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De volta após algum interregno temos a nossa já tradicional “Resenha Literária”.
O livro de hoje é indispensável para se entender um dos personagens mais sórdidos, sanguinários e cruéis da história recente da América Latina: Augusto Pinochet, ex-ditador do Chile – que, sinceramente, espero que neste momento esteja no fundo do inferno.
Já abordei tal personagem na resenha de “Os Anos do Condor”, mas este “À Sombra do Ditador”, do ex-embaixador chileno no Brasil e ex-Vice Ministro das Relações Exteriores Chileno Heraldo Muñoz, trata o ditador como a figura central do livro.
Baseado nas memórias do autor – que viveu na oposição ao regime, em documentos do governo chileno e em entrevistas, traça um bom panorama da história do país desde os tempos pré-golpe até o fim do ditador, quando teve de conviver com a pecha de ladrão por terem sido encontradas contas no exterior com nomes falsos, frutos de comissões recebidas em diversos negócios – em especial envolvendo armas.
Uma das revelações do livro é de que Pinochet somente se incorporou aos conspiradores golpistas no último instante. Sua trajetória anterior no Exército trazia a marca de sempre estar a favor dos donos do poder e por uma habilidade de sempre perceber antes para onde os ventos sopravam.
Conta também como ele assumiu o comando do golpe em detrimento dos demais conspiradores e consolidou o seu poder. O livro revela, baseado em documentos e entrevistas, que se o Presidente deposto Salvador Allende não se matasse no Palácio de La Moneda acabaria morrendo na queda do avião disponibilizado para levá-lo ao exílio: a ordem era colocar pouco combustível na aeronave para que esta caísse.
Outra revelação é de que além de ter mandado exterminar com requintes de crueldade correligionários de Allende e opositores do regime, os conspiradores que se opuseram em algum momento à sua liderança também foram assassinados, ou mortos em acidentes e infecções “estranhas”.
O exemplar é sórdido na descrição dos assassinatos cometidos pelo regime e nas torturas realizadas em verdadeiros “campos de concentração” abertos pelo regime para a tortura e o desaparecimento de presos políticos. Outro lado é o atentado sofrido pelo ditador em 1986 por integrantes de um grupo pára-militar, no qual por muito pouco não obtiveram o intento de assassinar Pinochet.
Também se descobre que a opção econômica pelo liberalismo irrestrito não era uma convicção pessoal de Pinochet. Pragmático, optou por esta linha a fim de tirar a economia do Chile da crise, o que conseguiu apesar de um brutal custo social. Assim mesmo a inflação em nenhum momento foi totalmente controlada durante a ditadura, bem como o desemprego sempre se manteve alto no período.
Como integrante da frente das oposições que liderou o “Não” ao plebiscito de outubro de 1988 – que significou o fim da ditadura chilena – Heraldo Muñoz descreve a formação da coalizão democrática, com lances de suspense, marchas e contra marchas. É uma bonita história de vitória da democracia ainda que jogando sob as regras determinadas pelo ditador.
A partir daí descreve-se a progressiva perda de poder do caudilho assassino e o processo sofrido na Espanha que resultou em sua prisão na Inglaterra e quase extradição – episódio também alvo de narrativa em “Os Anos do Condor”. E seu crepúsculo, abandonado pelos fiéis aliados e enfrentando denúncias comprovadas de corrupção.
Ressalte-se, também, a sorte do autor em momentos cruciais da história, quando decisões erradas poderiam tê-lo transformado em mais uma vítima da repressão. Seu papel como articulador das oposições e na refundação do Partido Socialista Chileno, bem como a descrição das articulações entre as diversas correntes  é bem interessante para quem gosta de política.
Lembre-se, adicionalmente, do apoio dado pelo governo americano a Pinochet através do Secretário de Estado Henry Kissinger, e como os EUA foram afastando-se aos poucos do carniceiro, especialmente após o assassinato do ex-Chanceler de Allende Orlando Letelier, a poucas quadras da sede do governo americano em Washington. A ação, perpetrada a ordem do ditador, foi considerada audaciosa demais e marcou um ponto de inflexão na política americana em relação ao Chile.
Faço o registro do apoio incondicional da “Dama de Ferro” inglesa Margaret Thatcher a Pinochet, com respaldo total no episódio da prisão do ditador e declarações de apoio às atrocidades cometidas pelo governo chileno durante o regime de exceção.
Nesta resenha não esgoto todos os assuntos tratados, mas é leitura indispensável não somente para se conhecer um período da história que não deve se repetir quanto para aqueles que gostam de política. Certas passagens chegam a ser revoltantes, tamanha a crueldade dos órgãos governamentais.
Em resumo, livro obrigatório. Na Travessa, custa R$ 47.
Disponibilizo abaixo vídeo descoberto no site da Editora Zahar com uma palestra do autor sobre o livro. Apesar de ser em inglês, não é de difícil compreensão. Também reproduzo abaixo entrevista do autor ao Estadão, concedida na última semana.

Pinochet: o horror revisitado
Em livro, chileno Heraldo Muñoz, diplomata e ex-assessor de Allende, reabre feridas da ditadura

João Paulo Charleaux – O Estado de S.Paulo

Poucos ditadores foram tão minuciosamente escrutinados pela literatura latino-americana quanto o chileno Augusto Pinochet (1915-2006). O general que comandou durante 17 anos um dos regimes mais brutais do mundo – responsável por mais de 3 mil mortes e desaparecimentos, além de 28 mil casos de tortura – teve seu duro rosto marcial e seus medonhos óculos escuros transformados na própria personificação do terror dos regimes militares.

Uma figura assim, tão caricata de suas próprias brutalidades, dificilmente teria uma nova faceta a revelar. Mas o chileno Heraldo Muñoz, membro ativo do governo socialista de Salvador Allende durante o golpe de 11 de setembro de 1973, conseguiu transformar o que já seria um excelente relato emocional numa análise acurada do contexto político que selou o destino não apenas do Chile, mas de vários países do mundo que serviram de tabuleiro para o tenso jogo de interesses entre EUA e URSS nos anos 60 e 70.

Muñoz – que foi embaixador do Chile nas Nações Unidas até o início do ano, quando assumiu o cargo de diretor do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) – conta no livro A Sombra do Ditador – Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Zahar, 394 páginas, R$ 59) sua aventura como militante combativo (e combatente) nos anos de chumbo. Mas, mais do que isso, revela documentos pouco conhecidos sobre o envolvimento dos EUA no golpe e sobre o tenso bastidor do governo Allende, que tornou insustentavelmente aguda a divisão política do país a ponto de sofrer o que seria o primeiro golpe contra um líder marxista eleito democraticamente. A seguir, os principais trechos da entrevista que Muñoz concedeu ao Estado, de Nova York, por e-mail:

O sr. descreve um Pinochet astuto e oportunista, mas não muito inteligente. Não é demais supor que um homem assim tenha sido capaz de ficar no poder por 17 anos, resistindo não apenas às pressões dos democratas, mas passando para trás seus rivais militares também?

Pinochet se manteve no poder por uma combinação de fatores. Primeiro, ele tinha uma capacidade política inata e uma certa sagacidade, embora carecesse de bagagem cultural ou inteligência. Além disso, ele foi hábil em concentrar na polícia secreta da ditadura, a Dina, não apenas seu poder de repressão contra a dissidência, mas também contra qualquer sinal de desafio à sua autoridade proveniente de seus colaboradores mais próximos, fossem eles civis ou militares. Por outro lado, é importante lembrar que uma grande parte dos chilenos queriam, principalmente no início da ditadura, o restabelecimento da ordem e o fim da polarização política que caracterizou o último ano do governo Allende. Além disso, a Guerra Fria também ajudou, pois os EUA viram em Pinochet um aliado contra o comunismo.

Como o sr. compara as ditaduras do Chile e do Brasil?

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a ditadura Pinochet, o que não é surpreendente se você considerar que alguns dos idealizadores do golpe no Chile reuniam-se regularmente na embaixada brasileira em Santiago. A ditadura brasileira também assessorou o regime Pinochet em técnicas de tortura e deu enorme apoio financeiro de emergência. No Brasil, entretanto, a ditadura foi mais institucional, menos personalista. Além disso, foi uma ditadura que teve a capacidade de fazer sua própria transição. E apesar de ter sido mais curta que a ditadura chilena, foi igualmente dura em termos de perdas humanas e torturas.

Seu livro torna clara a participação dos EUA no golpe no Chile, transcrevendo diálogos entre Pinochet e Henry Kissinger, secretário de Estado do então presidente americano Richard Nixon. A política americana para a América do Sul mudou quanto de 1973 para cá?

A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet uma vez me contou uma piada que era assim: Sabe por que não há golpe de Estado nos EUA? É porque lá não existe uma embaixada americana. Mas as coisas têm mudado. Primeiro, pelas prioridades que os EUA têm hoje em outras partes do mundo, especialmente depois do 11 de setembro de 2001. Depois, porque o presidente Barack Obama quer inaugurar uma nova página de relações com a região, embora os frutos sejam escassos.

O que há em comum entre a direita que venceu as eleições do Chile em janeiro e a que governou o país nos 17 anos de ditadura Pinochet?

A direita chilena não fez ainda sua mea-culpa por ter dado apoio ativo à ditadura de Pinochet. Há setores importantes da direita que rechaçam as violações de direitos humanos, é verdade. E o próprio presidente Sebastian Piñera (que assumiu em março rompendo uma hegemonia democrática da esquerda que durou de 1990 a 2010) votou contra a continuidade do regime Pinochet no plebiscito de 1988. Na verdade, a direita sabe que, para ganhar eleições, precisa hoje afastar-se da herança de Pinochet. Mas ainda há uns poucos dentro do governo que relutam em fazer isso, mesmo pagando um alto custo político.

O sr. conta que, um dia antes do golpe de 1973, Allende se preparava para propor a realização de um plebiscito sobre sua permanência no poder. A prática tem sido muito repetida nos últimos anos por presidentes sul-americanos de esquerda. É possível estabelecer alguma comparação entre estas duas formas de fomentar uma suposta democracia participativa direta?

Mas aquela foi uma consulta diferente. O que Allende buscava era uma saída política para a crise. Ele não planejava mudar a Constituição ou outras normas vigentes no país. O plebiscito de 1973 teria evitado um banho de sangue que a ditadura provocou. Provavelmente, Allende teria sido derrotado, ainda que ele tivesse esperanças de convencer o povo chileno usando seus melhores argumentos.

A SOMBRA DO DITADOR
De Heraldo Muñoz. Editora Zahar (tradução Renato Aguiar, 396 págs., R$ 59).

6 Replies to “Resenha Literária: "À Sombra do Ditador"”

  1. Para o Blog da Dilma:

    Quando a oposição perde, apita: PRIiiiiii!
    Elio Gaspari

    Quando a oposição brasileira é devastada pelo resultado eleitoral, alguém apita: “PRIiii!”. É um grito de advertência contra o perigo da instalação de um regime de partido único (de fato) no Brasil. Algo parecido com a coligação de políticos, burocratas, sindicalistas e cleptocratas que governou o México de 1926 a 2000, boa parte do tempo sob a sigla do Partido da Revolução Institucionalizada.

    O apito de PRI costumava soar depois da eleição. Agora ele veio antes, com um inoportuno componente de derrotismo. Ele soou em 1970, quando a popularidade do general Médici e os camburões da polícia esmagaram o MDB. A oposição ficou com 87 das 310 cadeiras da Câmara, perdendo até o terço necessário para requerer uma CPI. O governo elegeu 42 senadores, perdendo apenas no Rio de Janeiro e na antiga Guanabara. Era o PRI. Quatro anos depois, o MDB elegeu os senadores em 16 dos 22 Estados. Não se falou mais em PRI.

    Em 1986, cavalgando o Plano Cruzado, o PMDB de José Sarney elegeu 22 governadores, 36 senadores e a maioria dos deputados. Novamente: PRI! Três anos depois Fernando Collor de Mello elegeu-se presidente da República e, desde então, o apito calou-se, para voltar a ser ouvido agora.

    Falar em PRI no Brasil quando o PSDB caminha para completar vinte anos consecutivos de poder em São Paulo é, no mínimo, uma trapaça. Sabendo-se que o PT conformou-se com uma posição subsidiária nas eleições para governadores, o espantalho torna-se risível.

    É nessa hora que se deve olhar para o espantalho. Ele não é o que quer o tucanato abichornado, mas o paralelo histórico tem algo a informar. O PRI surgiu depois de uma revolução durante a qual mataram-se três presidentes e desterraram-se outros dois. Seu criador não foi Emiliano Zapata, muitos menos Pancho Villa (ambos passados nas armas), mas um general amigo dos sindicatos e dos movimentos sociais. Chamava-se Plutarco Elias Calles, assumiu em 1924, saiu em 28 e governou até 1935 por meio de prepostos, fazendo-se chamar de “Jefe Máximo”. Esse período da história mexicana é conhecido como “Maximato”. A boa notícia para quem flerta com um Lulato é que Calles parece-se com Nosso Guia na política voltada para o andar de baixo e até mesmo fisionomicamente, sem barba.

    A má notícia vai para a turma do mensalão. Um dia “El Jefe Máximo” teve uma ideia e decidiu entregar o poder ao companheiro de armas Lázaro Cárdenas. Encurtando a história, Cárdenas dobrou à esquerda, exilou meia dúzia de larápios do “Maximato”, inclusive um ex-presidente, e, em 1936, despachou o próprio Calles, que ralou cinco anos de exílio.

    O que está aí para todo mundo ver é o Lulato, com Nosso Guia pedindo votos para sua candidata, e uma grande parte do eleitorado, consciente e satisfeita, dizendo que atenderá com muito gosto ao seu pedido. Um país com a sofisticação econômica do Brasil, com a qualidade da sua burocracia e com o vigor de suas instituições democráticas não cai nas mãos de um PRI qualquer. Apitando-se, faz-se barulho, e só. O problema da oposição brasileira, com sua vertente demófoba, chama-se Lula, “El Jefe Máximo”, que o embaixador Celso Amorim chamou de Nosso Guia e Dilma Rousseff qualificou como o “grande mestre, ele nos ensinou o caminho”.

    O perigo mexicano virá quando Nosso Guia achar que se tornou “El Jefe Máximo” do seu imperial Lulato.

  2. Para o Blog da Dilma:

    A volta do bode preto da velha esquerda
    Arnaldo Jabor

    O GLOBO – 31/08/10

    http://arquivoetc.blogspot.com/2010/08/arnaldo-jabor-volta-do-bode-preto-da.html

    Nota minha, quando é mencionada a “telefonia moderna”: Lembro que Lula teve 8 anos para melhorar, via Anatel, a formação de preços da telefonia através da interconexão (chamadas que precisam passar pela rede de outras operadoras para serem completadas que são cobradas entre as operadoras e seu custo, claro, passado ao cliente…). O que ele fez? Permitiu a fusão de 2 operadoras após operação de uma delas com a empresa do filho deste, e patrocínio no filme “Lula, o filho do Brasil”, empresa na qual a participação do governo está a menos de 1% de ser majoritária… Ou seja, o dinheiro lá pode ser movimentado longe dos olhos do TCU. E mais nada.

    Mas claro, mais vale oferecer Bolsa Família permanente, aumentando os impostos dos outros que não os recebem. Como a cleptocracia não paga e os ricos pagam muito menos proporcionalmente, sobra para quem? Para mim, para você otário, que trabalha e não tem bocada sindical. Na China não é o emprego público que está tirando a população da miséria. É o privado. Em um país ditatorial.

    É o futuro, estúpido! Se a China frear o Brasil descarrilha… E não nos preparamos para isso com educação de qualidade para atrair indústrias de tecnologia.

    O Brasil só pensa com o estômago. Enquanto come muito mal…

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