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23 de Abril, dia de São Jorge, é feriado no estado do Rio de Janeiro desde 2008. Em minha leitura, é um feriado umbandista, dedicado a Ogum – no sincretismo da umbanda carioca, é o Orixá associado a São Jorge e, em Salvador, a Oxóssi. Tanto que o autor da lei, o então Deputado Jorge Babu (que depois chegou a ser preso e condenado por ligações com a mílicia, embora continue a exercer seu mandato normalmente), é ligado à religião.

Na tradição Jorge era um militar do exército romano que foi executado a mando do Imperador Diocleciano por ser cristão e manter a sua Fé perante o Senado, tendo se rebelado perante a decisão de Diocleciano de matar todos os seguidores de Jesus Cristo. Foi torturado a mando do Imperador e finalmente degolado, segundo a tradição, em 23 de abril de 303.

Hoje São Jorge é padroeiro da Inglaterra, de Portugal, do Império Serrano e de outras escolas de samba, sendo também bastante presente em outros lugares e na canção brasileira. Foi enredo da escola de samba Império da Tijuca no carnaval de 2007 do Grupo de Acesso A, com o samba conquistando o “Estandarte de Ouro” do carnaval carioca neste ítem. A comoção no dia do desfile foi muito grande, desde o esquenta com o já clássico samba de Zeca Pagodinho sobre o “Santo Guerreiro”. Pelo menos onde eu estava, eu era o único que não sabia a canção…

Pessoalmente, não acredito que seja uma “moda”, apesar de saber que há muitos “paraquedistas” devotos do Santo Guerreiro por este estar em evidência. Como sabem, fui criado em Cascadura, perto da Matriz de São Jorge, em Quintino. E todo 23 de abril era impossível passar por ali, porque ficava muito, muito cheio – e o memso ocorria na Igreja dedicada ao santo no Centro do Rio. A devoção é tanto dos umbandistas quanto dos católicos. Acredito que esteja mais presente na mídia carioca devido ao fato de se tornar um feriado, não por ser um modismo ou algo parecido. Chama mais as atenções sobre si.

A propósito, acho coerente termos um feriado voltado à celebração dos adeptos das religiões afro-brasileiras, tendo em vista a sua expressividade no Rio de Janeiro e as suas tradições. Note-se que há um número de feriados religiosos cristãos considerável no Brasil, o que a meu ver denota um visível desequilíbrio de poderes.

Outro ponto que queria abordar, levantado pelo pesquisador Reginaldo Prandi no livro “Segredos Guardados” (e que eu já li tem algum tempo), é a questão do sincretismo como limitador do crescimento das religiões afro-brasileiras. A tese que o autor defende é que o sincretismo religioso, por um lado, subverteu a teologia do Candomblé, e por outro, limitou o seu crescimento, porque muitos adeptos e adeptos potenciais acabaram no Catolicismo. Ainda segundo o autor, no Candomblé tal como vindo de suas raízes africanas, as noções de “bem”, “mal”, “céu” e “inferno” não existem tal como no Catolicismo. Além disso, o orixá Exu tem a missão de mensageiro, sem sofrer o processo de demonização progressiva para sua adaptação à teoria católica.

O autor defende que a Umbanda acabou como uma “adaptação” carioca entre o Candomblé e o Catolicismo. Em sua opinião o sincretismo foi prejudicial, no sentido em que distorceu o sentido de sua teoria religiosa.

Outros autores discordam das teses defendidas pelo pesquisador, havendo quem defina a Umbanda como uma religião brasileira, monoteísta, nascida no Rio de Janeiro, que congrega influências da cultura religiosa de diferentes etnias (negra, branca e indígena), por meio do Candomblé (também monoteísta), do Cristianismo (monoteísta) e de manifestações religiosas originárias dos indígenas. Também há discordâncias quanto à natureza do candomblé brasileiro, que na visão de outros estudiosos é bastante diferente do praticado originalmente na África.

Também questões abordadas por Prandi são a mudança da “regência” dos Orixás e as condições das religiões afro-brasileiras, especialmente o candomblé, para disputar no “mercado” das religiões. Por meu turno considero que existe uma ameaça séria à difusão desta manifestação religiosa, qual seja: a intolerância de grupos evangélicos pentecostais que oprimem e intimidam os praticantes desta religiões. Na verdade não só destas: mesmo a Messiânica, a qual pertenço – e que tem origem oriental – tem enfrentado alguns problemas, de menor monta mas tangíveis.

Aqui no Rio volta e meia há episódios de terreiros de umbanda e candomblé invadidos e destruídos por patrulhas de signatários de seitas pentecostais, algo que é bastante preocupante tendo em vista que o Brasil é um Estado laico e que a Constituição garante liberdade de culto.

Aliás, nem precisamos entrar na questão da destruição de terreiros: basta ver a influência religiosa em questões como a imposição de leis que restringem o consumo de álcool – sobre a qual tratei recentemente – ou do recente julgamento sobre a descriminalização do aborto em casos de fetos anencéfalos – sobre o qual pretendo escrever ainda esta semana, se conseguir.

A meu ver há uma clara intromissão das religiões e seitas cristãs como um todo na política de Estado e esta é questão que precisa ser enfrentada de frente pela sociedade civil, de forma a haver uma separação mais definida. Quanto mais intersecções há, menos direito de culto livre as pessoas terão – e como membro de uma religião oriental e com cerca de 400 mil membros no Brasil é algo que particularmente me preocupa.

E olha que nem toco aqui na questão dos direitos individuais e seu cerceamento geral, questão muito mais ampla e muito mais séria – e que precisa ser alvo de um debate profundo.

Mas o dia de hoje é para os devotos de Jorge, ou de Ogum. Apesar de não ser nem católico nem umbandista ou candomblecista, permitirei-me encerrar este post com a saudação habitual: Salve Jorge!

2 Replies to “"Jorge era um bravo guerreiro…"”

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