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A Águia e a Sabiá

Clara Portela

Um dia, uma portentosa Águia se apaixonou por uma Sabiá. Mesmo sendo espécies bastante diferentes, embora de mesma origem – em remotos tempos nas Gerais, a harmonia se estabeleceu de imediato.

A Sabiá cantava para a Águia. A Sabiá cantava a Águia em verso e prosa. A Águia se enamorou pela Sabiá e vice versa.

E se estabeleceu um amor incomensurável e incondicional entre as duas aves que se completavam, ainda que tão diferentes. A Águia protegia a Sabiá, a Sabiá divulgava a Águia.

Até que um dia, após o clamor das coroas…

… veio a traumática separação.

A Águia sofreu incomensuravelmente após a despedida da Sabiá. Sabiá que foi voar para onde a visão não alcança, apenas imagina.

E sempre se sonhou com um reencontro: um dia nosso Dom Sebastião voltaria do céu para alegrar novamente a Águia. Sabiá foi cantada: era a “Mineira”, era o “Ser de Luz”.

Mas a Águia, após o reencontro no luto – onde Sabiá era o cheiro de mato, era a terra molhada, era a trovoada, era a guerreira – nunca mais reencontrou a Sabiá de forma plena. A Águia clamava, implorava, mas sempre havia um porém.

A Águia sofreu maus tratos no caminho. Ficou quase sem ter com o que se alimentar. Foi ferida, magoada, espancada pela mão dos homens. Mas a Águia era mais forte que tudo isso e, como seu destino inescapável, ressurgiu.

Anos atrás, a Águia e a Sabiá tiveram um encontro furtivo na Bahia. Mas a Sabiá era mais uma espécie de “guia turístico” pelas festas da Bahia, não o encontro tão sonhado, tão almejado. Rendeu mais uma linda trilha sonora, que lustrou o brilho da Águia.

A Águia, depois desse passeio, começou a se reerguer. Mas a tristeza infinita de nunca poder ter revivido o amor pela Sabiá ainda ressoava nos corações de todos. A Sabiá estava a cantar além do luar, onde moram as estrelas. Restava à Águia esperar o dia clarear, na esperança de vê-la, Sabiá.

A falta da Sabiá tornava o canto da Águia melancolia. Sua voz corria chão, cruzava o mar, levada pelo ar. Mesmo no bom momento, faltava algo.

Faltava o reencontro. A plenitude de uma história de amor.

Esta história de amor interrompida abruptamente um dia teria de ser retomada. Sem amarras, sem receios, sem temores. Nem que fosse por uma (ou duas) noites, a Sabiá retornaria e viveria, reviveria, sua história de amor com a Águia.

Não se sabia o dia exato, mas este reencontro era inevitável. Afinal de contas, já dizia a canção: “até um dia…”

E este dia vai chegar. O encontro foi marcado. A noite onde a Sabiá virá de além das estrelas, de além do luar, para retomar esta linda história de amor que nunca teve fim.

O público vai chorar. O público que ama a Águia e o Sabiá vai se emocionar. Vai se enlevar. E, acima de tudo, vai cantar, cantar e cantar o reencontro da Águia e da Sabiá. Como se não houvesse amanhã.

Porque o amanhã nunca morre. O amor nunca morre. E só sabe este amor quem sente este amor.

Imagens: O Globo

3 Respostas para “A Águia e a Sabiá”

  1. Julia disse:

    emocionada! até eu, mangueirense, vibrei com essa belíssima escolha. confio em rosa pra fazer um desfile maravilhoso.

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