de maioridade penal, mas acho que deve existir debate sobre assassinatos, só que esse é outro assunto.

Assunto hoje é bullying.

Vi algumas pessoas dizerem que era besteira do garoto sofrer porque recebia bullying e vi os mesmos argumentos imbecis que de vez em quando leio em redes sociais “Antigamente a gente se chamava de quatro olhos, elefante, anão, fedorento e tinha nada disso”.

Pode ter certeza leitor que quando você ler algo assim a pessoa era quem cometia o bullying ou podia até ser zoado, mas não era o alvo preferido da turma porque quem realmente sofreu bullying nunca minimiza.

O bullying, ou melhor dizendo, o debate sobre ele foi uma das poucas coisas boas que essa onda politicamente correta trouxe. O politicamente correto não é inimigo. Acho bom que se combata bullying, que não se faça mais piadas com negros ou o homem seja mal visto se cometer assédio sexual. É preciso ter liberdade, mas é preciso proteger também os mais frágeis.

Com tudo isso eu digo pela primeira vez em público que eu mesmo fui vitima de bullying.

Não é fácil assumir algo assim porque é uma coisa que deixa marcas e molda sua personalidade, mas evidente que eu sendo o gordo da turma sofri. Quando criança e adolescente perdi a conta de quantos apelidos recebi ou das vezes que fui zoado na frente dos outros, das meninas que eu gostava ou de me zoarem na rua quando ficava sem camisa.

Só adulto voltei a andar sem camisa na frente dos outros e tudo por causa da fase do “é besteira isso, antigamente não tinha essas frescuras”.

Eu nem era o alvo principal, tinham dois ou três moleques na rua que pegavam mais pesado com eles, mas me incomodava, era algo que me deixava infeliz e chegou a tal ponto que com treze anos, numa fase importante de transição da infância para a adolescência eu decidi não brincar mais na rua.

Minha mãe perguntava o motivo e eu respondia apenas que não estava a fim. Evidente que eu estava, mas não queria ser zoado, humilhado. Perdi assim o fim da minha infância e o começo de minha adolescência, fase que nunca mais irei recuperar. Só voltei a sair com amigos dois anos depois quando me mudei para o Mato Grosso.

O bullying que sofri moldou minha personalidade. Virei um cara irônico, sarcástico, gozador como escudo, tive que aprender a ser assim para me defender e antes que me zoem eu já faço a zoação, boto apelidos, sacaneio e boto outros na “reta” antes de me botarem. Por um lado foi bom porque atiçou meu raciocínio e sagacidade, mas não foi bom o motivo que levou a esse jeito de ser.

E ter sofrido bullying me fez e faz até hoje ser tímido, introspectivo, arredio com quem não conheço, em ambientes não favoráveis e com as mulheres. Durante toda minha adolescência tive baixa auto estima em relação a elase nem chegar nas meninas que eu gostava tinha coragem porque botaram na minha cabeça que era feio por ser gordo.

Demorei para namorar e só comecei mesmo a me dar bem com as mulheres quando percebi que escrevia bem, que tinha desenvolvido bom raciocínio, que eu não era feio por ser gordo e assim consegui me sobressair até em relação a caras bonitões, mas sem conteúdo namorando, ficando, conhecendo mulheres maravilhosas.

Só que por um bom tempo não fui legal com elas, pulei de mulher para mulher e muitas vezes acumulei relacionamentos, traí para “tirar o tempo perdido”. Evidente que não quero tirar meu corpo fora, não posso botar tudo na conta do bullying, mas acredito sim que ter sido “galinha” por muito tempo teve influência do bullying.

Sempre que vejo caso de bullying lembro dessa época e aqui na Ilha, principalmente na Freguesia, é difícil as pessoas se mudarem. Ficam todos pela área, constroem casas nos terrenos dos pais, fazem suas famílias aqui e até hoje rola mágoa porque falo com quase nenhum dos meus amigos de infância.

Só consegui o respeito deles quando fui para o samba. Comecei a fazer bons sambas, ganhar, fazer nome e os caras que me zoavam tentaram se aproximar elogiando e parabenizando minhas conquistas. Mas já era tarde demais para isso, queria esse afeto criança nao agora que fiz amigos de verdade.

E não tenho orgulho em falar isso, mas confesso que dou uma risada de canto de boca quando vejo que quase todos se tornaram inexpressivos na vida e alguns estão bem mais gordos que eu.

Bullying é coisa muito seria como eu já disse, não é brincadeira como querem passar em redes sociais. Nunca quis matar ninguém ou pensei em me matar por causa disso até porque por mais chato que tenha sido, que tenha me atrapalhado em alguns momentos não chega nem perto de histórias e perseguições que vi outras pessoas sofrerem.

Acho que minha personalidade ajudou a me defender, mas nem todo mundo teve essa sorte e juro que não consigo julgar ou me assustar com quem deu um tiro na cabeça pela perseguição que sofria ou se tornou um adulto depressivo.

Como sei como é passar por isso fico de olho na minha filha Bia que está gordinha, mas por enquanto apesar das zoações que sofre ela está bem porque convenceu a escola toda que o pai é famoso por ter várias citações no google ou no youtube e seus colegas até autógrafos me pedem.

Não consegui me proteger, mas por enquanto consigo lhe proteger. Sei que não para sempre porque a vida é cruel e, acreditem, não tem ser mais cruel que criança quando quer atingir outra criança.

Mas a vida não pode parar e temos que passar por nossos fantasmas, obstáculos e fazer de cada dia uma sessão de terapia.

Um exercício de auto estima.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

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