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Neste domingo pré Dia das Crianças, temos mais uma edição da coluna “Orun Ayé”, escrita pelo compositor, publicitário e corretor de imóveis (risos) Aloísio Villar.

Hoje a coluna dispensa apresentações. Emocione-se, caro leitor.

Valsa Para Uma Menininha

Nesse domingo não vou falar de samba, até porque o assunto “samba” vem dominando inteiramente a minha vida 24 horas por dia. Então a fim de espairecer quero falar hoje de uma outra situação.

Alguns meses atrás falei por alto do assunto dessa coluna na lista de discussões “Monarcas do Samba” na qual eu e o Editor Chefe do blog Pedro Migão fazemos parte, e ele pediu que eu escrevesse uma coluna sobre tal fato. Respondi que iria escrever e esperei que chegasse a data certa para isso. E nada melhor que a semana do dia das crianças. Para falar de uma pessoa iluminada que mudou não só a minha vida como de outras pessoas e que só de pensar nela já me emociono.

Quem é mais próximo de mim sabe que sempre fui muito ligado à minha mãe. Vivíamos eu, minha mãe e minha avó aqui nessa casa que moro até hoje desde que nasci. Minha avó, dona Lieida, ainda é viva, graças a Deus; mora hoje em Curitiba com minha tia Rachel e meus primos Fabinho e Isabella.

Minha mãe, Regina, faleceu em 2005, mais precisamente no dia 4 de abril, data que estreei minha coluna aqui no blog – tanto que a minha primeira coluna foi fazendo menção a isso. Sempre considerei minha mãe minha alma gêmea, a mulher da minha vida, porque não era só minha mãe, era minha melhor amiga e sua morte foi como se eu tivesse perdido metade de mim. Não cheguei a entrar em depressão e nem fiz nada que ela pudesse ficar triste comigo. Apenas fiquei mal, chorava, me sentia sozinho como qualquer pessoa nessa situação.

Os anos foram passando, o tempo foi tratando de atenuar a tristeza, confortar a saudade que nunca será esquecida. Mas minha mãe sempre estará presente em minha vida em forma de lembrança e saudades. Mas eu precisava viver. Conheci muita gente ao longo desses anos, fiz muitas coisas. Me apaixonei, namorei, noivei, decepcionei, me decepcionei, fui feliz, senti tristeza, como todas as pessoas.

A diferença é que com a perda dela me senti mais aflorado sentimentalmente, como se eu vivesse as situações boas e ruins com mais intensidade. Foi bom porque desabrochou de vez meu lado criativo: hoje me sinto muito melhor escrevendo. O lado ruim é que minha vida sentimental virou uma grande confusão.

Muitas mulheres eu amei, praticamente todas ficaram na minha vida como amigas, mas uma ficou em especial, a minha primeira namorada, ainda da época da minha mãe.

Eu na minha fase entre os 18 e 23 anos aproveitei bem a vida, mesmo nunca tendo bebido ou cheirado até hoje. Saía com os amigos para farras, voltava só de manhã e isso quase todos os dias da semana. Nossas noites sempre acabavam em algum inferninho, com alguma garota de programa. E num inferninho perto da minha casa conheci uma menina – menina mesmo na acepção da palavra pois era até menor de idade – que me encantou. Saí com ela: uma vez, duas vezes, um monte de vezes. Até que me apaixonei, fui lá, peguei pela mão e a trouxe pra casa.

Tirei daquela vida, assumi como minha mulher e vivemos quatro anos juntos. Um dia o amor acabou, mas o carinho e a amizade não. Minha mãe a adorava, tinha como filha e ela continou morando aqui em casa. Alguns meses depois ela se descobriu homossexual e começou a namorar uma mulher, estando juntas até hoje. Sete anos já.

Em 2005 minha mãe morreu, alguns meses depois foi o padrasto dela que ela tinha como pai, único parente próximo mesmo e que morava aqui. Os dois morreram da mesma doença, cirrose hepática mesmo não sendo alcóolatras e no mesmo hospital. Preciso nem dizer que nossos mundos desabaram porque ficamos sozinhos: eu, ela e a namorada dela nessa casa cheia de lembranças. Minha avó não estava bem de saúde e foi morar com minha tia Rosanne em Niterói.

Eu consegui segurar a onda, mas ela não. As duas se viciaram em drogas, cheiravam muita cocaína e tinham brigas homéricas depois de uma tentar matar a outra e eu ter que chamar a polícia. Alguns anos depois entraram pro mundo do crack. Foram morar na favela de Manguinhos e tudo levava a crer que o fim delas seria a morte

Até que…

… um dia a minha ex apareceu aqui em casa. Magérrima, rosto parecendo de uma caveira, ela que sempre foi linda estava irreconhecível. Me disse que estava grávida, não sabia quem era o pai e se ela e a namorada podiam voltar para cá.

Um quarto na casa havia vagado recentemente (alugo quartos aqui), achei que entrava numa roubada porque as duas eram difíceis de conviver; mas disse que sim, elas poderiam ficar. Minha ex deu um sorriso de felicidade e foi buscar a namorada.

Se mudaram e a gravidez foi muito conturbada. Brigas violentas delas, polícia e ambulância aparecendo aqui às vezes, drogas. Mas eu não cogitava botar as duas para fora porque sabia que aquilo seria o fim delas. Ela perdeu o “pai”, então eu tinha noção que no resto da vida teria que tomar conta dela. Fui convidado pra ser o padrinho da criança.  Agradeci, mas sinceramente não pensava muito no assunto, nem na gravidez dela, só achava que a criança nasceria cheia de problemas.

Até que um dia, em um ônibus, me veio uma idéia. A mais importante da minha vida, a mais acertada, a idéia que no dia que eu morrer eu sei que terá sido o meu maior momento aqui na Terra, o que eu sei que a minha mãe no céu levantou e aplaudiu de pé com orgulho de mim.

Eu tinha o sonho de ser pai e uma ex-namorada engravidou. Mas nosso namoro estava no fim nessa ocasião e a situação se tornou turbulenta demais. Nós nos separamos e eu tentei de todas as formas acompanhar sua gravidez, mas ela me afastou.

Eu estava em Bauru com nova namorada e recebi mensagem que ela entrara numa clínica com riscos de aborto. Peguei o primeiro ônibus de volta ao Rio, mas quando cheguei aqui ela já tinha abortado de nosso filho Daniel, que tinha apenas quatro meses em sua barriga. Eu sempre parti da premissa que filho não pode segurar relação, que é mais saudável para uma criança conviver com pais separados, mas que se respeitam do que com pais juntos que não se amam e brigam. Mas mesmo assim nunca me senti confortável com essa história e ela sempre me incomodou como um peso que carrego.

E naquele dia no ônibus pensei que pelo meu pequenino Daniel eu não poderia fazer mais nada, mas poderia por outra criança. A filha da minha ex não teria pai, seu registro de nascimento estaria em branco, não teria uma figura masculina por perto a lhe passar valores, educação, para brincar com ela.

Eu sei a importância de um pai até porque não tive um. Meu pai é um cara gente boa, que todo mundo gosta – mas fracassou como pai. Nunca me deu um carinho, nunca me ligou no meu aniversário, me chamou para passear, deu um presente, nada. Nem sabe que é avô. E bateu também a preocupação em garantir um futuro pra ela. Alguém pra segurar as pontas devido os problemas de sua mãe e sua madrasta. Eu tinha medo do que seria dessa criança crescendo num ambiente de violência e drogas.

Naquele dia então decidi que falaria para minha ex que queria ser pai da menina, ou seja registrá-la em meu nome. Voltei para casa e consultei dois amigos: os dois foram contra. Bia, minha nova namorada, na verdade ela se tornou minha namorada vindo ao Rio naquela ocasião, me apoiou. Era esse o apoio que eu precisava.

Até hoje louvo a atitude da Bia que mal começava um namoro comigo e entrava nessa: aceitar ser madrasta, ter uma criança que não era dela na nossa relação. A Bia é um dos melhores seres humanos que já conheci. Com o ok dela falei com minha ex e sua namorada e elas concordaram. Assim virei pai da Ana Beatriz, a Biazinha.  

Ela veio ao mundo no dia 16 de maio de 2009. Eu estava na quadra da Unidos da Tijuca recebendo com o Boi da Ilha o prêmio S@mbaNet de melhor samba-enredo do grupo de acesso B, um prêmio que sonhei ganhar durante muitos anos e recebi a notícia por SMS assim que acabei de descer do palco com o prêmio. No dia seguinte fomos ao hospital e a peguei em meus braços pela primeira vez. Ainda não havia me acostumado com a idéia de ser pai, foi meio estranho.

Mas com o tempo uma coisa inexplicável foi ocorrendo. A cada dia eu amava mais aquele pinguinho de gente. Aprendi a dar mamadeira, botar para arrotar, dormir com ela ao meu lado, cantar músicas para ela. Um grande e intenso amor foi tomando conta de mim e a impressão que eu tinha a cada dia é que aquela metade vazia de mim foi sendo preenchida.

Graças a essa menina que hoje tem dois anos e quatro meses a minha vida mudou: amadureci, me tornei um novo homem, um homem muito melhor. As suas “mães” largaram as drogas estando limpas há mais de um ano e meio e elas nunca mais brigaram – virando nós quatro uma família harmoniosa e feliz.

Posso dizer hoje sem falsa humildade que sou um ótimo pai. Pago direitinho a pensão dela todos os meses, dou alimentação, roupas, levo pra passear e principalmente dou carinho, muito carinho. Eu que pensei que fosse ser um pai exigente sou ‘babão’, as duas que tem que controlar as coisas para ela não ser uma menina mimada. Quando ela chega perto de mim e fala “papai te amo” consegue tudo de mim.    

Hoje posso dizer que ocorreu ao contrário. Era para eu salvar a vida dela e ela que salvou a minha e das duas que não citei os nomes aqui em respeito às situações que viveram. A Biazinha é uma menina encantadora, feliz, sorridente, carismática.  Ganhou uma família enorme, a minha e da namorada da minha ex que a ama. E saberá quando for maior sobre toda essa história porque o principal que vamos passar para ela levar em sua vida é que a verdade sempre tem que prevalecer e é melhor saber pela gente que de forma errada.

Só posso agradecer essa menina por ter salvado minha vida, por enchê-la de alegria novamente. Eu não saberia mais viver sem ela. Hoje posso dizer que sou pai mesmo no mais completo da palavra. Depositar o sêmen é muito fácil, criar são outros quinhentos e posso dizer que é muito mais prazeirozo.

As vezes olho a Biazinha e acho que foi um presente de Deus para gente depois de tantas perdas e sofrimento. Olho pra ela e nos olhos dela vejo a minha mãe refletida. Como eu falo numa música que fiz pras duas “Te vejo nos olhos dela/o espelho foi pra janela/ refletir a vida se criar/te vejo nos olhos dela/a vida foi pra janela/refletir a vida continuar”.

Por falar em música, tem uma que a minha mãe adaptava para mim e cantava quando eu era criança e hoje canto pra ela. Seu nome é o título da coluna de hoje, música feita por Toquinho e Vinicius de Moraes:

“Valsa para uma menininha
Menininha do meu coração
Eu só quero você a três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada, batendo palminha
Fingindo assustada com o bicho papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim começando a viver
Fique assim meu amor, sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim e você
Vai sofrer de repente uma desilusão
Pois o mundo somente é seu bicho papão

Fique assim, fique assim, sempre assim
E não se esqueça de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando souber enfim de tudo que
Eu amei”

Biazinha meu amor, você é muito pequenininha ainda e nem lerá essa coluna, mas um dia pode ler. Então saiba que seu papai acorda todos os dias por você, por você eu luto todos os dias, por você quero ser uma pessoa melhor.

Feliz dia das crianças meu amor, te amo.

E domingo que vem é dia de gritar “É Campeão”! Orun Ayé!

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