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Largado Olímpico

Patoorun

Nessa semana tivemos uma votação no Congresso Nacional na qual deputados decidiram se o presidente Michel Temer seria ou não liberado por eles para ser investigado pelo STF. Caso fosse, seria imediatamente afastado do poder.

Foi o assunto mais falado da semana? O Brasil parou para essa votação? Não. O assunto mais importante foi a saída de Neymar para o PSG, inclusive no dia da votação.

Dá para chamar o povo de alienado e conformado? Dá, mas não por esse caso. Todos sabiam qual seria o resultado, todos sabiam que os deputados salvariam Temer, que bilhões foram liberados em forma de emendas para isso e parar para assistir, torcer por algo assim seria sofrer a toa, eu mesmo ignorei.

Mas não dá para passar desapercebido que o congresso mais corrupto da história do Brasil livrou não da cadeia, mas de simplesmente ser investigado, como qualquer um de nós seria, o primeiro presidente de nossa história denunciado por crime de corrupção passiva. Isso aconteceu e nem uma panelinha foi batida, não se ouviu um protesto.

Que imagem queremos passar de nosso tempo? De nossa geração? Gerações anteriores a nossa fizeram Woodstock, lutaram contra a guerra do Vietnam, contra ditaduras de esquerda e direita pelo mundo, lutaram pelas minorias, fim do Apartheid, a favor da igualdade entre os sexos, contra homofobia, contra a AIDS.

E nós? Lutamos pelo quê? Contra o quê? Lutamos pela barração de Márcio Araújo no Flamengo? Pelo aplicativo Cartola poder abrir para mudanças nos times quando o filho de um treinador morre de forma trágica e o jogo de seu time é adiado?

Somos com certeza uma das gerações mais babacas que já existiram na humanidade. Uma geração que elege Trump, Doria, bate panelas sem saber o porque, faz de Bolsonaro mito e fecha os olhos para todas as cagadas feitas até hoje por Lula e o PT.

Provavelmente no futuro vão olhar nosso tempo e rir da nossa cara por sermos mais atrasados, caretas e retrógrados que tempos como os anos 60. Pior, podem ter raiva da gente por terem menos direitos, menos liberdade porque nós não só não fizemos nada para evitar isso como até ajudamos.

Dizem que o brasileiro tem que ser estudado, mas discordo, o brasileiro é previsível e tudo o que ocorre aqui é nítido, cristalino e só não enxerga quem não quer. Alguém ainda duvida que foi golpe? Claro que foi, mas se engana quem pensa que o golpe foi contra o PT, e talvez o PT merecesse levar esse golpe, o golpe foi contra o povo!

Pensem na seguinte situação: Existe uma quadrilha que comanda um negócio. O lado A dessa quadrilha começa a exagerar, abre a bocarra para roubar mais, por mais negociatas e o lado B fica preocupado porque dessa forma chamam atenção para a quadrilha e o lado A não garante a segurança de todos. O que se faz? Livra-se do lado A para manterem os negócios. Como fazer sem sujar as mãos? Arruma-se alguém pra fazer o serviço sujo.

Assim é o Brasil. O PT exagerou, foi com muita fome na comida e além de deixar tudo escancarado não conseguia mais garantir a segurança dos outros. Foi preciso que os outros se unissem num grande acordo e jogasse o PT aos leões para ser devorado e se manterem tranquilos.

Para isso, contaram com as trapalhadas do governo Dilma e ajudaram a apertar a economia. Pronto, cenário para a tirada do PT do poder. O povo aceita político corrupto de boa, mas não aceita que tenha que atrasar o crediário nas Casas Bahia da tv de plasma porque um membro da família que ajudava a pagar perdeu o emprego.

Não tem como tirar presidente com apoio popular. Juntou-se o problema da corrupção com o econômico dinamitando esse apoio popular e inflaram o povo para ir as ruas. Daí vem o golpe porque muita gente achou que estava indo contra a corrupção quando era apenas para um ajuste no poder.

Tem gente que reclama da Avenida Paulista vazia, da falta das panelas, eu mesmo reclamei no começo do artigo, mas vamos ser sinceros.O povo brasileiro nunca foi as ruas, nunca protestou por conta própria, sempre teve que alguém mandar como o dono que afrouxa a corrente do cachorro para ele latir mais próximo de alguém e se sentir com força. O povo não foi e não irá para as ruas para derrubar o Temer e mais ninguém porque não será inflamado para isso.

Não irá porque o PT se queimou e além de estar queimado burramente com os movimentos de esquerda vai pra rua com bandeiras e camisas vermelhas, faz um jogo de “nós contra eles” que ajuda o discurso do “isso é coisa de sindicato que perdeu a boquinha”, “Minha bandeira não tem a cor vermelha” e “Estão recebendo pão com mortadela para isso”. A esquerda perdeu a mão, não sabe mais como se comunicar com o povo.

Assim, para 2018, temos como principais candidatos um condenado por corrupção em primeira instância, um ultradireitista recheado de clichês que fala coisas que agradam a uma população assustada, um político que não se diz político e joga água fria em mendigo no inverno e uma política que como uma samambaia some por quatro anos e só aparece para se aproveitar das situações.

Estamos ferrados, amigos. O sistema nunca foi tão forte, o status quo nunca foi tão poderoso e muito disso tem culpa do PT, que teve a chance de mudar essa situação e não quis.

Esse é o retrato de nosso tempo, de nossa geração. Somos o 7 x 1 levado em casa com o técnico dormindo no banco de reservas. Faz bem o Neymar em ficar longe daqui e ir ganhar o seu dinheiro em Paris.

Na verdade, achamos que somos o Neymar e somos o Márcio Araújo. Sem criatividade, sem talento e se escondendo na partida para não assumir responsabilidades.

Somos o “Largado Olímpico”.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

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