*Marco Maciel é editor do site SAMBARIO e torcedor da Estácio de Sá

Muito me honra o convite de Fred Sabino e Pedro Migão para, em minha primeira participação no Ouro de Tolo, realizar um Top 10 do Berço do Samba, da primeira de todas as escolas, do fruto de Ismael Silva, Bide e companhia que impulsionaria o legado eterno da folia.

Da pioneira Deixa Falar, passando pelo trio Cada Ano Sai Melhor, Vê se Pode (depois Recreio de São Carlos) e Paraíso das Morenas, estas três escolas se fundiriam, formando a Unidos de São Carlos em 1955. Trocaria de nome em 1983, se tornando Estácio de Sá.

10º lugar – 1987 e 2007 – O Tititi do Sapoti

O samba-enredo sobre o fruto que deu origem à goma de mascar fez muito sucesso naquele Carnaval, porém nem tanto quando reeditado 20 anos depois, no breve retorno estaciano ao Grupo Especial. Malhada pelos jurados em 2007, a obra foi tachada pelos julgadores de “super funcional”, “de letra fraca”, “pouca beleza poética”, “melodia sem criatividade”, entre outros predicados genéricos que servem para qualquer samba esquecido logo após a Quarta-Feira de Cinzas. Não é o caso do hino composto por Darcy do Nascimento, Djalma Branco e Dominguinhos do Estácio, que até hoje é um dos mais lembrados da agremiação e faz o bamba se “empapuçar” de alegria.

9º lugar – 1983 – Orfeu do Carnaval

15 anos antes da Viradouro, a Unidos de São Carlos, utilizando esta denominação pela última vez, levou para a Sapucaí o enredo inspirado na peça de Vinícius de Moraes “Orfeu da Conceição”, que abrasileirou o drama da mitologia grega que centraliza o romance entre Orfeu e Eurídice. A poesia do samba composto por Caruso e Djalma Branco é tomada pelo lirismo, narrando com dramaticidade e melancolia o idílio de final trágico. Mesmo com uma letra quilométrica, a excelente e bem variada melodia em nenhum momento torna a obra cansativa, muito pelo contrário. Dolente, sua audição é maravilhosa, com trechos emocionantes (e ao mesmo tempo tristes) como “A dama negra a ele apareceu/Levando para sempre a sua amada/O morro emudeceu/Explode a dor no peito de Orfeu/E o poeta apaixonado/Canta ao céu desesperado/O grande amor que perdeu” e o lindo refrão do meio “Lua, oh lua/Musa amada, branca e nua/Quero lhe beijar e lhe dizer, sou seu/E você dizer, sou toda sua”. O belo samba-enredo embalou o título do Grupo 1B (então Segundo Grupo), incentivando a escola a realizar mudanças rumo à estreia na nova Passarela do Samba…

8º lugar – 1976 e 2005 – Arte Negra na Legendária Bahia

Dominguinhos do Estácio já cantava na Unidos de São Carlos desde o começo dos anos 70. Mas o Carnaval de 1976 seria ainda mais especial para uma das maiores vozes da folia. Foi sua primeira vitória como compositor de samba-enredo, e na escola do coração. Ao lado de Caruso e Caramba, construiu este belo samba, mais um pra enriquecer a estupenda safra daquele ano, para muitos a melhor de todos os tempos. E o primeiro registro da voz de Dominguinhos num LP do gênero destaca sua melodia coesa, com uma bela cabeça, e sua sequência impulsionada pelos bons refrães e estribilhos espalhados ao longo da letra. O samba foi essencial para socorrer a já Estácio de Sá em seu momento mais dramático da história recente, quando teve que desfilar no Grupo B em 2005. O hino ajudou a agremiação a ser campeã e a voltar para o Segundo Grupo.

7º lugar – 1985 – Chora, Chorões!

O segundo Estandarte de Ouro recebido pela Estácio no quesito samba-enredo homenageava o choro. “Embalados nesse som dolente”, Djalma Branco, Caruso, Jangada e Djalma das Mercês acertaram a mão nesta bela obra de melodia envolvente. O estilo é característico daquela época, em que a cabeça do samba (o início) era a parte mais forte, com o último refrão servindo mais como complemento, funcionando como transição para o começo. Um artifício que, mesmo resultando em sambas marcantes, acabaria deixado de lado com o efeito Ita do Salgueiro, onde o refrão principal se tornaria de vez o chamariz do samba.

6º lugar – 1991 – O Brasil Brega e Kitsch

Com sete anos recém-completados, eu descobria aos poucos a magia do Carnaval, a energia das escolas de samba e me deixava levar pela musicalidade dos sambas-enredo, naquela época ainda muito populares e com forte veiculação nas rádios. Até hoje tenho em casa um antigo VHS com a gravação do compacto da Globo das cinco primeiras do desfile de 1991, espero que não tenha mofado com o tempo. Como a quinta colocada naquele ano, a Estácio abria a fita, que assistia constantemente quando não estava nas aulas da primeira série. Não foi difícil para o bom samba de Maneco, Orlando e Jangada na linda voz de Rixxa gravar na minha mente eternamente e marcar minha infância, né?

5º lugar – 1972 – Rio Grande do Sul na Festa do Preto Forro

Na mesma proporção do pioneirismo como primeira escola de samba, foi da então Unidos de São Carlos a honra de receber o primeiro Estandarte de Ouro de samba-enredo, já que o jornal O Globo estreava a premiação naquele Carnaval de 1972. Aquela safra, marcada por obras mais curtas e com refrãos marcantes à la Zuzuca do ano anterior, tinha obras-primas como “Ilu Ayê” (Portela), “Martim Cererê” (Imperatriz) e “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade” (Vila Isabel). Mas a linda melodia de Nilo Mendes e Dario Marciano (que canta o hino no LP) foi determinante para abocanhar o primeiro Estandarte no quesito. A cabeça “O negro na senzala cruciante, olhando o céu pedia a todo instante…” é arrebatadora. Já o trecho “Saravá meu povo e salve todos os orixás” oferecia um recurso interessante, porém pouco utilizado na história do samba-enredo, que é a repetição do refrão em partes diferentes do samba, na mesma passada. A beleza da música não impediu a queda da escola para o então Grupo 2, principalmente pelo refrão “Você me chamou de moleque, moleque é tu”, em que a jurada Marília São Paulo Costa acusou erro de concordância para o trecho inspirado numa roda de capoeira, tirando dois pontos da obra determinantes para o rebaixamento, já que terminou apenas um atrás da Em Cima da Hora, a primeira a se livrar do descenso. Foi regravado por Beth Carvalho na mesma época do desfile.

4º lugar – 1984 e 2006 – Quem é Você? (Vem de Lá!)

O Carnaval 1984, além de marcar a inauguração do Sambódromo, veria também outro début. A Unidos de São Carlos se tornava Estácio de Sá, já que a escola passou a contar com integrantes não só do morro, mas de todo o bairro. Dominguinhos também retornava à agremiação, depois de uma vitoriosa passagem pela Imperatriz. Ao lado de Darcy do Nascimento e Jangada, compôs o animado samba que anunciava “É o velho Estácio na avenida que feliz da vida vem se apresentar” pra contar a história do Carnaval. Um dos mais conhecidos sambas do Leão, seria reeditado em 2006, embalando o título do Grupo A conquistado naquela temporada, apenas uma depois da dramática passagem pelo Terceiro Grupo.

3º lugar – 1993 – A Dança da Lua

“Um absurdo”. É o que vocifera um exaltado e inconformado Dominguinhos logo após a negativa do então presidente da LIESA, o Capitão Guimarães, de zerar o cronômetro para que a Estácio reiniciasse seu desfile, logo após a pane no sistema de som que emudeceu a vermelho-e-branco minutos depois da arrancada. A escola, que defendia o título, teve de recomeçar já com o tempo marcando nove minutos, o que comprometeu sua apresentação. Mas este infortúnio que fez o Leão finalizar a apuração apenas em sexto lugar não manchou a reputação do grande samba composto por Wilsinho Paz e Luciano Primo. Grande em vários sentidos. A extensa letra que narra o denso enredo sobre as lendas da lua é sustentada por uma poderosa melodia, que aliada ao casamento com a bateria Medalha de Ouro, proporcionou um dos melhores registros fonográficos de todos os tempos do gênero, resultando numa abertura espetacular do ótimo CD de 1993. Enfim, “um absurdo”!

2º lugar – 1992 – Paulicéia Desvairada, 70 Anos de Modernismo

Então bicampeã com sobras, a Mocidade praticamente já celebrava o tri antes mesmo de adentrar a pista. Afinal, “se sonhar não custa nada”, o sonho da verde-e-branco era tão real e intimidava as coirmãs, muito por conta do estrondoso sucesso do samba composto e cantado por Paulinho Mocidade no período pré-carnavalesco. No entanto, a Estácio vinha com uma obra igualmente popular, ainda que um tema paulistano trouxesse ceticismo. Mas Dominguinhos, de volta à vermelho-e-branco depois de quatro anos, esbanjou vibração na defesa do samba de Djalma Branco, Déo, Maneco e Caruso e seu contagiante e contextual “me dê, me dá, me dá, me dê”, inspirado no poema “Pronominais”, de autoria de um dos expoentes da Semana de Arte Moderna, Oswald de Andrade, em que o poeta, com um bom humor inovador naqueles distantes anos 20, zomba da linguagem correta, exaltando o coloquialismo característico do Modernismo. A imagem do carro reproduzindo o Trem do Caipira andando em ziguezague pela Sapucaí até hoje é uma das lembranças mais marcantes dos meus primeiros verões como folião. Mais do que merecido o primeiro e até hoje único campeonato no Grupo Especial.

1º lugar – 1975 e 2004 (Viradouro) – A Festa do Círio de Nazaré

Sou radicado em Porto Alegre, mas nasci no Pará, na cidade de Abaetetuba, a 50km de Belém. Devido à distância, só estive na magnífica procissão uma vez, em 2008. E me senti um privilegiado em acompanhar de perto tantas manifestações sinceras e emocionantes de fé, os fiéis brigando por um empalhado pedaço da corda, a Virgem de Nazaré na suntuosa berlinda… E o samba-enredo composto por Dario Marciano, Aderbal Moreira e Nilo Mendes pra representar o Círio na avenida muitas vezes lembra uma oração, principalmente em “Oh Virgem Santa olhai por nós, olhai por nós oh Virgem Santa, pois precisamos de paz”. Um dos melhores refrães da história do Carnaval, cuja força aparece justamente na ausência de rimas, em que o simples canto se torna uma reza. A descrição das demais atrações “em torno da Matriz”, além das “comidas típicas do Estado do Pará”, é de uma singeleza encantadora. Enfim, é um samba que emociona não só pela beleza, mas por também remeter a minhas raízes nortistas. Num LP alternativo lançado na mesma época do desfile, recebeu registro na voz de Elza Soares. Em 2004, foi bem reeditado pela Viradouro.

21 Replies to “TOP 10: Estácio de Sá (por Marco Maciel*)”

      1. Ah sim, tinha um monte de gente na escola (quando eu estava na 2ª série do Fundamental) que amava a Estácio por causa desse samba e do título. Os mesmos que viraram a casaca e passaram a ser salgueirenses em 1993!! Hehehehehehe…

  1. Não poderia ter sido mais feliz a lista do Marco Maciel. A Estácio nos brindou com sambas espetaculares e, se estaciano fosse, enfileiraria EXATAMENTE esses 10 e o meu predileto é o de 1975.

    Mas o “Arte Negra”, pro meu gosto, tem lugar – fácil – bem mais à frente.

  2. Essa história da Estacio ser a “primeira escola de samba da história” é cascata. A Deixa Falar não deu origem a nenhuma das escolas que se juntaram para virar a Estacio. Só são do mesmo bairro, mais nada.

    1. Pensei que fosse o único a ter essa opinião… eu tô querendo há mais de um ano escrever artigo sobre isso, mas me falta tempo para a pesquisa necessária

      1. É fácil, no próprio site oficial da Estacio tem um histórico e fica claro lá que as escolas que se juntaram nunca foram descendentes diretas da Deixa Falar. Deixa Falar, aliás, que nasceu, nunca se assumiu escola de samba, e morreu sem deixar filhos. Como disse, a única semelhança entre a antiga Unidos de São Carlos e a Deixa Falar é o bairro. É como se daqui a 50 anos a Nação Insulana mudar as cores pra azul, vermelha e branca e dizer que é União da Ilha.

        1. Texto do site oficial. Repare que nenhuma escola é descendente direta da Deixa Falar, pelo contrário, duas delas coexistiram com a Deixa Falar e outra foi fundada muito depois do seu término. Como eu disse, cascata.

          Deixa Falar: A primeira Escola de Samba foi fundada em 12 de agosto de 1928, com as cores vermelho e branco. Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal, Nilton Bastos, Rubem Barcelos (Mano Rubem), Edgar Marcelino dos Passos (Mano Edgar), Silvio Fernandes (Brancura), Oswaldo Vasques (Baiaco) e Aurélio Gomes foram seus principais integrantes. Desfilou entre 1929 e 1931.

          Cada Ano Sae Melhor: Tinha como cores o verde e rosa. Como a Deixa Falar, também foi fundada em 1928. Nascida na localidade conhecida como “Beco da Padeira” (atual “Capela”), no Morro de São Carlos.

          Vê se Pode: Teve seu nome mudado posteriormente para “Recreio de São Carlos”. com as cores verde e branco, foi fundada em 1929, no local conhecido como “Atrás do Zinco”, também na comunidade do São Carlos.

          Paraíso das Morenas: A caçulinha, nascida no “Larguinho” em 1947, com as cores azul e rosa.

          G.R.E.S. Unidos de São Carlos: Fundada em 27 de fevereiro de 1955, como resultado da fusão das três últimas agremiações citadas acima e com as cores azul e branco. Mudou as cores para vermelho e branco e o nome para…

          1. Então como sua pesquisa diz, tudo no bairro do Estacio,no morro de São Carlos . Então,as primeiras escolas são oriundas do morro de São Carlos, e do bairro do Estacio,,simples assim.O espaço de tempo não importa, o que importa é onde nasceu a primeira escola de samba e foi sem dúvida no bairro Estácio de Sá.As datas estão aí,uma história tem que ter data e local dos acontecimentos e também pessoas presentes na história.É isso aí.ESTÁCIO DE SÁ 1º ESCOLA DE SAMBA DO BRASIL.

  3. Simplesmente fabuloso… Parabéns pelo trabalho e pela escolha dos sambas… Realmente a Estácio tem verdadeiras joias musicais que fazem parte do grande acervo da história do carnaval muitas vezes esquecidos pelo povo, mas eternizado por amantes do samba….

  4. Eu não sou muito à favor de reeditar sambas,mas tem sambas antigos que muitos não conhecem,com melodias incríveis; aliás antigamente melodia era julgada, e poéticos que mesmo com esse andamento mais acelerado das baterias de hoje acho que ficaria o máximo.

  5. UM QUE ACHO MARAVILHOSO, ESSE NÃO É DA ESTÁCIO É DA UNIDOS DE LUCAS E JÁ TEM UM ANDAMENTO ACELERADO É MAR BAIANO EM NOITE DE GALA ACHO QUE ESSE SAMBA DARIA SUPER CERTO NUM DESFILE ATUAL.

Comments are closed.