Na última semana, o candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, em entrevista, deu afirmações relacionando os gastos do governo Estadual com o carnaval e a questão da saúde. De acordo com matéria do portal G1, o candidato disse o seguinte:

“(…) Não vou prometer fazer financiamento sabendo que tem 20 mil fluminenses precisando de cirurgia. Camarim (sic) do governador na Sapucaí, vou leiloar. Eu não vou. Não vou para Sapucaí. Temos que cuidar desse negócio (Saúde). (…)”

Estou reproduzindo as declarações do candidato – que, inclusive, terá o meu voto nas eleições do próximo domingo – mas esta é uma questão que, volta e meia, vejo políticos e jornalistas reproduzirem: que o Estado não tem que investir em coisas como carnaval e esporte enquanto rubricas como educação e saúde não estão atendidas a contento.

Entretanto, caro leitor, o objetivo deste artigo é mostrar que existe uma “falsa simetria” entre gastos sociais e no carnaval. Do Wikipedia:

4pvj9326y2b611kc58mzr3bp6Falsa dicotomia, falso dilema, pensamento preto e branco ou falsa bifurcação é uma falácia lógica que descreve uma situação em que dois pontos de vista alternativos, geralmente opostos, são colocados como sendo as únicas opções, quando na realidade existem outras opções que não foram consideradas. Essa falácia é usada para defender pontos de vista em geral, ela muitas vezes é usada em uma comparação em que uma das opções é completamente descartada pelo seu proponente, restando apenas a que lhe interessa.”

É exatamente o que ocorre neste caso: estão se comparando coisas que não devem ser comparadas. Explico o porquê.

Fazendo uma rápida consulta ao Portal da Transparência do governo do Estado do Rio de Janeiro, se descobre que a execução orçamentária entre janeiro e setembro deste ano das secretarias de Educação e Saúde foi, somada, de aproximadamente R$6,3 bilhões. A execução da secretaria da Cultura, que inclui os gastos como carnaval, foi de R$91 milhões.

Repare, caro leitor: 6 bilhões comparados a 91 milhões. E este é o orçamento total da secretaria da Cultura para nove meses, nos quais os valores destinados ao carnaval estão incluídos.

crivellaInfelizmente não encontrei dados específicos sobre o carnaval e as escolas de samba, mas cada escola do Grupo Especial do Rio recebeu do Governo Estadual aproximadamente R$ 1 milhão para o carnaval 2014. As escolas dos demais grupos receberam um montante somado de aproximadamente R$ 5 milhões. Ou seja, são aproximadamente R$ 20 milhões, ou um pouco mais, investidos ao ano nas escolas de samba, em espetáculo que traz milhares de turistas ao Rio de Janeiro e que deixa em impostos como o ICMS um valor de arrecadação muito maior que o investido.

Vale lembrar que a maior parte do investimento no carnaval carioca é municipal, através da Riotur e do município do Rio de Janeiro. É um investimento de pouco mais de R$ 30 milhões, somando-se a subvenção às escolas, os valores gastos na infraestrutura da cidade e no apoio aos blocos que desfilam pelo Rio de Janeiro.

Ou seja: em gastos totais temos aproximadamente R$ 60 milhões por ano do poder público investidos no carnaval, festa que é famosa mundialmente e que tem um retorno de imagem e de arrecadação de impostos muito maior que os valores investidos.

Parêntese: hoje, as verbas destinadas às escolas de samba do Grupo Especial (subvenções estatais, patrocínio da Petrobras, receita de TV, de ingressos e de direitos de imagem) não cobrem os gastos necessários a apresentar a festa com a magnitude exigida. Estima-se que uma escola que disputa título gaste cerca de R$ 10 milhões somente em seu carnaval, sendo aproximadamente R$ 12 milhões em seus gastos totais – incluindo manutenção e vida orgânica da agremiação. Este aumento de custos se deve, especialmente, ao aumento do dólar e à confecção das fantasias para a comunidade. Fecha o parêntese.

Carnaval-salgueiro-2014-20140303-005-size-598O senador e candidato também disse que irá leiloar o camarote do governo do Estado na Marquês de Sapucaí. Neste caso mesmo é que temos uma falsa simetria.

A Liesa vendeu recentemente os camarotes para o carnaval 2015. O mais caro deles, os “SuperCamarotes” para 30 pessoas no Setor 8, custava R$120 mil. Claro que o camarote do Governo do Estado é maior que este, mas um eventual leilão não vai arrecadar mais do que, digamos, R$ 1 milhão. Lembre-se, leitor, do orçamento da saúde para nove meses de 2014: R$ 3 bilhões.

R$ 1 milhão para R$ 3 bilhões. Fará diferença mesmo?

Se o candidato não quer assistir aos desfiles devido à sua condição de evangélico, é outra história. Ainda assim, o líder máximo da Igreja Universal, Edir Macedo, em sua biografia afirma que “não brinco carnaval, não gosto, mas ele é importante para o país. Movimenta divisas e aumenta a arrecadação de impostos.” Ou seja, até o líder máximo da instituição religiosa a qual o candidato é filiado reconhece a importância da festa para a economia brasileira.

Além disso, sendo a festa mais importante do Estado, é dever dele prestigiar a festa, ainda que apenas passe por lá e vá embora depois.

Ao invés de atazanar o carnaval carioca, os gestores públicos deveriam investir em uma maior eficiência de gastos nas rubricas sociais já citadas. Com um melhor gasto pode-se reverter muito mais que os R$ 60 milhões investidos por estado e município na nossa grande festa, tornando mais eficientes os R$ 8 bilhões anuais investidos pelo Governo do Estado em saúde e educação.

raissa-de-oliveiraFinalizando, seria muito mais apropriado aumentar o montante investido no nosso carnaval, especialmente nas subvenções destinadas às escolas de samba – que assim não precisariam vender seus enredos, em um modelo de patrocínio claramente distorcido. É um investimento que tem amplo retorno em turistas e impostos pagos por estes em nosso estado e cidade. Claro que com a contrapartida necessária da prestação de contas aos órgãos competentes.

Destarte, isto é fundamental nas escolas do Grupo de Acesso A, que tem seu desfile transmitido pela Rede Globo e uma exigência de espetáculo cada vez maior – mas não tem as fontes de receita necessárias à exigência. A verba anual de uma escola deste grupo não chega a R$ 1 milhão, o que torna o quadro a estas agremiações ainda mais dramático que o encontrado pelas irmãs maiores do Grupo Especial. Um maior olhar a estas escolas se faz necessário, urgente até.

E deve-se louvar o trabalho empreendido pela Liesa e pela Lierj na organização da festa, no apoio à gestão das escolas e na busca por mais recursos.

Políticos: o carnaval é aliado, não adversário.

Imagens: Uol e Veja

6 Replies to “Falsas simetrias: a questão envolvendo o carnaval e os gastos em educação e saúde”

  1. Concordo integralmente com o texto, mas faço uma ressalva: quando falou em não subsidiar, Crivella se referiu à Marcha para Jesus e à Parada Gay. Quanto ao Carnaval, falou somente em leiloar o tal camarote.
    De resto, assino embaixo.

  2. Esse discurso do Crivella reflete um preconceito de certos grupos religiosos contra as festas e a alegria. Mas só encontra algum eco na sociedade por causa daquele contexto de revolta histérica contra os gastos com a Copa. É uma visão tacanha porque o investimento que o Rio faz no Carnaval retorna com folga para a cidade.

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