A notícia esteve para cair como uma bomba capaz de mudar o futebol carioca, mas não se concretizou. O Botafogo, depois da sapecada que levou do Vasco da Gama, demitiu Estevão Soares e procurou o dia todo de ontem um novo técnico. Meu irmão Janir Jr, que trabalha como jornalista esportivo de O Dia, me passou uma informação quentíssima: Parte da diretoria queria ousar e contratar um jornalista de peso, conhecedor da história e das glórias alvinegras, para assumir o comando do time. Uma solução à João Saldanha.

O nome mais falado em General Severiano, desde as primeiras horas após o cataclismo de domingo, foi o do homem de imprensa Álvaro Costa e Silva, o Marechal. A informação é segura e foi confirmada por este escriba com mais três figuras de peso de dentro do clube.
O jornalista, entretanto, ao ser sondado na noite de ontem em um jantar com dirigentes alvinegros na zona sul do Rio de Janeiro, não aceitou as bases salariais propostas, sofreu pressões contrárias da família e exigiu montar uma comissão técnica tendo Bufalo Gil como auxiliar e o delegado Hélio Vígio como preparador físico. Não houve acordo, sobretudo por conta do problema financeiro.
A recusa de Marechal obrigou o Botafogo a negociar com quatro técnicos mais de acordo com a atual realidade financeria do clube: Zico, Joel Santana, Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scollari. Joel fechou o contrato no início da madrugada. O Natalino assumirá o time até o final do ano e a diretoria promete, em dezembro, captar recursos e sondar novamente Costa e Silva, que prometeu estudar com carinho um futuro convite.
Sobre ele, o quase técnico do Botafogo, escrevi em certa ocasião o texto que reproduzo abaixo, para que os torcedores que não leram quando foi publicado comecem a ter contato com a história do nosso futuro comandante:

O BODE DO MARECHAL

O Marechal Alvaro Costa e Silva, uma espécie de Brigadeiro Eduardo Gomes do jornalismo canarinho , defende curiosa tese sobre os cemitérios do Rio de Janeiro. Marechal prefere o Caju ao São João Batista, por uma questão de caráter e dignidade pessoal. A opção do ínclito homem de imprensa pelo Caju tem uma origem que, revelo agora , testemunhei . Aos fatos, pois.

Em certa ocasião , não lembro exatamente do ano, Costa e Silva cumpriu a dolorosa tarefa de ir ao enterro do Tijolinho, figura queridíssima nas redações cariocas. Destruído pela morte do amigo, Marechal não conseguiu ficar mais de cinco minutos no velório e foi beber umas geladas numa birosca em frente ao Caju.

Lá pela décima ampola nosso herói teve o desejo de tirar uma água do joelho. No que o Marecha desabotoou a calça e iníciou os procedimentos da mijada apareceu, ao lado do vaso, um bode preto, impoluto, silencioso, barba a Pedro II e olhar penetrante. O caprino manjava fixamente o jornalista .

Assustadíssimo com a presença do bicho, Marechal concluiu que se tratava de um fenômeno sobrenatural. O bode era uma aparição, não havia dúvidas. De volta aos trabalhos etílicos, Alvinho comunicou, sussurrando, aos amigos:

– Minha gente. O lugar aqui é sério. Não é pra apavorar ninguém, mas tem um bode preto do lado da privada. É o espírito de alguém, não tenho dúvidas.

Intrigadíssimos, os bebuns começaram a ir, um por um para não disseminar o pânico , ao mictório verificar o fenômeno. Cada um que voltava dizia coisas do tipo :

– É verdade. O bode tá lá. Deve ser o espírito de algum suicida vagando. Pode ser o diabo… Parece o bode do livro de capa de aço da magia de São Cipriano. Eu acho que é o Tijolo que encarnou num bode pra sacanear a gente.

Alguém sugeriu que um Pai Nosso bem rezado poderia afastar a assombração. Marechal assumiu a tarefa de mandar o bicho de volta ao além. Entrou no banheiro, lembrou dos tempos de congregado mariano, fechou os olhos e mandou ver. Acabou a oração mais tranquilo, crente que o animal tinha desaparecido. Não funcionou. O bode continuava firme e forte, paradão, com pose de Capricórnio da Revista do Horóscopo da Zora Yonara. Marechal olhou nos olhos do bicho e apelou:

– Tijolo, se é você que tá fazendo isso pra me assustar, já conseguiu. Vai em paz. Deixa esse mundo, meu velho.

O bode finalmente se manifestou. Deu um berro profundo , longo, aterrorizante, que fez o nosso Marecha sair em desabalada carreira. O bicho foi atrás , enfurecido. Amigos, eu vi. Marechal passou varado, gritando, e o bode na cola dele . Atravessaram a rua e entraram pela alameda principal da necrópole, seguidos por uma legião de pinguços e pelo português dono do boteco, que bradava em direção ao caprino :

– Volta aqui, Luiz Armando. Volta aqui, Luiz Armando. Quem foi o filho da puta que soltou você. Luiz Armando, porra …

Marechal escalou , com impressionante agilidade, a sepultura do Barão do Rio Branco e colocou-se em um lugar a salvo do animal. Luiz Armando atendeu aos apelos do dono e acalmou-se, capturado por um coveiro que , diante da pequena multidão que se formara, deu um esporro no português:

– Seu Bonifácio, Seu Bonifácio… eu disse pro senhor que esse negócio de criar bicho no quintal pra vender pra curimba em porta de cemitério é coisa séria. Tem que ser profissional. Semana passada foi a galinha d´angola que entrou bicando todo mundo num velório. Assim não dá. Prende direito a bicharada, meu velho.

Após ser resgatado do cume da tumba do Barão (um espetáculo de sepultura – o homem de imprensa garante que conseguiu ver , lá de cima, as praias oceânicas de Niterói) Marechal declarou perante testemunhas – sou uma delas – que o Caju é o único cemitério viável para um carioca digno. O episódio do bode Luiz Armando é a prova contundente disso. Concordamos todos e firmamos, ali mesmo, um pacto de que o cemitério da Zona Portuária será a nossa derradeira morada.

Abraços.

obs : No ano passado fui a um enterro e tomei uma cerveja no bar do português – uma birosca, aliás, da maior dignidade. Perguntei pelo bode Luiz Armando. O portuga comunicou que, dias após o episódio do Marecha, o capricórnio foi vendido e devidamente despachado num ebó dos grandes, numa encruza pertinho do próprio cemitério.

20 Replies to “CONFIRMADO: ÁLVARO COSTA E SILVA FOI SONDADO PARA ASSUMIR O COMANDO DO BOTAFOGO”

  1. Esse é o Marecha:Botafoguense da melhor estirpe.
    Nessa foto ele está na nossa Folha Seca … procurando algum livro sobre futebol é lógico.
    Abraços Simas

  2. Em nome da fidelidade aos fatos, devo acrescentar ao reforço de reportagem de Luiz Antonio Simas um outro motivo, além do financeiro, que emperrou as negociações: para assinar contrato, exigi a imediata extinção daquela camisa escrota com a qual o time entrou em campo para ser sapecado pelo Vasco.
    Quanto ao bode, é tudo verdade. Só quero acrescentar que, ao chegar no bar, lá já encontrei Mauro Leão, este sim um bravo homem de imprensa. Ele também foi sondado para assumir o Botafogo, e posso garantir que pediu muito mais que eu.
    Abraços
    Marechal

  3. Marechal é talhado para o cargo. Não perde a linha.

    Uma vez, na primeira passagem dele pelo JB, Marechal cismou de perseguir o Fluminense, cujo técnico era Carlos Alberto Torres. Na verdade, esculhambava o Carlos Alberto Torres quase todo dia.

    O Fluminense estava mesmo muito mal das pernas. Certa vez em Ítalo del Cima, o time das Laranjeiras não fez mais que a obrigação e ganhou o jogo.

    Carlos Alberto, eufórico e raivoso, viu o Álvaro no fundo do vestiário. Com aquele corpanzil foi se aprochegando, à medida que xingava mais e mais alto o nosso franzino repórter. O Branco entrou no meio, no deixa-disso…

    – Seu babaca, gritava Carlos Alberto, aprenda a me respeitar. Sou o capitão!

    – E daí? E daí? Você sabe quem eu sou? Sou o Marechal! Sentido, capitão! Sentido!

    O time do Fuminense todo fazia um paredão entre as duas patentes, o que encorajava o nosso repórter. Marechal conseguiu sair ileso, deixando o “militar subalterno” espumando de ódio.

  4. Quanto ao comentário de Claudio Renato, devo dizer que meu grande amigo está fantasiando um pouco. O capita, apesar de subalterno, é chapa.
    Aprovieto para dar mais detalhes da negociação de ontem com os cartolas alvinegros.
    Também exigi um imediato barata-voa no elenco.
    Abs
    Marechal

  5. Vai ser o nosso Marechal da Vitória, usurpando o apelido do Paulo Machado de Carvalho, mas foda-se! Marechal é o nome certo para o Botafogo. Saldanha está vibrando no túmulo. Seria quase uma reencarnação. Vamos ter, algum dia, nosso Marechal Sem Medo, comandando um elenco estelar. O problema é somente financeiro. A Ambev podia dar um jeito nisso.

  6. Marecha no Botafogo? Nunca! Seria o fim do sonho do tetracampeonato rubro-negro. Deixem o Marecha aqui na redação mesmo, pilotando o Ideas. Ainda sobre o escriba, um dos melhores que o Rio já leu: o professor Jair Pereira também já sentiu a força de seu punho…

  7. Senhores,

    O nome do Marechal me anima muito mais do que o nome indicado pelo nosso venoso Gerente de Futebol Anderson Barros (esse flamenguista que está nos levando ao buraco): Marcos Paquetá!

    FORA ANDERSON BARROS!! MARCOS PAQUETÁ É O CAR#%$*!!!!

    (Não conheço o Marechal, mas tenho certeza de que trata-se de indicação muito mais qualificada do que o Paquetá).

    E seja bem-vindo, Papai Joel!

    Abs alvinegros,

    R.Pian

  8. Mais uma história que credencia Marechal para dirigir o Botafogo, pela sensibilidade e inteligência emocional do nosso repórter.

    Quarta-feira à noite, Rua Conselheiro Galvão às escuras. Botafogo enfrentava num prélio insosso o Madureira. Escalado para cobrir a partida, Marechal pressentia que daquele mato não sairia cachorro.

    Ele foi à cantina do Madureira e, imediatamente, fez amizade com um coroa, cuja mesa já estava abarrotada de bramas. O velho convidou o Marechal para uns goles e, só por educação, quase a contragosto, o nosso repórter aceitou o convite.

    O velho contou muitas histórias e garantiu ao Marechal que “assistia” aos jogos com os ouvidos. Não precisava estar em campo. Pelo “êêê”, “áááá´” e “úuuu” – mais longo ou mais curto – das torcidas sabia exatamente quando a bola batia na trave, no travessão ou entrava no gol.

    Começa o jogo. Marechal já estava no quinto birinaite. E o velho começa a narrar o jogo, com detalhes impressionantes, só pelo barulho em campo.

    Duas horas depois, trocando as pernas, Marechal abraçou o velho e o agradeceu muito. Ele sequer viu a cor da grama, O jogo foi pífio. 0 a 0.

    E no dia seguinte os leitores do JB puderam ler o impagável artigo: “O Ouvidor de Madureira”, um clássico da nossa crônica esportiva!

  9. Moutinho, o Marechal costumava guardar as matérias dele. É a pura verdade. Se não fosse a sagacidade do nosso intrépido repórter, aquele jogo do Botafogo e Madureira seria relegado ao rodapé. E me lembro que o repórter fotográfico ainda ficou puto e não entendeu por que o Marechal não arredava o pé da cantina e a mão do copo. Ele não viu jogo e provou a tese do Nélson Rodrigues, que enxergava muito mal: “vejo com os olhos da minha alma!”

  10. Olga,

    O Marechal há poucos dias fez uma reconstituição daquele jogo em 1993. Ele diz que foi à cantina “comprar um maço de cigarros e beber água mineral com gás”.

    A partir daí, toda a reconstituição fica comprometida…Água mineral com gás? O Marechal???

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