Retomando o Guia Prático das Prévias, passemos a explicação de como é feita a escolha dos delegados do Partido Democrata que irão escolher o candidato à Presidente na Convenção Nacional do partido.

Delegados do Partido Democrata

A eleição do candidato do partido é feita pelos delegados presentes na Convenção Nacional Democrata. Existem dois tipos de delegados no Partido Democrata: os “comprometidos” (pledged) e os “não-comprometidos” (unpledged).

O número de “comprometidos” para a Convenção Nacional de 2016 foi fixado em 3979 delegados. Esses delegados são distribuídos entre os 50 estados, de acordo com uma fórmula matemática que leva em consideração a porcentagem de votos que cada estado deu ao candidato democrata nas últimas três eleições presidenciais (08, 12 e 16) e pela quantidade de votos que cada estado tem no colégio eleitoral presidencial americano (vide o texto da nota 1 da 1ª parte para maiores explicações).

Já para os territórios e os “democratas pelo mundo”, os números são fixados pelo Comitê Nacional. O estado com o maior número de “comprometidos” é a Califórnia com 415 e os menores são Wyoming e North Dakota com 14. Os territórios tem 6 ou 7 delegados com a exceção de Porto Rico, que tem 51.

O fluxo de indicação, resumidamente, é o seguinte: de acordo com o resultado de cada estado, o candidato tem o direito de indicar um número específico de delegados. Esse delegado, na Convenção, votará no candidato que o indicou. É o direito de indicar cada um desses 3.979 delegados “comprometidos” que os candidatos democratas disputam nas primárias. Desde 2006 o Partido Democrata exige que todos os estados e territórios distribuam proporcionalmente os delegados “comprometidos” que cada um tem direito entre todos os candidatos.

Porém, em alguns estados certo número de delegados são divididos por distritos congressuais, de forma que a quantidade de delegados obtidos não necessariamente é estritamente proporcional a quantidade de votos obtidos no estado inteiro (at-large). Para esses casos, o melhor a se fazer é esperar a contabilidade de delegados da CNN (normalmente feita em tempo real) ou do blog The Green Papers, porque é bastante complicado fazer a conta exata de quantos delegados cada candidato obteve em cada distrito. Também em alguns estados há a necessidade de uma votação mínima em percentagem para que o candidato tenha direito a receber delegados.

A Convenção em si costuma ser apenas uma formalidade, pois o candidato já estaria indicado desde o resultado das prévias.

Além desses delegados “comprometidos” há delegados “não-comprometidos”. Eles são políticos democratas proeminentes que, mesmo sem primárias, tem garantido seu voto como delegado por sua posição. Eles tem o apelido de “superdelegados” e hoje são 771 delegados.

São eles Governadores, Deputados Federais (incluído os meramente observadores dos territórios), Senadores, membros do Comitê Nacional do Partido Democrata e políticos que já ocuparam as seguintes posições: Presidente dos EUA, Vice-Presidente dos EUA, líderes do partido na Câmara ou no Senado, Presidente de Câmara de Deputados e Presidente do Comitê Nacional do Partido Democrata³.

A quantidade de superdelegados poderá sofrer pequena alteração até julho conforme o Partido Democrata ganhe ou perca tais cargos, mas ele não muda de forma significativa.

Juntos “comprometidos” e “não-comprometidos” totalizam hoje 4.750 delegados. 

Porém, aqui há uma uma mudança muito importante incluída nas reformas do Partido Democrata para a convenção desse ano: para a 1ª votação os “Superdelegados” NÃO TERÃO DIREITO A VOTO.

Logo, na 1ª votação, apenas os delegados com voto comprometido de acordo com o resultado das prévias é que terão o direito de voto, de forma que o número mágico para se conseguir a indicação é 1990 delegados.

Caso ninguém atinga os 1990 nessa 1ª votação, os delegados comprometidos continuarão comprometidos (até 2016 alguns já eram liberados para mudar de voto na 2ª votação) mas os Superdelegados passarão a ter direito de voto e nesse caso ganhará a indicação quem conseguir mais de 50% dos votos de todos os votantes.

Só a partir de uma possível 3ª votação os comprometidos aos poucos passarão a ser livres para mudar de voto.

Candidatos do Partido Democrata

A própria sistemática de candidaturas nos Estados Unidos é bem diferente. Como cada estado tem uma eleição totalmente independente, cada um com suas próprias regras, existem vários candidatos. Muitos deles são inexpressivos e participam das eleições em poucos estados, as vezes apenas em um.

Nesse rápido perfil, apresentarei apenas os candidatos com alguma representatividade nacional, até porque a mesma zona que ocorreu no Partido Republicano em 2016, ocorreu no Partido Democrata durante 2019, chegando a ter momentos nos quais havia 18 candidatos considerados reais. Mas entre desistências e baixa popularidade, a quantidade de candidatados minimamente importantes foi reduzida a 7 pessoas. Abaixo um breve perfil de cada uma delas.

Joe Biden: o Vice Presidente de Obama durante seus 8 anos de mandato é um candidato moderado, que defende políticas sociais, mas sem ser radical. Desde o início de 2018 vem liderando as pesquisas com certa folga, mesmo que em um campo muito fragmentado de candidatos isso signifique ter menos de 30% na maior parte das pesquisas nacionais. Apesar de ter posições consideradas racistas na década de 90, por ter sido o vice de Obama e ser uma voz moderada dentro do cada vez mais liberal Partido Democrata, ele tem a avassaladora maioria dos negros (nos EUA quase todos os negros são democratas e é um eleitorado dos mais conservadores dentro do partido). Por esse apoio quase monolítico dos negros, ele ainda é o favorito para a indicação. Outro fator negativo para Biden é sua idade de 77 anos. Tanto ele, como Sanders como o próprio Presidente Trump caso eleitos quebrarão o recorde de pessoa mais velha a ser eleita presidente dos EUA. Hoje tal recorde pertence ao próprio Trump. 

Bernie Sanders: após uma campanha surpreendente em 2016 ele está de volta. Também é um político muito experiente, como indica sua avançada idade de 78 anos, sendo atualmente senador pelo pequeno estado de Vermont. Ele sempre foi um “independente”, ou seja, um candidato sem partidoe sem o suporte das grandes máquinas financeiro-partidárias por trás. Apesar de independente, Sanders sempre se alinhou aos democratas quanto às visões políticas, especialmente a ala mais à esquerda do partido. É o grande baluarte dos ultra-esquerdistas e um dos raros políticos americanos proeminentes que se autointitula “socialista”. Especialmente em 2020 suas chances dependem de ser um candidato “faccional”, ou seja, ser eleito por ser o mais votado com uns 20-25% em um cenário altamente fragmentado. Mas seu histórico independente o faz ser pouco querido entre os Superdelegados e com isso sua viabilidade ficou reduzida a quase zero com o surgimento da próxima candidata na lista.

Elizabeth Warren: a senadora pelo Massachussets, estado considerado berço dos Democratas, ganhou proeminência política por lutar pelo direito dos consumidores, sendo que o então Presidente Obama criou uma agência nacional de proteção ao Consumidor e a designou a 1ª diretora da instituição. Ela também é ultra-progressista, mesmo que um ou dois passos a menos que Sanders e não se considera socialista. Porém, ela sempre foi uma ativista democrata e conta com muito mais simpatia do Partido como um todo do que Sanders. Porém está em queda nas pesquisas no momento.

Pete Buttigieg: o prefeito de uma pequena cidade do meio-oeste há algum tempo é apontado por ninguém menos que Barack Obama como uma grande liderança futura do Partido Democrata. Tem apenas 37 anos e pouca experiência política, porém um discurso bem montado para conquistar os jovens democratas “liberais mas nem tanto assim”. Porém ele tem um histórico problemático em lidar com a violência da polícia contra comunidades negras em sua cidade (nos EUA a política é uma questão municipal nas cidades de médio e grande porte), que afasta alguns desses jovens. Para piorar, ele é gay e isso afasta praticamente todo o eleitorado negro americano, que é a parte mais religiosa do partido.

Amy Klobuchar: a Senadora de Minnesota sempre foi considerada uma favorita desde quando lançou sua campanha ainda no início de 2019, porém até agora não deslanchou. Porém ela seria a 1ª presidente mulher a ser eleita (uma meta para os inclusivos democratas há algum tempo) e é uma branca moderada do meio-oeste, ou seja, tem o perfil ideal para recuperar votos tradicionalmente democratas naquela região entre Minessota e Pennsylvania. Por mais que até agora sua candidatura não tenha empolgado, ela ganhou algum momento desde o debate de dezembro e pode ser aquele nome que unifica de última hora um partido fragmentado que está desesperadamente unido na missão de retirar Trump da presidência de qualquer jeito.

Tom Steyer: o bilionário do mercado financeiro ficou famoso por ser um dos maiores incentivadores do impeachment de Trump desde sua posse e nesta campanha gastou muito de sua própria fortuna. Agora também está torrando muitos milhões de seu próprio bolso na campanha, especialmente comprando espaços na TV nos estados das 4 primeiras prévias. Após muito tempo e dinheiro gastos inutilmente, finalmente nessa semana uma pesquisas o colocaram em um honroso 2º lugar nos estados de Nevada e South Carolina. É apenas 1 pesquisa, que pode acabar se mostrando como exceção; mas como é dessa semana, a prudência pede que se acompanhe as próximas para se verificar se não é uma reviravolta da situação anterior.

Michael Bloomberg: após muitas idas e vindas em 2016, finalmente o bilionário dono das organizações Bloomberg decidiu lançar sua campanha. Porém isso ocorreu de forma muito tardia. Enquanto todos já estão em campo desde o início de 2019, Bloomberg só anunciou sua candidatura em dezembro. Ele é bastante moderado e conta com a simpatia de uma minúscula parcela do Partido Democrata, em torno de 5%. O problema é que mais da metade dos outros 95% o odeia com todas as forças e não votarão nele de jeito algum. Logo, ele no máximo poderá atuar como alguém a roubar votos de outros, mas sem chances reais de ser o candidato a presidente do Partido. Por sua tardia candidatura, ele só conseguirá se candidatar a partir dos estados da Super-terça.

Calendário das Prévias

Registro na Tabela abaixo as datas das votações em todos os estados. Em parênteses está o número de delegados “comprometidos” em disputa em cada estado.

Destaque para a já tradicional “super-terça”, que cai sempre na 1ª terça-feira de março, data em que tradicionalmente são marcadas muitas prévias ao mesmo tempo, sendo a primeira grande alocação de delegados na corrida das prévias (as vezes, a maior). Esse ano nada menos que 32% dos delegados democratas “comprometidos” serão dados nesse dia, incluído os mamutes California e Texas. Ou seja, com mais de 1/3 dos delegados já alocados após a Super-terça (antes dela já terão feito suas prévias 4 estados), é praticamente impossível que uma candidatura que ainda não tenha decolado até a Super-terça tenha qualquer condição de continuar na disputa.

Na tabela abaixo, Washington é um estado americano no extremo noroeste, onde fica a cidade de Seattle. O Distrito da capital é nomeado Washington D.C. (abreviação de District of Columbia).

Datas Democratas
03/fev Iowa (41)
11/fev New Hampshire (24)
22/fev Nevada (36)
29/fev South Carolina (54)
3/mar (Super Terça) Alabama (52)
  Arkansas (31)
  California (415)
  Massachusetts (91)
  Maine (24)
  Minnesota (75)
  North Carolina (110)
  Oklahoma (37)
  Samoa Americana (6)
  Tennessee (64)
  Texas (228)
  Utah (29)
  Vermont (16)
  Virginia (99)
  Total do dia: 1277
10/mar Democratas pelo Mundo (13)
  Idaho (20)
  Michigan (125)
  Missouri (68)
  Mississippi (36)
  North Dakota (14)
  Washington (89)
  Total do dia: 365
14/mar Marianas do Norte (6)
17/mar Arizona (67)
  Florida (219)
  Illinois (155)
  Ohio (136)
  Total do dia: 577
24/mar Georgia (105)
29/mar Porto Rico (51)
4/abr Alaska (15)
  Hawaii (24)
  Louisiana (54)
  Wyoming (14)
  Total do dia: 107
7/abr Wisconsin (84)
28/abr Connecticut (60)
  Delaware (21)
  Maryland (96)
  New York (274)
  Pennsylvania (186)
  Rhode Island (26)
  Total do dia: 663
2/mai Guam (7)
5/mai Indiana (82)
12/mai Nebraska (29)
  West Virginia (28)
19/mai Kentucky (54)
  Oregon (61)
2/jun Montana (19)
  New Jersey (126)
  New Mexico (34)
  South Dakota (16)
  Washington D.C. (20)
  Total do dia: 215
6/jun Ilhas Virgens (7)

 

Notas

3 – Vários estados americanos, diferente dos estados brasileiros, além de uma Assembleia Legislativa Estadual, tem também um Senado Estadual

4 – Nos Estados Unidos, diferentemente do Brasil, são permitidas candidaturas independentes, sem o endosso de nenhum partido para qualquer cargo, inclusive para presidente. Na prática é muito difícil eleições de candidatos independentes, normalmente quando isso ocorre, o candidato já teve uma longa história em um dos partidos e por algum problema específico saiu do partido, mas mantém suas ideias “independentes” ligadas ao partido de origem. Tal não é o caso de Sanders, que desde o início sempre foi um independente.

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