Categorizado | Orun Ayé

Muito além do B.O.

BOourodetolo

Parece que tirei os domingos para fazer mea culpa, mas vamos lá…

Sou nascido nos anos 70 e cresci nos anos 80, talvez uma das épocas mais liberais de nossos tempos por ser fim de uma ditadura militar, e alcançarmos uma liberdade que não conhecíamos. Uma época louca, anárquica e na qual o politicamente correto não tinha vez. Hoje as coisas mudaram e sempre repetimos, eu sou um deles, a frase “O mundo está chato”.

Está chato? Pode ser, mas é uma “chatice” de certo ponto necessária. Na minha infância era normal contar piadas sobre negros, me ensinaram que quando um negro me chamasse de gordo eu respondesse “Eu sou gordo, mas posso emagrecer e você que é preto?”. O preconceito contra o gordo também é uma droga, mas sobre isso falo outro dia, estou falando que adultos me ensinaram a responder assim e eu falava,

Também era normal adultos chegarem em mim e falarem que eu por ser homem iria pegar geral, de brincarem com as visitas dizendo “isso aí vai ter um pipi enorme, mostra o pipi”. Não mostrava, evidente, mas é para mostrar a diferença do tratamento. Nós os meninos íamos pra rua brincar de bola, de várias coisas e brincadeiras “brutas”, de “macho”enquanto as meninas da rua mal saíam para brincar, ficavam dentro de casa.

Desde pequenos, adultos nos ensinaram até a mentir, aprendemos desde cedo que tínhamos que dizer que pegamos A e B mesmo nem tendo pelos nas axilas ainda, meninas, não. Se elas falassem algo assim já eram chamadas de piranhas mesmo com dez, onze anos de idade. Aliás, já eram chamadas mesmo sem terem feito nada porque nós inventávamos coisas.

Pois bem, os moleques da minha idade cresceram assim.

Então é difícil para nós entendermos certas coisas, mas temos que entender que o fato de termos crescido em outra época não é desculpa até porque somos pessoas inteligentes o suficiente para aprender sempre, principalmente com a dor alheia.

No começo da semana uma blogueira ou youtuber que não lembro o nome disse que foi abusada em um Uber, que o motorista tocou nela. Achei muito estranho porque a mulher preferiu escrever isso em redes sociais que fazer um B.O. Pior que isso, duvidei da situação. Justo eu que tive mulher próxima vítima de violência sexual.

Errei, errei como todos os que numa situação dessas botam em dúvida a palavra da vítima e os dias seguintes esfregaram na minha cara esse erro. Alguns dias depois uma mulher fez B.O. sobre uma agressão que sofreu do “companheiro” e o delegado perguntou se ela tinha certeza, se não tinha se acidentado na porta de um armário.

Alguns dias depois surgiu o caso do ejaculador, do maníaco que ejaculou em uma mulher dentro do ônibus. O cara tem dezessete passagens pela polícia e mesmo assim foi solto pelo juiz.

As duas fizeram B.O não deu em nada. Continuo achando que tem que fazer B.O. até porque não fazer deixa o agressor livre, mas entendo agora quem não faz.

Primeiro, porque é constrangedor ir a uma delegacia relatar violência sofrida e, segundo, porque não há garantia nenhuma não só que você será respeitada quanto o agressor será punido.

É uma merda, amigos, o mundo é machista, não foi feito paras as mulheres. Como homem me sinto envergonhado pelo tratamento que as mulheres recebem e pelo meu machismo que juro tento combater a cada dia. Envergonho das vezes que reclamei de ter vagão em metrô exclusivo para mulheres, é preciso sim, envergonho das vezes que dei cantadas baratas ou torci o nariz para o feminismo, é preciso sim.

O machismo é um mal sim e precisa ser combatido nas leis, justiça e principalmente conduta. Não é brincadeira são milhares, milhões as mulheres que são abusadas sexualmente, fisicamente, que morrem encobertadas pelo “é brincadeira”.

É um problema que vai muito além do B.O.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

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