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Neste domingo, mais uma edição da coluna “Orun Ayé”, do compositor e publicitário Aloisio Villar. Hoje, prefiro não falar muito, apenas agradecer a (imerecida) e gentil referência à minha pessoa no texto. Leiam, é de arrepiar.

Carta Aberta à Minha Mãe

Antes de qualquer coisa queria pedir desculpas aos amigos pela indelicadeza, mas usarei a coluna desse domingo pra conversar com uma pessoa. Será algo mais pessoal. Podem ler à vontade se der curiosidade – eu, como sou muito curioso, leria…

Domingo, 27 de novembro de 2011

Parabéns pra você, nessa data querida…

… ok mãe: eu sei que você não gosta de comemorar aniversários. Mas você sabe como eu sempre fui também né? Teimoso, pirracento, mesmo você não querendo comemorações eu e a vó Lieida armávamos algo para você. E acho que no fundo você gostava: era mais charme que fazia. Temos que comemorar: afinal de contas não é todo dia que se faz cinquenta e quatro anos.

Então mãe, como você está? Tempo que não nos falamos hein? Sei que as vezes você me manda alguns recados em sonhos, como quando vacilei com uma namorada ou na véspera da vitória da União da Ilha, mas conversar temos pouco, justo nós que sempre gostamos de um papo.

Já faz seis anos, sete meses e vinte e três dias que você foi embora e confesso que não teve um dia que não pensei ou lembrei algum momento de você – e foi duro hein mãe? O primeiro dia, primeira semana, o primeiro mês, o primeiro ano. Não imaginei que conseguisse chegar até aqui e me assusto quando paro pra pensar que já faz tanto tempo.

Tanta coisa aconteceu mãe… tantas coisas pra contar…

Não sei onde você está agora. Cada religião diz uma coisa, mas pela pessoa maravilhosa que é tenho certeza que está em um ótimo lugar e vem acompanhando todas as coisas boas que faço com imenso orgulho e as inúmeras bobagens com aquela cara braba que só você conseguia fazer. Imagino quantas vezes durante esses anos você irritada comigo não teria trancado o quarto, colocado Roberto Carlos alto no cd e não abriria a porta pra nada, nem em caso de incêndio.

Ih mãe, acho que você usaria cd mais não, hoje em dia dá pra baixar música pelo computador tem aparelhos que guardam mais de cem músicas, é sério. Mas como não tenho certeza se você acompanhou tudo deixa te contar de mim nesses seis anos.

Bem…

Você partiu depois daquele nosso encontro no hospital Getulio Vargas, em que por uma grande obra do destino deixaram a hora de visita extrapolar e muito enquanto eu segurava sua mão inchada e você sem conseguir falar nada me olhava assustada. Foi um baque muito grande sua partida viu? Devia ter me avisado, apesar de achar que avisou e não entendi.

O começo foi barra mãe. Nossa família não deixou que eu “curtisse meu luto” direito e tive problemas sérios com o tio Junior. Em vez de chorar sua perda tive que enfrentar grandes problemas e ali perceber que eu estava sozinho no mundo. Tinha a minha dor, as horas que deitava na cama vendo tudo desmoronar e a vontade de ir junto com você, hora que sentia uma dor no braço e torcia por um enfarte; ou de cabeça torcendo por um aneurisma. Mas na maior parte do tempo tinha que ser forte, por pessoas ao meu lado precisarem de mim.

Lembra da Michele né? Minha namorada que mesmo depois do término continuou aqui em casa e você tinha como filha. Pois é, ela não agüentou sua perda e de seu padrinho e começou se drogar.

O dinheiro foi embora, a nossa renda que era de quatro mil e quinhentos reais caiu pra cento e sessenta em um mês porque enquanto você agonizava num hospital meu tio pegou a vó na casa de repouso que ela foi colocada no meio de toda essa confusão, levou a um banco e mudou senha de tudo virando o responsável por ela na calada da noite.

Mas você tinha que ver mãe. Não pedi piedade, não abaixei a cabeça, mesmo quando a luz foi cortada e ele disse que só ajudaria se as coisas fossem do jeito dele. Não foram, nunca foram, apanhei muito, caí muito, chorei, mas foi tudo do meu jeito, do jeito que você queria.

O pimpão e a bolinha, cachorros que você amava e ele jurou em seu leito de morte que não sairiam daqui e logo depois tentou levá-los com a carrocinha não saíram. Ficaram aqui até morrer como eu te prometi. Como você teria feito. Sabe mãe, muita gente não acredita quando digo que quase passei fome em 2005 porque não deixei que fizessem coisas como levar os cachorros que dormiam contigo para um canil público – e te digo que não me arrependo.

Tomei golpes do seu último namorado que ficou um tempo ainda morando aqui. Aluguéis de quartos que eram pagos a ele e ele falava que a pessoa não pagou, mas me livrei dele também. Essa você me deve mãe.

Mas nem tudo foi ruim mãe, muito pelo contrário. Conheci muita gente bacana nesse período. Você acredita que nenhum amigo meu me abandonou mesmo com todos esses problemas? Muito pelo contrário: foram solidários. Você nem sabe, mas o Paulo Travassos mal tendo comida em casa tirou em seu nome um empréstimo para mim, a fim de que eu pudesse pagar aquela conta que quiseram me chantagear para ajudar a pagar.

Demorei a pagar, o nome de coitado chegou a ir pro SPC, mas paguei tudo. O Walkir veio aqui oferecer dinheiro num dos piores momentos e depois comprou material para que eu pudesse fazer uma reforma aqui em casa e aumentar a renda dos aluguéis – e nunca me cobrou nada. O Cadinho me ajudou inúmeras vezes, todos os meus amigos que não vou citar mais nomes para não ser injusto me apoiaram, mãe e fiz outros especiais – como a aproximação com o dono desse blog.

E conheci mulheres maravilhosas mãe. Como você teria gostado de conhecê-las… Rafaela, Vivian, Thais, Bia… Mulheres inesquecíveis que me ajudaram a amadurecer, a conhecer o amor. Errei com algumas delas e você teria puxado minha orelha, chorei por outras e senti falta de sua mão no meu cabelo nesse momento me confortando. Mas superei, a vida ensina muito mãe. Ensina que tudo que fazemos tem um preço e mais cedo ou mais tarde pagaremos. Em relação a elas eu paguei quando errei e posso dizer que só tenho boas lembranças.

Assim como no samba. Lembro até hoje mãe que você não gostava muito de meu envolvimento nele. Quantas vezes não pediu pra eu sair do Boi da Ilha, odiava o presidente Eloy. Você sabia que o Eloy foi ao seu enterro? Pois é, ele foi muito bacana comigo, nos aproximamos depois disso e ganhei mais um samba em sua gestão. No momento que venci apontei pro céu, apontei você e dediquei.

Era minha primeira vitória depois de sua partida.

Ih mãe, muitas vitórias vieram. Infelizmente essa foi a última com o Eloy porque ele também faleceu, mas ganhei mais um samba no Boi e esse samba foi premiado assim como aquele que recebeu Estandarte de Ouro e dediquei a você do palco contigo chorando na platéia.

Ganhei muitos outros. Quatro no Dendê, mais um monte em inúmeras escolas e esse ano até na União da Ilha ganhei mãe!! Isso mesmo na União da Ilha dá pra acreditar?? Eu consegui. Consegui me tornar um compositor respeitado, reconhecido pelas pessoas e claro que em todas essas conquistas você está. Em todas as vitórias da minha vida.

E sei lá..acho que a maior das minhas vitórias tem dedo seu…

Pode falar mãe, eu ter a idéia de registrar a Bia foi coisa sua não foi? Desconfio que sim porque essa idéia surgiu do nada como se eu tivesse sido tocado por um anjo. E eu olho pra Bia e vejo você, olho minha relação com ela e lembro a nossa. Ela olha sua foto e diz ‘vovó’, mãe… É sério ela já disse algumas vezes e quando ela fala fico sem reação.

Sabe mãe eu nunca fui pai, não fui preparado pra isso, mas tento ser um bom pai e acho que to conseguindo. Eu, Michele e Renata deixamos faltar nada pra ela. Tive muito medo de dar errado, mas o problema é o contrário: temos que nos segurar apra não ter excesso de amor e ela não virar uma criança mimada. Porque ela é muito amada mãe, muito mimada, muito querida. É carismática, inteligente, você tinha que vê-la cantar música de Natal mãe, tinha que me ver cantando pra ela as músicas que você cantava pra mim… tinha que ver.

Poxa mãe… Por que você foi tão rápido? Com quarenta e sete anos ainda. Tinha que estar aqui pra ver minhas vitórias, conhecer a Bia. Seria tão bom ver vocês duas juntas brincando, você babando por ela. Tive dois grandes amores na minha vida que nunca irão conviver, você e ela. Se você tivesse aqui teria evitado tantas besteiras que eu fiz, as vezes é muito difícil mãe eu acho que não nasci para ser adulto, sei lá, as vezes preciso de colo, do seu colo e você não tá aqui. Suas broncas quando escondia provas com notas baixas, seu abraço chorando quando tirei o oito inimaginável em geografia na sexta série.

Nossos passeios com a vó Lieida, viagens, nossas conversas de madrugada. Você chorando no desfile do Boi da Ilha de 2001, nas minhas formaturas no 2° grau e na faculdade, tanto nós rimos e choramos juntos. Isso faz tanta falta e as vezes me sinto só metade. Sinto falta até mesmo de estar no computador, olhar pra trás e ver você na cama assistindo ER.

É complicado mãe, muito complicado. Mas hoje não é dia de lamentações, é seu aniversário então é dia de celebrar, celebrar a vida.

A minha, da Bia, a sua que é eterna. No meu coração você vive, no meu olhar você vive, no meu sorriso dentuço porque não quis usar aparelho quando você mandou ou na minha lágrima de alegria e tristeza você vive, você está. Porque todos os dias eu levanto da cama pra honrar seu nome. Para que você tenha orgulho de mim e quando eu morrer te encontrar em algum lugar, você abrir os braços numa mistura de sorriso e choro e me falar “valeu a pena”.

E pra celebrar essa data coloco aqui a música que fiz pra você no dia de sua missa de sétimo dia e que a partir do quinto verso forma seu nome nas iniciais.

Te amo mãe. Para sempre, feliz aniversário. Orun Ayé!

No Espelho

Como vou viver sem o teu amor
Como viver sem o ombro amigo
Naqueles momentos onde só existe dor
Como vai ser ficar sem você

Reluz uma lágrima em meus olhos
Eu sei, não vou lutar sozinho
Geralmente quando eu mais choro
Imagino seu afago, seu carinho
No espelho encontro teu olhar
A imagem que me fortalece
Vejo que estás a me acompanhar
Intensa tua chama me aquece

Legado que sigo em meu caminho
Lembranças nunca irão se apagar
Amor é como passarinho
Radiante tendo o céu a desbravar  

3 Replies to “Orun Ayé – "Carta Aberta à Minha Mãe"”

  1. Caramba…que coluna emocionante. Fico sem palavras. Que história esta do Aloisio Villar, fantástico exemplo de luta e recuperação para Bia. Com certeza de onde estiver a mãe deve estar muito orgulhosa do filho.

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