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O Carnaval que insiste em não terminar

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Tivemos essa semana mais uma – mais uma – triste notícia ainda envolvendo esse carnaval que não termina, o de 2017. A pior delas, infelizmente.

A morte da radialista Liza Carioca marca definitivamente a data e deveria marcar também um ponto de mudança, de virada, para os rumos da folia no que diz respeito à organização da festa. Mas temo que, após os discursos aparentemente emocionados, nenhuma grande alteração significativa será levada a cabo.

Ficam os parentes e amigos e um milhão de perguntas sem respostas. Quem as fará? Quem as responderá?

Quantas pessoas havia (há, todos os anos), ao todo, na área de concentração? O que fazem exatamente? Quantas efetivamente estavam a trabalho? Quais os critérios usados para a distribuição de credenciais? Por que tanta gente claramente a passeio na pista? Quantos homens para fazer a segurança do local? Como será solucionada a questão do seguro por morte ou invalidez? Quem pediu ou ordenou a continuidade do desfile? Quem deu o ok? O que se sabia, de fato, sobre o estado dos feridos naquele momento?

São muitas as questões relativas ao acidente. E outras tantas relativas aos procedimentos de julgamento, como a mal fadada decisão de cancelar o rebaixamento e toda a confusão envolvendo a divisão do título.

No próximo dia 13 a quadra do Império Serrano será palco do sorteio da ordem dos desfiles da Série A. Em pouco tempo já estaremos – nós, os apaixonados por essa manifestação cultural – debatendo enredos e sambas concorrentes. E quem se deu bem ou, supostamente, teve azar nos sorteios para o desfile de 2018. Em suma, o Carnaval 2018 baterá à nossa porta e…

E tudo o que aconteceu?

Para quem não vive as escolas de samba no dia a dia, o tamanho da mancha, do prejuízo institucional não foi calculado. Mas certamente é enorme. Não sei quantas pessoas deixarão de comprar ingressos, de ligar a TV, de se interessar pelo tema.

Quantos vão engrossar o discurso de que o desfile é apenas um evento feito por e para foras da lei e que não merece o aporte de verbas públicas? Quantos vão reforçar a tese de que o desfile das escolas de samba é um evento decadente, com os anos contados? Quantos vão aproveitar o momento para investir menos e reduzir ainda mais o espaço que a maior festa popular do país tem tido?

Não sei como serão os preparativos para 2018. Só espero que esse Carnaval 2017 que insiste em não terminar deixe algumas lições.

Que protejam a festa da extinção.

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo

2 Respostas para “O Carnaval que insiste em não terminar”

  1. Fellipe Barroso disse:

    Bom dia!

    Prezado Carlos Gil:

    Dentre os muitos fascínios que tenho pelo desfile das Escolas de Samba, um deles é perceber que se trata de um tema tão comum e próximo ao mesmo tempo em que é tão raro e distante para um mesmo conjunto de pessoas as quais não sei precisar quem são, porém encontram-se mais próximas do que você imagina.

    Já trabalhei em muitos lugares diferentes. Nunca (Sem exagero, NUNCA!) me cerquei de pessoas que curtem o carnaval minimamente de forma parecida como eu curto:
    – A par dos assuntos relativos às Escolas de Samba ao longo do ano inteiro;
    – Ir a alguns ensaios técnicos (Não sou de ir a todos…);
    – Decorar os sambas das Agremiações do Grupo Especial e da Série A (Para começar!);
    – Assistir aos desfiles ao vivo (4 dias de Sapucaí + 1 dia de Intendente Magalhães).

    Como já mencionei, nunca encontrei nenhum (a) colega de trabalho que se dispusesse a um interesse maior pelas Escolas de Samba do que as básicas notícias da televisão. Veja bem, nem saber os sambas atuais, seja lá qual for ele (Pelo menos para aquela Escola “querida”), essas pessoas sabem.

    O interesse pela festa é paradoxal!
    A mesma pessoa que diz que “todo ano é a mesma coisa” não sabe citar 1 enredo de uma Escola do corrente ano, e (Arrisco-me a dizer por difíceis experiências para inteirar uma frisa com quem deseja conhecer o sambódromo…) nem sabe a diferença entre “Série A” e “Grupo Especial”, nem em que dias desfilam.

    Por que dei esta volta toda?
    Para dizer que acredito até que falem em toda a tragédia (Ou parte dela) que foi o carnaval 2017, mas como “todo ano é tudo igual”, deve ficar por isso mesmo, e nem deve ser tão lembrado.

    Enquanto isso o carnaval muda pouco.
    Poderia mudar muito, crescer, ganhar muito, mas continua parecendo ficar sentado colhendo os louros que já não existem há algum tempo.

    Atenciosamente
    Fellipe Barroso

  2. Carlos Gil disse:

    Fellipe, entendo e concordo com sua análise. Tampouco eu conheço muitos que, como nós, se envolvem tão de corpo e alma ao carnaval e às escolas de samba, mais especificamente. E esse é o perigo. Os donos da festa matando sua galinha dos ovos de ouro. A festa sofre com crise de credibilidade e essa sazonalidade midiática. Em outras palavras, só aparece e ganha espaço durante poucos meses – quiçá dias – por ano. Para o nível de investimento e exigência do desfile atual é pouco. E o mais triste é que se trata de uma legítima manifestação cultural brasileira, única no mundo, admirada por quem vem de fora, capaz de integrar o morro ao asfalto, a dar voz a tantas comunidades e tanta gente alijada de todos os processos culturais e decisórios do país. Uma pena, em suma, se conseguirem acabar com o carnaval.

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