Depois de 3 semanas comentando cada um dos 45 cadernos de julgamento, esta coluna encerra a série com algumas conclusões e a lista de sugestões do ano passado devidamente revisada e atualizada.

Em relação à qualidade do julgamento em 2020 na totalidade, é forçoso admitir que recuamos consideravelmente em relação a 2019. O julgamento ano passado fora de excelente qualidade, em todos os quesitos. Os poucos cadernos feitos de forma desleixada  se diluíram no meio dos outros de cada quesito. Só tivemos uma Justificativa absurda, em bateria. Logo, seria naturalmente difícil manter o mesmo nível. Para tal, era necessário julgamentos de alta qualidade praticamente do início ao fim, o que não ocorreu. A qualidade de julgamento dos quesitos foi caindo a medida que a Justificando 2020 avançava.

Começamos com um ótimo julgamento de Samba-Enredo. Mesmo com algumas justificativas complicadas, especialmente em dois cadernos além de um terceiro “desfocado”, no cômputo geral as notas fizeram sentido e os melhores sambas se saíram com 30, enquanto os piores deixaram bons décimos.

Em seguida, passamos para Harmonia e Evolução, onde tivemos ainda bons julgamentos, mas com problemas pontuais. Tais problemas podem ter comprometido o resultado final pois se concentraram nas mesmas escolas.

Após, veio Mestre-Sala e Porta-Bandeira no qual, apesar dos julgadores individualmente terem feito seu papel, juntando os 5 cadernos ficou a impressão de que cada um deles viu um desfile diferente.

Na sequência veio Comissão de Frente com o seu “retrocesso” em busca do “impacto”, devolvendo o medo que no futuro próximo o nefasto pensamento do “pensar grande” volte a imperar neste quesito. Além disso, inventaram “fiscal de erro” até neste quesito, onde isso não era problema.Os dois quesitos plásticos, Fantasias e Alegorias e Adereços, foram de julgamento trágico. O primeiro nem tanto pelas notas em si, mas principalmente pela forma como se chegou nessas notas, quase ao total arrepio do Manual. Já no segundo, salvo um único “Dom Quixote”, voltamos ao terror de 2017 com o quesito voltando a ser um destacamento da inspetoria de multas de trânsito da Guarda Municipal. Simplesmente não houve julgamento de concepção.

Ao menos foi possível encerrar com chave de ouro com um positivamente surpreendente julgamento de Enredo.

Além disso tudo, ainda teve o “quase imbróglio” de Bateria, o qual retirei propositalmente desta linha do tempo porque foi um quesito bastante prejudicado no ano, sem qualquer culpa dos julgadores. Uma barbeiragem da LIESA no sistema de som dificultou o julgamento das escolas e, ao que tudo indica, não deu a todas condições iguais de julgamento.

Se claramente recuamos consideravelmente em relação a 2019, também é preciso reconhecer que sequer chegamos próximo do desastre total de 2017. Tivemos 2 quesitos de excelente julgamento e outros 2 ou 3 de bom julgamento.

Os principais problemas desse ano foram centralizados em poucos quesitos. Só que dentro destes os problemas foram graves e quase generalizados. A LIESA precisa rever o que ocorreu neles e tomar as devidas providências, porque a queda de qualidade em relação ao ano passado foi notória, mesmo que muitos destes julgadores tenham sido os mesmos do ano passado.

Finalizando esta maratona de 10 colunas, assim como no ano passado, farei uma lista resumida com sugestões para melhorar o julgamento nos próximos anos, algumas delas já abordada nas colunas anteriores deste ano. Elas serão elencadas pela facilidade de implementação e, em uma avaliação subjetiva, pelo menor nível de polêmica embutida na sugestão.Dessa forma, as primeiras da lista serão mudanças simples e pouco polêmicas, em sua maior parte apenas sugestões de aprimoramento do Manual do Julgador. Já as últimas demandariam uma mudança estrutural da forma como o julgamento hoje é feito e devem sofrer algum tipo de oposição.

  1. Verificar com urgência o ocorrido nas caixas de som durante as passagens das diversas baterias. A interferência da caixa de som, que não reproduz as batidas no mesmo tempo, na audição das baterias foi reclamada por 3 julgadores, dificultando o trabalho de julgamento em dois quesitos diferentes: Bateria e Harmonia.
  2. Clarificar no Manual do Julgador a separação entre os quesitos Evolução e Harmonia, evitando as confusões que ocorrem todo o ano
  3. Clarificar no Manual do Julgador a situação do julgamento do carro de som e bateria antes deles passarem na faixa de início do desfile. Especialmente no 1º módulo duplo, o julgador tem o som do carro desde o início do desfile, sendo que o mesmo só ultrapassa a faixa de início após 20 ou 30min. Em 2019, a São Clemente foi descontada em Harmonia por um problema ocorrido ainda no recuo inicial.
  4. Reforçar no Manual do Julgador, especialmente em Harmonia, que pequenas oscilações dos volumes dos microfones do carro de som decorrentes do sistema de som não devem ser despontuados.
  5. Clarificar no Manual do Julgador em Harmonia se os buracos devem ou não ser despontuados neste quesito.
  6. Reforçar a instrução para os julgadores do quesito Fantasias em relação ao critério de julgamento dividido em subquesitos.
  7. Deixar expresso em algum lugar do Manual do Julgador que o julgador deve se ater somente ao seu campo visual/sonoro para fazer sua avaliação e justificativa. Apesar de ser algo costumeiro, não está expresso.
  8. Verificar a dificuldade de visualização da pista e do cronômetro relatada no Módulo 3 em um dos cadernos de Harmonia.
  9. Clarificar no Manual do Julgador dos quesitos Fantasias, Alegorias e Adereços e Enredo se uma escola deve ser descontada por “falta de tempo necessário para avaliar” a ala/alegoria em virtude de uma evolução acelerada da escola.
  10. Clarificar no Manual do Julgador do quesito Enredo que a falta de ordem cronológica no roteiro do desfile só deverá ser penalizada quando dificultar o entendimento ou ferir a argumentação ou estruturação do enredo.
  11. Clarificar no Manual do Julgador que deverá haver maior complacência com o excesso de cores da própria escola nos quesitos plásticos.
  12. Clarificar no Manual do Julgador, no quesito Fantasias, se a despontuação por soluções similares em alas deverá ocorrer em concepção, por falta de criatividade, ou em realização, pela impressão causada pelas formas e cores.
  13. Verificar a situação no quesito Comissão de Frente para estimular que as escolas possam fazer uma apresentação frontal, visível para ambos os lados da Sapucaí, sem que sejam prejudicadas no julgamento.
  14. Criar um calendário com reuniões posteriores com os julgadores para fornecer um feedback do trabalho por eles realizado e receber o mesmo feedback dos julgadores sobre as dificuldades que eles tiveram para realizar seu trabalho.
  15. Considerar a possibilidade do retorno do quesito Conjunto, mas com um foco totalmente diferente do quesito extinto há alguns anos. Seria um quesito meramente plástico, para verificar as formas e cores da escola como um conjunto. Hoje, se houver uma total desconexão artística entre alegorias e fantasias não há um quesito para julgar tal desconexão.
  16. Considerar a possibilidade de se convidar para o Corpo de Julgadores pessoas ligadas ao carnaval, com conhecimento notório do quesito, mesmo que já tenham tido laços anteriores com alguma escola.

Agradeço a todos que acompanharam esta longa jornada da Justificando o Injustificável em 2020, esperando desde já um reencontro em 2021.

Imagens: Ouro de Tolo

One Reply to “Justificando o Injustificável: Encerramento e Sugestões”

  1. Rafael, considero suas sugestões excelentes e de fácil adoção por parte da Liesa. O item 13, por sinal, é necessário, até pelo ponto de vista dos direitos de quem pagou ingresso e fica privado de ver a apresentação das Comissões de Frente. A pessoa paga caro, chega bem mais cedo pra pegar um lugar privilegiado em frente a cabine de julgadores, e a a coreografia simplesmente ocorre de costas para ela por estar do lado contrário ao das cabines? Isso é um absurdo…

    O único item que considero muito polêmico e de difícil adoção é justamente o último. Inicialmente, acredito que boa parte dos amantes do samba apoiaria essa ideia, talvez até mesmo as escolas, mas certamente na primeira polêmica será uma reclamação e lamentação geral.

    Exemplo, imagina o Fábio Fabato em 2021 (ou 2022) dando 10 em enredo para a Mocidade dele e 9,9 para a Portela, decidindo o Carnaval? Por mais que pessoas coerentes como você o defendessem, dizendo que não foi absurdo, acho que a maioria dos torcedores vai xingar até a primeira geração da família dele, e vários questionarão a sua isenção, podendo fazer com que em julgamentos posteriores, pese a mão justamente em cima de sua escola, com receio de ter novamente sua imparcialidade questionada, afinal, é humano. Foi apenas um exemplo, o mesmo vale para o Aydano julgando a Beija-Flor, o Simas julgando o Império Serrano, o Leonardo Bruno julgando a Portela. Já deu uma olhada nos fóruns de Carnaval quando saem críticas dos sambas feitas justamente por essas pessoas? É uma chuva de “ele deu 9,8 porque torce pra escola x, então detesta a escola y!!” ou “óbvio que ele daria 10 para esse samba horroroso, é torcedor!”

    Vivemos num país onde tudo é tão posto em cheque todo o tempo (e com razão na grande maioria das vezes), que acredito que, infelizmente, ainda não estamos preparados para algo assim, ainda mais em algo que mexe tanto com as emoções como o Carnaval. Não temos maturidade para isso. Mas quem sabe um dia?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.