Aceitar o desafio de listar os dez sambas-enredo que mais me agradam na história da Mangueira não foi tarefa fácil. Por acompanhar Carnaval há muito pouco tempo, tenho uma ligação afetiva com poucas obras. Sambas como o de 2012 (“Vou festejar! Sou Cacique, sou Mangueira”, de Junior Fionda, Igor Leal, Lequinho e Paulinho Carvalho) e 2014 (“A festença brasileira cai no samba da Mangueira”, de Igor Leal, Junior Fionda, Lequinho, Paulinho Carvalho e Flavinho Horta) até me são especiais, mas não o suficiente para entrar na lista. Recorri, portanto, aos sambas que mais gosto de ouvir, ou, no caso desses três primeiros (do décimo ao oitavo) a ocasiões marcantes. No mais, entraram nessa lista não necessariamente os melhores, mas os que eu mais gosto.

E ainda assim tive que deixar de fora três sambas que gosto muito. Queria ter colocado “Yes, Nós Temos Braguinha”, de 1984, composto por Jurandir, Hélio Turco, Comprido, Arroz e Jajá, mas fiquei mais chateado mesmo foi por não achar um espaço para “Deu a Louca no Barroco”, de 1990, composto por Hélio Turco, Jurandir e Alvinho, e “O Filho Fiel, Sempre Mangueira”, de 2011, composto por Aílton, Cesinha Maluco, Alemão do Cavaco, Xavier, Pê, Zé Rifai e Baiano. Fica a menção honrosa.

10 – Minha Pátria é minha Língua, Mangueira meu grande amor. Meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor (2007)

Obviamente, não é um dos dez maiores sambas da história da Verde e Rosa. Apesar de ser um samba com boa qualidade musical, a obra de Lequinho, Junior Fionda, Aníbal e Amendoim não chegou a fazer história. No entanto, entra na lista por dois motivos que a mim são bastante marcantes. O primeiro é que foi nesse desfile que me tornei mangueirense. Numa noite de domingo, vendo aquele verde e aquele rosa, ao som desse samba, me descobri torcedor da Estação Primeira. Também gosto de citar esta obra porque foi a primeira cantada por Luizito na condição de intérprete principal da escola, já que o inesquecível Jamelão já não reunia ali condições de cantar na Avenida.

Foi também um desfile muito bom da escola, o último em que, ainda que atrás das principais concorrentes, a verde-e-rosa mostrou condições de brigar pelo título. A nota triste foi toda a confusão envolvendo Beth Carvalho, mas prefiro registrar aqui o refrão maravilhoso com o “Vem no vira da Mangueira, vem sambar” e a comissão de frente, talvez a responsável por me fazer mangueirense, formando o nome de Jamelão.

“Sou Mangueira… Uma poesia singular!”

9 – Agora chegou a vez vou cantar: Mulher de Mangueira, Mulher brasileira em primeiro lugar (2015)

Também entra na lista por razões pessoais. Foi um raro caso em que uma obra me conquistou logo à primeira audição. Aliás, nem precisou de tudo isso. Bastou ouvir o poderoso refrão principal para que o samba de Renan Brandão, Cadu, Alemão do Cavaco, Paulinho Bandolim, Deivid Domênico e Almyr me conquistasse de cara. Dada a força da parceria de Lequinho e a qualidade de seu samba, a parceria não era a maior favorita, o que me deixou envolvido na disputa, ainda que totalmente à distância e sem qualquer envolvimento direto. A vitória me deixou bastante satisfeito.

Também aponto essa obra porque foi, lamentavelmente, a última cantada por Luizito, que seria consagrado com o Estandarte de Ouro de melhor intérprete meses antes de nos deixar vítima de um infarto fulminante. O samba tinha uma riqueza poética muito grande, abordando de forma emocionante o lado feminino da escola, e foi o ponto alto de um desfile muito fraco plasticamente e que certamente ajudou a parceria a seguir essa linha de composição no samba ainda mais feliz do Carnaval de 2016.

“Eu vou cantar a vida inteira: pra sempre Mangueira, tem que respeitar!”

8 – Das Águas do Velho Chico, nasce um rio de esperança (2006)

Outro excelente samba da escola no Século XXI, de autoria de Henrique Gomes, Gilson Bernini e Cosminho. Samba forte, que uniu de maneira inteligente as sempre marcante exaltações à escola com as referências ao Sertão e ao próprio Rio São Francisco, tema do desfile. Entra na lista por ter sido o último desfile com a voz do maior de todos, Jamelão, que já estava bastante doente, mas ainda mostrava a categoria que o acompanhou durante toda a carreira. Despedidas são invariavelmente marcantes. A de um nome como este, não pode ficar fora.

“A carranca da Mangueira vai passar, minha bandeira tem que respeitar!”

7 – Atrás da Verde-e-Rosa só não vai quem já morreu (1994)

Por mais que tenha sido uma enorme decepção na Avenida, esse samba é a Mangueira em estado puro. Um samba extremamente popular como é a escola, com um refrão feito para arrastar o povo no embalo da Verde e Rosa. David Corrêa, Paulinho, Carlos Sena e Bira do Ponto retrataram os Doces Bárbaros com uma melodia envolvente e uma letra bastante popular. A maior prova disso é a enorme expectativa em torno da Mangueira antes do desfile, que acabou não rendendo nem 10% do esperado. Ainda assim, a obra em si está na história e isso ninguém discute. Quem não se lembra desse refrão?

“Me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu…”

6 – Chico Buarque da Mangueira (1998)

Um samba que nasceu contestado quando da vitória de Nelson Dalla Rosa, Villas Boas, Nelson Csispal e Carlinhos das Camisas, mas que também fez história na Sapucaí. Um desfile histórico e que consagrou a Mangueira como campeã já no momento da entrada na Avenida. O refrão principal é lembrado até hoje pela melodia contagiante, mas a verdade é que o samba era todo muito bem construído. O meu trecho preferido, confesso, é o extraordinário refrão do meio. “Buarqueando”, como dizia a letra, a Mangueira faturou o título de maneira incontestável.

“Ô, Iaiá, vem pra Avenida ver meu guri desfilar… Ô, Iaiá, é a Mangueira fazendo o povo sambar…”

5 – O mundo encantado de Monteiro Lobato (1967)

Não chega a ser um samba que me leve a parar tudo para ouvir, mas é de uma riqueza e uma qualidade musical incontestável. Não à toa, a obra de Hélio Turco, Darci, Jurandir, Batista e Luiz sempre foi tida como uma das preferidas de Jamelão. O samba tem características muito próprias da época em que foi composto, como a descrição direta e poética do homenageado. Lindo samba. Destaque-se também que é o único dessa lista a não citar o nome da escola.

“Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”

4 – Brazil com ‘Z’ é para cabra da peste, Brasil com ‘S’ é Nação do Nordeste (2002)

Samba espetacular. Denso, longo, com uma melodia riquíssima e que embalou um desfile extraordinário que deu à escola o seu último título até hoje – e o último título conquistado com Jamelão nos microfones. Lequinho e Amendoim apostaram em dois refrães longos, que ao contrário de outros desfiles da escola, não apostaram em fórmulas popularescas. As ótimas variações melódicas ganharam ainda mais corpo na voz de Jamelão e eternizaram esta bela homenagem à região Nordeste. Isso sem falar em uma das melhores sacadas na discografia da escola, que é a associação entre o doce cartola e Cartola, um dos grandes nomes da história da escola.

“Ao som da sanfona vou descendo a ladeira com o trio da Mangueira… “Doce Cartola” sua alma está aqui”

3 – Lendas do Abaeté (1973)

Dos sambas antigos da escola – leia-se os anteriores à Marquês de Sapucaí – é aquele que mais me agrada. Por ser de uma geração acostumada ao ritmo atual dos sambas, não sou um enorme entusiasta dos sambas das décadas de 1960 e 1970, embora reconheça a qualidade de dezenas de obras do período. Indiscutivelmente tem muita coisa bonita, mas o meu gosto pessoal está mais acostumado com outro tipo de samba-enredo. Talvez por isso, o escolhido aqui para representar essa era mais antiga seja um samba de melodia um pouco mais acelerada, embora ainda assim muito bonita e bem construída. O tema rico, que já havia sido tema de uma canção de Dorival Caymmi, gerou uma letra instigante e bem construída por Genaro da Bahia. Tanto que foi o único samba do ano a tirar 10 – 5 em melodia e 5 em letra.

“Iaiá mandou ir a Bahia, no Abaeté para ver sua magia, sua lagoa, sua história sobrenatural que a Mangueira traz para este Carnaval…”

2 – Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira tem (1986)

https://www.youtube.com/watch?v=nIqYDyfkkYg

Embora me emocione mais com aquele que estará no primeiro lugar dessa lista, considero este o samba do melhor desfile da história da Mangueira. O refrão “Tem xinxin e acarajé / Tamborim e samba no pé” até hoje é marcante na cabeça de todo sambista e era o ponto de maior explosão de um samba altamente poético e que também exaltava a escola formando uma simbiose fora do normal entre letra e melodia. Ivo Meirelles, Paulinho e Lula construíram uma melodia rica e acertaram em cheio no final do samba, o qual havia uma aceleração irresistível no andamento. Com um acompanhamento impecável da bateria e uma estética maravilhosa, não podia dar outra coisa. Campeã!

“Mangueira berço do samba, Caymmi a inspiração que mora no meu coração. Bahia terra sagrada, Iemanjá, Iansã, Mangueira supercampeã!”

1 – Cem Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão? (1988)

Não tem nem o que falar sobre esse samba. É curioso porque esse Carnaval é marcado – com muita justiça, diga-se – pela Kizomba da Vila Isabel, que era uma exaltação entusiasta à raça negra. Mas naquele mesmo desfile a Mangueira provocou uma reflexão bem mais pessimista sobre o centenário da abolição da escravatura. O questionamento sobre a realidade da população negra tinha versos que eram uma “porrada” como “será que já raiou a liberdade? Ou se foi tudo ilusão? Será que a Lei Áurea tão sonhada, há tanto tempo assinada, não foi o fim da escravidão?”.

Ainda havia no samba aquele que considero o maior verso da história da Estação Primeira de Mangueira: “livre do açoite na senzala, preso na miséria na favela”. Isso é uma coisa de outro mundo. A melodia também era muito forte, proporcionando um ótimo canto e fazendo a obra de Ivo Meirelles, Jurandir e Alvinho entrar para a história junto de um desfile que deu o azar de competir com um dos três maiores da história do Sambódromo. Ainda assim, entrou para a história.

“O negro samba, o negro joga capoeira, ele é o rei da verde e rosa da Mangueira…”

18 Replies to “TOP 10: Mangueira (por Leonardo Dahi)”

  1. Lista interessante Leonardo, mas, pra não perder o hábito, lá vou eu dar meu pitaco mangueirense na lista:

    Na minha lista, estariam sambas mais antigos como As Quatro Estações do Ano, de 1955, Casa Grande e Senzala, de 1962 e Exaltação a Villa-Lobos, de 1966, porém, sua justificativa foi bem fundamentada. Realmente, alguns sambas mais antigos, como As Quatro Estações do Ano, aprecio mais como uma linda música, mas o incluo porque, além da beleza da obra, entre os compositores estão dois de nossos maiores baluartes, Nélson Sargento e Jamelão!

    Também gosto de “E deu a louca no barroco”, mencionado por você. Dos cinco primeiros colocados na sua lista, na minha só não entraria (a não ser que por menção honrosa) o de 1986, que, contudo, é um grande samba. Considero o de 1988 um dos dez melhores da história do Carnaval, e o refrão do meio do excelente samba de 2002 acho espetacular também.

    Só uma pequena ressalva, entre os compositores do samba de 1988, faltou Hélio Turco, maior vencedor de samba da história da Mangueira, no lugar do ex-presidente Ivo Meirelles, que foi um dos compositores do já citado samba de 1986.

    Obs: Se tivesse vencido, talvez o samba do Tantinho para esse ano pudesse estar ao menos mencionado nessa lista, não…?

    Abraços, e que nossa escola tenha bons motivos pra comemorar ao final da quarta-feira de cinzas!

    1. Hum, é uma boa pergunta, mas eu acho que não porque o tempo todo gostei mais do samba que se sagrou vencedor.

    1. Como eu disse, embora reconheça e admire o estilo clássico dos sambas antigos, meu gosto musical está mais alinhado aos sambas mais recentes. Por isso coloquei apenas O Mundo Encantado de Monteiro Lobato, que é maravilhoso, e Lendas do Abaeté, que é um samba que me agrada demais pela construção melódica mais acelerada para os padrões da época.

      1. Na minha lista constaria certamente o “Quatro Estações” de 1955 – o primeiro.

        Agora, um fenômeno que para mim é curioso é o seguinte: a mangueira tem uma longa história de sambas de meio de ano, mas sua história em samba enredo é até tímida comparada a outras escolas. Como explicar isso?

        1. Explicar esse fenômeno é obrigatoriamente lembrar que, por outro lado, a Mangueira tem pouquíssimos sambas verdadeiramente ruins. É uma escola muito popular, que muitas vezes optou por sambas popularescos e que tivessem boa comunicação com o público, o que muitas vezes impacta na qualidade poética das obras.

  2. Muito legal Dahi a iniciativa dos sambas citados remeterem às despedidas de Jamelão e Luizito, este último uma voz que rapidamente se identificou com a verde-e-rosa, mesmo após décadas de reinado do saudoso José Bispo. Aliás, 2007 foi incrível pelo fato do grande José Luiz ter defendido a Mangueira praticamente infartado… Realmente não deixaria de fora 1984 e 1990, mas tem dois sambas mangueirenses que eu acho obras-primas, ainda que muito pouco estimadas e reconhecidas: Samba, Festa de um Povo (1968) e O Século do Samba (1999, arruinado pelo Alexandre Pires na gravação oficial).

  3. É mais uma opinião pessoal mas eu acho o samba de 2003 lindo demais, a mensagem que passa principalmente no refrão “Quem plantar a paz, vai colher amor” é incrível e pra mim apesar da bateria vir uma metralhadora esse ano foi a última atuação espetacular ( de tantas ) do mestre Jamelão, ele cantando só com o cavaquinho o refrão no começo do CD e no desfile ( queeeeeeeeeeem plantar a paz ) me arrepiam ate hoje, tenho ate salvo no celular kkkk
    E o do Nelson Cavaquinho eu acho incrível também, mas ate pelo desfile e por um dos esquentas mais emociantes que ja vi na minha vida, com os interpretes cantando “juízo final” e depois com o discurso do Milton Gonçalves em que a escola toda começou a chorar e tudo isso gravado na integra pela globo, o que é raro, porque houve um grande atraso no começo do desfile, ou seja, sou muito grato a esse atraso rs

  4. Leonardo, vou relevar por você acompanhar carnaval há pouco tempo, mas dessa lista eu tiraria, 2007, 2015, 1967, 1973, e colocaria “deu a louca no barroco”, o “samba da paz” de 2003, “o filho fiel” de 2011 e como já estou escrevendo depois do 19° título, obvio que eu coloco na lista “quem me chamooou”

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