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Nós, os derrotados

Einsteinorun

Sábado passado escrevi um artigo no “Jogando nas Onze” sobre a Seleção Brasileira de 1982. Passaram-se trinta e cinco anos daquela Copa e da derrota para a Itália, e a seleção se tornou inesquecível para todos aqueles que assistiram.

Foi uma semana dedicada àquela seleção, já que no dia dos trinta e cinco anos da derrota, a ESPN Brasil lançou um documentário sobre aquele time.

Qual não foi minha surpresa em relação ao artigo e o documentário em ver que, assim como aqueles jogadores tem muitos fãs, tem muitos detratores. Foram inúmeras as mensagens que vi com críticas e até ofensas aos jogadores com expressões como “amarelões” e fracassados”.

Vi aquilo tudo e fiquei pensando no assunto, ainda mais que ao mesmo tempo em que via as críticas vi no documentário o excelente Pep Guardiola exaltando aqueles caras e dizendo que eles são como artistas que fazem uma obra e depois de trinta, quarenta anos ainda são lembrados. Fiquei pensando… O “apontar o dedo” para o fracasso alheio é algo humano ou brasileiro?

Lembrei de algumas situações e cheguei à conclusão de que é mais nosso. Tem duas ocasiões em que o brasileiro trata como ofensa pessoal: o sucesso de uma pessoa e o fracasso de um grupo, principalmente se esse grupo for esportivo.

Tom Jobim dizia que sucesso no Brasil é ofensa pessoal e ele não está errado, isso vai desde Carmen Miranda, que diziam ter voltado americanizada, até pessoas de hoje como o Neymar.

O fracasso esportivo é passível de condenação a morte e nisso não tem nenhum exagero, já que o presidente do Paysandu acabou de renunciar ao cargo porque ele e seu filho autista de 14 anos receberam arma na cara de homens encapuzados com esses dizendo que sabiam onde o presidente morava e matariam a ele e sua família caso o clube fosse rebaixado a Série C do Brasileiro.

Aqueles caras de 1982 podem ser chamados de tudo, menos de fracassados. Ganharam títulos por seus clubes e mesmo que não tivessem ganhado, são bem sucedidos.

Primeiro porque envelheceram, e nesse mundo de hoje e sabendo qual é a alternativa a não envelhecer, isso é uma benção. Segundo, que todos construíram famílias,ganharam dinheiro e são lembrados até hoje pelo que fizeram em campo. Até morrerem serão entrevistados por isso.

Alguém sem uma boa dose de fanatismo esportivo tem coragem de dizer que o Zico é fracassado? Olhem os títulos que ganhou pelo Flamengo, a família que construiu, a imagem que tem, o dinheiro que ganhou. Se ele é fracassado, nós mortais, somo o quê?

Pronto, cheguei ao ponto que eu queria. Nós pessoas comuns somos fracassadas pelo menos na maior parte do tempo. Eu já escrevi aqui em um artigo antigo que quase nenhuma criança consegue chegar na fase adulta realizando aquilo que sonhara, entre todas as pessoas é normal avaliar que a maioria dos planos que fazemos pra nossas vidas ou mesmo para aquela semana ou dia dá errado.

Na vida todos nós perdemos muito mais do que vencemos, e as pessoas que conseguem perder menos, são aquelas chamadas vitoriosas. Não somos Barcelona nem Real Madrid, somos Botafogo, aquele que não é genial e precisa se esforçar para conseguir vitórias.

Nós, os comuns, não nascemos Pelé, Picasso, Steve Jobs, Chaplin, Michael Jackson ou Einstein. Somos seres normais que não enriqueceram, não inventaram nada, não revolucionaram nem seremos nomes de ruas quando morrermos e em algum lugar de nossa alma e cérebro nos frustramos e por existir essa frustração jogamos pressão, exigimos daqueles que podem fazer tudo isso, que podem fazer por nós.

Aqueles que podem nos tirar da depressão da normalidade, dos problemas do dia a dia, da frustração de conviver com políticos corruptos e safados sem poder fazer nada e por depositar todas as esperanças nesses “super heróis” que tem o dom que gostaríamos ficamos possessos quando falham, lhes vemos como traidores e todo aquele amor, aquela esperança vira mágoa e revolta

É assim que eu vejo a forma que encaram a Seleção de 82, como os marginais trataram o presidente do Paysandu, ou a torcida do Flamengo age no twitter perseguindo jogadores e trenador. Nós podemos falhar, eles não porque eles somos nós dando certo e se fracassam é porque nós fracassamos duas vezes.

Falta um pouco de leveza na vida, tocar o “dane-se” quando as coisas dão errado. É normal que dê e se tivermos essa consciência celebraremos mais quando der certo.

Porque acredite, de vez em quando dá certo, é porque nos preocupamos tanto com o erro que raramente percebemos quando isso ocorre.

Fica a dica… De um fracassado como vocês.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

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