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O leitor deve ter reparado que anteontem a coluna do compositor Aloisio Villar, entre outros assuntos, menciona escândalo recente que estourou na imprensa através da revista Isto É: o superfaturamento e propinas milionárias a políticos pagas nas últimas duas décadas durante a construção de trechos do Metrô de São Paulo.

De acordo com as matérias – em duas edições seguidas, semana passada e nesta – a alemã Siemens, uma das vencedoras, entrou em uma espécie de “delação premiada” a fim de conquistar imunidade cível e criminal para a empresa e seus executivos. Ré confessa no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) por formação de cartel, a empresa desde maio de 2012 vem entregando documentos ao órgão mostrando como as licitações eram fraudadas e o pagamento de propinas a altas autoridades do Estado. Somente em uma das licitações – Fase 1. Linha 5 – os documentos entregues pela empresa indicam o pagamento de R$46 milhões em propinas a altas autoridades do Estado.

Além disso, um incêndio criminoso destruiu em um galpão em Itu documentos referentes a informações técnicas e contratos do Metrô entre 1977 e 2011. “Surpreendentemente”, o inquérito conduzido pela polícia paulista não chegou a nenhuma conclusão, apenas que foi ação deliberada. Ao que parece, uma queima de arquivo clássica.

A matéria pode ser lida aqui, mas quero chamar atenção para outro ponto: o silêncio sepulcral do restante da imprensa sobre o fato. No momento em que escrevo (início da noite de ontem) os sites dos dois principais jornais de São Paulo e das duas principais redes de televisão brasileiras simplesmente ignoravam o tema: não havia qualquer referência. Pesquisando pelo Google (às 18:25 de ontem) apenas referências de blogs, além da própria matéria original.

Não soa estranho ao leitor? A imprensa brasileira não vem combatendo a corrupção sem tréguas nos últimos anos?

Há uma diferença básica neste caso. O governo de São Paulo desde 1995 (ou seja, praticamente 20 anos) é comandado pelo PSDB, de forma ininterrupta. Ou seja, este é um escândalo de corrupção que afeta próceres como o já falecido Mário Covas, José Serra e o atual governador Geraldo Alckmin, todos ex-candidatos a presidente pelo partido – os dois últimos com apoio entusiasmado da imprensa nativa.

Ou seja, noticiar um escândalo destes seria abalar a consciência que estes órgãos tentam incutir na população de que o PT inventou a corrupção em 2003 e que teria o monopólio da roubalheira. Diuturnamente a grande imprensa martela esta ideia em seus jornais, sites e telejornais, de forma a alijar os atuais mandatários do poder central e reinstalar os representantes de suas linhas ideológicas.

O leitor deste blog sabe que não é bem assim: entre outros episódios repercuti o “Caso Paulo Preto” e o livro “A Privataria Tucana”, ambos também de alcance limitado na chamada “grande mídia”. Contudo este silêncio sepulcral verificado nos últimos dez dias, após a primeira matéria da revista, é algo inédito. E revelador.

A grande imprensa no Brasil sempre teve um lado, mas até o final do século passado haviam duas diferenças básicas: havia espaço para (algum) contraditório e a imprensa não brigava com fatos. Entretanto, após a ascensão do PT ao governo federal isto foi paulatinamente acabando.

Em especial no maior grupo de comunicação do país a troca de grupo no poder coincidiu com a ascensão do hoje diretor geral de jornalismo e esporte. Sujeito de convicções pessoais de extrema direita (resvalando muito fortemente no fascismo), impôs com mão de ferro suas convicções, em especial no jornalismo político e econômico do grupo. Para isso os órgãos procederam a sucessivas “limpezas ideológicas” em seus veículos, afastando todos os jornalistas de maior prestígio – e alguns nem tanto – que não comungassem em termos pessoais da linha determinada pela chefia – e, obviamente, aprovada pela alta direção.

Basta se perceber que os colunistas da casa, hoje, tem a mesma matiz ideológica e o mesmo discurso: tudo está ruim, nada presta, o Brasil está na lama e o PT precisa ser afastado do poder e ser colocado na ilegalidade. Chega a ser engraçado ver a principal ideóloga econômica da casa fazendo risíveis contorcionismos para transformar notícias boas em ruins – a ponto de criticar a criação de empregos. O jornalismo passou a ser mero instrumento de política partidária, resvalando no golpismo.

Mas não é a única: a segunda rede de tv, que vinha se contrapondo nos últimos tempos, claramente sofreu uma inflexão em sua linha editorial no último ano. Ainda não há o controle centralizado com mão de ferro, mas a mudança de linha editorial é visível.

Os dois principais jornais de São Paulo, contando com polpudas verbas do governo estadual, aí mesmo é que não contrariam os seus anunciantes. Até porque já houve diversos casos de “cabeças’ de jornalistas pedidas por políticos paulistas – e concedidas pelos jornais – devido a matérias minimamente críticas ao governo. Chega a ser folclórica em particular a disposição do ex-governador José Serra quanto a isso.

Por outro lado, cabe se perguntar porquê “não mais que de repente” a Isto É passou a revelar o que as investigações mostravam sobre a corrupção no governo paulista.

Entretanto, mais que se perguntar porque a corrupção petista é mostrada até na novela e a tucana, ignorada, é tentar projetar onde este tipo de “jornalismo” vai nos levar. A partir do momento que a notícia é colocada em segundo plano para outros interesses, sejam políticos, econômicos ou comerciais (o que é até mais sério), a credibilidade começa a ser seriamente afetada. Isso leva a uma erosão a médio e longo prazos da audiência, porque se forma a (in)consciência de que nem tudo que é mostrado, escrito ou divulgado corresponde à realidade.

Some-se a isso os sucessivos “passaralhos” (demissões em massa) tornando ainda mais extenuante a jornada dos que ficam, o crescente controle das chefias e a necessidade imposta pela internet de “subir tudo rápido”, e se terá um quadro bastante sombrio das perspectivas a médio prazo para um jornalismo de qualidade. Ao mesmo tempo se tem a diminuição das verbas publicitárias e a cada vez maior concentração em um mesmo grupo – não preciso dizer qual.

Em resumo: os interesses podem acabar matando de vez o jornalismo. Hoje, proselitismo partidário. Amanhã, produtos e serviços de forma “editorial”. Nem nos Estados Unidos é assim: o grupo Fox, por exemplo, é oposição declarada ao Governo Obama – sem essa de “jornalismo” e pseudo isenção. Também lá não existe a concentração de meios nas mãos de um grupo que há aqui, o que torna muito mais danoso este tipo de jornalismo seletivo praticado.

Enquanto isso, o consumidor de notícias é quem perde. Voltarei ao tema.