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Nesta sexta a coluna do jornalista especializado Fred Sabino retoma o tema da semana passada e discorre sobre a evolução da segurança nos esportes a motor.

A evolução da segurança no esporte a motor

Pegando carona na coluna da semana passada sobre a série recente de acidentes (alguns fatais) no esporte a motor, e por sugestão do Migão, resolvi abordar neste espaço a evolução nos principais itens de segurança relacionados ao automobilismo, nos carros, nos autódromos e nas vestimentas dos pilotos. Tomemos como foco, claro, a Fórmula 1, que foi pioneira em praticamente todas as evoluções.

Na verdade, até meados dos anos 60, a preocupação com segurança no esporte a motor era praticamente zero. A única evolução em relação às décadas anteriores era a adoção dos capacetes e dos cintos de segurança. Sim: até então os pilotos corriam soltos nos carros e com um mísero gorro para “proteger” a cabeça.

Mas tudo começaria a mudar em 1966 graças ao escocês John Young Stewart. Quem? É um engenheiro? Dirigente?

Nada disso, mas se eu escrever Jackie Stewart fica fácil entender. Foi ele, o futuro tricampeão do mundo, quem deu o gatilho para que o esporte a motor fosse mais seguro e muitas vidas fossem salvas.

Naquela época, o circuito de Spa-Francorchamps tinha 14 quilômetros, o dobro da distância atual, e era literalmente composto por estradas, com valas e árvores em volta, como a maioria das outras pistas. E naquele GP, como costuma acontecer ainda hoje, choveu de repente e Stewart foi pego de ‘calça arriada’, como se diz.

O carro (foto) aquaplanou, rolou um barranco, ficou de cabeça para baixo e gasolina vazou. Stewart ficou apavorado e temeu pelo pior, já que não havia, claro, um serviço de resgate preparado e os fiscais não tinham roupas antichamas caso o fogo começasse. A sorte de Jackie, que estava ensopado de gasolina, é que os pilotos Graham Hill e Bob Bondurant desviraram o carro e o retiraram.

O episódio mexeu muito com Stewart, que começou a liderar um movimento dos pilotos para exigir melhorias nos circuitos, cujo mais avançado item de segurança eram blocos de feno [1]. Jackie foi chamado de medroso, mas aos poucos, conforme as mortes iam acontecendo, guard rails e áreas de escape um pouco maiores foram surgindo.

Ao mesmo tempo, Jackie, que após a morte de Jim Clark em 1968 passou a ser o piloto mais respeitado do mundo, passou a correr com capacetes fechados e macacões mais avançados na proteção contra o fogo, no que foi seguido pelos colegas de pista.

Nos anos 70, os circuitos evoluíram aos poucos, com a adoção de telas de proteção e caixas de brita. Mas a evolução era lenta e gradual (um termo bem adequado para aquela época) e nem todas as pistas eram razoavelmente seguras. Em 1973, no circuito de Watkins Glen, o francês François Cevert, companheiro de Stewart na Tyrrell morreu degolado por um guard rail frágil. Jackie ficou abalado e se aposentou, mas continuou lutando fora da pista.

Muito porque os carros ainda eram frágeis. No acidente de Niki Lauda em 1976 (aliás, em breve farei uma crítica do excelente filme Rush, que abordará a rivalidade entre o austríaco e James Hunt) os tanques de gasolina se romperam facilmente e o piloto sofreu queimaduras graves, sobretudo nos pulmões, por ingestão de gases tóxicos.

Como consequência do acidente de Lauda, os tanques passaram a ter uma camada interna de borracha (que depois evoluiu ainda mais) para evitar rompimentos e explosões. Mesmo assim, em 1978, Ronnie Peterson morreu em Monza porque, primeiro, a frente do carro arrebentou e depois por causa do mau atendimento e complicações [2] numa cirurgia.

Depois de mais essa tragédia, cresceu a lendária figura de Sid Watkins, que recebeu carta branca da Fórmula 1 para revolucionar o atendimento médico nos grandes prêmios. Os centros médicos dos autódromos evoluíram a um patamar muito maior e o transporte para hospitais maiores se tornou mais ágil.

Mas, se no campo médico a evolução foi gigantesca, só nos anos 80 os carros realmente ficaram mais seguros, primeiro com a adoção de materiais mais resistentes, como a fibra de carbono, e depois com a implantação de um teste de impacto oficial feito pela Federação Internacional de Automobilismo.

Com carros mais resistentes, pistas mais seguras e atendimento preciso e rápido, as fatalidades diminuíram sensivelmente nos grandes prêmios. Mas como nem tudo são flores, em 1986 Elio de Angelis morreu num teste em Paul Ricard porque não havia assistência médica adequada – o italiano não sofreu lesões graves mas pereceu asfixiado pela fumaça. Os testes, então, passaram a ter padrão médico de grandes prêmios.

Os anos seguintes foram de colisões espetaculares e pilotos praticamente invulneráveis saindo dos carros. Mas aí a morte voltou, pois os padrões de segurança dos circuitos, que tanto tinham evoluído, não acompanharam o crescimento da velocidade dos carros e pararam no tempo. No trágico e inesquecível GP de San Marino de 1994, Roland Ratzenberger e Ayrton Senna morreram porque não havia barreiras de pneus nas curvas Villeneuve e Tamburello.

Então, um novo padrão de autódromo surgiu. Circuitos não tão desafiadores, mas com imensas áreas de escape asfaltadas, chicanes, novas barreiras que absorvem impactos – nos EUA, surgiram nos ovais as safer barriers (camadas de proteção de fibra de carbono colocada antes dos muros de concreto). Os capacetes continuaram evoluindo, a ponto de Felipe Massa ser salvo em 2009, na Hungria.

Como consequência disso, a Fórmula 1 já está há 19 anos sem fatalidades, o maior período de sua história sem mortes. Mas isso é na Fórmula 1, na qual os recursos financeiros são bem maiores. Só que o esporte a motor tem incontáveis categorias e nem tudo ainda evoluiu ao padrão Fórmula 1.

Por isso ainda existem fatalidades absolutamente evitáveis ocorrendo. Voltando ao que escrevi semana passada, o automobilismo é um esporte de risco.

Mas precisa ser calculado.

[N.do.E.1: no GP de Mônaco de 1967 Lorenzo Bandini morreu queimado em um monte de feno destes utilizado para “proteção” de acidentes, que pegou fogo junto com o carro e o piloto.]

[N.do.E.2: muita gente jura até hoje que Peterson faleceu devido a um erro médico na cirurgia realizada para reconstruir seus pés, destruídos no acidente.]