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A desigualdade na exposição dos clubes na TV

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Grande parte de quem assiste futebol pela TV deve se perguntar: “Por que tanto jogo do Corinthians e do Flamengo na TV?”, isso se define pelas chamadas cotas de TV”. No Brasil quem negociava com a emissora detentora dos direitos era o Clube dos 13, fundado em 1987 (ano da Copa União) exclusivamente para cuidar dessa negociação dos direitos de imagem dos clubes com a televisão, passando a cuidar disso a partir do Campeonato Brasileiro de 1988. O presidente da tal instituição era Fabio Koff, hoje mandatário do Grêmio.

Em 1997, Coritiba, Goiás e Sport passaram a fazer parte do grupo. Dois anos depois, Atlético-PR, Guarani, Portuguesa e Vitória também foram incorporados. Em 2000, a CBF teve problemas jurídicos e foi o C-13 quem organizou a Copa João Havelange, dividida em quatro módulos, totalizando 116 times de três divisões. O Clube dos 13 teve seu fim em 2011 após o Corinthians pedir desfiliação por não concordar com a forma em que a entidade estava negociando os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para os anos de 2012, 2013 e 2014 com os diversos meios de comunicação interessados.

Na distribuição de direitos de imagens pela Cota de TV, a Série B não foi tão ruim assim para o Palmeiras no ano passado: o clube foi o terceiro que mais lucrou em 2013, ficando atrás apenas dos maiores detentores, que são Flamengo e Corinthians -o primeiro levou R$ 111 milhões e o segundo, R$ 103. O Palmeiras, com a Série B, foi o terceiro que mais ganhou com TV, com R$ 76 milhões, sendo assim o clube da Série B que mais lucrou

Em quarto aparece o São Paulo com R$ 72 milhões, seguido de Atlético-MG com R$ 71 milhões (impulsionado pela campanha do título inédito da Libertadores) e em sexto lugar aparece o Vasco, que lucrou R$ 66 milhões em 2013 ainda na Série A – se ocorrer o mesmo que aconteceu com o Palmeiras no ano passado, o Vasco deve ser um dos clubes que mais devem lucrar com as transmissões em 2014.

flamengo2014Abaixo a lista dos dez clubes que mais lucraram em 2013 com cotas de TV:

Flamengo – R$ 111 milhões
Corinthians – R$ 103 milhões
Palmeiras – R$ 76 milhões
São Paulo – R$ 72 milhões
Atlético-MG – R$ 71 milhões
Vasco – R$ 66 milhões
Cruzeiro – R$ 60 milhões
Fluminense – R$ 57 milhões
Grêmio – R$ 55 milhões
Internacional – R$ 54 milhões

A diferença entre os clubes se deve, sobretudo ao fato de que o único critério utilizado pela Globo, emissora detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro e que negocia com as agremiações, é a audiência. E a diferença deve aumentar ainda mais, já que a previsão para o novo contrato firmado, a partir de 2016, é de que Corinthians e Flamengo passem a receber nada menos que R$ 170 milhões.

O São Paulo deve lucrar, no máximo, R$ 110 milhões. Se for comparado a outros clubes menores, a distância é ainda mais absurda. Chapecoense, Criciúma e Figueirense, por exemplo, precisam sobreviver com cotas que variam de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões.

Apesar de o Palmeiras ser o clube que mais lucrou com receita de transmissão da TV em 2013 com a Série B, os clubes mais insatisfeitos com a situação, são os da própria Série A, competição que, em 2014, terá duração de mais de sete meses. Clubes tradicionais, como Ceará, Náutico, Ponte Preta, Portuguesa e Santa Cruz precisam se virar com uma cota de apenas R$ 2,7 milhões, dividida em dez parcelas. Fato que só tem contribuído para os atrasos salariais em praticamente todos os times da divisão. O presidente da Portuguesa, Ilídio Lico, revelou recentemente que a situação do clube é quase insustentável. A Ponte Preta, depois de muitos anos, voltou a conviver com a rotina de salários atrasados.

Nas séries menores (C e D), a situação é muito mais desanimadora: são 61 clubes sendo 20 na Série C e 41 na D. As duas divisões não possuem cotas, há apenas uma ajuda de custo para os clubes por parte da CBF, com pagamento de viagens, traslados, hospedagens e taxas de arbitragem. Apesar da cobrança pela revisão de distribuição de cotas, a única resposta que os clubes menores das série B, C e D tiveram foi a promessa de um fórum para discutir sobre o caso, mas ainda não é certo se tudo isso sairá do papel.

realbarcaO que está em risco de acontecer por aqui é o que acontece na Espanha, onde Real Madrid e Barcelona ganham 34% da cota destinada a TV, e os outros 38 clubes da primeira e segunda divisões de lá dividem entre si os outros 66%. Já na Inglaterra, 70% das cotas são divididas igualmente para os 20 clubes, outros 15% são de acordo com a performance no ano anterior, e por fim, os 15% restantes são pagos de acordo com a audiência. Como aqui não há uma liga que administra o Brasileirão, é utilizado o sistema “cada um por si e Deus para todos”… Ou seja, os clubes conversam individualmente com a detentora dos direitos televisivos (no caso no Brasil a Globo), que utiliza critérios próprios, baseados apenas em audiência como dito anteriormente.

Com os times pequenos mais fortes, a Premier League consegue montar uma competição com mais qualidade. Tanto que mesmo times como Cardiff ou Fulham contam com jogadores de seleções nacionais. No Brasileirão, os pequenos e até mesmo os grandes sofrem para manter os salários em dia e também para ter jogadores na Seleção Brasileira, a grande prova disso é que na Copa do Mundo em 2014 não havia jogador algum dos clubes paulistas no elenco.

Confira a divisão de cotas na Premier League (2013/2014):

1) Liverpool: R$ 362 milhões
2) Manchester City: R$ 359 milhões
3) Chelsea: R$ 349 milhões
4) Arsenal: R$ 345 milhões
5) Tottenham: R$ 333 milhões
6) Manchester United: R$ 331 milhões
7) Everton: R$ 316 milhões
8) Newcastle: R$ 287 milhões
9) Southampton: R$ 286 milhões
10) Stoke City: R$ 281 milhões
11) Swansea: R$ 275 milhões
12) West Ham: R$ 274 milhões
13) Crystal Palace: R$ 272 milhões
14) Aston Villa: R$ 270 milhões
15) Sunderland: R$ 266 milhões
16) Hull City: R$ 249 milhões
17) West Brom: R$ 244 milhões
18) Norwich: R$ 240 milhões
19) Fulham: R$ 235 milhões
20) Cardiff: R$ 230 milhões

corinthians2014E os valores estabelecidos para o novo contrato de transmissão para 2016:

1) Flamengo e Corinthians: R$ 170 milhões
2) São Paulo: R$ 110 milhões
3) Vasco e Palmeiras: R$ 100 milhões
4) Santos: R$ 80 milhões
5) Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo: R$ 60 milhões
6) Atlético-PR, Bahia, Coritiba, Goiás, Sport e Vitória: R$ 35 milhões
7) Demais clubes: Entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões

O Vasco recebe R$ 70 milhões mesmo na Série B e, caso não suba, terá direito a apenas uma porcentagem do valor em 2015.

Nos outros países da América do Sul, os clubes que mais ganham com cotas de TV não chegam perto do que Flamengo e Corinthians ganham aqui no Brasil. Boca e River Plate ganham cerca de R$ 22 milhões, Independiente, Racing, Velez e San Lorenzo entre R$ 10 milhões e 16 milhões, no México, Chivas Guadalajara e América levam R$ 60 milhões, Monterrey, R$ 20 milhões, e Santos Laguna, R$ 16 milhões. Uruguai, Peru e Equador são os países que menos pagam cotas de TV para os chamados “grandes”: o Peñarol recebe R$ 6 milhões, o Alianza Lima, R$ 8 milhões, Universitário, R$ 7 milhões, Juan Aurich e Cesar Vallejo, R$ 4 milhões, e o caso que mais impressiona é no Equador: Barcelona de Guayaquil ganha somente R$ 4 milhões, enquanto LDU e Emelec levam R$ 3,8 milhões.

Estava aqui pensando: não seria melhor e mais justa a volta do Clube dos 13? Ou até a criação de uma nova instituição para cuidar exclusivamente da negociação dos direitos de transmissão na TV? É um caso a se pensar, pois a superexposição de Corinthians e Flamengo na TV acaba prejudicando até os próprios clubes.

Uma resposta para “A desigualdade na exposição dos clubes na TV”

  1. Marcelo disse:

    Só uma correção. O critério usado no Brasil não é a audiência e sim o tamanho das torcidas. Se fosse audiência, a diferença seria mínima, porque os clubes protegidos da Globo muitas vezes sequer lideram a audiência média.

    Os clubes têm que fazer uma liga e acabar com a negociação individual, como foi feito na Inglaterra, na Alemanha, na Itália, na França e em toda a Europa, inclusive, todos eles seguindo o modelo do clube dos Treze, que a Globo, com a ajuda do corinthians e do Flamengo implodiu.

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