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Sambódromo em 30 Atos – “2004: Surge Paulo Barros; Beija-Flor vence desfile equilibrado”

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Nesta segunda-feira, o 21º texto da série Sambódromo em Trinta Atos, do jornalista esportivo Fred Sabino, nos leva de novo ao desfile de 2004, que teve a reedição de sambas-enredos antigos, a explosão do carnavalesco Paulo Barros na Unidos da Tijuca e mais uma vitória da Beija-Flor de Nilópolis num desfile muito equilibrado, marcado ainda por uma empolgante exibição do Império Serrano no “remake” de “Aquarela Brasileira”.

A coluna não será publicada na segunda-feira que vem, retornando após o Carnaval. Durante a festa de Momo, o Ouro de Tolo estará com uma programação especial, com imagens, análises e comentários sobre os desfiles e resultados. Prestigie!

2004: Surge Paulo Barros; Beija-Flor vence desfile equilibrado

A fase pré-carnavalesca marcou uma grande novidade: no vigésimo aniversário do sambódromo, as escolas de samba foram incentivadas (e autorizadas, claro) a reeditarem sambas-enredos antigos. Quatro agremiações seguiram esse caminho: Portela, Império Serrano, Unidos do Viradouro e Tradição. No entanto, apenas as escolas de Madureira decidiram reeditar sambas próprios, o que gerou críticas às demais.

A Azul e Branco escolheu como enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia”, de 1970, enquanto a escola da Serrinha optou pela reedição de “Aquarela Brasileira”, de 1964. Já a Viradouro quis reeditar o samba-enredo da Unidos de São Carlos de 1975 (“A Festa do Círio de Nazaré”), mas com novo título: “Pediu pra Pará, parou! Com a Viradouro eu vou pro Círio de Nazaré”. A Tradição, por sua vez, escolheu o clássico “Contos de Areia”, da Portela, em 1984 – vale lembrar que depois daquele desfile, a escola da Campinho foi fundada por dissidentes da Majestade do Samba. Já a Viradouro chegou a iniciar uma disputa de samba para uma composição inédita e, no decorrer da mesma, optou pela reedição.

Das agremiações que escolheram enredos inéditos, a campeã Beija-Flor de Nilópolis tinha sem dúvida o melhor samba, para o enredo “Manoa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz” – o compositor Aloisio Villar certa vez contou aqui no Ouro de Tolo bastidores da disputa de samba da escola para aquele ano. A vice-campeã Mangueira contaria a história da estrada real que corta Minas Gerais, também com um samba-enredo de qualidade.

Joãozinho Trinta novamente foi centro de polêmica na fase pré-carnavalesca: o carnavalesco escolheu para a Grande Rio o enredo “Vamos vestir a camisinha, meu amor!”. João prometia chocar o público com encenações e alegorias que reproduziriam cenas de sexo e esculturas de órgãos genitais. Dizia ele que o objetivo do enredo era alertar sobre o risco das doenças sexualmente transmissíveis, mas os críticos não pouparam o carnavalesco, o acusando de querer levar para a avenida um tema apelativo. Para piorar, o samba-enredo não ajudava nada…

A Imperatriz Leopoldinense prometia contar a história de Cabo Frio, tendo o pau-brasil e a cor vermelha oriunda da extração da madeira como fio condutor do enredo – em nova tentativa de driblar as imposições de um enredo patrocinado. Já a Mocidade Independente de Padre Miguel escolheu outro enredo de conscientização, no caso, sobre a educação no trânsito. O Salgueiro teria como tema o álcool combustível e seus diferentes benefícios, enquanto a Unidos da Tijuca levaria para a Sapucaí um enredo que misturava ciência e invenções. Quem atraiu a atenção da mídia foi a Caprichosos de Pilares, pois escolheu como enredo Xuxa, a Rainha dos Baixinhos.

A Unidos do Porto da Pedra teria como tema as formas de comunicação entre as pessoas, desde os primórdios da civilização até a era da internet. Completava o Grupo Especial a São Clemente, que, depois da polêmica vitória no Acesso em 2003, escolheu como tema uma crítica ao famoso jeitinho brasileiro, principalmente o dos políticos.

OS DESFILES

Sob chuva, a escola da Zona Sul apostou na irreverência ao defender o interessante enredo “Boi voador sobre o Recife: Cordel da galhofa nacional”. O tema do carnavalesco Milton Cunha partiu da primeira cobrança de pedágio do Brasil, no Recife, por Maurício de Nassau. Explica-se: este deu uma festa e, para, digamos, arrecadar fundos, anunciou que haveria um boi voador para o público ver. Claro que a promessa não foi cumprida, como muitas das que ainda existem hoje em dia.

Infelizmente devido à chuva, o conjunto de fantasias e alegorias, que tinha muitos elementos em espuma, acabou perdendo o efeito. Para piorar, Milton Cunha recebeu pressão de políticos para mudar às vésperas do desfile a esperada escultura que mostrava um Tio Sam sentado no Congresso Nacional como numa privada. Apesar da boa atuação da bateria, o samba não cresceu na avenida e a evolução não foi das mais animadas. Logo, a escola terminou o desfile já como candidata ao descenso. Curioso é que o samba dizia que “aqui o que é sério é Carnaval”, o que não deixa de ser uma tremenda ironia se lembrarmos as circunstâncias da ascensão da escola no ano anterior.

caprichosos2004Cercada de expectativa, a Caprichosos de Pilares acabou fazendo um desfile alegre, mas bastante irregular, com o enredo “Xuxa e seu Reino encantado no carnaval da imaginação”. A proposta do enredo do carnavalesco Cahê Rodrigues foi bem apresentada em alegorias, mas as fantasias também foram prejudicadas pela chuva.

A comissão de frente era formada por bailarinas que saiam de um elemento alegórico com cogumelos e interagia com o enorme abre-alas, com uma grande escultura de um mago segurando um bebê simbolizando Xuxa, com belo acabamento e movimentos. A homenageada desfilou no último carro e foi ovacionada pelo público (foto).

O samba-enredo não era dos melhores e nem mesmo o grande cantor Jackson Martins no seu último desfile – veja mais na seção Curiosidades – conseguiu levantar o público, que se manifestou com mais entusiasmo apenas quando Xuxa passou.

Pena que a escola também teve sérios problemas de evolução, com diversos buracos entre as alas. Para piorar, a lentidão do começo do desfile se transformou em correria para que a Caprichosos não estourasse os 80 minutos regulamentares. Conseguiu a duras penas. Foi sem dúvida uma apresentação simpática, mas que deixaria a Caprichosos do meio para trás na tabela.

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Na fase pré-carnavalesca, muita gente ironizou a Unidos da Tijuca pelo refrão principal de seu samba: “Sonhei, amor, e vou lutar / Para o meu sonho ser real / Com a Tijuca campeã do Carnaval”. Ora bolas, como uma agremiação cujo único campeonato na elite remontava a 1936, havia sido rebaixada várias vezes, tinha como melhor posição no Grupo Especial nas últimas décadas um isolado quinto lugar (em 2000) e vinha de duas nonas e uma décima colocações nos três anos anteriores, achava factível ser campeã?

Pois bem, a chegada do ex-comissário de bordo Paulo Barros para a função de carnavalesco da escola proporcionaria uma imediata mudança de patamar para a agremiação do Borel e provocaria a última revolução estética do Carnaval do Rio de Janeiro.

Oriundo da Vizinha Faladeira e com passagens pelo Arranco do Engenho de Dentro e Paraíso do Tuiuti, Paulo Barros mesclou tecnologia, criatividade e o uso de materiais alternativos (e, literalmente, humanos) para proporcionar uma exibição arrebatadora com o enredo “O sonho da criação, a criação do sonho. A arte da ciência no tempo do impossível”, que contou a história das descobertas científicas e tecnológicas.

tijuca2004dO cartão de visitas foi a supercriativa comissão de frente (foto acima) que representava “A Ciência Move o Homem”. Os integrantes estavam com uma fantasia dourada com uma “saia” que girava como uma engrenagem e era formada por texturas que simbolizavam circuitos de computador e ainda tinha relógios funcionando de verdade. Simplesmente magnífico!

O carro abre-alas chamava-se “Máquina do Tempo” e tinha um integrante fantasiado de Albert Einstein, já que a alegoria representava as teorias sobre tempo e espaço. O interessante carro “Da Alquimia à Química” tinha dezenas de grandes cápsulas de remédios esculturas de bruxas (já que os cientistas eram acusados de bruxarias) e apenas um destaque, que representava “O Grande Alquimista”. Parecia uma provocação para o que estava por vir…

A primeira demonstração da nova estética que Paulo Barros propunha era o carro “Energia”, que tinha dezenas de integrantes fantasiados de preto fazendo uma coreografia muito bem ensaiada mostrando o trabalho dos para-raios. Mas o carro chamado “Criação da Vida” veio a seguir para revolucionar o Carnaval.

tijuca2004Não havia praticamente nada além de uma estrutura de metal com pequenos acabamentos em dourado e 127 integrantes com o corpo pintado de azul claro e brilhante (foto ao lado). Mas por que isso foi uma revolução? Simplesmente porque os componentes formavam uma grande pirâmide humana e faziam uma coreografia simplesmente genial que representava o DNA. O efeito foi simplesmente de fazer cair o queixo.

As demais alegorias também chamaram muito a atenção, como a chamada “Viagens Extraordinárias”, que retratava o livro “20 mil léguas submarinas”, de Julio Verne, e tinha 300 mil canudinhos de refrigerante para representar o fundo do mar (foto acima). Paulo Barros também abusou de materiais mais baratos no carro “Ficção Futurista”, com 14 mil garrafas de plástico – além disso, a iluminação toda em branco dava um efeito espetacular.

tijuca2004bAssim como os carros, as fantasias estavam muito criativas. Entre todos os figurinos, os que mais se destacavam eram os da bateria, que tinham enormes chapéus em formato e desenho simbolizando cérebros (foto), o que já era de impacto. Mas quando a bateria (que por sinal imprimiu um ritmo mais cadenciado do que o “afrevado” de 2003) saiu do box, os ritmistas abriram os cérebros e de lá saíam bolas azuis de gás.

Nos quesitos de pista, a despeito de pequenos descompassos de evolução, a Tijuca também esteve muito bem. O samba, que não era muito cotado na fase pré-carnavalesca, cresceu muito na avenida com a interpretação de Wantuir e os componentes estavam muito empolgados. O público aos poucos conheceu o samba e no fim cantou com a escola.

A Tijuca deixou a avenida sob aplausos e com a sensação de ter feito o melhor desfile de sua história. Ficou evidente que a escola do Borel brigaria com muita força pelas primeiras colocações, no mínimo. De qualquer forma, ainda era cedo para falar em título, já que grandes potências do Carnaval ainda desfilariam.

salgueiro2004A primeira delas foi o Salgueiro, que, no entanto, apesar de ter feito uma apresentação correta, acabou não causando o mesmo impacto que a vizinha tijucana. Para começar, a escola entrava na avenida pela primeira vez em muitos anos sem o inesquecível Mestre Louro, o que já configurou uma quebra de tradição.

Mas não quer dizer que a Vermelho e Branco não tenha tido bons momentos com o enredo “A cana que aqui se planta, tudo dá…Até energia. Álcool, o combustível do futuro”, de Renato Lage e sua esposa Márcia Lávia. O conjunto de alegorias era bem no estilo Lage, com muito high tech e soluções criativas. Gostei muito do carro “Alcoópolis”, que tinha uma pista em que karts passeavam (foto). As fantasias estavam criativas e bem acabadas, com destaque para o diferente figurino da ala das baianas, simbolizando engrenagens de indústrias.

Outro destaque foi a comissão de frente, que retratava a origem da cana-de-açúcar e cujos integrantes faziam coreografias formando um elefante com seus elementos cenográficos. Mas nos demais quesitos de pista o Salgueiro não esteve num de seus melhores dias. Muito por conta do samba-enredo limitado, que não contagiou componentes nem público apesar de a bateria de Mestre Jonas ter feito uma boa apresentação.

Depois dos problemas graves de evolução nos anos anteriores, finalmente o Salgueiro resolveu reduzir seu contingente de 5500 para 4200 componentes. Mas, se em 2004 os desfilantes salgueirenses evoluíram com mais fluência, o já citado samba não proporcionou uma apresentação quente.

granderio2004Aguardada com expectativa pelo terceiro lugar de 2003 e pela grande polêmica envolvendo Joãozinho Trinta na fase pré-carnavalesca, a Acadêmicos do Grande Rio fez uma apresentação muito aquém do que se esperava, com o enredo “Vamos vestir a camisinha, meu amor!”.

Para começar, o samba era arrastado e isso se refletiu no conjunto da escola, já que os componentes não estavam empolgados e nem o público cantou. Só mesmo a grande bateria do Mestre Odilon conseguiu agradar na despropositada apresentação tricolor.

João 30 era um gênio (para muitos o maior de todos os carnavalescos), mas desta vez errou a mão. O desfile começava inspirado na pintura “Jardim das Delícias” e mostrava como teria sido o primeiro ato sexual no Paraíso. Por decisão judicial, três alegorias que tinham símbolos de atos sexuais ou reprodução de órgãos genitais foram cobertas e tinham faixas com a palavra “Censurado” (foto). Outra alegoria simbolizava as casas noturnas, se é que me entendem…

As fantasias não eram das mais criativas e preservativos formavam os figurinos do mestre-sala e da porta-bandeira. Nas vestimentas das baianas havia placas com figuras do kama sutra. Até que havia alas dedicadas à proposta alegada do enredo, que era a de conscientizar a população sobre os cuidados com as doenças sexualmente transmissíveis, mas a meu ver falou-se muito mais de sexo em si. Para piorar, a escola teve problemas de evolução e quase estourou os 80 minutos regulamentares.

mangueira2004cPenúltima escola a desfilar na primeira noite, a Estação Primeira de Mangueira manteve o alto padrão de apresentações que vinha tendo desde a chegada do carnavalesco Max Lopes, três anos antes. O enredo “Mangueira redescobre a Estrada Real…E deste Eldorado faz seu carnaval”, sobre o desenvolvimento da região em que passava a antiga estrada de ferro e a importância do estado, foi muito bem desenvolvido.

mangueira2004Para começar, a comissão de frente liderada por Carlinhos de Jesus mais uma vez arrebatou a Sapucaí com uma grande apresentação e um figurino supercriativo: cada um dos 15 integrantes carregava quatro bonecos (presos a tubos) que representavam personagens de Minas Gerais como Tiradentes, Tancredo Neves, Carlos Drummond de Andrade e Juscelino Kubitschek, entre outros (foto acima). Com a coreografia da comissão, o efeito foi maravilhoso, e parecia que havia muito mais gente na pista.

O abre-alas, como vinha sendo costumeiro, era enorme, com muito dourado. Gostei muito da alegoria que representava o trem da estrada real (com 60 metros de comprimento) e o carro que se chamava “Casa da Sinhá Chica da Silva”, este com muito branco, dourado e rosa em tons suaves, além de uma enorme escultura de Chica. A alegoria “Arquitetura Barroca” também estava brilhante, parecia mesmo uma construção mineira. Aliás, em termos de acabamento de alegorias, a Mangueira foi a melhor escola do ano, mesmo sem surpreender tanto como a Unidos da Tijuca.

As fantasias também contaram muito bem o enredo, além de serem belíssimas. A ala das baianas, que representava a “Explosão Barroca”, estava maravilhosa, com figurinos em dourado e muito bem detalhados. Aliás, o dourado predominou durante toda a primeira parte do desfile (o que, apesar de um tanto exagerado, era até pertinente ao enredo), com o verde e o rosa da escola entrando apenas depois.

mangueira2004cDepois dos problemas de saúde na fase pré-carnavalesca, Jamelão voltou a mostrar a categoria de sempre na condução do agradável samba-enredo e a escola esteve muito bem no quesito Harmonia, com os componentes cantando bem. Por outro lado, a evolução esteve um tanto descompassada em alguns momentos, dada a grandeza das alegorias e o excesso de alas coreografadas – mesmo sem grandes buracos, em alguns momentos houve lentidão, e em outros, pressa na passagem dos componentes.

A Mangueira terminou seu bom desfile mais uma vez credenciada a brigar pelas primeiras colocações pela correção na maioria dos quesitos e pela inegável beleza visual. Mas a Verde e Rosa desta vez não teve o mesmo impacto do que o que se viu na apresentação da Tijuca, tampouco mexeu com o público como  em 2002 (principalmente) e 2003.

portela2004Em seguida à Mangueira, desfilou a Portela – a meu ver, pela grandeza das duas agremiações, as mais populares e vitoriosas do Rio, ambas nunca poderiam desfilar no mesmo dia – e foi mais uma apresentação com grande qualidade na noite. Ou melhor, no caso da Portela, no alvorecer, como tantas e tantas vezes na história da maior campeã do Carnaval.

Depois do decepcionante desfile de 2003, no qual a falta de recursos limitou (e irritou) o carnavalesco Alexandre Louzada, claramente houve muito mais esmero para o conjunto visual portelense e isso se refletiu no que foi uma das melhores exibições do ano. O novo carnavalesco Jorge Freitas ampliou a sinopse do enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia” original e, em vez de três, abordou sete lendas daquela região.

portela2004bA comissão de frente estava bem fantasiada e representava os “guardiões da água sagrada”. Já a águia sagrada (foto acima) simbolizava o Eldorado e estava deslumbrante, toda em dourado brilhante, além de ter um aspecto agressivo, para a frente, e com bons movimentos – foi uma das águias portelenses mais bonitas que já vi. Além disso, havia lindas esculturas de mulheres guerreiras. As outras alegorias também estavam muito bem concebidas e acabadas. Inteligentemente, Jorge Freitas usou cores que rendiam impacto com a luz do dia, tanto nos carros como nas fantasias e isso tornou a divisão cromática muito adequada.

portela2004eO extraordinário samba-enredo, um dos maiores da riquíssima história portelense, dizia: “A lua apaixonada chorou tanto / E do seu pranto nasceu o rio-mar”, e a alegoria que representava este trecho era simplesmente emocionante, tamanha a felicidade de sua concepção e acabamento (foto).

Gostei de todos os outros carros, especialmente o chamado “O Reino das Águas”, com duas esculturas de índios bem realizadas e muito verde em volta, e outra alegoria chamada “O Encantamento do Uirapuru”, com uma enorme ave no topo e também ladeada de muito verde, além de esculturas de araras e uma de jacaré que abria e fechava a boca. O primeiro e único Paulinho da Viola desfilou naquela alegoria ao lado de outros portelenses das antigas.

Depois de uma fase pré-carnavalesca tumultuada para a bateria da Portela, com a troca de Carlinhos Catanha por Mug a 40 dias do desfile, a Tabajara do Samba deu boa cadência ao samba, sem deixá-lo lento demais como era em 1970 ou acelerar excessivamente como muitas baterias estavam fazendo naquele ano, mas teve problemas – veja no Cantinho do Editor. Valorizando seus nomes históricos, a Portela colocou Dodô à frente dos ritmistas como madrinha – aos 84 anos, ela desfilou com uma alegria comovente (foto).

portela2004dLamentavelmente alguns setores do sambódromo ficaram vazios – naquele tempo já havia gringo demais e povo de menos nos desfiles do Grupo Especial, e sabemos bem que tem gente que não aguenta o tranco e sai antes de a última escola passar – mas quem esperou aplaudiu a Portela, que apressou um pouco o ritmo no fim da sua apresentação para não estourar os 80 minutos regulamentares. Conseguiu. A Majestade do Samba encerrou seu desfile como uma das melhores escolas do dia, ao lado da Tijuca e da Mangueira.

A Tradição abriu a segunda noite de desfiles com outra reedição, a do famosíssimo samba “Contos de Areia”, mas teve uma apresentação irregular na maior parte dos quesitos. O conjunto alegórico até que era O.K., mas a forte chuva que caiu durante a apresentação da Azul e Branco causou danos, assim como nas fantasias.

Os cantores Lourenço e Wander Timbalada cantaram com garra e até que os componentes passaram animados, afinal o samba era antológico e estava na ponta da língua. Mas a evolução foi confusa, porque as alegorias e fantasias eram grandes e pesadas – sem contar as muitas alas coreografadas. Não havia risco iminente de rebaixamento, mas poderia ter sido um desfile melhor.

A chuva também atrapalhou a Unidos do Porto da Pedra, que levou para a avenida o enredo “Sou tigre, sou Porto, da Pedra à internet: O mensageiro na história da vida do leva e traz”. Infelizmente o conjunto visual da escola, que estava bem adequado à proposta do enredo, não resistiu à água.

Houve problemas ainda com a bem sacada comissão de frente, cujos componentes tiveram enormes dificuldades com as fantasias de cachorro (molhadas pela chuva) e sofreram até o fim do desfile. O samba-enredo também não ajudou e, com isso, houve um desânimo entre componentes e público. Mas não foi um desfile desastroso porque o enredo foi bem passado e era bastante pertinente para uma época em que a internet cada vez mais alçava voos mais altos.

imperatriz2004Terceira a desfilar, a Imperatriz Leopoldinense fez uma grande apresentação e se posicionou confortavelmente entre as melhores escolas do ano. No enredo “Breazail”, (palavra de origem celta que significa vermelho e parece com o do nome do nosso país), Rosa Magalhães contou a história de Cabo Frio por intermédio da extração do pau-brasil (que ocorria na região na época do Brasil Colônia) e do uso para tingimento em vermelho, além das origens da cor. Diga-se de passagem, o município patrocinou o enredo, que foi bem desenvolvido.

A Imperatriz contou com a ajuda de São Pedro, pois a chuva deu uma trégua, e a carnavalesca voltou a proporcionar à escola um conjunto visual de muita qualidade, tanto em concepção como em acabamento. Rosa Magalhães valorizou na divisão cromática o vermelho e o mesclou com a categoria de costume ao verde e branco da agremiação e outras cores.

A comissão de frente de Fabio de Mello teve mais uma grande exibição, representando “bruxas alquimistas” com uma dança criativa. Em seguida, o abre-alas tinha uma enorme escultura de bruxa e de um caldeirão, de onde sairia a tintura vermelha. O segundo carro representava a alquimia e era inspirado no pintor holandês Jeronimus Bosch. Em seguida, a escola teve vários setores representando a China, que, segundo a sinopse, sempre valorizou o vermelho.

imperatriz2004bEm seguida, o desfile viajou pela extração do estanho pelos celtas, já que a cor vermelha era produzida por esse minério. Depois, finalmente a chegada à nossa terra, com a exploração do pau-brasil em Cabo Frio, local da primeira feitoria portuguesa. Por fim, uma mensagem de utopia baseada nas narrações das viagens de Américo Vespúcio e uma esperança de preservação da nossa mata atlântica, com muito pau-brasil, claro.

O samba-enredo seria cantado por David do Pandeiro, que, no entanto, foi dispensado durante um ensaio técnico, já após a gravação do CD. Ronaldo Ylê foi alçado à condição de intérprete oficial e teve condução segura. O samba teve bom rendimento na avenida, assim como a bateria de Mestre Beto, que esteve correta nas paradinhas.

A evolução da Imperatriz não teve buracos, mas acabou sendo rápida, tanto que as últimas alas ficaram paradas no fim da apresentação para que a escola não passasse abaixo dos 65 minutos mínimos exigidos. Mas foi um desfile simpaticíssimo, que deixou ótima impressão ao público e crítica.

imperio2004Embalado por um dos melhores sambas-enredo de todos os tempos, o Império Serrano fez uma exibição emocionante, que remeteu aos grandes momentos do samba, quando o chão das escolas valia mais do que as questões estéticas. Foi sem dúvida o desfile que mais empolgou o público, que sabia cantar “Aquarela Brasileira” de cor e salteado – até os gringos se esbaldaram nas arquibancadas.

O cantor Nêgo, depois das críticas pela atuação infeliz em 2003 com a Unidos da Tijuca, conseguiu na sua estreia pelo Império o que para muitos era dificílimo: cantar uma obra antiquíssima sem causar arrastamento na harmonia da escola, ou imprimir um andamento veloz que assassinasse o samba. Claro que para isso também contribuiu a mágica bateria de Mestre Átila, que se consolidava como um dos grandes mestres do Carnaval do Rio.

imperio2004bNos quesitos visuais, apesar de uma divisão cromática adequadíssima, com cores fortes sem serem cansativas, e de a proposta do enredo ter sido passada com correção, lamentavelmente houve uma visível irregularidade no conjunto, com algumas alegorias e fantasias com problemas de acabamento, mesmo sem estar chovendo com intensidade.

A preparação da escola foi muito prejudicada por liminares obtidas pela oposição que bloqueavam os repasses de verbas para a preparação do carnaval, tanto que a escola chegou ao desfile sob o comando de um interventor. Inclusive, a presidente Neide Coimbra fez um desabafo no microfone antes de Nêgo começar a cantar, e revelou que a verba havia sido desbloqueada apenas na sexta-feira anterior ao desfile.

Houve também problemas em evolução, que foi confusa na maior parte do desfile. Por outro lado, os componentes cantaram o samba o tempo todo. O Império saiu aplaudidíssimo da avenida pelo grande espetáculo musical e de empolgação. No entanto, os problemas citados atrapalhariam a Verde e Branco numa apuração que prometia ser equilibrada.

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Além das adversárias, a campeã Beija-Flor de Nilópolis teve de encarar outro adversário impiedoso no desfile de 2004: a chuva. Justamente na passagem da Azul e Branco, a precipitação se acentuou, mas, a exemplo do que havia acontecido no histórico desfile de 1986, os componentes desfilaram com muita garra e cantaram com entusiasmo o lindíssimo samba “Manoa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz”.

beijaflor04A bela comissão de frente representou as guerreiras da Amazônia (estavam vestidas com fantasias criativas) e o maravilhoso abre-alas (foto acima), que era acoplado, trazia uma grande embarcação dourada representando a ganância espanhola, já que eles chegaram ao continente americano no século XVI em busca de arrancar tudo da terra. Os componentes da alegoria fizeram coreografia simbolizando as velas da embarcação e havia um grande sol representado por uma impecável iluminação. Na segunda parte da alegoria, a escola lembrou o extermínio dos incas (foto ao lado).

Em termos de concepção, diga-se de passagem, a Beija-Flor teve sem dúvida um trabalho muito mais acurado do que nos dois anos anteriores, principalmente nos carros que reproduziam a natureza do local e os animais, como na excelente alegoria “Manoa, o fantástico reino do Eldorado”. O dourado visto mais no começo do desfile deu lugar ao verde e azul de águas e árvores, e outras cores das espécies da região; consequentemente, a divisão cromática foi muito adequada ao enredo.

beijaflor2004cNo entanto, a forte chuva infelizmente causou danos consideráveis nas alegorias (sobretudo as do meio para o fim do desfile) e fantasias, cujos pedaços foram despencando na pista. O caso mais grave ocorreu no carro que reproduzia o Teatro Amazonas. Literalmente a alegoria foi se desmanchando pela avenida, o que talvez acarretasse numa perda de pontos que poderia ser fatal para as pretensões da escola.

Para piorar, como as fantasias ficaram mais pesadas pela chuva e pedaços também ficavam pendurados, houve também dificuldades para as alas evoluírem do meio para o fim da pista. Além do mais, houve problemas para os carros alegóricos serem retirados da avenida.

De qualquer forma, a proposta do enredo foi bem transmitida e, amparados pelo grande Neguinho da Beija-Flor e a ótima bateria de Mestre Paulinho (que, aliás, imprimiu perfeito andamento ao samba e caprichou nas paradinhas e convenções), a escola manteve a pegada de sua exibição até a Apoteose e ficaria bem colocada. Restava saber se os jurados levariam em conta os danos de alegorias e fantasias.

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Ainda sob forte chuva, a Unidos do Viradouro fez uma exibição emocionante ao levar para a avenida o Círio de Nazaré e também se credenciou à briga pelo campeonato. A ideia original da escola era fazer um novo enredo sobre a romaria paraense, mas, quando a disputa de samba-enredo já estava em andamento, o presidente José Carlos Monassa informou que a antiga obra de Dário Marciano, Nilo Mendes e Aderbal Moreira, da Unidos de São Carlos em 1975, seria reeditada.

viradouro2004bApesar da polêmica, o grande samba-enredo funcionou maravilhosamente quase 30 anos depois graças à brilhante interpretação de Dominguinhos do Estácio (um devoto fervoroso de Nossa Senhora de Nazaré) e à impecável bateria de Mestre Ciça, que, ao contrário de anos anteriores, nos quais estava acelerada, mostrou uma cadência perfeitamente adequada ao samba.

O carnavalesco Mauro Quintaes fez talvez seu melhor trabalho na carreira, com um bom gosto indiscutível nas fantasias e alegorias, e uma perfeita divisão cromática, valorizando as cores da escola e as mesclando principalmente com dourado e prata.

viradouro2004Gostei muito da alegoria que representava o órgão da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, com um excelente jogo de luzes, em amarelo e vermelho e muitos espelhos, o que dava um efeito muito interessante. Já a alegoria chamada “Índio”, que simbolizava o primeiro filho do estado do Pará, era de extraordinária concepção, com um grande boneco de índio (foto ao lado) que reproduzia o nado nas águas dos rios – aliás, quase a alegoria não passa pelo famoso viaduto vizinho ao sambódromo. Outro destaque foi o carro “Lendas e Folclore”, de ótimo acabamento e diferentes cores, mas sem quebrar o conjunto visual.

viradouro2004Aliás, mesmo com a escola tendo desfilado no momento de chuva mais forte, tanto alegorias como (a maioria dos) figurinos resistiram de forma impressionante até quase o fim do desfile. E tudo estava perfeitamente adequado à proposta do enredo, que, além da procissão em si, passeou pelos aspectos mais importantes do Pará.

Mas nada foi mais emocionante no Carnaval de 2004 do que o começo do desfile da Viradouro. Para começar, a comissão de frente coreografada por Deborah Colker tinha seus integrantes representando os peregrinos e a grande corda da procissão, que saía de um elemento alegórico que simbolizava uma casa e, em certo momento, envolvia os componentes. A seguir, uma enorme ala (foto acima) de romeiros tipicamente caracterizados, com barcos e casas na cabeça faziam pedidos à santa e erguiam os braços no refrão central “Ó, Virgem Santa, olhai por nós/Olhai por nós, ó, Virgem Santa/pois precisamos de paz”.

A Viradouro terminou seu desfile sob aplausos do público, já que fez um tocante desfile do começo ao fim. A escola também não conseguiu um impacto como a Unidos da Tijuca, mas foi muito bem nos quesitos e estava na briga.

Última escola a desfilar, a Mocidade Independente de Padre Miguel entrou na avenida pouco antes do amanhecer e fez uma exibição que não chegou aos pés das apresentações dos anos anteriores. O enredo “Não corra, não mate, não morra. Pegue carona com a Mocidade” alertou sobre os riscos da direção imprudente e, justiça seja feita, foi bem desenvolvido pelo carnavalesco Chico Spinoza, com alegorias e fantasias criativas.

Mas o desfile foi arrastado, muito por culpa do fraquíssimo samba-enredo. Com o sambódromo quase às moscas, os componentes passaram de forma muito desanimada e, para piorar, o cantor Paulinho Mocidade ficou com a voz prejudicada ao longo do desfile.

Foi um desfile bonito, de qualquer forma. Gostei muito da ala “Riquixás”, que tinha 15 paraplégicos depois de acidentes de carro e eram puxados por integrantes da comunidade com cadeiras de rodas decoradas. Em alegorias, dois destaques: o carro “A Evolução dos Motores”, com muitas engrenagens, e o “Autorama”, com uma pista que tinha carrinhos se movimentando.

A bateria esteve cadenciada, mas, além dos problemas de harmonia já citados, houve falhas de evolução. Com isso tudo, a Mocidade fez um desfile que na melhor das hipóteses a levaria ao sábado, mas que provavelmente seria de meio de tabela.

REPERCUSSÃO E APURAÇÃO

Terminados os desfiles, a expectativa era a de uma apuração extremamente equilibrada, já que diversas escolas fizeram boas apresentações, embora todas com pequenas falhas. O Império Serrano ganhou o Estandarte de Ouro de melhor escola, mas o título seria difícil devido aos problemas. A meu ver, o melhor desfile do ano no conjunto da obra foi o da Unidos da Tijuca, mas (pela ordem de desfile) Mangueira, Portela, Imperatriz, Beija-Flor e Viradouro tiveram exibições elogiáveis e brigariam palmo a palmo pelo campeonato.

A apuração começou com uma grande polêmica: o presidente da Liesa, Capitão Guimarães, anunciou que as notas do jurado de Bateria Ivan Paulo seriam anuladas devido a quebra de sigilo. Com isso, o quesito teria apenas três notas válidas.

Questões externas à parte, o equilíbrio esperado não houve, já que a apuração teve um passeio da Beija-Flor quase tão grande como no ano anterior. Nos seis primeiros quesitos lidos, a Azul e Branco perdeu apenas 0,1 em Mestre-Sala e Porta-Bandeira e abriu 0,9 em relação à vice-líder Mangueira.

Em Alegorias e Adereços, apesar de elementos terem despencado na pista, a Beija-Flor perdeu apenas meio ponto e levou um dez, o que de qualquer forma reduziu a diferença para a Mangueira. Naquele momento, Tijuca e Viradouro inexplicavelmente já estavam a mais de meio ponto da Verde e Rosa e a quase dois da Beija-Flor, o que não condizia com o nivelamento visto nos desfiles.

Em Conjunto, a Beija-Flor voltou a abrir sobre a Mangueira e, com mais despontuações, a Verde e Rosa acabou alcançada pela Unidos da Tijuca, que, por ter perdido só 0,1 nas notas do último quesito (Evolução), levou o vice-campeonato no desempate. Na frente, sem ser incomodada, a bicampeã Beija-Flor.

Eufórico, o diretor de Carnaval Laíla creditou a vitória à chuva que insistiu em cair no desfile da Beija-Flor e inicialmente havia sido considerada uma ameaça ao título: “Nós fizemos um enredo que falava de água e esse foi um sinal de Deus de que nunca vai faltar água”.

Festa em Nilópolis e festa também no Borel pelo espetacular vice-campeonato da Unidos da Tijuca. Não é exagero dizer que, se dentro da pista a Beija-Flor venceu, fora dela o grande vencedor foi o carnavalesco Paulo Barros, consagrado pela crítica pela última grande revolução nos desfiles de escolas de samba.

Completaram as seis primeiras colocadas Unidos do Viradouro (surpreendentemente, dois jurados tiraram pontos do maravilhoso samba-enredo), Imperatriz Leopoldinense e Acadêmicos do Salgueiro. A Portela, que fez um desfile para terminar entre as cinco primeiras, acabou apenas em sétimo e o Império Serrano ficou em nono (com uma estranhíssima e exagerada nota 7,9 em Conjunto), atrás da Mocidade Independente de Padre Miguel. Como se esperava, caiu a São Clemente.

No Grupo de Acesso, a homenagem a Paraty rendeu o título para a Unidos de Vila Isabel, com 0,6 ponto de vantagem sobre a Acadêmicos de Santa Cruz. A nota triste foi o rebaixamento do Estácio de Sá para o Acesso B, que teve a vitória da Vizinha Faladeira e o vice da Renascer de Jacarepaguá.

RESULTADO FINAL

POS. ESCOLA PONTOS
Beija-Flor de Nilópolis 388,7
Unidos da Tijuca 387,9
Estação Primeira de Mangueira 387,9
Unidos do Viradouro 386,9
Imperatriz Leopoldinense 386,5
Acadêmicos do Salgueiro 386,2
Portela 384,9
Mocidade Independente de Padre Miguel 381,2
Império Serrano 380,9
10º Acadêmicos do Grande Rio 380,5
11º Unidos do Porto da Pedra 376,7
12º Tradição 372,9
13º Caprichosos de Pilares 368,9
14º São Clemente 367,8 (rebaixada)

CURIOSIDADES

– Infelizmente foi o último Carnaval do grande intérprete Jackson Martins. No dia 9 de agosto de 2004, o cantor da Caprichosos de Pilares foi covardemente assassinado na rodovia Washington Luís, em Duque de Caxias. O Uno dirigido por Jackson foi fechado por outro carro e dois homens encapuzados abordaram o cantor. Jackson não ofereceu resistência, mas levou dois tiros (um na cabeça), na frente da esposa, dois filhos e uma amiga. Como nada foi levado, a Polícia suspeitou que Jackson tivesse sido morto por engano, pois o veículo, que pertencia a um amigo do cantor, tinha um adesivo do Batalhão de Infantaria do Exército – os bandidos teriam suspeitado que ele fosse militar. Segundo consta, ninguém foi preso pelo crime. Jackson tinha apenas 32 anos e sua perda foi muito sentida por toda a comunidade do samba carioca.

– Meu amigo Carlos Alberto Vieira, imperiano de quatro costados e editor do diário LANCE!, sempre teve o hábito de percorrer a Avenida Presidente Vargas a pé nas vésperas do desfile para conferir de perto as alegorias, já que a redação fica muito próxima ao sambódromo. Em 2004, ele chegou preocupadíssimo com a Unidos da Tijuca, dizendo que um dos carros estava praticamente todo no ferro e que, pelo tamanho da alegoria, era impossível de ser finalizado antes do desfile. Dois dias depois passava pela Sapucaí o carro do DNA e ficamos rindo na redação com a surpresa aprontada por Paulo Barros.

– A reedição de sambas-enredo acabou não pegando no Grupo Especial. Se em 2004, quatro agremiações levaram sambas antigos para a Sapucaí, nos dez anos seguintes em apenas três vezes escolas fizeram “remakes” na Sapucaí: Porto da Pedra (“Festa Profana”, da União da Ilha em 1989), Estácio de Sá (“O tititi do Sapoti, da própria escola em 1987) e Império Serrano (“A lenda das sereias, rainhas do mar”, da mesma agremiação em 1976, com outro título: “A lenda das sereias e os mistérios do mar”).

– Devido à demora em fechar a contratação de um intérprete oficial, a Tradição convidou Alcione para gravar a faixa “Contos de Areia” no CD de sambas-enredo. Explica-se: a Marrom era uma das melhores amigas de Clara Nunes, uma das homenageadas do enredo. O curioso é que Alcione usou o mesmo grito de guerra do intérprete Celino Dias, que saiu da escola depois do desfile de 2003: “Um beijo no seu coração”, logo após o tradicional alusivo “Isto sim é a Tradição!” sempre entoado pelos cantores da escola. No desfile, cantaram o compositor Lourenço e Wander Timbalada.

– Pela terceira vez na história, o CD de sambas-enredo teve a primeira passada de cada faixa sem bateria, com os instrumentos entrando apenas na virada para a segunda passada. Só que, ao contrário de 1995 e 1996, quando poucas escolas adotaram esse expediente nas gravações, no CD de 2004 todas as faixas só tinham bateria do meio para o fim. A ideia era valorizar as melodias e as letras dos sambas. Não gostei muito, até porque as baterias tiveram uma sonoridade muito artificial. Em 2012, a Mangueira adotou esse expediente porque o enredo era sobre o Cacique de Ramos e a faixa da escola tinha a primeira passada ao ritmo de pagode.

– Falando em faixas do CD de 2004, Jamelão quase não participou da gravação devido ao agravamento de seus problemas de saúde. Foi necessário um esquema à parte para que o lendário intérprete mangueirense pudesse gravar e ficou perceptível no áudio o esforço dele para conseguir cantar. No desfile, em melhores condições apesar de cantar sentado, Jamelão mostrou a categoria de sempre.

– Por falar no bom samba da Mangueira, o refrão principal dizia “Eu vou embarcar / Na Estação Primeira / Tesouro do samba, minha paixão / Ê trem bão!”, mas o Governo do Rio fez na época uma paródia numa propaganda para divulgar a empresa de trens do estado: “Eu vou embarcar / Num trem da Supervia / O melhor transporte, pra população / Ê trem bão!”. Assim como no samba mangueirense, o jingle teve interpretação de Jamelão.

– Com o Império Serrano fora das primeiras colocações no fim da apuração, a Beija-Flor homenageou a escola da Serrinha ao colocar “Aquarela Brasileira” como esquenta no Desfile das Campeãs.

– Foi o último desfile que teve Joãozinho Trinta como responsável por toda a preparação de uma escola. Dispensado pela Grande Rio antes mesmo da apuração de 2004, João 30 acertou com a Vila Isabel para conceber o enredo “Singrando em mares bravios…E construindo o futuro”, mas infelizmente sua saúde ficou debilitada a ponto de o carnavalesco ter de interromper sua participação nos trabalhos. João encerrou sua carreira com oito títulos, seis vices e seis terceiras colocações em 31 desfiles de escolas com enredos de sua confecção.

– O trecho “Hoje eu quero ver / Caldeirão ferver nessa magia” do samba da Imperatriz Leopoldinense foi bastante usado pela TV Globo nas chamadas do Campeonato Carioca de futebol nos dias que antecederam o desfile. A decisão da Taça Guanabara daquele ano (Flamengo 3 x 2 Fluminense) foi realizada no sábado de Carnaval.

CANTINHO DO EDITOR – por Pedro Migão

bateria+2004Em história rocambolesca, que qualquer dia contarei aqui, desfilei naquele ano na bateria da Portela, tocando chocalho. Foi um desfile problemático desde o pré-Carnaval, com a troca de Carlinhos Catanha por Mug devido a divergências sobre o naipe de tamborins – a diretoria queria que viesse “reta”, ou seja, sem convenções ou paradinhas.

Além disso, o chapéu muito alto da fantasia (foto) prejudicou a visibilidade dos diretores, tanto que metade da bateria só “subiu” na segunda passada por não ter visto o sinal. Além disso, houve problema com um dos surdos, que estava, digamos, “fora de compasso” no início do desfile. Com tudo isso, as três notas 9,9 acabaram saindo até boas – e realizei um sonho. Mas o sétimo lugar foi inacreditável, para não escrever algo mais forte.

Também tenho o orgulho de ter sido escolhido por Mestre Mug para representar a bateria em uma sessão de fotos com rainhas e madrinhas de bateria no ensaio de quarta-feira antes do Carnaval, para matéria do jornal O Dia. Minha foto com Dona Dodô e Raíssa da Beija Flor saiu na capa do jornal no domingo de Carnaval.

Sobre o desfile em si, a se lamentar apenas o resultado. Aliás, acho bem injusta a vitória da Beija Flor naquele ano.

Ainda desfilei pela União de Jacarepaguá, Inocentes da Baixada (em carro alegórico), Vila Isabel, Paraíso do Tuiuti, Tradição, Viradouro e só não desfilei no Boi da Ilha e na bateria do Império da Tijuca no Acesso B porque meu joelho estourou. Foram sete desfiles ao total naquele ano. E só não desfilei de padre no último carro da Mangueira porque a escola “colou” com a Portela na ordem de desfile e não daria tempo.

Jacarepaguá_2004

Na União de Jacarepaguá, que trouxe o melhor samba inédito do ano – e que deveria ser o hino da Rio 2016 – desfilei de short, camiseta e prancha de surfe, em uma ala somente de amigos. Até “jacaré” pegamos na avenida.

Na Inocentes da Baixada desfilei pela primeira e última vez em um carro alegórico, representando um grego (!) e com uma roupa totalmente transparente. A foto? No post de amanhã… Por outro lado, a Vila Isabel trouxe uma ala em que desfilamos dentro de uma espécie de “lençol” representando as ondas do mar de Paraty. Foi meu primeiro título do Carnaval. Fechando as quatro escolas na mesma noite – loucura que não recomendo a ninguém – desfilei me arrastando no Tuiuti.

O Tuiuti, que homenageava Vinícius de Moraes, esquentou a bateria com “Tarde em Itapoã” em ritmo de samba-enredo. Já a União da Ilha, que abria o desfile, se enrolou na armação da escola porque o pessoal da Harmonia ficou vendo a final da Taça Guanabara daquele ano entre Flamengo e Fluminense nas barraquinhas ao redor da concentração e chegou atrasado.

O desfile da Viradouro tem boas histórias. Na concentração, debaixo de forte chuva, duas meninas já alcoolizadas caíram com o rosto em uma poça d´água e iam se afogando na mesma… Infelizmente não consegui desfilar nas Campeãs pois minha fantasia e a de minha hoje esposa ficaram imprestáveis.

A Mocidade me fez ir embora mais cedo. Quando o puxador Paulinho Mocidade atacou um “Obrigado, meu Jesus” no grito de guerra, foi a senha para que eu, encharcado do desfile da Viradouro, fosse embora para casa. Assisti ao Acesso A nas frisas e so Especial, na arquibancada, ambos no setor 3. Aliás só voltaria a assistir ao vivo a um desfile do Especial em 2009.

Muitos independentes consideram o samba deste ano o pior da história da escola. Ele muda três vezes (!) de tempo verbal apenas em seu refrão principal.

A Acadêmicos da Rocinha aquele ano estava turbinada pelos recursos trazidos pelo seu novo presidente, Maurício Mattos. Eu me recordo que voltava do desfile da Vila Isabel e, embora a escola já estivesse pronta no Setor 1, muita gente ainda descia dos camarotes para desfilar pela escola. Fazendo comentários do tipo “como faz pra desfilar? Tem que cantar o samba?”

Aliás, o desfile da Rocinha, que homenagava Joãozinho Trinta, foi a última vez em que Carlinhos de Pilares puxou um samba na avenida – ele morreria em 2005, aos 63 anos. Samba que, aliás, louvava o traficante que comandava o morro naquela época em seu refrão: “Eu Bem Te Vi / você sorriu / no carnaval da ilusão”. O traficante tinha este apelido, Bem-Te-Vi.

A passagem da apresentadora Xuxa pela Caprichosos frustrou muita gente. Com a escola atrasada, ela, que estava no último carro, passou muito rápido pela avenida. Reza a lenda que ela pagou em dinheiro da época R$ 3 milhões para ser enredo (uns R$ 6 milhões hoje), mas jamais se comprovou.

Joãozinho Trinta foi demitido da Grande Rio ao fim do desfile. Foi a única vez em que ele foi demitido na carreira, nas outras três vezes (Salgueiro, Beija-Flor e Viradouro) ele pediu para sair. Aliás, a Grande Rio poderia ter sido tranquilamente rebaixada naquele ano.

Salgueiro e Mocidade trouxeram carros muito semelhantes visualmente – diria que praticamente idênticos – retratando ruas/pista de corrida e com componentes dirigindo nelas. Quem copiou quem? Lembro que à época não existia a Cidade do Samba.

O Condor da Tradição iniciaria uma longa peregrinação pelos desfiles da escola, sendo aposentado apenas em 2012 – quando se transformou em urubu no desfile do Arrastão de Cascadura sobre a ex-presidente do Flamengo Patrícia Amorim.

Paulo Barros conta em sua autobiografia lançada em 2012 que ao negociar o contrato com o presidente da Tijuca, Fernando Horta, solicitou apenas uma alteração nas condições oferecidas pela agremiação: que seu salário fosse dobrado caso a escola voltasse no desfile das Campeãs. Ele também conta das reações das pessoas quando viam o carro do DNA no barracão e achavam que aquilo não daria certo.

No pré carnaval daquele ano as escolas que reeditaram sambas fizeram quatro ensaios conjuntos, um em cada quadra. Fui a três deles – deixando de ir à Viradouro pois no sábado marcado comemorei meu aniversário à tarde e não tinha a menor condição etílica de ir à noite. O ocorrido na quadra do Império Serrano talvez tenha sido o melhor ensaio de uma escola de samba que estive em minha vida, com shows das quatro agremiações.

Também toquei na festa de lançamento do cd, que foi realizada no Portelão. Acompanhamos todos os sambas, sendo inclusive elogiados por Neguinho da Beija Flor – que deu um show de simpatia conosco.

No pré carnaval deste ano que a Portela começou a fazer, de forma pioneira, a “Feijoada da Família Portelense”, depois copiada por outras agremiações. 2004 também marcaria o fim da longa gestão de Carlinhos Maracanã na escola, desde 1971 – com um hiato entre 1995 e 97.

Links

O desfile que deu o bicampeonato à Beija-Flor

A surpreendente apresentação da Tijuca

O bom desfile da Mangueira em 2004

A emocionante passagem da Viradouro

O empolgante desfile do Império Serrano

Fotos: O Globo, Liesa, O Dia e arquivo pessoal Pedro Migão

66 Respostas para “Sambódromo em 30 Atos – “2004: Surge Paulo Barros; Beija-Flor vence desfile equilibrado””

  1. Carlos Alberto disse:

    Fred, na minha humilde opinião quem decidiu aquele carnaval foi o senhor Adilson Gomes Oliveira, jurado de conjunto que não atribuiu um dez sequer e foi rigoroso (até demais) em suas notas, que foram as seguintes:

    São Clemente: 8.2 (já se esperava), Caprichosos: 8.1 (com um desfile daqueles, também…)
    Unidos da Tijuca: 9.9 (surpreendente, pelo desfile que a Tijuca fez), Salgueiro: 9.8,
    Grande Rio: 8.5 (já esperado, diga-se), Mangueira: 9.4 (INJUSTO, com todas as letras),
    Portela: 9, Tradição: 7.8, Porto da Pedra: 8.3, Imperatriz: 9.7, Império Serrano: 7.9 (Dar 7.9 numa reedição linda como a de Aquarela Brasileira foi um verdadeiro CRIME!), Beija-Flor: 9.7, Viradouro: 8.8 (Outra nota Injusta) e Mocidade: 9.3

    Resumindo, ele canetou injustamente Mangueira, Viradouro e Império. sendo que as duas primeiras brigavam pelo título.

    Sobre os desfiles, a Tijuca estava fantástica! lembro que recebi do meu pai a parte de cima da fantasia da bateria que ele conseguiu não sei com quem. Eu tinha 7 anos e não lembro muito, mas aquele carro do DNA… sensacional ! Paulo Barros mostrava ali pra que veio, o desfile da Tijuca superou até mesmo o da Beija (podem até discordarem de mim) mas este, pra mim foi um (dos poucos) títulos merecidos da Deusa da Passarela.

    E sobre o Jackson Marins, uma voz tão talentosa como aquela não merecia morrer daquele jeito.

    • Fred Sabino disse:

      Acrescento ainda nessa tua lista de injustamente canetadas em Conjunto a Portela. Sem dúvida, como você observou, bagunçou a apuração. Abraços!

      • Carlos Alberto disse:

        Verdade, a Portela também injustiçada, lembro que os componentes da Mangueira após receberem o 9.4 reclamaram e muito! Teve um que gritou “Só tem ladrão nessa porra!”

    • Will FS disse:

      Lembro da justificativa deste jurado: ele criticava os esplendores presentes em mais de 70% das escolas… Ele acha retrógrado esses esplendores, pois já existiam há mais de 60 anos, pelas palavras dele… Ou seja, não é que ele foi rigoroso, ele apenas não deveria estar julgando, pq não era a praia dele… rs

      • Will FS disse:

        E ele só ia dar 10 para a Tijuca (possivelmente pq foi criativa), mas como, segundo ele, eles não cantaram na sua frente, tirou um décimo

        • Carlos Alberto disse:

          Bem verdade Will, como o Leonardo Dahi disse ele deve ter chupado uma dúzia de limões antes de subir na cabine e (sem querer?) acabou decidindo aquele carnaval… Parece que julgar não é o forte dele. rs

    • Sempre tem uns “sem-noção” desses pra estragar tudo na apuração. Triste! =/

  2. Leonardo Dahi disse:

    Para início de conversa, sensacional essa história da harmonia da União da Ilha atrasada porque assistiu ao jogo e a do pessoal perguntando se tinha que cantar o samba pra desfilar.
    O Fred falou desse 7,9 pro Império Serrano… Ele foi dado pelo Adilson Barreto de Oliveira, que deve ter chupado uma dúzia de limões antes de subir para a cabine. Deu menos de 9 para as duas primeiras, 9,4 para a Mangueira, 7,8 pro Porto da Pedra, menos de 9 para a Tradição, esse 7,9 pro Império Serrano, 9 para a Portela e 8,8 para a Viradouro, se eu bem me lembro. No fim das contas, mesmo dois décimos inferior à nota da Unidos da Tijuca, o 9,7 nem foi lamentado pela Beija-Flor.

    • Carlos Alberto disse:

      Leonardo, corrigindo a sua informação,como eu disse no comentário acima a Porto da Pedra recebeu 8,3 deste jurado e quem recebeu 7,8 foi a Tradição

    • Pedro Migão disse:

      Essa das patricinhas da Rocinha é inacreditável. Desciam alas e alas e alas dos camarotes enquanto voltava pra minha frisa após o desfile da Vila

  3. Leonardo Dahi disse:

    Ah, quando eu abri a página o comentário anterior ainda não tinha aparecido, acabei de repetindo a mesma história. Enfim…

  4. Niv's Junior disse:

    Apenas a título de curiosidade, nessa época todas as notas eram válidas e não havia o descarte da menor (o que para mim é o correto, pois um erro grave na frente de uma cabine de jurados pode acabar não sendo levado em consideração, já que nas outras cabines leva 10..) de qualquer forma, nessa época ainda existiam no júri alguns jurados mal intencionados ou nonsense mesmo, talvez até por isso a Liesa tenha voltado a adotar o descarte. Mas voltando, se houvesse descarte em 2004, a campeã do carnaval seria a minha escola linda, a VIRADOURO!!! rsrsrs

    Sobre a Imperatriz, me permita descordar apenas quando você diz que o enredo era sobre Cabo Frio… o que menos tinha ali era Cabo Frio… a Rosa driblou o patrocínio, como fez com Campos (a meu ver bem mais feliz dessa vez), mas de qualquer forma, em nenhum dos enredos se viu homenagem às duas cidades…

    • Fred Sabino disse:

      Niv’s, colocamos no texto a tentativa da Rosa em driblar as imposições do enredo patrocinado. ABS!

    • Gustavo Vaz disse:

      Bom saber que não sou o único a pensar que a Viradouro devia ter sido a campeã.

    • Cassius disse:

      Também sou totalmente contra o descarte de notas. É como se a Liga oficializasse o erro ou a possibilidade de um jurado “mal intencionado”. Assim, se uma escola está atrasada, não precisa se preocupar, pois pode correr e ignorar o quarto módulo de jurados, afinal a nota será descartada…

  5. Gustavo Vaz disse:

    A parte boa de 2004 é a sequência de “chutadas de porta” de Imperatriz, Império, BF e Viradouro. Fora Tijuca, Manga e Portela no domingo. É um ano bem interessante, talvez o de melhor nível geral de desfiles do século XXI, apesar do fraco nível de sambas originais. Pena a Beija-flor não ter perdido pontos que merecia devido as zicas nas alegorias. Apesar disso, 2004 prova um pouco que a escola de Nilopólis é a única que sabe desfilar em condições diluvianas.

  6. Wallace Bastos disse:

    Nilopolitanos inventarão mil e um motivos pra discordar
    Mas é fato que a Tijuca foi a melhor escola em 2004

    • Luiz Martins disse:

      Concordo em gênero, número e grau. A Tijuca não é a minha escola.
      Mas era para ela ter levado em 2004.
      Quando lembro das notas 10 que a escola de Nilópolis levou em Alegorias e Adereços, lembro também de ter pensado: “Vocês estão me chamando de palhaço, na cara dura, não estão ?”

  7. Will FS disse:

    Tb achei que a Tijuca merecia, não só pela criatividade, pelo ineditismo, mas pq errou menos e teve menos problemas que as outras.
    A nota 10 em Alegoria para a Beija-Flor é um das notas mais absurdas da história do Carnaval…
    Podem me apedrejar, mas a Portela não merecia título, não… ela teve problemas de evolução numa Alegoria que quebrou, se não me engano, e só a via na frente do Salgueiro…
    Nem Viradouro merecia, já que teve um início meio arrastado, muito por causa da chuva (apesar dos momentos emocionantes no início já comentado), mas da metade para o final, aí sim, foi ARREBATADORA!
    Gostei do Estandarte premiar o Império, já que na apuração verdadeira não ia dar por motivos estéticos, mas assim premiava o desfile mais emocionante do Século!
    No início do desfile me levante e cantei o samba junto até o final, e quando acabou fiquei com a sensação de “quero mais”
    Acho que a Caprichosos merecia mais cair do que a São Clemente, mas como não era pra escola da Zona sul estar no Especial nakele ano, td bem… rs
    E no Acesso, não teve pra ninguém, a Vila Isabel deu um dos maiores sacodes da história!

    Sobre os sambas: Acho o da Beija-Flor um dos melhores de todos os tempos, e o segundo melhor da Escola, atrás apenas de 78! E quem me conhece sabe que sou chato quando se trata de samba! hehe

    • Fred Sabino disse:

      Esse samba da Beija-Flor é excelente mesmo, mas acho o de 2005 ainda mais emocionante. O de 1978 é realmente imbatível na história da escola.

  8. Carlos Alberto disse:

    É bom ressaltar que em 2004 a rivalidade entre as torcidas da Beija-Flor e da Mangueira na apuração era bem grande (isso acontecia desde 2002) era assim: quando a Beija-Flor não levava dez, a torcida da Manga gritava “Eu eu eu, Beija-Flor se fu…” Quando era o inverso, a torcida Nilopolitana gritava “Eu eu eu, a Mangueira se fu…” a Beija poderia ser campeã com 398.7, isso se o Ivan Paulo não tivesse a brilhante ideia de divulgar suas notas antes da hora…

  9. Momentos que me recordo do Carnaval 2004:

    – A gauchada secando a São Clemente, devido à polêmica com a anunciada ala Veadinhos de Pelotas, que sequer foi mostrada pela transmissão da Globo.
    – Jackson Martins não merecia sair de cena em seu carnaval derradeiro esquentando com “Lua de Cristal”.
    – Haroldo Costa desceu a lenha no desfile no fim da apresentação da Caprichosos, fato rato nos tempos atuais em que os comentaristas acham tudo “ótimo, divino e maravilhoso”.
    – Eu fui um dos que zoei o refrão da Tijuca na época…
    – Quinho com uma atuação hilária, exagerando nos cacos, mostrando um êxtase acima do normal. O caco “se joga” chamou mais atenção que o samba em si.
    – Eu boquiaberto, me emocionando com “Aquarela Brasileira”. Por um momento devaneei e achei que o Império poderia repetir Kizomba e vencer, com a empolgação suplantando a plástica.
    – Pamplona malhando o samba do Círio de Nazaré reeditado da Viradouro, na transmissão da Band das Campeãs.
    – Paulinho Mocidade rouco e com uma atuação constrangedora, desafinando pacas no “amor, paixãããããão”.

  10. Douglas Cursino disse:

    Este ano de 2004, eu lembro com muita emoção e saudosismo, pois foi meu primeiro desfile na BEIJA FLOR. E logo na minha estréia fui CAMPEÃO….
    Grande abraço a todos!!!!!!!!

  11. Aloisio Villar disse:

    Eu cheguei atrasado ao desfile da Ilha por causa do jogo, entrei na ala dos compositores com ela já na pista rs

  12. anderson maurici imhof disse:

    As 4 primeiras poderiam ser campeãs.

    1º U.da Tijuca
    2º Mangueira
    3º Beija-Flor
    4º Viradouro
    5º Imperatriz
    6º Portela
    7º Salgueiro
    8º Império Serrano
    9º Mocidade
    10º Porto da Pedra
    11º Tradição
    12º Grande Rio
    13º Caprichosos
    14º São Clemente

  13. Cassius disse:

    Caramba, você (Migão) ficou afastado da Sapucaí de 2005 a 2009? Como conseguiu?, rsrs.

    Aliás, fiquei curioso em saber de onde o Fred assistiu a cada um dos desfiles, desde 1984. Algum viu apenas em VT? E quais acompanhou pela TV?

    • Pedro Migão disse:

      Na verdade assisti e desfilei nos grupos de Acesso nestes anos

    • Fred Sabino disse:

      Cassius, evidentemente até pela idade (quase 33) não assisti a todos os desfiles um por um na época. Eu tenho lembranças de assistir a partir de 1987, e de 1989 pra frente aí sim lembro de ter assistido tudo, com meu avô. É lógico que um ou outro desfile não vi na hora, vi em VT pela Globo ou Manchete ou gravei em fita. Para a pesquisa da Trinta Atos, recorri, claro, à memória (principalmente na seção Curiosidades), mas reli parte de meu acervo particular de jornais Globo e JB (que vai de 1996 a 2013), além de consultar o acervo digital do JB (desde 1984 até 1999), sem contar notícias de internet a partir de 2000 e ida a algumas quadras sobretudo na última década e principalmente Vila Isabel e Estácio de Sá, mais próximas de onde eu trabalhava. Mas a grande ajuda foi o fato de o Youtube reunir um vastíssimo acervo, com diversos desfiles na íntegra e ser de fácil consulta. Como já escrevi em outros textos, várias coisas escapam de mim e do Migão e vocês leitores nos ajudam a lembrar ou mesmo acrescentam coisas que não sabíamos. Isso é o legal da coluna, uma troca de informações bem sadia. Abraços!

      • Fred Sabino disse:

        Completando, Cassius, ainda participei desfilando em ensaios técnicos e credenciado como jornalista em alguns desfiles. Só nunca desfilei por questões de logística, já que como jornalista nunca tive como definir meus plantões com antecedência.

      • Pedro Migão disse:

        Complementando, de 1999 para cá que são os anos em que vivi mais de perto tenho feito alguns acréscimos direto no texto do Fred. É quase que a quatro mãos

        • Fred Sabino disse:

          Sobretudo na parte dos bastidores da folia, algo fundamental para contextualizar os textos. E infelizmente tem diversas histórias que não podemos contar. Aquelas típicas lendas que são verdadeiras e todo mundo sabe que são verdadeiras, mas oficialmente não podemos publicar, da mesma forma como acontece no futebol, no automobilismo, etc…

  14. Cassius disse:

    Recordar é viver. Parece que faz no máximo 4 anos que essa “brincadeira” começou, já se foram 10… Graças a Deus!

    Minhas primeiras lembranças de Carnaval vêm dos desfiles de 2001, mas foi em 2004 que pisei pela primeira vez o “paraíso” da Marquês de Sapucaí, nas cadeiras do Setor 13.

    Eu era o único que sabia o samba da Unidos da Tijuca por ali e todo mundo ficou surpreso com o desfile, veio até gente me parabenizar (pensavam que eu torcia pela escola) dada a empolgação com a qual cantei o samba. Foi marcante, histórico! Bons tempos (2004-2007) em que o Paulo Barros desenvolvia de forma consistente seus enredos (aliás, este foi o melhor dele no Especial), sem apelações, e abusando das inovações de diferentes maneiras. Como mencionado pelo Fred, além do “carro do DNA” (coreografia), ele trouxe alegoria com apenas um destaque, comissão-de-frente com relógios funcionando, bateria soltando balões… E o andamento da bateria foi corretíssimo, valorizando o samba-enredo, de bela letra (abstrata, porém que casou perfeitamente com o desfile).

    São Clemente e Grande Rio foram desfiles “vergonha alheia”, apesar do ótimo samba da escola de Botafogo. Mangueira passou muito forte e a Portela me emocionou, um desfecho espetacular! O Salgueiro, como comentado, não veio nem melhor, nem pior, apenas comum demais – talvez pelo enredo -, destacando-se a alegoria com o kart. Na Caprichosos não consegui cantar “Xuxa, eu te amo” (ou ficava mudo ou adaptava para “Mengo, eu te amo”, rs) e o último setor passou voando, mas até que foi um desfile bacaninha.

    Aquele ano – e em 2005 – eu fui apenas aos desfiles de domingo e na segunda-feira não consegui acordar a tempo de ver metade do desfile da Tradição e cochilei no segundo ou terceiro carro da Mocidade (parente meu, que acorda cedo e nem curte muito os desfiles, chegou a comentar: “eu ia te acordar, mas acho que não valia a pena”, haha). Do que vi, curti muito a Imperatriz e, mesmo pela TV, foram notórios os problemas da Beija-Flor e da Viradouro, apesar da garra contagiante de ambas.

    Assim, minha preferência foi pela Tijuca, talvez por ter visto “in loco”. Preciso rever todos os desfiles devido à memória falha, mas chutando um ranking aqui, ficaria mais ou menos assim:

    1 – Tijuca
    2 – Beija-Flor
    3 – Portela
    4 – Imperatriz
    5 – Mangueira
    6 – Viradouro
    7 – Salgueiro
    8 – Império Serrano
    9 – Mocidade
    10 – Caprichosos
    11 – Porto da Pedra
    12 – Tradição
    13 – São Clemente
    14 – Grande Rio

  15. Acho que sou um dos únicos aqui a achar que a Beija-Flor merecia, sim, o título. Independente de outras escolas terem merecido mais (e mereceram).

    Vão me xingar, mas meu argumento creio ser válido: hoje em dia todo mundo acha ruim do luxo excessivo que dilacerou o verdadeiro sambista da avenida, dando lugar aos gringos que mal sabem o refrão (ainda rindo com a história da Rocinha).

    Então, quando um desfile faz a escola cantar a plenos pulmões, acho que a gente tem que valorizar. As fantasias estavam se desfazendo? Sim, óbvio que sim. Mas… que chão!! Que alegria dos componentes. E isso tudo debaixo de um temporal. O chão venceu!! E isso é muito bom para o Carnaval, como foi com o título da Vila Isabel em 2013, vitória que teve uns 70% de crédito ao samba-enredo.

    Esse de 2004 é um dos desfiles que, mesmo sabendo que outras mereciam o título (e mereciam mesmo), não fico nem um pouco desapontado. Fora que o samba é um assombro de divindade, na minha opinião, o terceiro melhor da escola, atrás de Caruanas (1998) e Criação do mundo (1978).

    Sobre a Tijuca: que desfile! O Carnaval precisa de mais Paulos Barros!! E a Grande Rio deveria ter caído. Mas… bem-feito para a São Clemente, por ter subido da forma que subiu!!

    Sobre o jurado que deu as notas baixas, realmente, sem argumento nenhum. Uma vergonha. Pena que ainda existam essas coisas julgando, igual o Bemvindo Siqueira com a história dos eufemismos em 2005 ou 2006, não lembro. E o Roberto Horcades, em 2011, que achava que era nota de meio em meio ponto, que tirou a Mocidade do desfile das campeãs (sem contar o outro da lua que, no mesmo ano de 2011, só deu 10 pra Beija-Flor e tascou, se não me falhe a memória, um 8,8 altamente injusto pra Porto da Pedra).

    E só pra completar sobre a Mocidade: além do pior samba da história da escola (o do Tôco, eliminado, seria um dos melhores da história) e de ter o Paulinho, que eu considero um baita intérprete, desafinando o tempo todo – a parte do “Sai desse pega, moleque, pisa no breque…” fazia meu intestino retorcer – a Sabrina Sato, rainha de bateria, no refrão, fazia “Pense” no Pare e “Pare” no pense. Uma coisa lamentável. Infelizmente, depois entrou o PV na escola e a gente foi para o buraco!!

    Em tempo: eu, na posição de fã incondicional do gênero samba-enredo, sou grato ao Lourenço por ele ter cantado o samba no mesmo tom da versão do Silvinho, em 1984. Mas corta o coração só de pensar que o Rixxa esteve perto de cantar “Contos de areia” na Sapucaí. Já pensaram??

    • Fred Sabino disse:

      Quando analiso aqui os desfiles, Rodrigo, é claro que levo em conta o fato de as apresentações terem sido quentes ou não, mas levo muito em conta os quesitos. Tem escola com grande samba que tá mal em alegorias e vice-versa, tem boa evolução e uma harmonia nem tanto… E por aí vai.

  16. Adriano Martins disse:

    A Beija-Flor sobrou, e foi impressionante. Mas que foi uma ano com alto nível isso foi!!!

  17. Renan SN disse:

    Tinha 7 anos em 2004 e pela primeira vez acompanhei o carnaval e ouvi samba – enredo, tanto do Rio de Janeiro quanto de Porto Alegre, pois sou gaúcho. Lembro que me apaixonei pelo samba da Caprichosos (tinha 7 anos né…) e pelo da Grande Rio (o que iniciou meu “Wanderpirismo”, que culminou com minha carreira de intérprete). Gostava muito da faixa do Salgueiro graças “ao intérprete engraçado que aparecia na vinheta” hehehe. Quanto a primeira passada sem bateria no cd, achei louvável.Por ser intérprete e cavaquinhista sempre admiro quando o samba tem a bateria entrando apenas na segunda passada, pois só assim podemos ouvir com clareza o sempre belo trabalho de cordas em uma gravação de samba enredo. No cd aliás é perceptível ouvir vários solos tanto de violão quanto de cavaco. Alusivos belíssimos, e grandes atuações dos intérpretes nas primeiras passadas do samba me deixaram apaixonado pelas gravações. Sei que esse estilo dificilmente ocorrerá novamente pelo fato de que hoje em dia há essa obsessão pelo “ao vivo” nas gravações da Cidade do Samba. Admiro o trabalho das baterias e sei que ela chama muito mais a atenção do que as cordas por ser mais dançante, mas não só no cd, como até mesmo no desfile sinto falta de uma valorização as cordas. Mas fazer o que, não tem influencia nas notas né… Abraço a todos, e parabéns pelos excelentes textos na seção “30 atos”!

  18. cleicivaldo disse:

    Depois de todos esses comentários e de ter visto todos os desfiles , apesar de a U. da Tijuca ter cido melhor a beija-flor mostrou mais garra , então ai segue meu ranking de 2004:
    1- beija flor
    2- u. da Tijuca
    3- estação p. de mangueira
    4- Portela
    5- u.do viradouro
    6- imperatriz
    7- A.do salgueiro
    8- império serrano
    9- caprichosos
    10-u. do porto da pedra
    11- Tradição
    12- são Clemente
    13-mocidade
    14- A. do grande rio

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