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Após um interregno, a coluna “Sobretudo”, do publicitário Affonso Romero, retorna ao nosso blog. O tema de hoje é a música, carnavalesca e pós-carnavalesca.
A Música Venceu

Meu amigo Pedro Migão me permitirá divulgar aqui uma sua autodefinição em que ele afirma que o verdadeiro (era este mesmo o termo?) Migão é aquele que vive nos quatro dias de cada Carnaval [N.doE.: na verdade, é um pouco diferente: eu costumo dizer em tom de galhofa que o Pedro Migão “pessoa física” só existe duas vezes por ano: no carnaval e no Imposto de Renda…]

Não é surpresa então que, mais uma vez, este blog tenha feito uma brilhante e (quase) completa cobertura do reinado de Momo. O “quase” da frase anterior se dá pela natural limitação do Pedro em não ser onipresente e onisciente, de modo que as esparsas manifestações carnavalescas que valeriam a pena citar de fora do Rio de Janeiro ficaram à margem do Ouro de Tolo.

Sendo assim, neo-paulistano que sou (estou?), mando algumas notícias tardias do carnaval e do pós-Carnaval em terras bandeirantes. Para início de conversa, vale destacar o desfile da campeã Vai-Vai. Como se diz por aí, e nem é mentira, o grupo de elite de São Paulo não disputaria sequer o desfile de Acesso na Sapucaí. É mais ou menos como comparar o campeonato de futebol da Letônia com a Premier League inglesa.

Entretanto, da mesma forma que os letões podem eventualmente fazer uma ou duas belas jogadas com uma bola, São Paulo pode oferecer alguns bons momentos de samba ao mundo. O desfile deste ano mostrou momentos assim, senão pelo esmero e excelência estéticas, pela emoção e sensibilidade da escola do Bexiga. Um bom samba-enredo sempre ajuda. E o samba da Vai-vai em 2011 era muito bom, como há muito não ouço nem no desfile carioca. Uma melodia esmerada e, apesar da letra cheia daqueles lugares comuns, a mensagem era passada redonda na avenida. E o refrão… que refrão!

“…Feliz da vida lá vem o Bexiga
Exemplo de comunidade
A Música Venceu
O dom é luz que vem de Deus
Da emoção Vai-Vai resplandeceu…”

Isso daí ficou na minha cabeça por dias. Ainda por cima, parecia uma profecia. Uma, não, varias profecias somadas no mesmo enredo: a dupla vitória da música, o desfile exemplar e extremamente popular, a luz do sol iluminando o desfile e a emoção rara, real, intensa, que levou o título para a Escola. O enredo contava as idas e vindas do Maestro João Carlos Martins (na foto, no Desfile das Campeãs paulistano), cujos seguidos incidentes de saúde afastaram-no de sua prestigiada e vencedora carreira de pianista-concertista, conduzindo-o a uma nova carreira como maestro. Já conversamos aqui nesta coluna anteriormente sobre esta trajetória quase inacreditável.

O maestro, que já tinha fama de chorão, atravessou o sambódromo do Anhembi aos prantos, regento a bateria e o público, com o sol já brilhando na manhã paulistana, a escola passando limpa, sem contratempos, perfeita na harmonia, ajudada pela troca perfeita de energia com a arquibancada. Claro que não é possível comparar o luxo, a criatividade, as alegoria e fantasias com as escolas cariocas, não é disso que estamos falando.

Estamos destacando aquilo que, por muitas e muitas vezes, falta a qualquer espetáculo que se fez perfeito e grandioso: a emoção genuína. Em grande parte, esta emoção foi resgatada pelo fato de a música ter sido personagem principal num espetáculo que, afinal, é um musical. O mesmo efeito beneficiou as apresentações da Beija-Flor (campeã, com Roberto Carlos) e Mangueira (Nelson Cavaquinho, também emocionante, apesar de tecnicamente falha). [N.doE.: como escrevi aqui antes, o Paraíso do Tuiuti conquistou o título do Grupo de Acesso B carioca com um enredo em homenagem a Caetano Veloso]

Não quero me atrever a julgar os desfiles em campo de especialista no assunto que o Migão é. Até mesmo porque sou um folião de frente da tevê. Mas me pareceu que o desfile da nilopolitana Beija-Flor foi apenas técnico e correto, teve apelo popular em razão de homenagear um ídolo nacional, mas não conseguiu alinhavar Roberto e o Carnaval. Já a Mangueira foi mais ao coração dos sambistas, ao homenagear o próprio samba e sua história na figura de um de seus gênios supremos. A Vai-Vai teve o mérito de traçar uma ponte entre o universo do samba e a música erudita, mostrando que não há oposição entre estes dois mundos, uma vez que se podem ser unidos pela emoção. Por isso mesmo, a música venceu mais uma vez.

Embalados por tanta música no ar, eu e Mara (minha esposa) fizemos um roteiro de pós-Carnaval passeando pelos SESC da Grande São Paulo, numa sequência de três shows e uma desistência de quinta ao domingo que iniciariam a Quaresma. Quinta, Lobão. Sexta, não pudemos ir à apresentação de Tony Tornado para a qual já tímnhamos ingressos. Sábado, a volta de Os Mulheres Negras. Domingo, Moraes Moreira, direto do trio em Salvador para Pinheiros.

Lobão volta em forma ao formato elétrico, depois de um período próximo ao modismo acústico. Nos fez sentir o tempo voltar, muito provavelmente por ainda parecer um menino transgressor e compartilhar com seu público esta vibração rocker. A apresentação iniciou-se a mil, anos 80 total, revirando o baú dos Ronaldos até achar a quase esquecida Bambina, uma divertida releitura da sonoridade dos B52’s. 

Em seguida, uma série de composições que tocam menos à minha memória afetiva, mas todas com algum toque do sarcasmo e (mau) humor do grande Lobo, uma estilo que beira a molecagem juvenil somada à alguma erudição. Coisas que descambam na qualidade de músicas como “A Queda” (aquele que faz referência a um certo “sorriso aeróbico”) que, apesar de mais recentes, ajudam a fazer a festa.

Ao final, Lobão retoma os velhos e bons anos 80, fazendo pular e pensar gerações distintas que foram juntas ao baile.

Outro revival oitentista foi a apresentação da dupla André Abujamra e Maurício Pereira, autointitulados “a menor big-band dos anos 80”, Os Mulheres Negras. O público era formado pelos antigos fãs, filhos e curiosos de plantão, de modo que a maior parte da platéia já estava preparada para as gags, referências, irreverências, improvisos e experimentações da dupla. Muitas das músicas eram literalmente construídas por Abujamra durante sua execução, com a ajuda de sua guitarra, overdubs e de uma parafernália eletrônica que funciona ainda melhor depois de 30 anos de evolução da tecnologia a serviço da música.

Valeu reviver toda aquele clima de criatividade novidadeira, foi inagavelmente divertido, mas, no fim das contas, a coisa toda parecia datada e cansativa, principalmente porque a sonorização estava uns dez traços acima do ideal no botão de volume.

Finalmente, nosso Carnaval só se acabou no domingo, com Moraes Moreira. A voz do cantor estava detonada pelos infindáveis dias e noites de trio elétrico, o que era previsível e aceitável. Mas isso foi superado por um repertório irretocável, uma banda que realmente parecia acreditar naquilo que fazia (e fazia muito bem) e uma estranha sinergia com um público que se manteve, sentado (estávamos  em um teatro) mas animado.

Moraes dá a mostra perfeita de que música carnavalesca, notadamemente música a ser tocada em trio elétrico, pode sim ser de qualidade superior sem perder o pique. Moraes é um imperador do frevo elétrico e desfila duas horas de sucessos. Seu filho, Davi Moraes, está em plena forma como guitarrista e também impressiona a eterna jovialidade do percussionista Repolho, conservando jeito e cara de menino, mesmo estando no palco e no trio desde a década de 1970.

Além do estado de sua voz, atrapalhou um pouco esta inexplicável mania de paulista de bater palma no tempo musical errado, coisa que atravessou (literalmente) o show inteiro, apesar dos esforços dos músicos em mostrar o tempo certo ao baterem palmas também. Considerando todos estes considerandos, o show cumpriu a função de lavar a alma do folião de cadeira que voz escreve, ainda que o preço pago para tal tenha sido a ausência no repertório de várias das belas canções mais lentas de Moraes.

A programação do SESC para abril, Rock’n’Rio e da Virada Cultural de SP já estão na internet. Ainda que eu tente diversificar os temas desta coluna, já vi que teremos muita música por aqui nos próximos posts.

Pois é, amigo, a música venceu.