Terminado o período olímpico, é hora de começar a olhar com ainda mais atenção para o Carnaval de 2017. Já há algum tempo são conhecidos os 12 enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro e agora, já com quase todas as disputas de samba rolando, faço aqui uma análise sobre os temas que vão passar pela Sapucaí no Maior Espetáculo da Terra.

Comecemos com as escolas que vão desfilar no domingo.

Paraíso do Tuiuti: “Carnavaleidosópio Tropifágico”

Carnavalesco: Jack Vasconcelos

Autor da Sinopse: Jack Vasconcelos

A busca insana de carnavalescos e de parte do público por enredos “criativos” e “diferentes” faz com que, às vezes, alguns enredos óbvios e ao mesmo tempo brilhantes passem batidos por anos e anos. É de se espantar, por exemplo, que o movimento tropicalista, um dos mais importantes da história do Brasil, nunca tenha passado pela Avenida no Grupo Especial. A Paraíso do Tuiuti, que está voltando à elite após 16 anos, tratou de resolver isso, aproveitando os 50 anos do Movimento.

A sinopse do excelente carnavalesco Jack Vasconcelos é brilhante. O texto, em forma de manifesto, é cheio de sacadas criativas e referências bem costuradas à obras importantes do movimento tropicalista. No entanto, a impressão que passa é que, se o enredo tem um começo e um fim muito bem definidos, o meio ficou bastante confuso. Talvez por conta da intenção de Jack de fazer um texto com elementos da estética do movimento tropicalista, faltou uma melhor amarração dos setores centrais.

O enredo começa por outro movimento cultural importantíssimo, o antropofagismo, da década de 1920. É que muitos dos conceitos tropicalistas, como a valorização da identidade nacional a partir de estilos artísticos estrangeiros, foram inspirados nos antropofagistas. É por isso que são muito bem-vindas às citações ao descobrimento do Brasil e ao choque cultural entre os nativos e os portugueses. Também me agrada muito as citações, na sinopse, ao poema “Erro de Português” e à personagem Macunaíma.

Mas é justamente quando o enredo entra de fato na Tropicália que há o pequeno deslize. Claro, as referências musicais e artísticas são captadas com muita facilidade, mas falta clareza. Afinal, como vão se dividir esses setores? Haverá um para as músicas, outro para as artes plásticas, etc? Ou as obras serão todas jogadas ao léu sem nenhuma ordem explícita? Pelo menos na sinopse, faltou esclarecer isso – e de certa forma os sambas também ficaram bastante confusos.

Ainda assim, nada que tire o brilhantismo do enredo. O ponto alto, pelo menos para mim, é o fato de ser um enredo politizado. Ele é contestador, ousado, crítico, tem elementos que fazem muita falta no Carnaval dos dias atuais. Nesse ponto, destaco um trecho da sinopse: “A burguesia exige definições. Oh! Good Business”. Ou seja, é a burguesia colhendo os frutos da qualidade artística dos tropicalistas após o estranhamento inicial. Também gosto do trecho “contra o aculturamento. Contra os bons modos. Contracultura”.

O final do enredo também é espetacular. Para mim, o grande momento. Se o enredo começa mostrando que os ideais tropicalistas estiveram presentes no país desde o descobrimento, nada mais coerente que terminar mostrando que eles estão vivos até hoje. E é assim que Jack Vasconcelos conclui seu manifesto: “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi o Carnaval. Nunca seremos belos, recatados e do lar”. No trecho final, uma frase brilhante: “Eu vim pra confundir e não pra explicar”. Nada pode ser mais Tropicália do que isso. O último parágrafo ainda resume muito bem a essência contestadora do movimento e do próprio enredo: “Eu vou pelo mundo em milhares de cores. Eu vou! Porque não? Porque não? Porque não?”. Um texto brilhante, um enredo quase perfeito para uma escola que pode sim se manter na elite. Por que não?

20160208_020914Acadêmicos do Grande Rio: “Ivete, do rio ao Rio”

Carnavalesco: Fábio Ricardo

Autora da sinopse: Helenise Guimarães

Em primeiro lugar, já deixo claro que acho justíssima a homenagem para Ivete Sangalo. É uma artista de grande relevância artística pro Brasil e um fenômeno popular. Só isso, já basta. Isso posto, digo que analiso o tema sem preconceitos – aliás, pelo contrário, com muita boa vontade. O desenvolvimento do enredo não é ruim, muito longe disso, mas tem alguns deslizes complicados. Para começar, fazer a sinopse em primeira pessoa é uma solução simples, mas espinhosa. De início parece um ótimo caminho e, no entanto, acaba criando alguns problemas lá na frente. Ainda mais se tratando de uma figura como Ivete.

O início do enredo é interessante. Fala sobre as origens de Ivete Sangalo em Juazeiro do Norte e encaixa uma lenda sobre uma serpente que vive em um rio. Achei a ideia válida, sobretudo pensando no visual. Há uma óbvia licença poética, um momento nitidamente ficcional onde Ivete derrota a tal serpente, que também não me incomoda.

O ponto alto do enredo, ao meu ver, é quando a cantora conta a história da explosão do axé. Quando a homenagem à ela foi anunciada, eu já dizia que um dos pontos centrais deveria ser o fato de que Ivete está inserida em um contexto de mudança no cenário da música brasileira, quando pela primeira vez um ritmo nordestino alcança de fato o protagonismo em todo o país. Na sinopse, isso está bem explícito com as homenagens aos primeiros trios elétricos e aos grandes cantores baianos responsáveis por essa transformação.

Quando o enredo chega enfim à carreira de Ivete Sangalo, boa parte do desfile já se foi. Sem precisar forçar a barra, o carnavalesco Fábio Ricardo preencheu os setores iniciais com uma história coerente e que tem ligação direta com a homenageada. O enredo destaca bem o início da jornada de Ivete na música com a Banda Eva e a promissora carreira solo – aí há uma frase muito bem sacada, “da astronave reluzente pulei para pilotar minha carreira solo!”, uma referência ao sucesso “Eva”.

Mas, dali em diante, o desenvolvimento do enredo começa a derrapar. Primeiro, por conta da opção pela narração em primeira pessoa, como eu antecipei. Reparem nesses trechos: “o suingue da minha voz permitia movimentar por vários gêneros”, “tornei-me uma estrela nacional”. Não é um pouco estranho imaginar a Ivete falando tão bem de si mesma? É essa a armadilha do texto em primeira pessoa. Talvez, narrar a história de Ivete de longe dificultasse um pouco o início do desenvolvimento do enredo, mas certamente ajudaria nesse momento.

Por fim, todo o cuidado do texto da professora Helenise Guimarães nos dois primeiros setores não aparece no último. A chegada de Ivete ao Rio de Janeiro para o desfile da Grande Rio recebe uma importância exagerada, com citações muito estranhas ao município de Duque de Caxias. Nada do que está ali faz algum sentido dentro da ideia de se contar a história de Ivete Sangalo. No final, temos o clichê (um clichê bem-vindo, nesse caso) da “consagração”, da “mistura entre o Rio e a Bahia”, que fecham de maneira alegre o enredo. Não é um tema mal desenvolvido, longe disso, mas o final compromete em grande parte toda a costura bem feita dos outros trechos da sinopse.

20160209_034551Imperatriz Leopoldinense: “A Mística Xinguana – O clamor que vem da floresta”

Carnavalesco: Cahê Rodrigues

Autores da sinopse: Cahê Rodrigues, Marta Queiroz e Cláudio Vieira

Depois de tantos anos, a temática indígena já se esgotou no Carnaval Carioca. Por isso, a sinopse da Imperatriz Leopoldinense, apesar de competente, dá um certo cansaço em quem lê. Pior: é o enredo que já te dá a exata noção do que será visto na Avenida. Não porque o texto explica, mas sim porque de fato já vimos aquilo tudo muitas e muitas vezes. E é curioso porque, logo no início da sinopse, após uma citação a Orlando Villas-Bôas, Cahê Rodrigues, Marta Queiroz e Cláudio Vieira avisam: “hoje não viemos falar de lendas (…) Hoje, vamos falar da verdade”. Uma intenção louvável, mas que não se concretiza na sequência.

O enredo já começa com uma falha conceitual: também é narrado em primeira pessoa (ou, para ser mais exato, de índio para índio), mas tem como base estudos de Orlando Villas-Bôas. Ora, se a intenção é falar de índio para índio, como pode ser usada a visão de um homem branco, por melhor que sejam seus livros sobre o universo indígena?

Mesmo com esses deslizes, o enredo se desenvolve, no início, com alguma coerência e linearidade. Sem surpreender, mas também sem errar, viaja pelas celebrações tribais, a chegada dos portugueses (aqui aparece o melhor trecho da sinopse, quando o Brasil é caracterizado como “um Jardim Sagrado, de onde o próprio Deus dele o expulsou”, fazendo referência à catequização imposta aos indígenas) e a consequente relação com os colonizadores. Essa é, por assim dizer, a primeira metade do enredo. Clichê, sim. Cansativa, sim. Mas correta.

Na segunda metade, porém, o enredo começa a misturar os elementos indígenas com mensagens sobre a preservação da natureza e tudo começa a ficar muito confuso. Ele até aproveita um bom gancho, relacionando a chegada do “homem branco” aos “belos monstros” – usinas, barragens, agrotóxicos, etc. Depois, exalta “caciques brancos”, ou seja, os homens que ajudaram na luta indígena pela preservação das matas. No fim, volta a falar do “clamor da floresta”. Tudo muito confuso, como se o enredo andasse em círculos e voltasse sempre ao mesmo ponto.

Causa ou consequência desse problema citado no parágrafo anterior, vejo uma falta de conexão entre os setores do enredo. As passagens são todas muito claras, mas o conjunto não. A real intenção do enredo – “falar da verdade” – fica escondida. Não se entende, afinal, sobre o que fala de fato o desfile. Acho complicado também como a sinopse “fala” pelos índios, como os autores escolhem os heróis e os vilões dos indígenas com facilidade. Enredo fraco, confuso e com erros graves.

20160208_221927Unidos de Vila Isabel: “O som da cor”

Carnavalesco: Alex de Souza

Autor da sinopse: Alex de Souza

Esse é outro enredo óbvio e muito bom que nunca passou pela Avenida no Grupo Especial. Exaltar os negros através da música tem tudo a ver com Carnaval e com várias de suas escolas. Inclusive a Vila Isabel… Ainda que seja uma ruptura com o estilo de enredos recente da azul-e-branco, é um tema que resgata a essência que a agremiação construiu ao longo das décadas, com uma exaltação muito forte da raça negra e da história dos povos latino-americanos.

A sinopse começa com uma frase muito bonita: “ouço o tom da pele”. Como toda boa sinopse, sintetiza, logo de cara, o espírito da história que pretende narrar. Ainda no mesmo parágrafo, usa outras frases marcantes como “sinto cheiro daquela gente sofrida, no brilho da voz que não cala” e “gerações que seguiram colheram frutos dessa musicalidade”. Com clareza, o enredo mostra como a música é mais que uma letra e uma melodia e como ela está intimamente relacionada com a trajetória da raça negra no continente.

O carnavalesco Alex de Souza usa um artifício bastante inteligente no desenvolvimento do enredo, que é dividir os setores de maneira geográfica e não cronológica. Considero uma saída inteligente porque, se cronológico, o enredo ficaria confuso, já que muitas das passagens aconteceram em espaços de tempo muito grandes e, em geral, contemporâneos entre si. Então, dividindo geograficamente, o enredo não perde a coerência e ainda fica mais compreensível.

Dessa forma, ele começa pelas Antilhas, pelos países da América Central e pelas colônias hispânicas da América do Sul, destacando ritmos como a habanera, o rastafári, o reggae, a cúmbia, a milonga e o tango. A mim incomoda bastante o ritmo acelerado desse trecho do enredo. Acho cada uma dessas histórias muito boa e muito relevante para ser tão pouco aproveitada. Pior, acho difícil contextualizar todos esses ritmos e histórias em um ou dois setores. Será um desafio complicado.

Ao falar das colônias britânicas, o enredo fala sobre o jazz e o blues (com direito a uma frase maravilhosa: “ser negro é ser pop”) narrando uma história que é praticamente a mesma contada no desfile da Unidos da Tijuca. Não acho que seja um problema, mas de todo modo vai ser curioso notar como essas abordagens vão ser feitas, ponderando sempre que o que ocupa apenas uma parte do desfile da Vila vai ser, na verdade, o desfile inteiro da Tijuca. A propósito, é interessante notar como nesse setor a história é mais bem contada. A ausência de outras colônias britânicas deixou os ritmos norte-americanos sozinhos e, portanto, sobrou mais espaço para a história, ao contrário do que aconteceu na América Espanhola.

O enredo faz uma opção compreensível por reservar o maior espaço possível para a música brasileira. Talvez  – talvez, quero confirmar ou não essa impressão no desfile – tenha sido espaço demais, mas, de todo modo, a história é muito bem contada. Recuperam-se ritmos desconhecidos como o lundu e abre-se espaço também para uma contextualização histórica mais bem amarrada. Nesse ponto, destaco duas passagens: “Se negro festeja não conspira”, que explica o porquê das celebrações dos escravos não serem reprimidas pelos portugueses, e “o grande orgulho luso, ora pois, tem um pé na senzala”, em referência à mistura do próprio lundu com gêneros literários portugueses como as cantigas trovadorescas.

Por fim, a Vila viaja por celebrações religiosas, com destaque para as congadas e os afoxés, e enfim desembarca no samba para, é claro, exaltar Tia Ciata, as escolas de samba e a própria Vila Isabel. No caso, mais um dos clichês muito bem-vindos. O grande desafio, porém, é lidar com uma grande ironia trazida pelo enredo: ele é inédito, mas todos os seus principais elementos já passaram dezenas de vezes pela Sapucaí em enredos totalmente diferentes. O inusitado desafio de ser original em um enredo inédito deve definir o sucesso do tema narrado pelo Povo do Samba.

20160214_010557Acadêmicos do Salgueiro: “A Divina Comédia do Carnaval”

Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

Autores da Sinopse: Renato Lage, Márcia Lage e Diretoria Cultural

Para mim, em uma safra de enredos ligeiramente decepcionante, temos apenas um tema genial. Temos alguns bons, muito bons, mas genial mesmo, só um: e é do Salgueiro. A concepção artística dessa Divina Comédia do Carnaval é uma das mais brilhantes que já vi para um enredo em anos recentes. É o enredo que mais me agrada porque deixa aquela sensação de “como ninguém pensou nisso antes?”. Não é um enredo pronto que ninguém quis fazer por outros interesses. É um enredo genial que esteve esse tempo todo abaixo do nariz das escolas de samba e ninguém reparou.

Não precisa ser um grande conhecedor da obra de Dante para entender a proposta angelicalmente diabólica do Carnaval do Salgueiro. Lá na frente isso fica explícito, mas não resta dúvida que é um enredo cujo protagonista pode ser qualquer um que carregue o espírito folião. “Um aventureiro errante, passageiro do delírio” que viaja pelos “três reinos místicos de Momo”. Ah, nada como um enredo envolvente que te transforma em passageiro da história que pretende contar. Chega a ser curioso: quando o enredo fala em entrar na barca, o leitor entra junto, quase que se convidando pra fazer parte da viagem.

O primeiro setor, chamado “Alegria Infernal” leva esse aventureiro para o Inferno. Mas não é um Inferno sofrido, não. É um Inferno carnavalesco, carnavalizado. Recuperando todas as tradições mais profanas possíveis, o Salgueiro passa por “batalhas de confetes e serpentinas” que liberta as “feras que se escondem em cada um de nós”. Quando a viagem prossegue, a personagem se despede do Inferno “ainda que atraída pelas fogosas tentações espalhadas no caminho maligno que tanto seduz”. E não tem como não pensar o mesmo ao ler o texto.

No segundo setor, “Pecado é não se entregar?”, a barca chega ao purgatório para purificar o folião que mergulhou no Inferno carnavalesco. A sentença é arrebatadora: “Não há castigo para pecados cometidos em nome do prazer”. Enquanto viaja por “sete grupos de foliões” (um para cada pecado capital), o protagonista vai se purificando, vai se aproximando do paraíso e também do momento mais emocionante de todo o enredo: o encontro com a Santíssima Trindade.

Pode parecer uma espécie de auto-homenagem forçada, mas devo dizer que, pelo menos para mim, não é nada disso. É uma homenagem linda (e, melhor, coerente) a três grandes carnavalescos. Ora, se estamos falando de Infernos e purgatórios carnavalizados, que paraíso pode ser melhor para um folião salgueirense que aquele em que os anfitriões são Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Joãosinho Trinta? Não seria essa a recepção dos sonhos para qualquer espírito carnavalesco desencarnado? Pois é, foi o que o Salgueiro armou.

E ainda que essa homenagem seja emocionante e impactante, não é ela o ponto alto do enredo. Uma das grandes sacadas do ano é a composição visual criada pelo texto para esse paraíso carnavalesco. Em um enredo com tantos elementos católicos, montar um paraíso que através da “dimensão afro-cósmica dos reis, heróis e deuses de Yorubá” é, no mínimo, uma ruptura espetacular com o convencional.  Um paraíso-afro!!!

Ao final, o folião se revela como o Dante e explicita, como eu disse, a mensagem maior do enredo: “A REAL FELICIDADE ESTÁ EM NOSSA INADIÁVEL MISSÃO DE CARNAVALIZAR A VIDA. Há um Dante dentro de você. Liberte-o!”. Se depender desse enredo, não vai ser difícil.

20160208_010028Beija-Flor de Nilópolis: “A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema”

Carnavalescos: Laíla, Fran Sérgio, André Cezari, Ubiratan Silva, Victor Santos, Cláudio Russo e Bianca Behrends

Autores da Sinopse: Laíla, Fran Sérgio, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends, Cristiano Bara, Rodrigo Pacheco, Wladimir Morellembaum, Brendo, Gabriel Mello e Adriane Lins

Se existe um enredo mais pronto do que esse para uma escola de samba, eu desconheço. A obra de José de Alencar já é, por si só, um enredo daqueles bons. Bons, não. Ótimos. Não tem o que inventar. Basta ler o livro e pronto. E daí nasce a sinopse da Beija-Flor. Em mais ou menos três ou quatro páginas resume-se toda a obra com muita competência. Como trata-se de uma publicação das mais famosas da literatura brasileira, obviamente muita coisa ficou de fora. Era preciso escolher um caminho, uma abordagem dentre tantas possíveis.

E a Beija-Flor fez uma boa escolha. Focou, basicamente, nas características da personagem e também em seu habitat. Especialmente pensando na plástica, é o elemento do livro que mais oferece material para um bom enredo. Fica clara também a tentativa da escola de abordar o Estado do Ceará, talvez para facilitar a captação de patrocínios (deixando claro que essa é uma possibilidade, não tenho informação nenhuma e nem estou afirmando nada). Essa tentativa acaba prejudicando um pouco o enredo, mas nada que seja muito preocupante.

A essência da relação entre Iracema e Martim é apresentada como “uma linda história de amor e também uma história do Brasil”. A escola foca em aspectos importantes do próprio estilo literário de José de Alencar e que se reproduzem em “Iracema”: exaltação ao Brasil e valorização de elementos da cultura e da história nacionais. Como por exemplo a miscigenação clássica entre índios e colonizadores, representada pelo nascimento de Moacir, “o primeiro mestiço brasileiro”.

As sutilezas nos traços da personalidade da protagonista acabam não aparecendo em uma sinopse curta e que foca realmente na paixão arrebatadora – ou, no “fogo do entusiasmo” – dos personagens centrais. Conta-se, então, uma história com início, meio e fim e que termina com a partida de Martim que provoca a morte de Iracema. Minha principal crítica é que tudo acontece muito rápido na sinopse, o que tira um pouco da força da obra. Não é uma crítica ao enredo, que é (quase) irretocável, mas sim à forma como ele se apresenta.

Por outro lado, os dois parágrafos finais são muito bem escritos. Começo destacando o trecho “Iracema não resiste… Mas nada de tristeza, Iracema persiste!!!”. Ali termina a história (Iracema morre) e começa o que eu imagino ser o setor final, mostrando uma espécie de legado do espírito da heroína “nas veias de cada filho deste chão” – que não entendi bem se é o Brasil ou o Ceará, que volta a aparecer como “sendo sempre Iracema”.

Por fim, a escola recorre a um clichê (mais uma vez bem-vindo) e evoca os seus traços indígenas. “Uma legião de guerreiros Beija-Flor” que crê “na magia de Tupã”. Se a sinopse toda parece um resumo excessivo da história para os compositores, o parágrafo final soa como uma mensagem para a comunidade. Perdão, para o “exército” que “defendendo o pavilhão azul e branco” vai contar a história de Iracema e a Lenda do Ceará.

Amanhã, uma análise dos enredos de segunda-feira.

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