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Um griô é um sábio ancião cuja responsabilidade é transmitir às gerações seguintes os ensinamentos e as histórias vividas pelos seus ancestrais. Um griô me levou em determinada madrugada de terça-feira gorda até a Ceiba, a árvore da vida que marca o território da Guiné Equatorial. Também me fez conhecer ou relembrar costumes e ritos antigos de povos africanos que, de uma maneira ou de outra, são responsáveis pelo meu país ser o que é.

Também conheci através desse griô folião a raça dos negros e seus primitivos contatos com os povos europeus. Soube que a Guiné Equatorial, país sobre o qual pouco tinha ouvido falar, foi dominada por franceses, também recebeu holandeses e ingleses, mas foi conquistada mesmo pelos portugueses. Uma história, semelhante em suas diferenças, com a do Brasil. Mas as peculiaridades da Guiné Equatorial também foram ensinadas por esse griô. A diversidade natural, as riquezas minerais e a os princípios que nortearam a nova nação independente não estão, por óbvio, nos livros de história. Mas o griô fez o favor de me ensinar, assim como de mostrar que eu não estava enganado e, sim, existem laços entre o Brasil e a Guiné Equatorial.

Para espanto de você que passou os últimos dias postando no Facebook que a Beija-Flor foi campeã do Carnaval 2015 com um enredo sobre um ditador, digo que fiz nestes dois últimos parágrafos fiz um resumo bastante sucinto de “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade”, o enredo da azul-e-branca de Nilópolis.

Como qualquer um pode ver – e, se não acredita em mim, pode ver direto da fonte -, o enredo da Beija-Flor não faz qualquer tipo de menção e muito menos de exaltação a Teodoro Obaing Nguema Mbasogo, o ditador que comanda o país homenageado. O enredo, brilhantemente desenvolvido pela comissão de carnaval da agremiação nilopolitana, fez aquilo que se espera de um Carnaval: nos ensinou algo sobre uma cultura ao mesmo tempo distante e tão próxima. Seria a história de Guiné Equatorial menos interessante e carnavalesca que a da Suíça, narrada pela Unidos da Tijuca? Não. Prova disso é que a da Beija-Flor deu samba, a da Tijuca nem tanto.

Por tudo isso, me espantou ver gente que acompanha Carnaval o ano todo há tantos anos descendo a marreta no tema da campeã de 2015 – o que já acontecia desde o anúncio do enredo, embora em menor grau. Em uma época bastante macabra em termos de enredos no Carnaval, esperava mais elogios. Ainda mais por ser o resgate da essência da escola de Nilópolis, que desde 2007 não trazia para a Avenida um tema afro. Mas mais espantoso ainda foi ver essas mesmas pessoas espantadas e indignadas com a nota máxima do enredo que, vamos repetir, não exaltou e nem mencionou ditador nenhum. Vamos agora para o manual do julgador do quesito enredo.

Para conceder notas de 9,0 à 10,0 pontos, o Julgador deverá considerar: CONCEPÇÃO: (valor do sub-quesito: de 4,5 à 5,0 pontos)

– o argumento ou tema, ou seja, a idéia básica apresentada pela Escola e o desenvolvimento teórico do tema proposto.

REALIZAÇÃO: (valor do sub-quesito: de 4,5 à 5,0 pontos)

– a sua adaptação, ou seja, a capacidade de compreensão do enredo a partir da associação entre o Tema ou Argumento proposto e o seu desenvolvimento apresentado na Avenida através das Fantasias, Alegorias e outros elementos plástico-visuais.

– a apresentação seqüencial das diversas partes (alas, alegorias, fantasias, etc.) que irá possibilitar o entendimento do tema ou argumento proposto, de acordo com o roteiro previamente fornecido pela Escola (Livro Abre-Alas);

– a criatividade (não confundir com ineditismo);

Eu sinceramente não vejo onde tirar ponto desse enredo com base nesses critérios. Acho uma ótima escolha de tema e achei muito bem realizado. Aliás, vi poucas críticas ao tema nesse sentido. As críticas foram por conta, vejam vocês, do patrocínio (que, embora muito provável, não é provado) de, segundo conta-se, R$ 11 milhões recebido pela escola dos cofres da miserável Guiné Equatorial. Vamos por partes.

O ditador, segundo se diz, é corrupto. O país é pobre. Por essa conta, realmente o dinheiro que chegou até Nilópolis é um crime contra os habitantes do país homenageado. Do ponto de vista ético, pode ser até um contrasenso homenagear um povo com um dinheiro que lhe fará falta. Porém, isso não faz desse dinheiro um dinheiro sujo e muito menos ilegal. Foi um investimento de um Estado independente em um espetáculo internacional feito para promover o país (deu errado nesse sentido, mas são os riscos do marketing). Repito, a discussão não deve ser sobre a origem do dinheiro, mas sim sobre sua aplicação. E, ao menos em minha visão, isso é algo que compete mais à Guiné Equatorial que à Beija-Flor, embora esta, é verdade, poderia ter aberto mão do financiamento em prol do país que homenageou – não que fosse uma obrigação, ressalto.

Ao constatar que o enredo não exaltou ditador nenhum, algumas pessoas lançaram um argumento que beira o inacreditável. Ao contar um enredo sobre Guiné Equatorial, a escola obrigatoriamente deveria mencionar os anos de ditadura sanguinária que assolam o país. Além de querer interferir na liberdade criativa dos outros, esse pitaco demonstra uma falta de conhecimento sobre o assunto que chega a dar pena. A Portela falou sobre o Rio de Janeiro sem citar enchentes, violência, vigas da perimetral e trens da supervia. Fico aqui imaginando um carro alegórico no desfile da Unidos da Tijuca sobre os bancos suíços que recebem dinheiro de corrupção (inclusive da Guiné Equatorial), mas prefiro não imaginar como seria a alegoria dos problemas do excesso no consumo de iogurte no desfile de 2012 da Porto da Pedra.

Homenagens, no Carnaval e em qualquer outra área, são feitas para exaltar e não para criticar. E, voltando a questão do patrocínio, eu confesso que cheguei a dar risada quando vi o mundo do samba chocado com tudo isso. Eu amo Carnaval, muitos outros colunistas também, mas tentar negar a contribuição do dinheiro sujo (esse dinheiro sujo mesmo, ilegal, não simplesmente um investimento desnecessário por parte de um país miserável) na grandiosidade do Carnaval atual é de uma inocência impressionante. E não é coisa do passado não. Sempre existiu e ainda existe.

Aliás, é esse outro tipo de dinheiro sujo que provoca a indignação das pessoas que não acompanham Carnaval com esse financiamento do Carnaval de 2015 da Beija-Flor. Todos os países do mundo tem relação com ditadores e ditaduras. Todos. Podem não ser amigos, mas tem relações. Alguém imagina o Mundo virando as costas para o petróleo do Oriente Médio, marcado por deixar muita gente bilionária enquanto seus habitantes vivem entre a miséria absoluta e a escravidão? Países estes, aliás, que patrocinam e muitas vezes compram gigantes clubes europeus tidos como “exemplos de gestão”, corridas de Fórmula 1 de encher os olhos e outros eventos. Tem também as relações comerciais cada vez mais estreitas com a ditadura “socialista de mercado” da China e, no caso brasileiro, as relações com ditaduras históricas como a cubana. Aliás, até os Estados Unidos entraram nessa.

Diga-se de passagem, a própria Guiné Equatorial tem relações comerciais com vários países do mundo, incluindo o Brasil. Em todos esses casos, sem exceção, as pessoas sempre lamentam, mas dizem que “é o jeito”. É o capitalismo. Se é o capitalismo, por que tanta revolta com o patrocínio ditatorial a Beija-Flor? Simples. Porque, durante esses anos todos, o Carnaval ficou marcado pela relação com o dinheiro sujo. A própria Beija-Flor é associada imediatamente por quem não entende muito do negócio com a contravenção. Até porque, nos outros 10 meses do ano o Carnaval só está nos jornais quando algum bicheiro que é patrono de escola de samba vai preso. Então, o rigor é muito maior.

Como diria Jair Rodrigues, deixe que digam, que pensem e que falem. Essa discussão toda é inútil e não leva a lugar nenhum. Em um mundo cor de rosa, todo e qualquer tipo de dinheiro ilegal sairia do Carnaval e de todos os outros setores da sociedade, mas essa é uma realidade muito distante e, se alguém pode mudá-la, é a Polícia. Ela que investigue, ela que descubra que escola é financiada por quem. Eu, honestamente, não sei, nem tenho como saber e nem quero. Só lamento que todo esse debate tenha apagado e, pior, tenha colocado em xeque a lisura e o merecimento de mais um título da Beija-Flor que, enfim, resgatou sua alma africana e, na batida do tambor, voltou na memória de um griô. Parabéns, Nilópolis!

7 Replies to “Canta, Guiné Equatorial!”

  1. Enfim, um momento de luz no fim do túnel!
    Luz não! Um holofote potente capaz de encerrar de vez a questão “O enredo da Beija-Flor” em 2015.
    Que este link seja copiado muitas vezes.

    Parabéns!

    Atenciosamente
    Fellipe Barroso

  2. Eu particular mente não gostei do desfile da Beija-Flor porque achei, feio, escuro, mórbido. Em nada me lembrou a plástica da Beija de 2007, que retratou a África de uma forma muito mais bonita. Por mais que tenham sido enredos diferentes, usar o enredo de 2007 como comparação é justo, uma vez que ali se tinha uma boa divisão cromática, carros muito bem acabados e fantasias belíssimas, algo totalmente diferente do que aconteceu esse ano.

    A Beija-Flor é uma escola com história, com comunidade aguerrida e merece sim ser campeã do Carnaval, mostrando que sabe sim fazer desfiles impecáveis – como veio fazendo até 2009. E esse ano a Beija passou totalmente apagada, sem brilho algum.

    Não acho justo o campeonato da BF esse ano porque as notas definitivamente não corresponderam ao que eu vi na Avenida.

  3. Haha, onde que os países principais produtores de petróleo no Oriente Médio vivem na absoluta miséria? vai estudar história, meu amigo, a população do Irã, Emirados, Arábia Saudita, kuwait, Bahrain, até a do Iraque vive melhor que da sua linda Guiné.

    1. Podem viver melhor, mas não vivem bem. Você já ouviu falar nas condições dos operários que trabalham nas obras da Copa de 2022 no Catar? Já soube do nível da desigualdade social nesses países citados? Já soube da intolerância religiosa, da falta de liberdade de expressão e do terrorismo declarado? Ou isso não é nada?

  4. Ainda não ouvi qualquer citação sobre o governo do Rj ajudar a escola de madureira no enredo dos 450 anos do RJ… Chega de hipocrisia a Beija Flor foi a melhor em um ano de desfiles fracos e mereceu o título.

    1. Prezado, a prefeitura do Rio de Janeiro não colocou um centavo sequer no carnaval da Portela. A ajuda que tivemos foi de empresas privadas.

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