Categorizado | Orun Ayé

Editoria de Raiva

Marcio Araujoot

Escrevo esse artigo logo após Flamengo x Cruzeiro pela primeira partida final da Copa do Brasil.

Para essa partida, foi feita uma campanha pela paz aproveitando a amizade que existe entre as duas torcidas. Em uma ação de marketing dos dois clubes que começou com os perfis oficiais no twitter a semana inteira, Flamengo e Cruzeiro bateram na tecla da paz e até encontro dos mascotes com passeio pelo Rio de Janeiro teve.

Não adiantou de nada.

Entre as duas torcidas nada ocorreu, mas o jogo de paz não teve nada porque vários conflitos, confusões, pancadarias surgiram dentro da própria torcida do Flamengo. Clima péssimo, de insegurança, assaltos, tudo completamente contrário ao que os clubes pediram.

Muito falamos do futebol, sua violência e a forma com que covardes se aproveitaram dele para andar em grupos, se sentirem maiores e exercerem violência, mas o futebol faz parte de um todo, um todo que está assim.

Primeiro, que o Rio de Janeiro está um caos, a violência voltou com tudo e não seria em uma partida de futebol que seria diferente. Pouco policiamento e quem policia insatisfeito por não receber, por não ter condições mínimas de trabalho, com cem colegas seus mortos pela covardia de bandidos no ano e tendo que aturar beberrões violentos. Evidente que não daria certo.

Segundo, que essa agressividade de torcedores também reflete o tempo em que vivemos. Vivemos tempos agressivos, de raiva, no qual as pessoas insultam, ofendem, denigrem, agridem com uma facilidade absurda.

Você escreve algo em uma rede social e já escreve com medo das respostas que virão porque boa parte não vem discordar de boa, chega ofendendo, agredindo apenas porque você pensa diferente e isso é em qualquer assunto, nem precisa ser em um assunto polêmico.

Quem acompanha redes sociais em dias de jogos do Flamengo, principalmente quando não vence, se assusta. Não vou entrar no mérito da qualidade dos profissionais que citarei, mas antes de tudo são seres humanos. A forma como a torcida do Flamengo tratou o treinador Zé Ricardo foi apavorante, a forma como tratam Marcio Araújo é execrável. O jogador, que também considero fraco, é mais odiado do que políticos enrolados em corrupção.

Algumas pessoas conseguem perdoar o Lula e encontrar defesa para tudo que lhe acusam, mas não têm 1% dessa consideração com um jogador de futebol que tem como maior defeito não ser bom no exercício de sua função.

O caso Muralha diz muito sobre os tempos em que vivemos. Não quero o goleiro no Flamengo, acho fraco, mas o jogador recebeu até “editorial” de um grande jornal lhe execrando e expondo a humilhação pública. O mesmo jornal ,que na semana anterior criou uma editoria de Guerra graças à situação grave de violência, esculhambou o goleiro sem se preocupar com a forma que lhe expôs, se ele tem família, filhos ou mesmo no quanto afetaria sua cabeça essa situação.

E se o rapaz entrou em depressão por causa das falhas? O que poderia ocorrer vindo um “editorial” desses? Se mete uma bala na cabeça? Quem se responsabilizaria? Estou exagerando? Você sabe o que passa na cabeça de uma pessoa com problemas? Depressiva? Eu tive que bloquear um cara no Twitter porque comentei isso e ele respondeu que se o Muralha se matasse faria um churrasco e comentou isso a sério.

E o mais incrível disso tudo é que essa agressividade contra esportistas, em relações pessoais não ocorre com quem merecia que é a classe política brasileira. Nuzman comprou uma Olimpíada, tem a vida devassada, é proibido de sair do país e nada ocorreu, encontraram 51 milhões com o Geddel e nada ocorreu. Nenhuma panela foi batida, ninguém foi para as ruas.

E antes que digam que sou partidário também não se ouve nada de parte da população com mais um escândalo, mais uma acusação contra o Lula. A indignação é seletiva. Para a direita só o PT não presta e tirando o PT do poder acabaram os problemas, para os petistas todos são corruptos, menos o Lula que é um perseguido, um mártir.

Eu não sou psicanalista, mas a impressão que passa é que essa agressividade com coisas comuns passa pela falta de capacidade de transformar o que realmente é grave. A frustração de perceber que vive em um país cada vez pior onde um grupo seleto enriquece, faz o que quer e goza na nossa cara seja pela informação do jornal na tv ou em uma ejaculada no ônibus e não temos força para impedir que isso ocorra. Nos resta explodir em outras situações.

O Brasil precisa de um divã, precisa fazer análise. Aproveitando a “comemoração” da semana e já pedindo desculpas pelas palavras baixas um país que se torna independente através de uma “cagada” só podia dar merda.

Você tem coragem de ir a jogos de futebol ainda? Levar seus filhos? Eu não tenho mais e se não gostarem de futebol no futuro entenderei. Futebol em estádio hoje não é mais para pessoas normais como nós infelizmente e se eu levar um filho a estádio e ele chorar apavorado por causa de conflitos de torcida quem passará a odiar o futebol serei eu. A agressividade será minha.

Paz não se faz com marketing, é preciso muito mais que isso.

Pelo jeito o Ouro de Tolo terá que criar a “Editoria de raiva”.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Visitas

Facebook