Neste último texto resumo da série, a ideia é (como diz um amigo da coluna) fazer uma “ego trip”: passear entre episódios que vivi e algumas pensatas que praticamente duas décadas acompanhando de perto o mundo do carnaval me ensinaram.

Assim como no texto anterior, sem os limites de caracteres do Twitter, desenvolverei mais detidamente alguns dos tópicos escritos originalmente. Como sempre, numerados.

1 – União de Jacarepaguá 2005. O samba tinha 48 versos e na minha ala, que era a primeira, só eu sabia o samba. Também era a única roupa completa.

A escola caiu.

Tenho alguns rebaixamentos no currículo, mas praticamente todos anunciados pré carnaval. Títulos são quatro: três na hoje Série A – Vila Isabel 2004, União da Ilha 2009 e Renascer 2011 – e um no Grupo Especial, Portela 2017.

2 – Concentração do Império Serrano, 2010. A galera da Harmonia veio com sacos daqueles de estiva cheios até a boca com cerveja gelada para distribuir para a gente. Não sobrou uma latinha para contar a história.

Diria sem medo de errar que a escola melhor de “copo” entre todas em que desfilei é o Império Serrano. Em 2012 integrantes da Harmonia tentaram impedir os componentes de beber na concentração e quase entraram na porrada…

3 – Meu primeiro desfile como Harmonia de ala foi por acaso. União de Jacarepaguá, ano do Paulinho da Viola, eu estava com uma camisa de Apoio (aka bicão) e a diretora da escola:

“Tá vendo essa ala aí? Leva ela na avenida e não deixa embolar com a ala da frente nem a de trás.” Consegui fazer direitinho, acho.

Provavelmente, depois que encerrar meu ciclo de dirigente/conselheiro na Portela, devo me fixar na Harmonia. É uma função de que gosto.

E um bom Harmonia lidera pelo exemplo, sem gritar ou gesticular bastante. Ter bons “pontas de ala” auxiliando também é importante.

Uma das coisas mais complicadas para se fazer Harmonia de ala é celebridade desfilando fantasiada. Você acaba tendo que se desdobrar entre o trabalho de Harmonia propriamente dito e tirar os fotógrafos da frente da ala

Em tempo, a gente sabe que a galera da imprensa está trabalhando, mas tem hora que atrapalha bastante o trabalho do pessoal da Harmonia.

4 – Uma coisa que aprendi nesses quase 20 anos acompanhando o mundo do carnaval de perto é que a maioria desses tiozinhos e tiazinhas que aparecem na televisão não valem uma mariola mordida.

Muitos se acham donos de escola e, além disso, a imagem que passam não corresponde exatamente ao que são enquanto pessoas na realidade.

Uma outra coisa também, e isso independe de escola: tal como Igrejas, clubes e semelhantes, para muita gente o carguinho na agremiação é sua realização pessoal. Que se dane a instituição.

Por outro lado, algo interessante é que muita gente antiga nas escolas não tem noção da importância que tem. Acham que não merecem reconhecimento e/ou homenagens.

5 – Um amigo me disse que num curso de jurados da série A um presidente agradeceu a uma jurada pela forma como uma justificativa foi escrita, pois a partir dela pôde demitir a sua porta bandeira.

A história foi a seguinte: ela quis usar por baixo da saia o “short da sorte”, que era numa cor diferente do fornecido pela escola. A jurada viu e canetou por conta disso.

Ah, a vaidade…

6 – Resumindo alguns tópicos em um só, confusões em arquibancadas, frisas e camarotes são razoavelmente comuns. Pouco espaço e/ou conforto, dificuldade com fotos e fantasias ou bolsas térmicas muito grandes e disputas por lugares são comuns.

Especificamente no caso das frisas, o público da Fila A no Especial em sua maioria está ali para bater selfies e beber/comer, pouco se atendo aos desfiles em si. É meio desanimador.

Outro problema é componente de camisa parado nas laterais atrapalhando a visão de quem está nas frisas.

Por outro lado, em 2016 um pessoal de Santa Catarina pagou 4 mil reais em uma frisa extra apenas para colocar seus comes e bebes sem atrapalhar ninguém. Luxo.

7 – Eu acho que não orna samba enredo com melodia “pra cima, pula pula”, e enredos de temática africana. O denominado “samba afro animadinho”. Dois exemplos são Império da Tijuca 2018 e Alegria da Zona Sul 2019, ambos da mesma parceria.

Samba com temática de Orixás pede melodia mais “pesada”, mais densa. Sou tradicionalista neste ponto.

8 – Infelizmente, 171 é o número da sorte no mundo das escolas de samba. Isso melhorou um pouco de uns anos para cá, mas quase dá para se considerar o calote como um patrimônio imaterial do carnaval carioca.

A propósito, depois que se passa a fazer parte de uma diretoria a gente entende porque tem profissionais muito talentosos mas que não param em escola nenhuma. Falta profissionalismo em muitas ocasiões.

9 – Uma pitada de polêmica: a mesma tolerância que o mundo do carnaval tem com carnavalescos, figurinistas e passistas homossexuais não tem com intérpretes e mestres de bateria. É velado, mas existe.

10 – Institucionalmente as escolas de samba sempre foram conservadoras de direita. Sempre se moldando e/ou dialogando ao poder público da vez. A grande exceção foi a década de 80, mais pródiga em enredos críticos se aproveitando de redemocratização – escrevi sobre o tema em 2017.

Podemos ter enredos de temática progressista, mas a instituição não é – Tuiuti, é contigo mesmo (risos).

11 – Falou em “o samba concorrente tem apoio dos segmentos”, eu fico com o pé atrás. Tem muito apoio “e$pontâneo”, e muitas vezes bastam duas mariolas mordidas, se é que me entendem…

Um samba enredo no Grupo Especial pode gerar até R$400 mil brutos em direitos. Amigo, é guerra (risos). Algumas escolas descontam parte do valor nos repasses aos vencedores.

Já na Série A o valor bruto gira em torno de R$10 mil. Não à toa o fenômeno das encomendas prospera neste grupo – a disputa é deficitária para todo mundo. Mesmo a Unidos de Padre Miguel, que paga prêmio aos vencedores, não tem tantos concorrentes assim.

12 – Meu saudoso pai tinha o hábito de falar “agora não tem volta” quando o puxador começava a cantar o samba do ano no desfile. É uma das grandes verdades do mundo do samba.

13 – Dificilmente uma concentração confusa irá render um bom desfile. Com quase 20 anos desfilando, só de chegar à concentração consigo entender e prever o desfile. Óbvio que não percalços de avenida propriamente dita.

O contrário pode acontecer – Portela 2001, por exemplo, a concentração foi extremamente tranquila, mas o desfile foi bem ruim.

14 – Desfilei na Inocentes de Belford Roxo em 2004 vestido de grego com uma roupa transparente. Meu único em carro alegórico, claro.

A escola caiu.

Também vim na Vila Isabel também em 2004 dentro do “mar de Paraty” que fechava o enredo.

A escola subiu.

15 – O falecido Falcon não gostava que bebessem à frente dele. Desfile das Campeãs 2014, eu numa espécie de frisa camarote, desci para desfilar com um copo na mão (acima) e tomei um esporro de leve.

Chega na Apoteose, ele vira para mim:

“É, você se garante. Não encho mais teu saco”

E realmente nunca mais encheu.

16 – Paulo Barros é um gênio, mas a meu juízo ele se destaca, mesmo, é no profissionalismo. Tinha ressalvas antes dele parar na minha escola, hoje admiro bastante.

Por outro lado, seu histórico indica que ele não pode ser deixado com liberdade absoluta no comando de uma escola. Ele obteve seus melhores resultados até agora na Tijuca e na Portela, agremiações com Direções de Carnaval atuantes.

Tive uma única chance de conversar com ele, no barracão da Portela semanas antes do desfile campeão de 2017. Demonstrou conhecer nosso trabalho no Conselho Fiscal e ainda brincou dizendo que “tinha de agradar senão não tinha verba”.

17 – À época do incêndio da Cidade do Samba eu trabalhava na área de SMS. Mostrei as imagens para dois engenheiros de segurança de trabalho e os dois acharam impossível que o incêndio tivesse começado no então barracão da Liesa. Especialmente devido ao vento.

Mas enfim, a perícia teve acesso aos dados e determinou a dinâmica, né?

Bom, é isso.

Imagens: Arquivo Ouro de Tolo

23 Replies to “Thread de Carnaval: Pensatas”

  1. obrigada pela thread, pedro!! um abraço

    ps: só tá difícil de engolir essa história de PB gênio… torci o nariz depois do que ele fez com vila ano passado. vamos esperar a viradouro esse ano!?

      1. Veja os casos de Viradouro em 2008 (quando iria colocar um carro com o Holocausto, mas foi barrado pelos judeus) e Portela 2016 (quando a escola deixou um monte de água na pista).

  2. “Tiozinhos e tiazinhas que aparecem na televisão”… Quem seriam? Dirigentes? Integrantes mais conhecidos, como intérpretes, mestres de bateria, casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, rainhas de bateria? Componentes mais famosos como integrantes da Velha-Guarda ou alguns compositores? Celebridades ocasionais? Fiquei na dúvida…

    Quanto ao item 10, impressionante como tem gente que pensa que escola A é de esquerda e escola B de direita, ou algo parecido. Quando um enredo com um viés mais político aparece, é fruto da arte e trabalho de um artista que realmente pensa assim, e tem talento para fazer isso muito bem, como os recentes desfiles de Jack Vasconcellos e Leandro Vieira.

    Também acho o Paulo Barros genial, e até mesmo seus erros mostram um artista inquieto, sempre se arriscando, fugindo do lugar comum. Mas concordo que os interesses da escola sempre devem vir em primeiro lugar, e suas loucuras devam ser razoavelmente contidas por uma direção de Carnaval forte e atuante. Com essa característica e o profissionalismo que você citou, gostaria muito de ver Paulo Barros meio que voltando as origens e fazendo Carnaval em alguma escola sem tantos recursos, onde arriscar com muita criatividade seja a única opção para um grande resultado, e o profissionalismo cairia como uma luva para resolver problemas crônicos da escola. Resumindo: adoraria ver Paulo Barros na União da Ilha! (só acho impossível isso acontecer…)

    1. 1) Tem de tudo um pouco. Tem uma pessoa que toda vez que aparece na tv eu imediatamente solto um “filha da puta”… risos
      2) exatamente isso. O artigo que linkei no texto explica de forma mais detalhada a questão;
      3) ele é um profissional caro;

    2. Sobre o item 10:

      Um grande exemplo que as críticas podem ter vários vieses políticos foi o ano passado: todo mundo fala da Tuiuti, porque a crítica dela foi voltada à esquerda com o vampiro presidencial e os patos da FIESP, mas a Beija Flor foi campeã com outra crítica social, mais voltada à direita, segundo algumas pessoas, muito por causa das alegorias com a família chorando a morte do PM e o tiroteio interrompendo uma aula, ou seja, uma crítica referente à violência urbana.

      Porém, neste ano, parece que teremos uma maior quantidade de enredos críticos (pelo menos observei 4 no Especial – Tijuca, Mangueira, Tuiuti (que virou a queridinha da esquerda) e São Clemente (com a reedição do histórico desfile de 1990), sem contar a Sossego e seu capeta com forma de Crivella (que vai pra avenida). Como eu comentei no grupo Sambas de Enredo no Facebook, a Sossego ou será campeã, ou será canetada (e creio que acontecerá a segunda coisa).

      Abraços

  3. Tenho 3 apontamentos:
    – acho surreal eu ter o mesmo número de títulos como desfilante que você. Tenho no B, Cubango 2009; no A, Viradouro 2014 e 2018; e Portela 2017. Espero que ganhemos o 5º neste ano.
    – o lance do “agora não tem volta”, teve na Inocentes de Belford Roxo 2018. O desfile recomeçou porque tinha um carro da Cubango emperrado na dispersão.
    – Discordo com o lance de concentração ruim é sinônimo de desfile ruim. Já vi muito milagre acontecendo naquela curva. Em 2017, desfilei pelo Salgueiro também e nunca vi uma concentração tão confusa e bagunçada, não tinha fila, não tinha organização, não tinha nada. Eis que a escola começou a andar, armou em cima da curva e o desfile passou muito bem, conquistando o 3º lugar.

    1. Salgueiro em 1984 também teve isso de começar e parar. Mas é extremamente raro. Começou, não tem volta…

      Eu deixei de ser campeão no Acesso B em 2008 porque fiquei com preguiça de sair da frisa pra pegar a roupa de bateria da Inocentes na concentração. Tava chovendo à beça.

  4. Que isso Migão, enumerou os títulos e não o rebaixamento…rsrsrs. Brincadeira! Nem posso falar nada que em 2018 consegui o bi-rebaixamento com Independente (Especial) e Imperador do Ipiranga (Acesso), aqui em Sampa.

    Em 2006 o cronometro voltou a pedido do presidente da Águia de Ouro. O locutor anunciou Vila Maria e ele foi na cabine pra mandar voltar. Pra matar o cara ainda “corrigiu” falando Águias de Ouro. Ao se explicar no microfone da Globo, Sidnei Carriolo mandou: “Lógico anunciou Vila Maria…aqui é o Águia de Ouro, todo respeito com a Vila Maria! E sempre Águias de Ouro…que Águias ôôô caralho…!!!”

    1. Eu me lembro dessa da Águia de Ouro (risos)

      Meus rebaixamentos: Tuiuti 2001, Inocentes 2004, União de Jacarepaguá 2005, Vizinha Faladeira 2008 e Boi da Ilha 2010. Acho que não me esqueci de nenhum rs

      1. Caprichosos 2011. Minha camisa chegou a cinco minutos do desfile e a escola inteira comemorou quando o presidente avisou no grito de guerra que estava se afastando da escola…

  5. Bom, em dois desfiles que estive carrego um rebaixamento no currículo – Viradouro 2015, logo na minha estreia rs

    União de Jacarepaguá 2005 é apelidado por amigos meus de “Faroeste Caboclo do carnaval”

    Nunca assisti aos desfiles nas frisas (pretendo num futuro bem próximo) mas concordo demais com o item 6. Triste, porém a realidade.

    Migão, senti falta da história daquela rainha de bateria famosa que numa final de Grupo de Acesso há alguns anos estava, digamos, se divertindo com um integrante da bateria mesmo sendo casada com outro famoso rs

  6. Migao, podia das escolas do Rio que surgiram de times de futebol, pois quando se fala das organizadas muita gente ignorante fala que “futebol e carnaval tem nada haver”, maus sabem que duas das escolas mais antigas do Brasil (Mangueira e Vai-Vai) são oriundas de times extintos de futebol.

    1. Tem muito mais que só estas duas. A Mocidade nasceu de um time de futebol amador (daí o Independente no nome) e a Unidos de Bangu é a primeira escola no Brasil a ser derivada de um clube de futebol, o Bangu Atlético Clube, tendo inclusive adotado o vermelho e branco em homenagem ao Bangu (antes a escola era azul e branca)

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