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Carnaval de 1989. “Liberdade, Liberdade” e “Ratos e Urubus”.

De um lado, um passado imperial repleto de glórias, com barões, duques, princesas e generais. Do luxo. Do outro, um presente da fome e miséria, da mendicância, da falência de um projeto de nação. Do lixo.

Imperatriz e Leopoldinense e Beija Flor terminavam a apuração empatadas. O título da escola de Ramos foi apertado, difícil, mas garantido pelos noves descartados dados à agremiação de Nilópolis. Um deles foi dado pelo jornalista João Maximo, competente biógrafo de Noel Rosa, que não conseguiu ouvir e alcançar o “Lebaraô” do refrão, uma saudação a Exu que no seu entender feria a nossa língua.

Mas, sejamos justos. A surdez e a incompreensão não eram exclusividade de um jurado da Liesa. Lygia Santos, que fazia parte do Estandarte de Ouro do jornal O Globo, descrevia assim sua reação a “Ratos e Urubus”, nas páginas do Globo: “Fiquei tão mobilizada quando a Beija Flor apareceu que num primeiro minuto eu me senti num divã de analista, digerindo a vida da minha sociedade. Eles todos conseguiram uma reflexão muito séria, mas também muito solta deste Rio e do Brasil em que vivemos”.

Era um desfile que encantava ao mesmo tempo que nos tirava da zona de conforto, suspendia nossas certezas e dava voz ao recalcado pelas plumas e paetês com que enchemos nosso cotidiano.

Poucas vezes o carnaval foi uma janela tão aberta, escancarada diria, para que pudéssemos acessar os dilemas e contradições da nossa sociedade, como em 1989. Nos cem anos da República, dois Brasis se confrontavam em pleno carnaval. A nação oficial, a pátria mãe gentil versus a denegação dos valores da nacionalidade.

Nas palavras de Joãozinho Trinta, que concebeu um dos maiores desfiles da história do Sambódromo carioca, seu ato de criação “foi apenas uma resposta ao lixo físico, espiritual e mental com que convivemos diariamente” (O Globo, 8/2/89).

O passado é sempre uma construção em sintonia com o presente. Só existe passado quando se parte de um desejo em atualidade qualquer para se lançar luz sobre ele. Assim, qualquer versão de nossa história é sempre forjada com objetivos bastante atuais e pertinentes ao seu tempo.

Falar dos donos do poder de antigamente significava enaltecer e elogiar a República do presente. Era fazer das Escolas de Samba, espetáculos mundialmente assistidos, uma possibilidade de se construir uma imagem bem aos sabor do positivismo de nossa bandeira republicana, sob o império da ordem e do progresso, em meio à Nova República de um país recém saído de um longo período de ditadura. Era jogar para cima, falar de esperança, valorizando para isso a estabilidade de um passado fidalgo, em meio a um tempo de incertezas – governo Sarney, Plano Cruzado, inflação galopante, preocupação com o meio ambiente.

Como afirmava um dos jurados do Estandarte de Ouro de 1989, Bernardo Goldwasser, a Imperatriz “retomou a origem da festa, com aquelas alas de duques, de reis, de damas da corte. Ninguém precisou abrir a sinopse para entender o que se queria dizer”. E o que se mostrava ao Brasil e ao mundo era uma “aula de História completa”, com perfeição e beleza raramente vistos.

Antididatico seria o projeto da Beija-Flor. Um dos lixos rasgados era justamente a História. A nobreza da História oficial aparecia logo em seguida ao séquito de mendigos, com um enorme urubu pairando sobre ela. Era a inversão do carnaval a serviço da inversão da história: nossos heróis oficiais eram ali coadjuvantes, até mesmo anti-heróis. Era a vez dos esquecidos da memória, dos “mendigos, desocupados, loucos, famintos” e outros citados na enorme faixa exibida como abre-alas junto ao inesquecível e jamais visto em sua totalidade Cristo mendigo.

imperatriz89O resultado para nós se colocava como propostas de desfiles antagônicas. A Imperatriz de 1989 vinha de uma era pré-Salgueiro dos anos 1960, e a Beija Flor trazia uma proposta inédita, que em pleno cem anos de república revelava que tínhamos pouca coisa a comemorar. Era como se após o banquete e a bonança de Kizomba, de 1988, a Sapucaí vivesse uma ressaca, um sacode de realidade.

Era um raro momento em que uma escola de samba deixava de lado o discurso conciliatório com o poder, do qual nos anos 1980 se libertava corajosamente em outras ocasiões. A década de enredos críticos nem poupara a agora elogiosa Imperatriz, que no ano anterior quase foi rebaixada com um carnaval que satirizava justamente a História do Brasil que agora ela apresentava magistralmente.

Mas a empreitada de Joãozinho e de outros carnavalescos de escancarar a realidade brasileira pela arte não foi em vão. E ainda ressoava em outras searas, como no pop rock de Cazuza, que ordenava a nação a mostrar a sua verdadeira cara e questionava o preço de nossa resignação. Era a máscara da república feliz que caía. E dessa forma, um duelo de carnaval, tão comum quando duas escolas disputam acirradamente o campeonato, se converteu num duelo de Histórias.

[N.do.E. – em recente entrevista a esta revista eletrônica o locutor Paulo Stein conta que Joãosinho, após o desfile, adentrou a cabine da Rede Manchete e irrompeu em choro ao abraçar Fernando Pamplona. PM]

4 Replies to “Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor: um duelo de Histórias no Carnaval de 1989”

  1. jamais haverá um ano com 89… em tudo , especialmente no carnaval…. o disco tem lindos sambas… e temos esses dois desfiles… e o da Ilha que poderia ter vencido se fosse qualquer outro ano… grande texto!

  2. Boa tarde!

    Caríssimo:

    Falar do carnaval de 1989 é escrever um livro para cada aspecto da festa.
    O álbum, muito bem lembrado nos comentários anteriores, foi o mais vendido da história dos carnavais (Mais de 1,5 milhão de cópias), e é uma coleção de clássicos imediatos, que vão do popular “Festa Profana”, da Ilha, ao belísssimo (E menos conhecido do grande público fora do carnaval) “Rio, samba, amor e Tradição”, da Tradição.
    Os desfiles eram de uma fantástica variedade de temas, mostrando um grande arsenal de enredos prossíveis e imagináveis para uma Escola desfilar, desde a Astrologia e Astronomia do Jacarezinho, passando pelas personalidades (Mocidade, Cabuçu, Império Serrano), a crítica (Unidos da Ponte, São Clemente e Beija-Flor), e chegando a abstrações de fácil leitura (Arranco), além de muitas outras propostas inusitadas (Estácio, com o arroz; e o Salgueiro, celebrando o centenário da Abolição da Escravatura com 1 ano de “atraso”, pautando o peso de seu enredo em belíssimo samba-enredo na voz de Rixxa).
    E falando em desfiles, o ápice do que aconteceu no Grupo Especial, brilhantemente analisado neste texto que acabo de ler.
    Fábio Fabato uma vez comentou que as duas Escolas eram as “oponentes perfeitas”: de um lado, o clássico em tudo, da apresentação do enredo à forma de fazer carnaval. Do outro, a subversão completa, inovadora, vanguardista anos-luz à frente de seu tempo!

    Acabei comentando aqui guiado por uma emoção mais forte do que eu, pois não poderia deixar de registrar que aqui estive lendo.

    Parabéns mais uma vez!

    Atenciosamente
    Fellipe Barroso

    P.S.: Um tema que já virou até mini-documentário foi “O tri que não aconteceu”, da Mocidade, em 1992. Gostaria de saber o que autor diria deste outro grande momento do carnaval do Rio.

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