Hoje a coluna do estudante Leonardo Dahi inicia uma série de dois artigos sobre os sambas enredo de São Paulo. Hoje, as escolas que desfilem na sexta feira de carnaval, amanhã as de sábado.

Os sambas-enredo do Grupo Especial de São Paulo – Sexta Feira

Conforme prometido há algum tempo, venho agora com os meus pitacos sobre os sambas de enredo do Grupo Especial de São Paulo. Na semana seguinte ao aniversário da cidade, não deixa de ser uma homenagem.

É sempre bom lembrar que aqui na Terra da Garoa há, sim, Carnaval e dos bons. Isso não significa, contudo, que ele possa se comparar ao do Rio de Janeiro. Consequentemente, peço para que os leitores também evitem esse tipo de comparação.

Para quem acompanhou as colunas sobre os sambas do Rio, algumas mudanças: aqui, as notas vão de 8,0 a 10,0 e não há a divisão em subquesitos “letra” e “melodia”. Até 2007, salvo engano, havia um quesito para cada, mas aí a Liga optou por juntar os dois no quesito samba-enredo.

Agora sim, como diria o Zulu, o Jorge Perlingeiro paulistano, o nome da escola…

Leandro

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Enredo: “Ginga Brasil, futebol é raça. Em 2014 a Copa do Mundo começa aqui”

Compositores: André Ricardo, Beto Varandas, Didi Poeta, Rodolfo Minuetto, Vitor Gabriel e Medonha da Leste

Intérprete: Juninho Branco

Voltando ao Grupo Especial após três anos no Acesso, a Leandro de Itaquera chegou a cogitar a reedição de “Babalotim, a história dos afoxés” – samba que já ganhou um texto do Migão aqui no Ouro de Tolo, mas preferiu apostar na Copa do Mundo de 2014 para conquistar sua permanência na elite. É que o Mundial vai começar em Itaquera, bairro da escola, que viu aí um bom gancho para exaltar a relação do brasileiro com o futebol.

A grande sacada do enredo – e do samba – é essa: ele não fala da Arena, da FIFA, da Copa, mas sim da nossa paixão pelo esporte bretão. Muito bem construído, o samba é sensacional. Pode não ter uma riqueza poética enorme, mas é empolgante e vai sacudir as arquibancadas do Anhembi no início do Grupo Especial, a começar pelo forte refrão principal com o seu “Itaquera vai tremer…”

A primeira parte, que fala da nossa ginga, é mais calma, mas ele volta a explodir no refrão do meio que, se não quer dizer muita coisa, também empolga. A segunda parte fala das nossas Copas e é no refrão anterior ao principal que a obra chega ao seu ápice: a estrofe “chegou a escola da massa, da gente que canta com raça / que luta por nosso país / na Zona Leste, vermelho e branco é raiz”, é uma das melhores do ano.

Juninho Branco tem uma atuação impecável do explosivo grito de guerra (que faz referência ao samba dos afoxés) à chamada que ele tradicionalmente faz no seu esquenta, que no CD veio na passada final do refrão citado anteriormente.

Já me alonguei falando da escola do Seu Leandro, mas vai mais um aviso: ao contrário do Rio de Janeiro, e isso nem sempre é bom, por aqui, qualquer um pode cair, qualquer um pode ficar. A missão da Leandro é difícil, mas aí está a Tatuapé para mostrar que está longe de ser impossível.

Nota: 10,0.

Rosas de Ouro

Enredo: “Inesquecível”

Compositores: Dr. João, Daniel Osmak, Thiago, Luccas, Luisão e Gabriel Lima

Intérprete: Darlan Alves

Recorrendo aos momentos inesquecíveis na vida de qualquer pessoa, a Rosas de Ouro traz (mais) um samba que vai à mão extremamente contrária ao da Leandro. Ele não explode, não empolga e, lembrando que a Roseira será a segunda a desfilar, deve corroborar com a marca da escola nos últimos anos: carnavais lembrados pelo visual e com o “chão” passando batido.

A letra é boa, retrata bem o que foi pedido na excelente sinopse, mas tudo é muito piegas, clichê e, além do mais, esse intérprete, o Darlan, não só deixa de acrescentar, como atrapalha muito o bom andamento do samba. Com todo o respeito a ele, que dizem ser um excelente profissional, mas não vai.

Para se fazer justiça, gosto do refrão do meio e acho que a segunda parte passa bem, especialmente nos momentos que aludem às pessoas que já morreram.

Como eu disse, a Rosas sabe ir com esse tipo de samba para a Avenida, mas, para mim, não serve.

Nota: 9,5.

X-9

Enredo: “Insano”

Compositores: Silas Augusto, Tinga, Jota Soares, Noel, Júnior Fusion, Renan Takacs e Beto Ferraz

Intérprete: Royce do Cavaco

Com diretoria nova, a X-9 está tentando esquecer os seus últimos Carnavais – especialmente o de 2012, que poderia tê-la jogado tranquilamente no Grupo de Acesso – e tenta vir mais irreverente para 2014. Isso, de certa forma é surpreendente, visto que não foi uma preocupação nem no tempo das vacas mais gordas.

Enfim, essa irreverência, espera a escola, virá em um enredo falando sobre os malucos. E aconteceu o que eu temia: os compositores (todos eles desde a disputa) perderam a mão e acabaram fazendo um samba parecido com o da Rosas, mas que ao menos tenta ser divertido.

É parecido porque abusa de clichês, mas é diferente justamente por tentar ser um pouco Carnaval. Ocorre que ele acaba ficando refém de sacadas que, embora inteligentes, soam um pouco forçadas. Não é exatamente um samba ruim, mas é fraco e guarda alguns momentos de ligeiro mau gosto, como no refrão do meio.

O começo da segunda parte é bacana – e curiosamente é um dos que se leva mais a sério, falando sobre as diferentes visões que os artistas podem ter, mas o setor que fala dos “insanos operários da alegria”, os carnavalescos que fizeram história, poderia ser explorado de maneira menos genérica. Royce do Cavaco, por sua vez, tem mais uma atuação brilhante.

Nota: 9,4.

Dragões

Enredo: “Um museu de grandes novidades”

Compositores: Armênio Poesia, Dico, Wagner Rodrigues, Derico, Maurinho da Mazzei e Xandinho Nocera

Intérprete: Daniel Collête

Esse foi o samba que mais cresceu da época das eliminatórias, principalmente por causa da interpretação absolutamente espetacular do intérprete Daniel Collête, que consegue cantar melhor a cada ano que passa. É, sem dúvida, um dos grandes destaques do CD.

Quanto ao samba, em si, ele é fruto de um bem desenvolvido enredo sobre os anos 70 e 80, que carrega a assinatura de Rosa Magalhães, que faz seu primeiro desfile na terra da garoa. O samba, assim como os outros dois que a escola oriunda de uma torcida organizada do São Paulo, não é ruim, mas deve ser esquecido com facilidade. Ele é animadinho, tem uma boa letra, mas não passa disso.

Aliás, é o terceiro ano da escola no Especial e o terceiro com samba da parceria do Armênio Poesia, o André Diniz paulistano, que derrotou o André Diniz original nas eliminatórias.

Falando na letra, ela peca nos refrãos. O principal não faz muito sentido, afinal a Dragões nunca “sacode, balança, levanta a galera”. Já o do meio, tem um deslocado “juntando alegria se faz coleção”. Insisto, não é um samba ruim, mas também não é lá grandes coisas.

E um detalhe que não melhora, nem piora a obra, mas que não deixa de ser curioso: nos versos finais, ele exalta a modernização do Carnaval no período. Modernização essa criticada justamente por Rosa Magalhães no histórico “Bumbum Praticumbum Prugurundum”, campeão de 1982 com o Império Serrano.

Dizem que a escola tem problemas de barracão. Se não for verdade, é uma forte candidata ao título.

Nota: 9,7.

Tucuruvi

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Enredo: “Uma fantástica viagem pela imaginação infantil”

Compositores: Fábio Jelleya, Henrique Barba, Márcio Alemão, Leandro Franja, Serginho Moura, Gabriel e JC Castilho

Intérprete: Wantuir

É um samba que tem dividido opiniões em grupos especializados. Na minha, é um dos melhores do ano no Grupo Especial. E sabe qual é o segredo? A simplicidade quase inocente de um samba que fala sobre o Estatuto da Criança de maneira bem lúdica.

Antes, é interessante dizer que avaliar esse samba é mais complicado porque a escola não divulga sinopse – e outro dia o grande Seu Jammil, presidente da escola, me ligou para explicar os motivos e falar outras coisas sensacionais que é melhor deixar em ‘off’.

Voltando ao samba: qualquer escola que leve um hino desses para a Avenida me deixará feliz porque é samba do jeito que eu gosto. Porém, não dá para imaginar uma Vai-Vai, uma Mocidade Alegre, uma Nenê de Vila Matilde com um samba desses. Com a Tucuruvi, é o contrário. Ele é a cara dessa escola que tem sido assaltada ano após ano e que teve pelo menos dois títulos seus tirados por erro do júri (o vice-campeonato de 2011 e o sexto (!!!) lugar de 2013).

A obra, como eu disse, é simples e a melodia é mais lenta, o que deixou o samba muito gostoso de cantar. A estrofe anterior ao refrão principal passa aquela lição clichê da importância da educação de maneira bastante louvável: “educação é ir além / vou embarcar, chegou o trem / um novo dia virá, espelho eu serei” é um dos melhores trechos de todo o CD

Wantuir, estreando na escola da Cantareira após 15 anos de sua primeira e até aqui única exibição no Anhembi, dá um show de interpretação com seus gritos de empolgação que abrilhantam ainda mais a obra.

Nota: 10,0.

Vai-Vai

Enredo: “Nas chamas da Vai-Vai, os 50 anos de Paulínia”

Compositores: Vagner Almeida, Mineiro, Loirinho, Marcinho Z. Sul e Edinho Gomes

Intérprete: Márcio Alexandre (Part. Especial: Thobias da Vai-Vai e Dodô)

Tentando se recuperar do sétimo lugar no ano passado, a Vai-Vai embarca pela história da cidade de Paulínia. E depois de dois anos com sambas sofríveis, finalmente a Saracura vai para a Avenida com um samba que é a sua cara.

Explicando: o maior problema dos últimos sambas não era nem o fato de serem horrorosos, mas sim de terem um andamento mais lento. E a maior característica da Bateria do Mestre Tadeu é justamente acelerar os sambas com uma pegada que só a Vai-Vai tem. Para 2014 – e isso já foi possível perceber no ensaio técnico – a Escola do Povo achou uma obra que se encaixa perfeitamente nessa característica.

Além do mais, vale o aplauso por fugir do lugar-comum dos enredos CEP. Claro que ele se pega a um outro clichê, inevitáveis em samba desse tipo, mas é muito menos genérico. Vejo dois problemas melódicos ligeiramente graves na obra: um é no final da primeira parte, cuja melodia ficou um pouco estranha. O outro é no trecho final da letra: a escola cortou dois versos que estavam no samba concorrente e o resultado me soou um pouco confuso.

Estreando em uma grande escola, Márcio Alexandre tem atuação correta, com alguns altos e baixos. Não dá pra negar que ele canta bem melhor que o Bruno Ribas, chutado da escola após, segundo o Presidente Neguitão, não estar lá muito comprometido e, segundo dizem, gravar a faixa para o CD (que foi regravada com o Márcio Alexandre) totalmente rouco.

Falando na faixa do CD, ela possui o momento mais bonito do disco: o alusivo em homenagem à Dona Odete cantado brilhantemente por Thobias da Vai-Vai com auxílio do Dodô do Pixote. Thobias ainda canta um trecho do samba, participação essa que julgo desnecessária.

Nota: 9,7.

Tom Maior

Enredo: “Foz do Iguaçu, destino do mundo – Sinfonia das águas em Tom Maior”

Compositores: Maradona, Turko, Rafa do Cavaco, Celsinho Mody. Ricardo Netto e Igor Leal

Intérprete: René Sobral

Outro samba que cresceu bastante em relação às eliminatórias, também por conta de uma excelente interpretação – no caso, a do grande René Sobral. Nesse caso, porém, nem o talento de um dos melhores intérpretes da cidade salvou esse samba sobre a cidade de Foz do Iguaçu.

Composto pelo ‘Fernando de Lima’ paulistano, Maradona, ele é lento, modorrento e vai fechar a primeira noite de desfiles, o que o torna um completo desastre. Não empolga em momento nenhum e ainda tem defeitos graves como dar pouco destaque para a lenda que aparece em quase metade do desfile. Acho a letra quase toda sem sentido e, além do mais, não acho que a muamba e os jogos de azar sejam temas para serem tratados com essa irreverência.

É um samba fraquinho e que pode complicar muito a agremiação do Sumaré que, depois da morte do grande Presidente Markinho, se perdeu um pouco e quase foi rebaixada ano passado. Pelo menos aquele samba era bom – e olha que falava sobre camisinha.

Nota: 9,3.

Amanhã volto com os sambas que desfilarão no sábado.

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