(Maurício Neves de Jesus é escritor, professor universitário e advogado. Nasceu no dia 7 de abril de 1973, pouco antes de o Flamengo enfrentar a Portuguesa no Maracanã. Zico estava no banco e, quando entrou no jogo, Maurício nasceu. Ele não acredita em coincidências e nem no Facebook.)

A máquina havia enguiçado. Os três jogos em sequência no Nordeste pelo campeonato brasileiro em novembro de 1977 terminaram de instaurar a cizânia entre os tricolores, algo que se ensaiava desde o revés diante do América, no Maracanã, dias antes.

Primeiro o Fluminense sofreu para vencer de virada o seu xará de Feira de Santana, com gol no último minuto. Depois, levou um gol nos acréscimos e cedeu ao Vitória o 1×1 em Salvador. Por fim, derrota para o Confiança no Batistão. Ainda em Aracaju, no bar do hotel Palace, amortecendo a derrota com o scotch habitual, o supervisor Domingo Bosco disse aos que lhe ouviam que cinco jogadores daquele elenco não estavam à altura do Fluminense.

Entre os que ouviam estavam jornalistas cariocas, enviados para a cobertura do giro nordestino tricolor. Antonio Maria Filho, de O Globo; e Januário de Oliveira, da Rádio Nacional, entre eles. Bosco não pediu segredo e flambou a crise com seu scotch.

Disse que os cinco jogadores eram o goleiro Renato e o atacante Doval, oriundos do troca-troca com o Flamengo; e o beque Miguel e os laterais Marinho e Rubem Galaxe. Só gente graúda. O desabafo virou notícia e o Fluminense viveu sua “La Zizanie” como se escrita por Goscinny e ilustrada por Uderzo. Na aldeia tricolor, quase ninguém mais se sentava à mesa com Bosco.

Após a virada do ano, Francisco Horta, o inventor de Domingo Bosco para o futebol, perdeu a eleição para Silvio Vasconcelos, que mudou toda a estrutura do futebol do clube. Da supervisão, saiu Bosco e entrou José Bonetti. A Máquina era página virada nas Laranjeiras. Horta ligou para Márcio Braga, presidente do rival entre os rivais: “O Bosco é o melhor, é rubro-negro, leva ele para o Flamengo”.

O resto é história, poderia eu dizer. Mas há tão pouco sobre Domingo Bosco nos registros ao alcance de um clique que é preciso dizer mais. Das minhas memórias de jovem torcedor, revisito a sensação de que o Flamengo, guardado por Domingo Bosco, estava protegido e tudo ia bem. Tudo.

Da negociação para intermediar as premiações entre diretoria e jogadores à correria atrás de morangos para Zico em uma manhã de Fla-Flu, ele cuidava de tudo com o capricho dos apaixonados. A parada em Los Angeles para uma adaptação mais suave ao fuso horário do Japão em 1981. As conversas com Tita, insatisfeito com sua posição no time. Lembro de sua voz embargada no microfone de Kleber Leite, no gramado amarelado do Estádio Nacional de Tóquio ainda brilhando do suor de rubro-negros e reds: – Esse time não perde. É campeão do mundo. É cam-pe-ão do mun-do!

Naquele domingo, e em tantos outros domingos, fomos felizes enquanto de tudo cuidava Domingo. Concursado no Ministério do Trabalho, o que lhe dava uma estabilidade que afrontava sua alma aventureira, aposentou-se cedo. Ganhou e perdeu muito dinheiro várias vezes, comprando e vendendo restaurantes, boates, cavalos de corrida e automóveis. Habitava o Jockey Club, bebia no Antonio´s, frequentava muito as madrugadas, pouco as manhãs. Comprava sonhos, como a mítica Sky Terrace, boate no sétimo andar do Gávea Tourist Hotel, seiscentos metros erguidos na floresta na Estrada das Canoas com uma vista cinematográfica para a Praia do Pepino. A realidade não suportava os sonhos de Domingo e os soterrava.

O visionário Francisco Horta, confrade das noites de scotch, via no futebol o campo perfeito para a grandeza de alma de Domingo Bosco. Antecipou em quatorze anos o Field of Dreams e, antes de tomar posse como presidente do Fluminense, convenceu o amigo rubro-negro a abandonar a concessionária de automóveis onde estava trabalhando. Juntos construíram a Máquina Tricolor, tornando real o que parecia delírio: tirar Rivellino do Corinthians e Doval do Flamengo. Se você construir, eles virão, dizia a voz nas cabeças de Bosco e Horta. Vieram craques, títulos, noites festivas no inigualável Rio dos anos 1970.

Após o enguiço de 1977, Horta perdeu nas urnas e o Fluminense perdeu o encanto. No dia 22 de fevereiro de 1978 Domingo Bosco foi para o Flamengo, de onde só sairia quatro anos mais tarde, partido em dois: a alma para o céu dos sonhadores, o corpo para o Cemitério do Caju.

Bosco chegou à Gávea falando alto. Tornar um time com Zico, Junior, Cláudio Adão e um punhado de garotos campeão do Rio? Pule de dez. Não que o cenário fosse animador para aquele Flamengo eliminado do campeonato brasileiro de 1977, com Cláudio Coutinho na seleção e sem calendário imediato.

Para um clube que alimenta crises como quem acende um cigarro no outro, o Flamengo entendeu que era hora de mudar o departamento de futebol. Da vice-presidência e da supervisão saíram Bruno Silveira e Dante Rocha, substituídos por Antônio Augusto Dunshee de Abranches e Domingo Bosco.

Disse Dunshee: “Só trabalharemos com quem é Flamengo, Dante é Fluminense, Bosco é Flamengo e agora está no lugar certo”. De cara, Bosco marcou seis amistosos e o Flamengo rumou para o Planalto Central, afastando-se da turbulência da Praça Nossa Senhora Auxiliadora. “Somos um time e times precisam jogar”, afirmou, já cercado pelos jornalistas, ávidos pelas frases fortes.

Bosco sabia que era preciso esperar por Coutinho. Joubert sucedeu a Jaime Valente como substituto do Capitão, mas tudo era espera: passou o Brasileiro de 1978, passou a Copa do Mundo e Coutinho voltou à Gávea para ganhar o Palma de Mallorca batendo o Real Madrid na final e levantar o estadual vencendo os dois turnos. Já era outro Flamengo, o Flamengo de Coutinho, de Zico, de Raul, de Carpegiani, de Junior, de Rondinelli, o que muito depende de por onde se conta essa história. Para essa aqui, já era o Flamengo de Domingo Bosco.

Os jogadores perceberam a diferença. Havia uma paz para trabalhar na Gávea poucas vezes experimentada. Bosco disparava sua metralhadora verbal para desviar o foco de eventuais tensões.

Só na semana que antecedeu a decisão com o Vasco ele incendiou o noticiário três vezes: criticou os jogadores do Olaria, dizendo que haviam batido nos craques rubro-negros a mando do Vasco no penúltimo jogo do certame; criticou toda a arbitragem carioca dizendo que o Flamengo preferiria um juiz vindo do exterior ainda que bancasse os custos sozinho e, seriíssimo, disse que pediria à federação para que as bolas da final fossem trocadas de 15 em 15 minutos. “Essas bolas perdem o peso e a forma com rapidez, e aqui o Zico só treina faltas com bolas novas. No jogo, em uma decisão, não pode ser diferente”.

Tamanha foi a cortina de fumaça levantada por Domingo Bosco que ninguém se apercebeu que Cláudio Adão havia sido confirmado na decisão de 1978 após o estiramento muscular que o afastara dos campos por três rodadas sem haver treinado uma única vez.

Só no Maracanã, momentos antes do jogo, soube-se que Adão não jogaria e que nunca teve chances reais de ser escalado. Uma pequena artimanha que fez o Vasco treinar sua defesa para um adversário com centroavante, e que talvez não tenha sido tão decisivo para o resultado final – eis que Rondinelli saltou como um centroavante para o gol do título.

Mas Bosco era louco por detalhes. Pela soma dos detalhes. Pela perfeição.

Na segunda-feira de ressaca, 4 de dezembro de 1978, como se não houvesse sorvido na véspera o scotch dos justos e dos campeões, Domingo Bosco deixou encaminhada toda a pré-temporada do Flamengo em Nova Friburgo para janeiro de 1979. Saiu da Gávea tarde da noite, cansado, porém convicto. “Enquanto eu estiver aqui, o Flamengo será campeão todos os anos”, disse, rumo ao estacionamento, capanga embaixo do braço.

Só depois de planejar as atividades do início de 1979, Domingo Bosco renovou seu contrato. Recebia 40 mil cruzeiros mensais, passou a ganhar 55 mil, pouco mais da metade dos 100 mil que viriam a ser o salário de Cláudio Coutinho. “Alguns acham que é muito para um supervisor, ganhar por meio técnico. O Horta me ofereceu mais do que eu esperava no Fluminense, e ouvi dele que sou craque, e craque ganha bem. Eu acreditei. Sorte dos meus jogadores que são craques, preciso ser fiel a este princípio”, compromissou-se.

A última das missões de Domingo Bosco em 1978 foi justamente renovar o contrato de Cláudio Coutinho. Os 100 mil cruzeiros que tornaram Coutinho o treinador de melhor salário no Brasil sequer foram negociados. No vestiário abafado do estádio Vivaldo Lima, em Manaus, momentos antes de o Flamengo vencer o amistoso contra o Nacional na tarde de 17 de dezembro por 2×0, chegando a 53 vitórias e 146 gols marcados no ano, aconteceu um gesto pouco repercutido na história rubro-negra.

Bosco há dias esperava por uma resposta de Coutinho, a quem havia perguntado quanto queria receber para continuar no Flamengo. Quando o time se preparava para entrar em campo, foi chamado de lado pelo treinador, de quem recebeu um envelope. Bosco abriu e lá haviam três páginas em branco, a última delas com uma assinatura de Cláudio Pêcego de Moraes Coutinho na parte de baixo. “Preenche como quiser, estamos juntos e vamos fazer história”, disse Coutinho.

Repetidas vezes Bosco declarou admirar duas virtudes de Coutinho: a paixão e a competência. Paixão pelo Flamengo, que declarara em 1976 ao assumir o clube pela primeira vez, dizendo que ser rubro-negro era um dos maiores orgulhos de sua vida, e a competência que o fazia dissecar jogadas, manobras e conceitos do futebol elevando o jogo ao patamar de ciência. Domingo acreditava que, junto a Coutinho, levaria o Flamengo a ser o maior time do mundo, sensação que cresceu depois das vitórias europeias de 1978 e 1979. Por isso, quando Coutinho não renovou o contrato com o Flamengo no final de 1980, o supervisor sofreu um duro golpe.

Após a perda do tetracampeonato estadual, ainda que celebrasse a conquista do primeiro nacional de sua história, o Flamengo viu-se em crise. Após o último jogo do ano, um amistoso sem gols contra o Grêmio em Porto Alegre, vazou uma lista de dispensas que Coutinho teria apresentado aos diretores, fato confirmado por Antônio Augusto Dunshee de Abranches.

A lista era extensa e pesada: Cantarelli, Carlos Alberto, Rondinelli, Adílio, Carpegiani, Lico, Fumanchu, Nunes e Julio César Uri Geller. Uma senhora paulada. Dunshee, presidente do conselho, candidato da situação à reeleição e virtual novo presidente rubro-negro, descartou fazer as dispensas.

Coutinho mostrou-se aborrecido, afirmando que não apresentara nenhuma lista. Sua versão se chocava com a dos diretores. Entre os corners do ring, Bosco. Ao quebrar o silêncio, Coutinho afirmou ter entregado algumas anotações ao supervisor. “Eram ideias, conceitos. Creio que não podem estar no mesmo elenco duplas como Raul e Cantarelli, Luís Pereira e Rondinelli, Adílio e Carpegiani, porque o reserva sempre fica insatisfeito. Acho que o Bosco se precipitou e entregou algo que era apenas um estudo aos diretores. E vazaram. Isso não podia ter acontecido e não tem mais clima para eu continuar no Flamengo”, disse o treinador.

A Gávea fervia sob o sol de dezembro. Mesmo com os jogadores de férias, a crise era inegável e o mal-estar, generalizado. A isso somou-se a morte do roupeiro Jorge Antunes dos Santos, o Ferrugem, figura das mais queridas no clube, vítima de derrame cerebral. Luiz Mendes, com três décadas de crônica esportiva, lançou o sinal de alerta: “O Flamengo vem de três anos de sonho e entrará 1981 encarando a realidade de frente”. O quadro não era animador, minha gente.

Amanhã, a segunda e última parte.

[N.do.E.: este texto sendo publicado na data de hoje tem um significado especial para mim. Há exatos dois anos perdia meu pai, que era grande fã tanto de Domingo Bosco quanto de Cláudio Coutinho. Pai, dá um abraço nos dois pela gente aí no céu. PM]

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