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Pietás, Pantera Negra e inconsciência coletiva: um grito em forma de arte

Pieta - 01

*por Fellipe Barroso

A carnavalesca e estudiosa do carnaval Maria Augusta Rodrigues, quando comentarista da Rede Globo nas transmissões dos desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial carioca, costumava se referenciar ao conceito de “Inconsciente coletivo” para explicar tendências de ideias que apareciam de diferentes formas nas agremiações em um mesmo ano.

De acordo com a Wikipedia:

“Inconsciente coletivo, segundo o conceito de psicologia analítica criado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, é a camada mais profunda da psiquê. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados, e é nele que residem os traços funcionais, tais como imagens virtuais, que seriam comuns a todos os seres humanos. O inconsciente coletivo também tem sido compreendido como um arcabouço de arquétipos cujas influências se expandem para além da psiquê humana.”

Muito além dos enredos de protesto embalados pelo corte de verba na subvenção da Prefeitura do Rio dada às Escolas de Samba, boa parte dos desfiles apresentou fortes imagens que remetem à dura realidade da população, principalmente a negra e de baixa renda.

Destacam-se aqui quatro “pietás”. A pietá, imagem emblemática do catolicismo retrata Maria, mãe de Jesus, com seu filho morto nos braços. A mais famosa delas é de autoria de Michelangelo Buonarroti, em 1499, e se encontra em exposição permanente da Basília de São Pedro, Vaticano, até os dias de hoje.

No Carnaval de 2018 este símbolo de dor foi retratado em diferentes releituras, todas elas utilizando-se de outras simbologias que “atualizam” a imagem da Pietá para o público. Uma delas, apresentada pelo Salgueiro, além da representar mãe e filho negros, estava recoberta com páginas do livro “Quarto de despejo”, da autora (Ainda hoje pouco conhecida) Carolina Maria de Jesus (1914-1977), que continha trechos como:

“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia.”

Lançado no último 15 de Fevereiro no Brasil (16 de Fevereiro no resto do mundo), Pantera Negra (Marvel Studios) chegou aos cinemas rodeado de expectativas e repercussões dos discursos sustentados por seu elenco em geral, todos eles voltados para os temas de racismo e representatividade negra.

Para além do que se está discutindo pelo mundo sobre o filme, a trama apresenta questões sobre o “certo” e o “errado” em diferentes óticas que muito refletem a situação política brasileira e podem também ganhar sentido ampliado em outros países dependendo do entendimento de seus espectadores.

Tanto as pietás nos desfiles das Escolas de Samba cariocas quanto o filme “Pantera Negra” são manifestações artísticas, e como tais, refletem as questões de seu tempo. Voltando ao início deste texto, corroborando as ideias de Maria Augusta, o inconsciente coletivo dos artistas percebe as questões cotidianas, atuais, e isto se transforma em arte para reflexão de todos.

Triste constatar que em pleno ano de 2018 racismo e violência contra a população pobre e negra ainda estejam em voga e com resolução distante. O lado bom disto (Há de ter algum) é a quebra, ainda que momentânea, do silêncio habitual sobre o assunto. Espero que o silêncio continue quebrado. O seu retorno pode também significar que no final nada mudou.

Uma resposta para “Pietás, Pantera Negra e inconsciência coletiva: um grito em forma de arte”

  1. Assisti ao Carnaval em 1978. Coisa mais linda nunca vi. O samba de enredo foi maravilha; o desfile um sonho. Já nessa altura o Rio era bonito, mas agora “o Rio de Janeiro continua lindo” Não vou voltar aí. Tenho 82 anos, mas a saudade não morre.Um abração para quem ler estas linhas.

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